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Posts tagged Caio Fernando Abreu

Com cartas inéditas, livro retrata relação entre Caio F. e Hilda Hilst

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Amizade turbulenta dos dois escritores é tema do livro ‘Numa hora assim escura’, de Paula Dip

Bolívar Torres, em O Globo

Caio F. em frente à Casa do Sol, residência de Hilda Hilst, onde ele passou diversas temporadas entre 1969 e 1971 - Autor desconhecido / Acervo pessoal Paula Dip

Caio F. em frente à Casa do Sol, residência de Hilda Hilst, onde ele passou diversas temporadas entre 1969 e 1971 – Autor desconhecido / Acervo pessoal Paula Dip

RIO — O ano é 1992. Depois de mais uma briga com Caio Fernando Abreu, Hilda Hilst juntou as cartas que havia recebido do amigo desde o final da década de 1960, decidida a destruí-las. Como para oficializar o rompimento, ignorou o valor histórico e afetivo da correspondência, e só não a queimou porque seu namorado na época, o jovem poeta Antônio Nahud Júnior, resolveu intervir.

“Quer para você? São suas. Leve-as daqui rápido antes que eu me arrependa”, disse a escritora. Nahud guardou as cartas e, em 2010, seis anos após a morte de Hilda e 14 após a de Caio, vendeu-as para a jornalista Paula Dip.

A autora, que em 2009 retratou a sua própria amizade e correspondência com o escritor gaúcho no livro “Para sempre teu, Caio F.” (Record), emocionou-se ao ler o material inédito. As missivas mais antigas mostravam um Caio diferente daquele que ela conhecera, já consagrado e com uma obra construída. O escritor que trocava suas primeiras cartas com Hilda era, ao contrário, um jovem saído da adolescência, inseguro sobre o seu futuro e sua arte. Além de uma fonte preciosa sobre sua formação, contudo, também havia ali a história de amizade de dois autores importantes da literatura brasileira, que Paula transformou no coração de seu recém-lançado “Numa hora assim escura — A paixão literária de Caio Fernando Abreu e Hilda Hilst” (José Olympio).

No livro, a jornalista contextualiza a relação tumultuada e apresenta, pela primeira vez, o conteúdo salvo por Nahud Júnior.

— Comprei as cartas de Nahud num impulso, e quando eu as li minha primeira ideia foi fazer um mestrado em cima delas — conta Paula, que conheceu Caio em 1981 e foi sua amiga até a morte dele, em 1996. — Mas depois percebi que, mais interessante do que levá-las para a academia era tomá-las como base de um novo livro sobre o Caio, em cima da relação com a Hilda.

A importância de Hilda na vida de Caio é notória. O escritor começou a se corresponder com a poeta aos 19 anos de idade, ainda em Porto Alegre. Entre 1969 e 1971, passou uma série de temporadas na Casa do Sol, chácara em Campinas (SP) para onde Hilda havia se mudado em busca de isolamento e inspiração. A residência era um oásis de liberdade em meio ao clima político da época. Os convidados de Hilda (incluindo jovens aprendizes como Caio) eram estimulados a trabalhar sua escrita, e falava-se de amor, de magia, de discos voadores e, claro, literatura.

Para um rapaz tímido, que não se encaixava nos círculos sociais tradicionais, o contato com a efervescência criativa — e permissiva — da Casa do Sol e com uma autora consagrada e tão certa de seus caminhos foi um turning point. Mas o que as cartas revelam de novo, segundo Paula, é uma influência mútua. De certa forma, Caio, que foi o primeiro dos muitos pupilos que a escritora “hospedaria” em seus quase 40 anos na chácara, também teria inspirado Hilda.

— Claro que houve uma influência forte da Hilda na forma de o Caio trabalhar. Mas acho que ele também foi um dos responsáveis por uma guinada na vida dela — opina Paula. — O encontro foi benéfico para os dois. No início dos anos 1970, Caio ainda estava circulando ali pela Casa do Sol, e a Hilda, depois de ser muito premiada com poesia, publica seu primeiro livro em prosa, “Fluxo-Floema”. Caio pode tê-la ajudado a se libertar da estrofe.

O autor de “Morangos Mofados” vê em Hilda uma referência de artista comprometida com sua arte. Ela havia abandonado uma vida no high society e namoros com estrelas de Hollywood, como Dean Martin, para se dedicar mais profundamente à escrita, que não via como entretenimento ou distração, mas como uma experiência visceral. Ela seguia toda uma ética da criação, que norteou a carreira de Caio. A sua aproximação de Hilda o fez se afastar espiritualmente de sua primeira musa, Clarice Lispector. Não por acaso ele faz, em uma carta de 1978, duras críticas a um livro póstumo da autora (leia trecho abaixo).

Para além da relação mestre-discípulo, porém, há uma ligação marcada pelo aprendizado conjunto. Como observa Paula, ambos tinham uma tendência natural para as “escuras regiões transcendentes da alma”, eram “almas gêmeas em relação aos mistérios insondáveis da existência”. Hilda cultivava a aura de “feiticeira que captava a essência das pessoas”. Já Caio vestiu sem medo a manta de xamã e se jogou nas experiências místicas da Casa do Sol, que envolviam alienígenas e forças misteriosas. Como não poderia deixar de ser, a correspondência é marcada por frases como “uma ótima revolução solar”, “tenho me voltado cada vez mais para o oculto”, “os céus andam cheios de discos voadores e os crepúsculos têm durado duas horas” ou “estou procurando a simplicidade e, ao mesmo tempo, o mito e a magia”.

Bilhere de Caio para Hilda, de 1975 - Divulgação / Acervo Pessoal Paula Dip

Bilhere de Caio para Hilda, de 1975 – Divulgação / Acervo Pessoal Paula Dip

Em sua busca espiritual e esotérica, Hilda inventava apelidos excêntricos para Deus — Cara Mínima, Sumidouro, Menino Precioso, Flamejante Sorvete de Cereja. Ambos também tinham uma maneira peculiar de descrever a literatura. Em uma entrevista que fez com Hilda em 1987 para a revista “Leia livros”, Caio pergunta: “E a sua literatura, é a escuridão ou o sorvete?”. Ela responde: “É o centro, a procura do centro”.

— Eles eram curiosos da morte, da alma, não escreviam livros de viagem ou de culinária, escreviam o “de dentro”, e faziam isso para sobreviver — afirma Paula. — Eles se encontram muito nisso, inclusive nesse misticismo. Me disseram que, numa noite na Casa do Sol, Caio encarnou o espírito de Frederico García Lorca e ele e Hilda fizeram uma performance. Os céticos achavam que eles eram loucos.

Para o crítico Ítalo Moriconi, que acaba de relançar em e-book “Cartas: Caio Fernando Abreu” (e-galáxia), organizado por ele em 2002, essa correspondência inédita amplia o conhecimento que se tinha da ligação entre Caio e Hilda.

— Acredito que a publicação em larga escala desse conjunto de cartas favorece a transição do olhar contemporâneo do cronista para o olhar mais construtivo do historiador — diz ele. — Favorece uma renovação do olhar crítico da literatura brasileira pós anos 1960 e pré gerações 2000 e 2010 do século corrente. As cartas do Caio para a Hilda certamente constituem um instigante “caso” de história da vida literária. O mais fascinante delas são as discussões e impressões sobre literatura. Mas a relação entre os dois tinha dimensões pessoais muito fortes. O pessoal e o formativo se confundem. Na verdade, o “romance de formação” de Caio teve muito a ver com essa segunda mãe musa transgressiva, permissiva e bela. Nas cartas, recuperamos um pouco da presença selvagem da literatura de Hilda no nosso cânone dos anos 70/80.

A correspondência incluída no livro vai até o ano de 1990, e cobre a evolução de uma amizade oscilante, temperada por brigas e reconciliações. Praticamente apenas Caio escreve para Hilda (há só um bilhete e uma carta da autora no livro), e muitas vezes se queixa do silêncio da interlocutora. Mas ele era um “epistolista”, lembra Paula, contando que enviava até cinco cartas por dia a pessoas diferentes, mesmo sabendo que poderia não receber resposta. Em tom confessional, as missivas eram repletas de amor à vida, mas também de lamentos em voz alta, nos quais ele chorava suas dificuldades emocionais, profissionais e financeiras.

Após a discussão que quase resultou na destruição das cartas, os dois retomaram a amizade e passaram a se falar quase todos os dias, por telefone, até os últimos dias de vida Caio, que morreu precocemente aos 45. Hilda, que garantia captar as vozes dos mortos via ondas de rádio, contou em uma entrevista que o amigo veio visitá-lo logo após sua passagem: “A gente tinha combinado isso. Ele estava com um cachecol vermelho. Era a nossa senha: o vermelho ia significar que estava tudo bem. Eu abracei Caio muito e disse: ‘Nossa, como você está bonito! Está jovem! Mas ninguém acredita.”

TRECHOS

Em carta a Caio em 23 de setembro de 1977, Hilda fala sobre a relação com os jornalistas e críticos:

“Penso que isso de escrever provoca sempre no outro um desejo de, vontade de parecença, de posse, e em vez de acarinharem a gente, dizerem isto, o que seria muito bom para a gente porque é sempre gostoso o carinho o desejo o gosto, pois bem, ficam dando chifradas e ironizando”

Em carta enviada a Hilda em 18 de dezembro de 1978, Caio critica obra de Clarice Lispector:

“No mais, tô lendo o livro póstumo de Clarice, ‘Pulsações’, e achando muito chato, repetitivo, aquela coisa de ‘Escrevo em estertor. Escrever me é. A luz se me entra. Cada palavra é o avesso de nenhuma’ – entende? Ai, meu saco. Acho que ela morreu na hora certa, porque tava repetindo demais a receita”.

Sucesso na internet, Caio Fernando Abreu volta com enxurrada de livros

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Rodrigo Casarin, no UOL

O escritor gaúcho Caio Fernando Abreu, em foto de 1991. Paulo Giandalia/Folhapress

O escritor gaúcho Caio Fernando Abreu, em foto de 1991. Paulo Giandalia/Folhapress

“Sabe que o meu gostar por você chegou a ser amor? Pois se eu me comovia vendo você, pois se eu acordava no meio da noite só pra ver você dormindo, ah meu Deus… como você me dói vezenquando. Eu vou ficar esperando você numa tarde cinzenta de inverno, bem no meio duma praça, então os meus braços não vão ser suficientes para abraçar você e a minha voz vai querer dizer tanta, mas tanta coisa que eu vou ficar calado um tempo enorme, olhando você, sem dizer nada, olhando e pensando: meu Deus, mas como você me dói vezenquando!”

O trecho acima faz parte do conto “Harriet”, do livro “O Ovo Apunhalado”, de Caio Fernando Abreu, um dos escritores brasileiros mais citados na internet. Muito mais do que as belas frases compartilhadas em redes sociais, o autor escreveu diversos contos, romances, poemas e peças de teatro, que retornam às livrarias brasileiras em uma enxurrada de publicações –ótima oportunidade para quem deseja conhecer ou se aprofundar na obra do gaúcho, que morreu em 1996, aos 47 anos, por problemas decorrentes da Aids.

No final do ano passado, a editora Nova Fronteira já havia colocado nas prateleiras os títulos “Limite Branco”, “Pequenas Epifanias”, “Os Dragões Não Conhecem o Paraíso”, “Onde Andará Dulce Veiga?”, “Pedras de Calcutá” e três volumes de “O Essencial de Caio Fernando Abreu”, correspondentes às décadas de 1970, 1980 e 1990. Ainda neste ano, serão editados “Morangos Mofados”, “Teatro Completo” e uma adaptação para quadrinhos inspirada em “Onde Andará Dulce Veiga?”, assinada por Arnaldo Branco e André Freitas.

Outra editora que aposta no autor em 2015 é a L&PM, que relançará “Ovelhas Negras”, “Triângulo das Águas”, “O Ovo Apunhalado” e “Fragmentos”, além de um volume reunindo as últimas três obras de Abreu.

Palavras que falam à alma

A citação que abre este texto foi escolhida por Paula Dip, amiga do escritor e autora de “Para Sempre Teu”, biografia dele –veja abaixo um bilhete que ele escreveu para ela, num momento decisivo para que a amizade acontecesse. Paula aponta Abreu como um dos escritores brasileiros mais importantes dos anos 1970 e 1980. “Eu não o considero somente um clássico apenas porque escrevia bem, amava as palavras e buscava a forma perfeita, mas sim porque sua literatura tocava em questões humanas universais, que falam diretamente à nossa alma. Escrevia principalmente sobre o amor e a falta dele. Dizia que, no fundo, somos todos iguais.”

Bilhete escrito por Caio Fernando Abreu para Paula Dip, em 1979. Reprodução

Bilhete escrito por Caio Fernando Abreu para Paula Dip, em 1979. Reprodução

Bruno Polidoro, que, junto de Cacá Nazario, produziu e roteirizou o documentário “Sobre Sete Ondas Verdes Espumantes”, sobre Abreu, também fala do dom que os escritor tinha de abordar as questões humanas. “Dentre diversos pontos, o que sempre me tocou na obra do Caio foi a sua contemporaneidade, sua capacidade de refletir sobre nossos sentimentos mais íntimos, de dor, solidão, amor. A obra dele cria uma intimidade com o leitor, como se cada livro fosse escrito para cada um de nós. Em tom confessional, sinto quase como se Caio soubesse o que sinto no momento, e seus textos fossem cartas íntimas para mim.” E acrescenta: “Além disso, a obra, assim como a vida dele, é marcada pelo sentimento de inquietude, numa busca incansável pelo novo, pelo deslocamento, pelos encontros”.

Essa cumplicidade com o leitor e a busca por novas experiências ajudam a explicar por que trechos de suas narrativas têm presença constante em redes sociais, onde Abreu faz sucesso dentre pessoas que, em muitos casos, sequer eram nascidas quando o autor morreu. “As questões levantadas [por Abreu] são contemporâneas, permanecendo diretamente ligadas às questões da vida atual”, diz Polidoro. Já Paula encara a leitura da obra do escritor como “um mergulho surpreendente. Ele fala das nossas emoções mais fundas, faz o retrato de uma época, tem um texto impecável, de uma entrega única. É apaixonante”.

Representante de uma geração

Paula lembra que jamais viu alguém praticar tanto a escrita como Abreu, seja na profissão de jornalista –que detestava, mas servia para garantir o sustento–, seja fazendo literatura. Para tal, aproveitava-se do que estivesse à mão, fosse a máquina de datilografar, fosse um guardanapo qualquer. Também gostava de escrever em seu diário e de enviar cartas aos amigos e à família praticamente todos os dias –que também já renderam livro. “Nunca vi ninguém tão comprometido e apaixonado pela palavra escrita”, rememora a biógrafa.

Pessoalmente, a amiga lembra que Abreu tinha um humor que oscilava entre o divertido e o extremamente triste, beirando uma “depressão quase profissional”. Segundo ela, o escritor também sabia cativar as pessoas e cultivar amizades, mas, por outro lado, era “eficiente” em arranjar inimigos. “[Ele] dizia tudo o que pensava e quando queria, sabia ser crítico, demolidor”, conta. Paula também se recorda de que o amigo apreciava observar as pessoas nas ruas, a arquitetura das cidades e sair à noite. Vivia com problemas financeiros, pois gastava o que ganhava com viagens, jantares, presentes e flores. “[Caio] cortejava as amigas e os amigos com um carinho ímpar. E era muito ciumento”, diz Paula. De todos esses altos e baixos, o autor tirava as histórias presentes em sua obra.

Caio Fernando Abreu e a amiga Paula Dip, em foto tirada em 1982. Arquivo pessoal

Caio Fernando Abreu e a amiga Paula Dip, em foto tirada em 1982. Arquivo pessoal

Títulos de Abreu já foram traduzidos para os idiomas inglês, espanhol, francês, holandês, italiano e alemão. “Morangos Mofados”, reunião de contos lançada em 1982, tornou-se seu livro mais vendido e reeditado –e é apontado como um dos favoritos tanto de Paula quanto de Polidoro, que o destaca “pela força de uma época, pela transgressão, pelo grito que pulsa em cada uma das páginas”.

Apesar das dezenas de livros publicados, provavelmente a obra de Abreu não está encerrada. A biógrafa conta que, ao morrer, o escritor deixou ao menos meia dúzia de títulos inacabados e alguns projetos em seus diários que ainda não chegaram ao público, além de poemas inéditos. Paula aposta que o amigo “será cada vez mais reconhecido. Ele sempre esteve à frente do seu tempo. Foi um ‘popstar’, é o principal representante da literatura urbana dos tempos do ‘sex, drugs and rock and roll’. As novas gerações o adoram”.

Outra citação

Se as novas gerações o adoram, voltemos às citações. Paula salienta que nem todos os textos atribuídos ao autor que circulam na internet são realmente dele, mas destaca que Abreu era “tão preciso em seus escritos que suas citações são quase aforismos, pura filosofia”. Também entende que ler apenas trechos isolados é muito pouco para conhecer o escritor, recomendando que as pessoas busquem os textos de onde os trechos citados foram retirados, até para que possam contextualizá-los nos originais e entendê-los com o sentido proposto.

Em todo caso, fica aqui mais uma citação de Abreu, esta escolhida por Polidoro, que a retirou do conto “Natureza Viva”, presente em “Morangos Mofados”: “Sabes de tudo sobre esse possível amargo futuro, sabes também que já não poderias voltar atrás, que estás inteiramente subjugado e as tuas palavras, sejam quais forem, não serão jamais sábias o suficiente para determinar que essa porta a ser aberta agora, logo após teres dito tudo, te conduza ao céu ou ao inferno. Mas sabes principalmente, com uma certa misericórdia doce por ti, por todos, que tudo passará um dia, quem sabe tão de repente quanto veio, ou lentamente, não importa. Por trás de todos os artifícios, só não saberás nunca que nesse exato momento tens a beleza insuportável da coisa inteiramente viva. Como um trapezista que só repara na ausência da rede após o salto lançado, acendes o abajur no canto da sala depois de apagar a luz mais forte no alto. E finalmente começas a falar.”

Consumo da literatura é mediado pelas redes sociais

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Estudo apresentado na Flip mostra que web virou ferramenta para disseminar o texto literário

Paulo Leminski começou a ser muito citado no Facebook na época das manifestações que tomaram as ruas do país - Márcio Santos / Agência O Globo

Paulo Leminski começou a ser muito citado no Facebook na época das manifestações que tomaram as ruas do país – Márcio Santos / Agência O Globo

Márcia Abos em O Globo

SÃO PAULO — O consumo de literatura é cada vez mais mediado pelas redes sociais. No entanto, o impacto dessas mídias na produção, consumo, distribuição e troca de trabalhos literários ainda não foi mensurado a contento. Para Fabio Malini, coordenador do Laboratório de Pesquisador sobre Imagem e Cibercultura (Labic) da Universidade Federal do Espírito Santo, essa transformação traz novos públicos, novos espaços de circulação da literatura e novos mediadores, transformando a obra literária de diferentes escritores em discursos espalhados pela internet, fazendo de alguns autores celebridades da rede.

Para preencher em parte essa lacuna, Malini dedicou-se a observar a propagação da literatura brasileira no Twitter e no Facebook. A pesquisa, encomendada pelo Itaú Cultural, será apresentada nesta quarta na programação da instituição na Flip, e publicada na edição 17 da revista “Observatório cultural”.

O estudo mostra que a propagação de citações é o modo mais utilizado para disseminar o texto literário nas redes sociais. Na literatura contemporânea, observa-se a construção de um autor que, ao mesmo tempo, publica e constitui uma relação íntima com seus públicos na rede. E estes espalham visões críticas e afetos pelas obras que lhe interessam.

— O consumo de literatura nas redes sociais vem alterando o comportamento dos escritores. Em seus perfis, eles passaram a revelar bastidores de seu processo de produção, ao mesmo tempo em que divulgam suas obras. Especialmente os autores dedicados ao público juvenil: esses estão em constante presença nas redes, quase como personagens — explica Malini, lembrando que a escritora Thalita Rebouças é uma das autoras brasileiras de maior público no Facebook, com mais de 300 mil fãs que interagem continuamente com sua página na rede social.

Segundo o pesquisador, Thalita faz de sua página uma espécie de diário virtual reproduzindo a própria discursividade adolescente na rede. No lugar de um narrador mais recolhido, dedicado à obra, a escritora radicaliza a linguagem do selfie, com inúmeros autorretratos. Assim, seu público pode consumir não apenas a sua literatura, mas a sua vida. É uma situação de alta visibilidade em tempo real.

Mas não é só o público juvenil que está em busca de um contato mais próximo com escritores nas redes sociais. Malini acredita que essa avidez por comunicação cria uma geração de autores mais abertos em sua subjetividade literária, motivados por um público que deseja vislumbrar uma produção até então baseada no recolhimento.

— O público não só busca maior compreensão da obra de seus autores favoritos, como também gosta de observar sua visão de mundo, suas posições políticas — observa o especialista.

Outro aspecto do consumo de literatura nas redes é a cultura de fãs de autores que já morreram, tais como Machado de Assis, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Paulo Leminsky e Caio Fernando Abreu.

Thalita Rebouças é uma das autoras brasileiras de maior público no Facebook - Eduardo Naddar / Agência O Globo

Thalita Rebouças é uma das autoras brasileiras de maior público no Facebook – Eduardo Naddar / Agência O Globo

Os autores mais citados pelo mundo acadêmico não são os mais populares nas redes sociais. Obras de Guimarães Rosa, Graciliano Ramos e Mário de Andrade são menos citadas, curtidas e compartilhadas. Já as do poeta Carlos Drummond de Andrade e do escritor Machado de Assis alavancam diferentes apropriações pelos usuários. As páginas de Drummond, Caio e Clarice são as campeãs de fãs no Facebook: juntas mobilizam mais de 1 milhão de seguidores.

— Os perfis desses autores brasileiros já falecidos geralmente são administrados por literatos ou escritores. Daí a cultura do remix literário, ou seja, a liberdade que esses administradores de fan pages têm em assumir características marcantes do autor e criar suas próprias frases, numa espécie de emulação. Citações que têm algo de autoajuda quando tiradas de seu contexto fazem muito sucesso. Em alguns casos, servem como indiretas ao serem compartilhadas — detalha o acadêmico sobre o comportamento do leitor brasileiro na web.

Paulo Leminski, por exemplo, começou a ser muito citado no Facebook na época das manifestações que tomaram as ruas do país, há pouco mais de um ano. Esse movimento nas redes sociais levou a antologia “Toda poesia” de Leminski a figurar diversas semanas na lista de mais vendidos.

Ecoando o desejo dos manifestantes de humanizar o espaço urbano, um poema de Leminski (“Ainda vão me matar numa rua. Quando descobrirem, principalmente, que faço parte dessa gente que pensa que a rua é a parte principal da cidade”) foi retuitado centenas de vezes. Nos dias 15 e 16 de junho de 2013, a tag #todarevoluçãocomeçacomumafaísca esteve entre as mais populares no Brasil, uma alusão à trilogia juvenil “Jogos vorazes”, outro best-seller.

A tese de que perfis de redes sociais não discutem literatura em tempo real é uma especulação simplista, acredita Malini. A rede se tornou um manancial de novos críticos, novos mediadores da literatura, por onde as obras da nova geração e dos autores “mortos” ganham vida e sobrevida.

— É impressionante o que as redes sociais têm feito pela popularização da poesia brasileira, gênero historicamente renegado. É reducionista acusar a rede de gerar um consumo fácil e rápido de literatura, assim como é simplista acreditar que só o livro oferece leitura de qualidade. As redes sociais são portas de entrada para leitores, escritores e críticos, democratizando o consumo e a produção literária — acredita Malini.

dica do João Marcos

Documentário vai em busca das sete ondas de Caio Fernando Abreu

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Filme recupera trajetória múltipla do escritor, recriado por meio de seus livros e do depoimento de amigos

Luiz Carlos Merten, no Estadão

Caio Fernando Abreu foi um cometa que assolou as letras brasileiras. Nascido em 1948, morto em 1996, escreveu livros de contos, romances e peças de teatro, e inspirou filmes que deram testemunhos das ansiedades de sua geração, que viveu intensamente os anos 1960. Sexo, drogas, desbunde, exílio. Os amigos dirão que, mais que qualquer livro, a vida de Caio talvez tenha sido sua obra-prima e a verdade é que vida e literatura sempre estiveram juntas para ele. Espelhavam-se. É impossível falar do desbunde da geração de Caio sem enfocar a política.

Marcos Mendes/Agência Estado Caio Fernando Abreu (1948-1996)

Marcos Mendes/Agência Estado
Caio Fernando Abreu (1948-1996)

Não por acaso, foi perseguido pelo Dops, o Departamento de Ordem Política e Social. Depois de se refugiar na casa de Hilda Hilst, em São Paulo, se autoexilou na Espanha e viajou pela Europa. O Ovo Apunhalado, Morangos Mofados, Onde Andará Dulce Veiga?, Pequenas Epifanias. Cada um terá o seu Caio para amar. Dois diretores gaúchos, Bruno Polidoro e Cacá Nazario, trouxeram esse personagem singular para o cinema, por meio do documentário Sobre Sete Ondas Verdes Espumantes. Para dar conta da complexidade de Caio, eles dividem o filme em sete ondas. São blocos narrativos com os significativos títulos de onda da solidão, do espanto, do amor, da melancolia, do transbordamento, do irremediável e do além muros. São temas – tessituras – que permeiam a obra do escritor.

Amigos dão seu testemunho, leem os textos de Caio e ele próprio verbaliza sentimentos e (in)certezas. Adriana Calcanhotto, Maria Adelaide Amaral, Marcos Breda, Grace Gianoukas, Reinaldo Moraes e Luciano Alabarse somam suas vozes às dos tradutores de Caio para o alemão, o holandês, o francês e o italiano, todos tentando decifrar/iluminar o mistério de sua escrita. O filme já foi chamado de ‘road movie poético’. A experimentação formal cria ‘camadas’ nas próprias imagens. É uma plasticidade elaborada e refinada, sem ser videoarte.

O que o fazia de Caio Fernando Abreu um ser tão especial? A câmera vira personagem e visita os lugares em que ele viveu, e que amou. Nascido em Santiago do Boqueirão, no Rio Grande do Sul, morreu em Porto Alegre. Mas outras cidades foram cenários de suas andanças como peregrino do tempo, do seu tempo. Paris, Londres, Amsterdã, São Paulo, Rio. Se a escrita de Caio muitas vezes é fragmentada, com algo de tênue – ele foi um grande cronista no Estado -, o filme expressa suas ondas por meio de fragmentos filmados. É um filme muito bonito. Entra num circuito bem alternativo – Matilha Cultural, um horário do CCSP. Na vida, Caio fez essa passagem. Falou de afetos, de sexualidades alternativas e chegou ao mainstream da arte.

Escrito em um hospital psiquiátrico, ‘Esta Valsa É Minha’ ganha nova edição

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Publicado por Livraria da Folha

A Companhia das Letras vai relançar “Esta Valsa É Minha”, livro escrito em um hospital psiquiátrico por Zelda Fitzgerald em seis semanas. Com prefácio de Caio Fernando Abreu e tradução de Rosaura Eichenberg, a edição tem lançamento previsto para 28 deste mês.

Mulher de F. Scott Fitzgerald, Zelda produz uma narrativa autobiográfica e um retrato de sua época por meio da personagem Alabama Knight. Como seu alter ego, ela jamais se conformou com o papel submisso das mulheres.

Capa de "Esta Valsa É Minha" assinada por Elisa von Randow

Capa de “Esta Valsa É Minha” assinada por Elisa von Randow / Divulgação

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