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Raphael Montes, em O Globo

Alguns dias atrás, enquanto me distraía em uma rede social, encontrei uma interessante matéria jornalística sobre a literatura brasileira produzida pela nova geração de escritores. Endossada por trechos destacados de escritores prestigiados como Carola Saavedra e Luiz Ruffato e por críticos como Manuel da Costa Pinto e Beatriz Resende, a reportagem defendia que as histórias em ambientes rurais e tropicais, com cenários tipicamente brasileiros, foram substituídas na literatura contemporânea por histórias em que a voz subjetiva do escritor ganha maior evidência (vide tantos textos em primeira pessoa e a moda da “autoficção”), situadas num ambiente mais urbano e universal.

Para minha surpresa, o link da matéria estava postado em uma comunidade de leitores e, nos comentários, a larga maioria criticava essa ausência de identidade nacional nas narrativas — as acusações iam de “por isso que não leio autor brasileiro” a “é ridículo que esses autores atuais fiquem tentando copiar os norte-americanos”. Ainda que eu não fizesse parte da discussão, me pus a pensar no assunto.

Pessoalmente, ao escrever, nunca tive preocupação em acrescentar este ou aquele detalhe ao livro para soar mais brasileiro — ou, falando como gringo, soar mais exótico. Acredito que, na medida em que um escritor é brasileiro, antenado a sua cultura, a seus costumes e às particularidades do país, os elementos típicos vão entrando naturalmente, sem que haja a necessidade de se preocupar com isso. Vale dizer: um livro tem nuances brasileiras simplesmente ao ser escrito por um brasileiro — e basta!

É importante dizer que a opção de não enfiar “brasilidades” goela abaixo das narrativas não significa negar nossa identidade, mas sim tratá-la como algo natural, que nasce sem grande esforço. Por muito tempo, a própria expectativa do mercado internacional em relação às narrativas produzidas no Brasil (seja na literatura ou no audiovisual) passava necessariamente por elementos como favela, miséria no Nordeste, corrupção, carnaval, caipirinha e futebol.

A mim, tudo isso sempre pareceu meio absurdo — para não dizer ridículo. Afinal, muito além da nacionalidade, somos todos humanos — e o maior mérito da boa literatura é retratar a alma humana na sua complexidade, independentemente da localização geográfica das personagens. É também isso que permite a crescente profissionalização do escritor brasileiro — outro ponto abordado pela reportagem e criticado nos comentários na rede social.

Nos últimos anos, cresceu o número de pessoas no país que se dedicam apenas a escrever. Nesta seara, um aspecto fundamental que a matéria deixa de abordar é o crescimento da literatura de gênero no Brasil. Qualquer país com uma literatura efetivamente sólida tem uma grande variedade de obras de gênero. Nos Estados Unidos, por exemplo, a seção de livros policiais é subdividida em outras tantas como: crime de espionagem, whodunit, thriller médico, crimes reais, suspense romântico, suspense psicológico, suspense histórico. E, claro, cada um desses subgêneros é explorado por centenas de autores, o que cria um ambiente competitivo, variado e profissional, com um público-leitor fiel e muitas feiras e prêmios voltados ao segmento.

Enquanto isso, a literatura brasileira de gênero — romance, terror, policial, fantasia — sempre enfrentou percalços. Para começo de conversa, encontrava barreiras nos acadêmicos e nos críticos — como esperado de um país subdesenvolvido, só se podia escrever literatura de vanguarda, com elucubrações linguísticas; a literatura de gênero era algo menor. Com isso, as editoras não buscavam esse tipo de livro nos autores nacionais e muitos escritores com vontade de contar boas histórias de gênero se “moldavam” ao sistema para conseguir publicar. No fim das contas, quem saía perdendo era o público, com as livrarias invadidas por best-sellers norte-americanos ou europeus, mas sem chance de ler essas histórias escritas por brasileiros.

Felizmente, nos últimos anos, o cenário mudou. A literatura fantástica teve seu estouro com autores como Eduardo Spohr, Raphael Draccon e Carolina Munhóz, o juvenil se viu representado por fenômenos como Thalita Rebouças e Paula Pimenta e o mesmo vem acontecendo com autores de erótico, de terror e de policial. Com isso, as editoras brasileiras têm buscado autores nacionais de gênero para integrar seus catálogos e todo um novo mercado se sedimenta nesse sentido. Por chegar ao grande público, o autor brasileiro de literatura de gênero é um dos que mais consegue viver “apenas dos livros” hoje em dia e, sem dúvida, contribui fortemente para a internacionalização da nossa literatura. Apesar disso, não havia sequer um autor de literatura de gênero entrevistado ou citado na referida matéria. Prova cabal de que o caminho pela frente ainda é longo…