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“Livro não dá dinheiro, só da Ibope”

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Para autor da periferia, a elite e a imprensa conseguem fazer com que o povo fique contra o povo. “O culpado é a vítima. Sempre”

/ , no El País

Título original:“Até hoje eu não sei o que é pior, a igreja ou a droga”

O escritor Ferrez. / Fernando Cavalcanti

O escritor Ferrez. / Fernando Cavalcanti

“Vocês não vão fechar a minha loja, né? Aqui é o meu ganha pão”, perguntou Ferrez, ao ver o cenário que o fotógrafo montava para fazer a foto ao lado, ocupando casi todo el espacio. O escritor acabava de chegar, pontualmente no horário combinado para essa entrevista, à sua loja, a 1DASUL, no Capão Redondo. O bairro, que fica a mais de uma hora de distância do centro de São Paulo, abriga a loja de roupas e acessórios que o escritor paulistano de 39 anos criou há 16 anos. “Livro não dá dinheiro, só da Ibope”, diz ele, que está prestes a publicar seu 11º livro, Os ricos também morrem, pela Editora Planeta. A pergunta, que assustou, foi seguida de piada.

Autor da chamada ‘literatura marginal’ ou ‘literatura combativa’ – ou os dois, Ferrez começou a escrever aos sete anos, copiando trechos da Bíblia porque “era o único livro que eu tinha na mão”. Aos 12, escrevia poesia. Em 1997, lançou o primeiro livro de poemas. Seu pai, que foi motorista a vida toda, levou carne para a família comer pela primeira vez quando Ferrez tinha 15 anos. A realidade na periferia vivida pelo escritor é o que alimenta as linhas agressivas dos seus textos. Crítico e ácido, Ferrez é também irônico e engraçado, características muito expostas nos contos que serão publicados no novo livro.

Nasceu em Valo Velho, um bairro pertencente ao Capão Redondo, na zona sul de São Paulo. Foi para o Capão com três anos de idade, onde vive até hoje com a mulher e uma filha. Não pensa em sair de lá, ainda que seja um dos bairros mais perigosos de São Paulo. Pouco após o término dessa entrevista, houve um assassinato em uma rua próxima de onde estávamos, segundo informava a rádio. Ferrez não cogita ir embora do bairro por duas razões. A primeira é que “aqui eu sou importante. Em outro lugar, eu não sou nada”. E a segunda tem a ver com a sua própria literatura e sua própria voz: “Daqui eu tiro o tom das minhas histórias”.

Pergunta. Seu novo livro é feito apenas de contos inéditos?
Resposta. Não, já publiquei alguns. Mas eu fiz esse livro para ser falado na rua, para ser uma piada. Eu queria sentir o que eu senti quando escrevi Capão Pecado (seu primeiro romance, publicado em 2000) e o Manual Prático do Ódio (2003), que é ver as pessoas comentarem sobre os personagens nas ruas…

P. Isso acontecia?
R. Muito. As pessoas me paravam na rua e diziam “meu, e aquela mina é mó pilantra, traiu o cara…” Eu ia nas escolas e os alunos me paravam para perguntar sobre um capítulo do livro. Me ligavam da cadeia pra perguntar do Manual Prático do Ódio. Me diziam “mano, não to entendendo, fala aí, o que que quer dizer isso?”. E eu dizia: mano, cê tá falando de onde? De [presídio] Presidente Bernardes? Para, to fora”.

P. E você queria que isso acontecesse de novo?
R. Sim, porque deu saudade de ver as pessoas comentando. O que eu tinha era isso, eu não tenho mais nada além de ver as pessoas lendo as minhas histórias e comentando comigo. Eu cheguei a escrever um livro com contos mais formais e tinha uns oito contos prontos.

P. Formais, você quer dizer com uma linguagem menos coloquial que essa sua?
R. Isso. E aí eu estava numa festa e queria fazer as pessoas rirem, e aí eu começava a dizer: você viu a história do Bolonha?, aí eu contava a história do Bolonha, as pessoas começavam a rir… E aí eu ia ler meus contos novos, esses mais formais, e ninguém prestava atenção. E eu falava: O que foi? E as pessoas: Conta a história do Bolonha, mano. Mas aquilo era uma brincadeira, eu dizia. Não, mas aquilo é mais da hora que isso aí. Aí eu escrevi esses contos e passei a ler eles nas escolas. A história do pintinho é a mesma coisa (um dos contos do novo livro). A história do ovo também é boa, onde eu vou as pessoas pedem. Na Alemanha já me pediram “conta a história do ovo”.

P. Mas são ficções então? Não são histórias reais.
R. Não, mas eu pego o tom das pessoas.

P. É por isso que você precisa viver aqui no Capão Redondo…
R. Isso. Eu não pego a história, eu pego o tom das pessoas. Se uma mulher passa aqui [na padaria onde estávamos] e diz “para de beijar o menino, tira essa boca de chupar rola do menino”, isso é muito foda! (risos) Eu tenho que escrever um conto com isso. Se você falar isso na escola, você ganha todo mundo. Eu fico convivendo com essa mulher dentro de mim e incorporo nos contos.

P. Mas você tem um tipo de literatura combativa…
R. Eu não fujo disso. Todo lugar que eu estou no mundo, quando estou falando de literatura combativa, tem autor que diz que não tem esse compromisso, que não é prisioneiro disso ou daquilo. Eu acho lindo isso, mas não tem como você escrever uma coisa, sair na esquina, ver um cara morto e não sentir nada. Se você consegue fazer isso, boa sorte. Mas eu não consigo.

P. Sim, mas é um eterno debate entre os escritores que não querem compromisso e os que querem mudar as coisas através da literatura, que é uma ideia velha… Na Europa, por exemplo, muita gente diz que ser combativo na literatura é uma ideia velha, ultrapassada…
R. Mas agora que a Europa está entrando em crise, talvez voltem a ser mais combativos. É que eles viveram da América Latina por muito tempo, sugaram tudo o que a gente tinha em termos de ouro, de madeira, levaram as nossas pedras pra lá pra fazer o chão onde hoje eles pisam, passaram séculos sem trabalhar. Agora, talvez eles voltem a ser combativos.

P. Você acha que os livros podem mudar a vida das pessoas daqui do Capão Redondo?
R. Eu tenho prova [de que isso é possível] todas os dias. Tem gente aqui que já está na segunda faculdade e o primeiro livro que leu foi o meu. Eu não sou salvador de ninguém. Mas não sou o contraexemplo também. O cara não vai me ver fumando maconha na rua, batendo na minha mulher. Eu lido com criança também. Eu faço livro pra criança e tenho um projeto pra criança. Se eu entrar para falar com a criança e estiver bêbado, que exemplo eu vou estar dando? Todo mundo bebe na favela. Não precisam de mais um. Todo escritor tem essa coisa de pagar de louco, beber, fumar. Mas aqui é outra realidade. O moleque apanha do pai que bebe. Então não dá pra ser assim. De vez em quando eu tomo uma cachaça com um amigo ou outro. Mas os caras aqui ostentam. Porque tudo pra pobre é excesso. Ele tem que beber e encher essa mesa de cerveja, pro vizinho dele ver e falar “porra, o cara tá abonado, bebendo 200 cervejas”.

P. Você disse no ano passado, em uma entrevista, que “o rolezinho era só o começo”. No que mais deu esse movimento da periferia?
R. Eu acho que não é um movimento. É a aceitação de um novo país. É as pessoas estarem preparadas para entender que tem gente que ascendeu financeiramente e que tem que participar das coisas boas que aquela faixa de consumo pode alcançar. Ter acesso ao shopping faz parte, comprar tênis de marca faz parte, andar de avião faz parte. Tem um monte de coisa que faz parte, só que a gente [a periferia] tem um jeito diferente de fazer as coisas e essa elite vai ter que entender isso.

P. Todo mundo está falando da chegada de uma crise econômica nesse momento. Como você, que além de escritor também é empresário, sente isso? A crise chegou na favela?
R. Pra gente nunca foi fácil. Enquanto está todo mundo falando que está bem, pra gente sempre foi pior. Mas de dezembro do ano passado pra cá piorou muito. Hoje mesmo eu estava (mais…)

Escola de comunicação Énois

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A escola de comunicação Énois já ajudou mais de 3 mil jovens a ler, escrever (e pensar) melhor

Mirela Mazzola, no Projeto Draft

nina

Nina Weingrill criou uma agência de comunicação que também ensina jovens da periferia a se comunicar. E, não satisfeita, ainda criou a Velô, grife de roupas voltadas para ciclistas.

As oportunidades que a paulistana Nina Weingrill teve ao construir a carreira estão fora do alcance de milhares de jovens brasileiros. Formada na primeira escola de jornalismo do Brasil e uma das mais conceituadas na área, a Faculdade Cásper Líbero, ela concluiu uma pós-graduação em marketing digital e já trabalhou nas maiores editoras de revistas do país, a Globo e a Abril.

Mas, em 2009, a jornalista de 29 anos começou a encurtar a distância que a separava de quem não teve as mesmas chances. Ao lado da colega Amanda Rahra, foi plantada a semente da escola e agência de comunicação Énois – quando as duas passaram a ministrar, voluntariamente, aulas de jornalismo para meia dúzia de jovens do Capão Redondo, bairro da periferia de São Paulo.

Depois de quatro fins de semana, a ideia era criar um fanzine, como é chamada uma publicação independente, não periódica e de baixo custo. Deu certo: no final do curso, quase 30 jovens compunham o grupo, a revistinha ganharia outras edições e passou a ser distribuída em onze escolas da região.

Os dois primeiros anos da escola foram viáveis graças à verba de um programa de incentivo da Prefeitura de São Paulo. “Depois disso, o modelo começou a não se mostrar sustentável”, lembra Nina. Não havia sede própria e, por vezes, as fundadoras tiravam dinheiro do próprio bolso.

Enquanto isso, o avanço dos alunos era notável: ao ler e escrever melhor, eles começaram a desenvolver a argumentação e o questionamento, além da melhora nas notas de português. “Estar perto desses garotos nos inspirava a seguir em frente”, diz Nina. Foi então que elas conceberam a agência de conteúdo Énois. Funciona assim: os participantes da iniciativa criam, sob a supervisão das jornalistas, projetos para o mercado, e a venda deles financia a escola.

Em 2011, a Énois se fez presente em outros bairros periféricos e, no ano seguinte, ganhou uma sede própria, no Centro. Calcula-se que mais de 3 mil jovens do ensino médio de escolas públicas já foram impactados. E mais podem ser, já que uma plataforma on-line de ensino à distância deve ser lançada no primeiro semestre.

Em meados de 2014, outra causa importante entrou no caminho de Nina: a da melhora da mobilidade urbana. Com a mãe, Cláudia, e uma amiga dela, a estilista Camila Silveira, a jornalista criou Velô, grife de roupas voltadas a ciclistas. São feitas de tecidos tecnológicos (não amassam facilmente, deixam a pele respirar e têm proteção solar, entre outras propriedades) e apresentam cortes versáteis. A proposta é que as peças sejam usadas durante as pedaladas, em compromissos sociais e até no trabalho. “Os preços mais altos se devem a nossa cadeia produtiva, com fornecedores nacionais e certificados”, explica.

Mãe de primeira viagem da pequena Mia, de 4 meses, ela tenta dividir o tempo que resta entre a Énois e a Velô. A jornalista sentiu na pele que empreender não é um caminho fácil e nem sempre as contas fecham. “Mas chegar ao fim do dia e pensar ‘era isso mesmo que eu queria ter feito’ recompensa tudo”, conclui.

Esta matéria, e muitas outras conversas de marca da Natura, podem ser encontradas na Sala de Bem-Estar, no Rede Natura. Seja bem-vindo!
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