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Lavrador larga a roça para estudar e se torna médico após 19 anos em MG

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Lavrador largou a roça aos 20 anos e se dedicou aos estudos para se tornar médico em Monte Belo (Foto: Reprodução EPTV / Tarcísio Silva)

Lavrador largou a roça aos 20 anos e se dedicou aos estudos para se tornar médico em Monte Belo (Foto: Reprodução EPTV / Tarcísio Silva)

 

Mesmo sem recursos, ele decidiu estudar e agora realizou sonho.
História virou capítulo de livro de cardiologista que também o ajudou.

Publicado no G1

Um morador de Monte Belo (MG) superou a baixa escolaridade e a falta de dinheiro para realizar um sonho: deixar de ser lavrador e se tornar médico. Após 19 anos investindo nos estudos e muita superação, ele hoje é motivo de orgulho para os pais. A história de José Reinaldo virou até capítulo de livro.

O início dessa história começa na zona rural de Monte Belo, onde o trabalho não era nada fácil.

“Eu tinha uma vida rural né, trabalhei em Alfenas em uma fazenda, lá eu cuidava de vaca. Aí a gente pediu conta e veio para Monte Belo, aí eu arrumei um emprego em uma granja de suínos”, conta José Reinaldo Lopes da Silva.

Quando ele decidiu ser médico, ele tinha apenas o ensino fundamental. Aos 20 anos, José Reinaldo então decidiu deixar a roça e voltar a estudar. O que ele nem imaginava na época é que demoraria quase duas décadas até ele ver o sonho virar realidade.

“Se você pensar que são 19 anos, é uma vida, de batalha, mas, valeu a pena”.

José Reinaldo é de família simples. Os pais têm pouco estudo e sempre trabalharam pesado para criar os oito filhos. A mãe, Dona Divina, cortava cana e fazia de tudo. “Eu tinha que trabalhar né, deixar eles pequenininhos pros maiorzinho cuidar, foi muito díficil, e eu larguei de trabalhar com 52 anos porque não aguentei mais, de cortar cana. A gente ficava até com dó dele, porque passava até fome, tem dia que ele passava com uma banana”, conta a aposentada Divina Rosa Lopes.

O interesse pela medicina veio em um momento de sofrimento da irmã, Sueli. Ela ficou doente e José Reinaldo precisou acompanhá-la no hospital.

“Como era hospital escola, tinha uma rotina de corrida de leito, que eles falam. Os professores vão com os alunos do 5º, 6º ano e eles vão discutir o caso, e eu gostava muito disso. A cada dia mais que eu permanecia lá, foi nascendo o desejo de ser médico mesmo”, conta José Reinaldo.

Durante o tratamento da irmã, ele encontrou pelo caminho pessoas que o incentivaram a lutar pela profissão. Uma delas foi uma cardiologista.

“Como ele já era técnico de enfermagem, ele queria pagar a consulta da irmã e foi aí que eu disse pra ele para que não pagasse a consulta, que comprasse livros e estudasse, porque ele já tinha dito que tinha a intenção de ser médico”, conta a médica Ana Márcia de Melo.

A médica descobriu que os dois tinham muito em comum. Além de parentes distantes, eles também enfrentaram dificuldades para estudar. A cardiologista escreveu um livro e dedicou um capítulo para contar a história de José Reinaldo.

“Esse livro é uma autobiografia que é uma alusão às pessoas que fazem as coisas de uma forma diferente. Eu entitulei essas pessoas de ‘flores de maio’. As flores de maio elas florescem no inverno e não na primavera, elas fogem do convencional. E o Zé realmente é uma flor de maio, ele fugiu totalmente do convencional, porque é um menino que saiu da zona de risco, da marginalidade, da pobreza, de tudo que poderia ser o futuro dele e se tornou uma pessoa de bem”, completou a médica.

Com pouco estudo, José Reinaldo encontrou um abismo entre ele e a medicina. Venceu todas as dificuldades dando um passo de cada vez. Foi aprovado no vestibular para Medicina na faculdade em Ribeirão Preto (SP), mas não tinha dinheiro para pagar as mensalidades. Foi aí que escreveu uma carta contando a sua história.

“Eu fiquei seis meses lá dentro com se tivesse passeando, sem me preocupar, sem preocupar com pagar nem nada, e foi correndo as mensalidades. Depois disso (da carta), eu consegui bolsa integral nele, aí, já estava preocupado só com estudar”, conta o novo médico.

Filho de família simples, ex-lavrador chegou a passar fome durante os estudos (Foto: Reprodução EPTV / Tarcísio Silva)

Filho de família simples, ex-lavrador chegou a passar fome durante os estudos (Foto: Reprodução EPTV / Tarcísio Silva)

 

Depois de 6 anos, José Reinaldo colou grau e finalmente se tornou médico. Motivo de orgulho para os pais. “Só de ver ele em cima da mesa para assinar (a ata de colação) eu fiquei muito emocionada”, disse a mãe.

“Um pai pobre estudar um filho para médico não é fácil não”, disse o aposentado Pedro Lopes, pai de Reginaldo.”

Agora, o novo médico, que dá expediente no Hospital Bom Pastor, de Varginha (MG), pretende ajudar os amigos da terra e retribuir também tudo o que fizeram por ele. “É uma alegria indescritível, eu entrando aqui hoje no Hospital Bom Pastor, não tenho nem palavras para mensurar o que estou sentindo neste momento”, disse o médico.

E para quem acha que não é possível realizar seus sonhos, José Reinaldo tem um recado. “Trace uma meta e persiga até o fim e não desista nunca, enquanto há vida, há esperança”, completou.

O romance inacabado de García Márquez

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O escritor colombiano deixou um livro inédito cujo capítulo inicial acaba de ser revelado. Sua publicação é tida como quase certa, mesmo com seis finais diferentes

Ivan Claudio, na ISTOÉ

Da mesma linhagem de um gigante literário como Ernest Hemingway, o escritor colombiano Gabriel García Márquez não ombreava o colega apenas na qualidade da escrita. No plano mais corriqueiro, costumava ter o autor americano como modelo para uma de suas muitas idiossincrasias, a de não se decidir pelo desfecho de uma história. Não cansava de dizer aos amigos – e falava isso entre o orgulho de dividir uma mania ou para se desculpar do propalado perfeccionismo – que o autor de “Adeus às Armas” ficara indeciso entre os 21 finais que esboçara para a narrativa inspirada em suas experiências no front italiano durante a Primeira Guerra Mundial. Foi justamente a multiplicidade de caminhos abertos aos personagens da novela “Em Agosto nos Vemos” que adiou a publicação dessa suposta última obra, iniciada em 1999. Gabo não gostava do epílogo e morreu sem dar nele o ponto final. Na semana passada, a editora Penguin Ramdon House, dona dos direitos da obra do autor, declarou que o romance inacabado pode vir a ser lançado e que isso só depende da anuência dos herdeiros do escritor colombiano. No caso, a sua mulher, Mercedes Barcha, e os filhos cineastas Rodrigo e Gonzalo. O mundo literário ficou eufórico.

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NAS MÃOS DA MULHER
Gabo com a sua mulher, Marcedes Barcha, na cidade natal de
Aracataca (2007): só ela pode dizer sim à publicação do novo livro

A declaração oficial da editora foi divulgada justamente quando o jornal espanhol “La Vanguardia” publicava o primeiro capítulo do livro (com créditos atribuídos aos herdeiros de Gabo), cuja história passada no exótico ambiente de uma ilha caribenha já dava pistas de um enredo envolvente. Segundo o editor espanhol de García Márquez, Claudio López, o manuscrito esteve em suas mãos e só não foi para a gráfica porque o autor não teve tempo de finalizá-lo: “O desfecho é demasiado aberto. Acredito que mais cedo ou mais tarde verá a luz do dia”, diz. A opinião é compartilhada por uma série de escritores, a favor da edição do romance mesmo sem o final definido. Ou, quem sabe, com os seis finais, o que não deixa de ser uma experiência curiosa, colocando a nu o processo criativo do autor. Se o último capítulo não satisfazia ao seu criador, o início cativa já no primeiro parágrafo. “Voltou à ilha na sexta-feira 16 de agosto, no barco das duas da tarde. Levava uma camisa xadrez escocês, jeans, sapatos simples de salto baixo e sem meias, uma sombrinha de cetim e, como única bagagem, uma mala de praia. Na fila de táxi da doca, foi direto a um modelo antigo, carcomido pelo sal” – assim começa Gabo, com objetividade jornalística, outra ponta de seu estilo consagrado. A fabulação, claro, logo se faz presente na viagem de Ana Magdalena Bach (mesmo nome da mulher do compositor alemão Johann Sebastian Bach), uma mulher casada de 52 anos, que há 28 visita a ensolarada ilha para depositar gladíolos na tumba de sua mãe.

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CENÁRIO COMUM
Javier Bardem em “O Amor nos Tempos do Cólera”, filmado em Cartagena:
ambiência exótica repetida na história de “Em Agosto nos Vemos”

Ana não é uma mulher comum: usa relógio masculino, camisa com as iniciais bordadas e aprecia gim-tônica. Numa noite no bar do hotel (o mesmo de sempre, o mesmo quarto de sempre), ela nota a presença de um homem na mesa à frente. A música, executada por um pianista de dedos preguiçosos e entoada por uma mulata de voz boa, era “Claire de Lune”, de Claude Debussy – mas em ritmo de bolero. “Vestia linho branco, como nos tempos de seu pai, com o cabelo metálico e o bigode de mosqueteiro terminado em pontas. Tinha na mesa uma garrafa de aguardente e um copo pela metade, e parecia estar sozinho no mundo”, continua o narrador, a essa altura assumindo o olhar da personagem. Como as mulheres fortes de Gabo, Ana toma a atitude, vai à mesa, vasculha a identidade do homem, convida-o para seu quarto. Acorda sem o amante do lado e com a consciência de ter traído pela primeira vez o marido, com quem se casara virgem. “Até então não se tinha dado conta de que não sabia nada dele, nem sequer o nome, e a única coisa que restava de sua noite era um tênue odor de lavanda no ar, purificado pela tempestade.”

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Na cabeceira, dentro do volume de “Drácula” que lhe fazia companhia na viagem, uma nota de US$ 20.
As notícias sobre a existência de “Em Agosto nos Vemos”, antes concebido como um livro de contos, começaram a ser confirmadas em 2008, pela língua solta de alguns amigos. Um deles foi o jornalista colombiano Darío Arizmendi, dono da Radio Caracol, que já falava dos muitos rascunhos. Também amigo de Gabo e tradutor de “Cem Anos de Solidão”, o escritor brasileiro Eric Nepomuceno aconselha a ficar reticente em relação ao manuscrito. “Ele mudava seus livros frequentemente, dizia uma coisa e, quando o livro saía, era outra coisa”, afirma. Segundo Nepomuceno, o escritor tinha outra mania: gostava de convidar pessoas estranhas para conhecer os rascunhos, deixava-as enfurnadas em sua casa por três dias e não permitia que fizessem nenhum comentário do que leram. “Esses encontros tinham um código de máfia”, diz ele. Havia também os eleitos intelectuais, caso do conterrâneo Álvaro Mutis e do crítico uruguaio Ángel Rama, ambos mortos. Não faltam os que veem semelhanças entre o enredo de amor, morte e redenção pelo sexo de“Em Agosto nos Vemos” com o das três últimas obras do escritor, apontando para uma tetralogia, hipótese refutada por Nepomuceno. “Ele nunca escreveu séries”, diz. De qualquer forma, serve para o inédito a frase do último livro publicado: “O coração tem mais quartos que uma pensão de putas.”

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Fotos: Divulgação

Autores completam romance inacabado de Nelson Rodrigues

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Nelson de Sá, na Folha de S.Paulo

Então com 25 anos, Nelson Rodrigues publicou em abril de 1937 uma crônica no jornal “O Globo”, “O irmão…”, destacando ser “um capítulo do romance ‘Cidade’, no prelo”.

Narra uma visita de Claudio à irmã Branca, num prostíbulo, entre os bairros da Lapa e da Glória, no Rio de Janeiro dos anos 1930. O texto insinua uma atração incestuosa.

Se estava ou não “no prelo”, sendo impresso, o romance nunca chegou às livrarias. E há quase dois anos a Nova Fronteira, que edita a obra de Rodrigues, retomou o projeto.

Convidou André Sant’Anna, autor de “O Paraíso É Bem Bacana” (Companhia das Letras, 2006), para escrever um segundo capítulo, a partir dessa visita do irmão.

Página de "O Globo", de 1937, com o 1º capítulo de 'Cidade' - Reprodução

Página de “O Globo”, de 1937, com o 1º capítulo de ‘Cidade’ – Reprodução

“Eu segui os personagens que ele indicou”, diz Sant’Anna. “Sou muito fã, tive até que tomar cuidado. É uma coisa que li muito e fazer a escrita seria até meio fácil. A tentação é essa: você começa a usar aquele linguajar do Nelson e tal. Aí eu segurei um pouco.”

Procurou algo intermediário, “entre a minha linguagem e a do Nelson”. Escreveu “O Marido da Cunhada do Irmão” e passou o bastão adiante, sem ler mais nada do livro.

“Não sei o que acontece, estou muito curioso, vou ler pela primeira vez no lançamento”, diz. “Cidades”, que resultou numa novela de 128 páginas, será lançada hoje, no Rio.

São seis capítulos. Depois de Sant’Anna escrevem Carlito Azevedo (“O Homem por Detrás do Bigode”), Aldir Blanc (“Da Lapa ao Gólgota”) e Veronica Stigger (“O Concunhado”).

Também Stigger, autora de “Opisanie Swiata” (Cosac Naify, 2013), não leu até o fim e está “curiosíssima para ver”, hoje. “Eu não sei como a história se resolve depois.”

Ela evitou emular Rodrigues, embora use frases. “É coisa que costumo fazer em muitos livros meus, me apropriar de frases alheias, então imagina se não iria nesse, do Nelson.”

Seu capítulo dá “sequência à deixa do Aldir Blanc” e acaba com “a bola picando” para Suzana Flag, pseudônimo usado por Rodrigues e retomado em “exercício editorial coletivo” da própria Nova Fronteira, no capítulo final, “A Verdadeira História de uma Cidade”.

Leila Name, diretora da unidade de literatura clássica do Grupo Ediouro, e as editoras Maria Cristina Jerônimo e Izabel Aleixo fizeram “esse trabalho de costura do texto da Suzana Flag”.

As três vêm se dedicando há mais de três anos, relata Name, à “recuperação do acervo ainda inédito e disperso” do escritor e ao “estudo de suas muitas ‘vozes’ e ofícios”.

Além da homenagem feita agora pelos coautores de “Cidade”, estão previstas mais obras inéditas em livro, da produção de Nelson Rodrigues no jornalismo para crianças às suas lendárias telenovelas.

TRECHO

Claudio ficou, por momentos, em silêncio -olhou a irmã e pensou se ela não seria uma alma para sempre afetada…
-Sim, tens razão; é preciso que fiques aqui -falava com tristeza, mas sem desespero. -Mas eu queria uma coisa, ouviu?… -hesitou e foi com súbita veemência que pediu: -Eu queria te beijar, deixa que te beije na testa, deixa!…
Tinha nos olhos uma súplica infinita. Ela recuou, como ante uma proposta de louco:
-Mas, por quê? Por quê?…
Ficou sem compreender, torcendo e destorcendo as mãos, num desespero indizível.
-Mas que importa? -disse ele com uma exasperação sombria; e ajuntou, incoerentemente: -É melhor que eu vá-me embora…

Extraído de “O Irmão…”, capítulo de Nelson Rodrigues que abre o romance “Cidade”

Gabriel García Márquez deixou manuscrito inédito, diz editor mexicano

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Segundo Cristóbal Pera, família não decidiu se vai permitir publicação de “En Agosto Nos Vemos”; trecho do que parece ser o primeiro capítulo foi divulgado por jornal espanhol

Publicado no Último Segundo

O escritor Gabriel García Márquez, que morreu na semana passada aos 87 anos, deixou o manuscrito de uma obra que decidiu não publicar quando estava vivo, disse um editor à agência Associated Press nesta terça-feira (22).

Cristóbal Pera, diretor-editoral da Penguim Random House México, disse que a família de García Márquez não decidiu se vai permitir a publicação póstuma do livro, nem qual editora teria os direitos. O manuscrito tem o título provisório de “En Agosto Nos Vemos”.

Um trecho do material publicado pelo jornal espanhol “La Vanguardia” mostrou o que parece ser o primeiro capítulo, que descreve a viagem de uma mulher casada de cerca de 50 anos que anualmente visita o túmulo da mãe em uma ilha tropical. No capítulo em questão, ela tem um caso com um homem mais ou menos da mesma idade, no hotel em que ela se hospeda.

O tom erótico do trabalho é fortalecido pelo charme tropical da ilha, com detalhes elaborados sobre o calor, a paisagem, a música e os habitantes locais.

Aparentemente, o manuscrito foi feito na época em que García Márquez escreveu seu último romance, “Memórias de Minhas Putas Tristes”, publicado em 2004.

Acredita-se que o colombiano não tenha escrito muito nos últimos anos. O autor mexicano Homero Aridjis se lembra de ter ouvido García Márquez dizer, em 2005, que não escreveria mais.

Gerald Martin, biógrafo de García Márquez, disse que o manuscrito aparententemente começou como um conto. “É uma surpresa para mim. Na última vez que falei com Gabo sobre esta história, tratava-se de uma peça única que seria incluída em um livro com três histórias semelhantes, mas independentes”, afirmou Martin.

“Agora estão falando em uma série de episódios no qual a mulher aparece e tem uma aventura diferente a cada ano”, escreveu, em entrevista por email. “Obviamente faz sentido, e presumo que Gabo realmente tenha brincado com a história há alguns anos.”

Uma entrevista inédita com Jacques Le Goff, morto aos 90 anos

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Nesta entrevista inédita, concedida ao GLOBO há duas semanas, o historiador francês Jacques Le Goff, morto na terça-feira, repassa sua obra, que desmonta lugares comuns a respeito da Idade Média. Com dois livros recém-lançados no Brasil sobre os protagonistas e a economia da era medieval, ele sugere que as origens do capitalismo na Europa da época ajudam a entender a crise do mercado e da democracia no mundo atual

Guilherme Freitas, no Prosa Online

A Idade Média de Jacques Le Goff não é o período de trevas e decadência enraizado no senso comum ocidental. Com cinco dezenas de livros publicados sobre religião, economia, política, artes, lendas, costumes e outros aspectos das sociedades europeias da época, o historiador francês, que morreu na terça-feira, aos 90 anos, afirmou-se como um dos mais reconhecidos medievalistas de nosso tempo. Em mais de seis décadas de carreira, ele se esforçou para destacar os traços criativos e dinâmicos de uma era que, como sempre disse, tem mais ligações com o presente do que se costuma acreditar.

Popular no Brasil, onde parte significativa de sua obra já foi traduzida, Le Goff teve mais dois títulos lançados no país este ano: “Homens e mulheres da Idade Média” (Estação Liberdade, tradução de Licia Adan Bonatti) e “A Idade Média e o dinheiro” (Civilização Brasileira, tradução de Marco de Castro). Em meados de março, o historiador concedeu entrevista ao GLOBO, por e-mail, sobre estes livros, que sintetizam vertentes importantes de sua obra.

“Homens e mulheres da Idade Média” é um volume coletivo, coordenado por Le Goff para a editora francesa Flammarion, com textos de 43 autores sobre figuras de relevo daquele período. Papas, santos, reis e teólogos foram “os grandes personagens” do mundo medieval, escreve o historiador, mas o livro abre espaço também para artistas, que deixam de ser vistos como artesãos anônimos e passam a ser reconhecidos como “autores”, e para o imaginário da época, relacionando mitos pagãos e religiosos, como o rei Arthur, o mago Merlin e Satã.

Já em “A Idade Média e o dinheiro”, Le Goff dá sequência a uma linha de pesquisas que vem desde seu primeiro trabalho, “Mercadores e banqueiros na Idade Média” (1956). O novo livro mostra o surgimento do capitalismo nas cidades medievais, onde o mercado em expansão entrou em atrito com a condenação da usura pela Igreja. O historiador contrasta a busca crescente de Estados e indivíduos por lucro com ícones religiosos da época, como a imagem, recorrente em narrativas e pinturas, de um homem que chega ao Inferno com um saco de dinheiro.

Le Goff foi um dos herdeiros da escola dos “Annales”, que na primeira metade do século XX revolucionou a historiografia deslocando seu foco para as ideias e os processos sociais. Nos anos 1970, foi um dos líderes do movimento conhecido como “Nova História”, que lançava mão de análises abrangentes para traçar a “história das mentalidades”. Em clássicos como “A civilização do Ocidente medieval” (1964) e “Para uma outra Idade Média” (1977), Le Goff buscou iluminar as particularidades daquele período, mas também ressaltar como as transformações ocorridas naquele tempo reverberam até hoje:

— A História é uma sequência de continuidades e mutações. E, raramente, de rupturas — disse Le Goff ao GLOBO.

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Em “Homens e mulheres da Idade Média”, o senhor afirma que aquele foi um período “criativo e dinâmico”, ao contrário da visão “obscurantista” dominante. Por que ainda temos uma visão negativa da Idade Média? E quais são os elementos mais “criativos” e “dinâmicos” dela?

A visão negativa da Idade Média se manifesta com intensidade a partir do século XIV, quando o poeta italiano Petrarca cria a expressão “Idade das Trevas” [que retratava a Idade Média como uma fase decadente da Europa, entre os períodos “luminosos” do Império Romano e do Renascimento]. Os lugares comuns sobre a Idade Média prosseguiram do Renascimento ao racionalismo do século XIX, apesar da reabilitação iniciada pelo Romantismo, com autores como Walter Scott, Victor Hugo, Augustin Thierry… E esses lugares comuns chegaram até nossos dias. Em todos os setores da sociedade repete-se como se fosse óbvio: “Não estamos mais na Idade Média”. No entanto, uma mudança de atitude dos pesquisadores em relação a essa época foi se consolidando ao longo do século XIX, a partir do esforço de instituições científicas como a École des Chartes e a coleção de estudos medievais “Monumenta Germaniae Historica”. Com a renovação do método e do espírito histórico em torno da revista “Annales”, fundada em 1929 por Marc Bloch e Lucien Febvre, o estudo da Idade Média passou por uma revisão. O progresso da economia rural e da economia monetária, a ascensão das cidades, o brilho da criação artística do estilo românico ao gótico nas catedrais, palácios e praças, tudo isso atesta o espírito criativo e dinâmico de uma longa Idade Média.

O senhor defende que o Renascimento dos séculos XV e XVI não representou o fim da Idade Média, como se costuma pensar, mas sim o “terceiro” e mais importante Renascimento da Idade Média. Por quê?

Acredito que o Renascimento inventado no século XIX por Michelet [historiador francês que cunhou a expressão em sua “História da França”, de 1855] não começa nos séculos XV e XVI. E que a “longa” Idade Média dura até meados do século XVIII. O primeiro Renascimento da Idade Média ocorreu nos séculos VIII e IX, com um pequeno núcleo de pensadores e cientistas agrupados em torno do imperador Carlos Magno. O segundo Renascimento, no século XII, é marcado pelo progresso agrícola, pelo desenvolvimento das cidades e pelo início das realezas nacionais. O Renascimento dos séculos XV e XVI é um período importante no campo das artes e na afirmação das nações, mas nos planos econômico e ideológico permanece essencialmente rural e marcado pelo cristianismo, ainda que no século XVI ele se divida em dois ramos: a Igreja Católica e a Reforma.

O senhor escreve que os grandes personagens da Idade Média são “santos, reis, Papas e teólogos”. Que condições permitem a ascensão dessas figuras históricas?

Os santos são uma novidade, uma criação do cristianismo; os reis são uma nova figura de chefe político; os Papas lideram a Igreja cristã; os teólogos substituem os filósofos da Antiguidade. Portanto, Deus como criador da Humanidade e do mundo é o principal mote do pensamento da época. A ascensão dessas categorias foi possibilitada, por um lado, pela cristianização da maior parte da Europa e, por outro, pela constituição de Estados que, ao longo da Idade Média, tornaram-se nações. Se pensamos nas obras que parecem dominar o pensamento cristão medieval, o que vem à mente são as sumas teológicas. E se há uma obra que se afirma como sua coroação, é a “Suma Teológica” de São Tomás de Aquino.

“Homens e mulheres da Idade Média” tem um capítulo sobre Francisco de Assis, que o senhor já havia estudado em outro livro. Na sua opinião, o que significa a decisão do cardeal Jorge Mario Bergoglio de adotar como Papa o nome de Francisco? Como o senhor avalia o papado de Bergoglio?

Acredito que, ao escolher o nome Francisco, o cardeal Bergoglio quis retirar da Santa Sé a imagem de riqueza e poder que ela havia adquirido. O caráter único deste nome na lista de Papas nos faz pensar sobre semelhanças entre a situação de crise no mundo atual, principalmente na Europa, e certos traços do avanço da pobreza na Idade Média, no tempo de Francisco de Assis. O gesto de escolher o nome Francisco é, ao mesmo tempo, o resgate de uma tradição de humildade da Igreja e uma concepção original do pontificado.

Há mais homens que mulheres no livro, uma diferença que o senhor justifica dizendo que isso é também “uma representação do lugar que elas ocupavam”. Que lugar era esse?

Embora a mulher não tenha sido tão depreciada na sociedade cristã medieval como costumamos acreditar, é fato que a Idade Média cristã é uma era masculina. A mulher é vista como um ser degradado pela memória do pecado de Eva, e nem a devoção por Virgem Maria é suficiente para mudar isso. A impossibilidade institucional e espiritual de as mulheres exercerem o sacerdócio as rebaixa a uma categoria inferior à dos homens.

Também há poucos artistas no livro (Dante, Giotto e Bocaccio, por exemplo). Mas há toda uma seção dedicada a personagens imaginários, como mitos de origem histórica (Rei Arthur), figuras religiosas (Satã) e lendas populares (o mago Merlin). O senhor explica que é durante a Idade Média que emergem as noções de “autor” e “artista”. Como? E quais são os traços mais fortes do imaginário das sociedades medievais?

A onomástica no mundo dos artistas durante a Idade Média é um assunto delicado. Por muito tempo, o artista é anônimo ou é considerado apenas um artesão. É a partir da difusão da noção de “beleza”, a partir do século XIII, como bem mostrou Umberto Eco [em “História da beleza”, de 2004], que o personagem do artista adquire em certas cidades italianas prestígio social e profissional. O primeiro a se beneficiar disso foi o pintor Giotto (1266-1337), em Florença. O imaginário de qualquer sociedade humana, em qualquer época, reflete a experiência, o pensamento e o sentimento de seus integrantes. Na Idade Média, acrescenta-se a isso um mundo de maravilhas que recupera parte do que chamamos de “cultura popular”, da qual o cristianismo medieval se beneficiou muito. Ao prestígio do homem como criatura à imagem e semelhança do Deus cristão, juntou-se o prestígio dessa dimensão maravilhosa do humano.

O senhor descreve a universidade como “um novo poder” na sociedade medieval. Quem eram seus personagens mais representativos?

Foram os próprios homens e mulheres da Idade Média que concederam à universidade um status de poder equivalente ao do sacerdócio e da realeza. O intelectual da Idade Média se (mais…)

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