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Posts tagged Carinho

Dez minutos de leitura diária pode fazer a diferença na vida de seu filho

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É o que defende a ONG Save the Children

Amanda de Almeida, no B9

À primeira vista, o filme acima pode parecer longo demais – e até mesmo um pouco chato. Ainda assim, é inegável a importância do assunto que ele aborda: dez minutos de leitura diária com seu filho pode fazer uma diferença enorme na vida dele. É o que defende a ONG Save the Children.

É claro que no comercial criado pela agência Don’t Panic, de Londres, tudo parece muito mais exagerado, com um garoto pedindo ao pai que leia para ele, mas o adulto está cansado demais e resolve tirar um cochilo. Em seus sonhos, ele enxerga o futuro do filho e, o que vê, não é lá muito animador.

Crianças aprendem muito observando os adultos e, principalmente, compartilhando atividades com eles. Ler com uma criança é um ato de carinho e, no final, pode mudar uma vida.

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Diário de um menino

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“Bem que a mãe me avisou”, pensou ele, despedindo-se das ruas, dos brinquedos, do Nescau e do gibi.

Mariana Weber, na Época

“Ela vai ficar tão triste. E bem que me avisou.”Do banco traseiro do carro, dava para ver o cabelo castanho ondulado da mãe, solto atrás e enroscado na gola do casaco do lado direito. Ele sentiu um aperto. Olhou pela janela, começou a ler placas em voz alta. “Bilhar Augusta. A Arte da Boa Mesa. Retificadora Flora.”

(Foto: C_Dave / Flickr)

(Foto: C_Dave / Flickr)

“Tudo bem na escola, Antônio?”“Tudo.”

“Muita lição de casa?”

“Não.”

Tinha, mas não ia fazer. Pra quê?

Sentiria saudade também da tia Iara, nem achava tão chato quando ela passava lição. Mas não ia mais fazer.

“Só Botas. Pão Gostoso. Você com Saúde.”

“Ei, tá pensando na morte da bezerra? Chegamos, filho!”

Desceu do carro, mochila pendurada no ombro direito, e subiu direto para o quarto.

A Carminha, que dormia enrolada em cima do baú de brinquedos, começou a se espreguiçar, bunda para cima e patas dianteiras bem esticadas. Fez carinho na cabeça da gata. “O baú vai ser só seu, Carminha.” Pegou o cacto que ficava na janela e foi até a pia do banheiro regar a terra. Voltou com o vaso ainda pingando. Jogou dentro dele os cinco tatuzinhos que tinha recolhido no pátio da escola e guardado no estojo de lata.

Viu Carminha cheirar os bichos, que não se mexeram, e logo perder o interesse.

Em cima da cama, brincou um pouco com o carrinho vermelho, presente do pai. Leu a última história de um gibi. Na frente do espelho da porta do armário, engoliu saliva uma, duas, três vezes, tentando perceber algo diferente.

Desceu para a cozinha. A mãe esquentava vagem refogada no fogão. No forno, torta de sardinha.

“Mãe?”

“Diga, filho.” Ela mexia a panela. “Antônio?”

“Demora?”

“Tá quase, pode ir lavando a mão.”

Estava bom, e tinha morango de sobremesa. Depois, os dois viram novela no sofá da sala. Durante o intervalo, o coração de Antônio bateu forte. O ar faltou, a visão escureceu. Ele encostou a cabeça no ombro da mãe, fechou os olhos e, aos poucos, se acalmou.

Quando a novela acabou, foi escovar os dentes sem a mãe pedir. Deu um beijo de boa noite e foi para a cama, triste.

Acordou com a mãe chamando.
Como sempre, se arrastou para o banho, colocou o uniforme que a mãe tinha deixado em cima da cama, tomou leite com Nescau, comeu pão com requeijão, escovou os dentes, pegou a lancheira e a mochila. Saiu de casa preocupado porque não tinha feito a lição de português e ainda não tinha morrido.

Então viu o ponto branco no chão do carro. Será? Sim, era o chiclete. O chiclete que ele comprou escondido da mãe, com o dinheiro que ela deu pro lanche. Um lanche especial, da cantina. O chiclete que ela disse que ele não podia mascar. Porque chiclete faz mal pros dentes e é perigoso. O chiclete que ele comprou mesmo assim. Comprou no recreio, escondeu no bolso e, no meio da aula, tomou coragem para tirar do papel e colocar na boca.

Mascou com cuidado, devagar, saboreando o suco de cada mordida. Guardou, já sem gosto, na bochecha direita, na esquerda, debaixo da língua. Aproveitou o segredo até que, dentro do carro, na volta da escola, percebeu que não tinha mais nada na boca. “Engoli.” Ia morrer sufocado. E não podia contar para a mãe que tinha comprado o chiclete.

Agora, ao descer do carro, Antônio sorria. Não morreria mais.

A partir de hoje obedeceria a mãe em tudo – não pularia o muro para a casa do Pedro, não daria pedaços do bife para a Carminha nem leria escondido depois que a mãe fechasse a porta do quarto à noite. Só parou de sorrir quando viu a tia Iara e lembrou da lição de português.

“A carreira de professora é a que dá maior gratificação amorosa”

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Aos 96 anos, Dona Cleo, xodó dos amantes da literatura, abre sua biblioteca, recita de cabeça poemas de Fernando Pessoa e dá uma lição de sensibilidade e energia

Foto: Wilton Júnior/Estadão

Foto: Wilton Júnior/Estadão

Sonia Racy, no Estadão

Aos 7 anos, Cleonice Berardinelli escreveu seu primeiro poema – definido por ela como “minúsculo e ridículo, naturalmente, próprio de 7 aninhos de idade”. Hoje, aos 96, é uma das professoras de literatura mais reconhecidas e queridas do Brasil. Dona Cleo, como é carinhosamente chamada, brinca ao dizer que é meio carioca, meio paulista e muito portuguesa. Sua relação com Portugal não se restringe à paixão pela literatura de lá – ela é especialista em Camões e Fernando Pessoa –, mas pelos muitos amigos portugueses que ainda cultiva. Alguns, inclusive, fizeram questão de prestigiá-la quando tomou posse na Academia Brasileira de Letras, em 2010. Ela ocupa a cadeira de número 8.
Formada pela USP em 1938, é professora emérita da UFRJ e da PUC do Rio. Foi orientadora de 74 dissertações de mestrado e 42 teses de doutorado. É unânime. Zuenir Ventura, seu ex-aluno, a apelidou de “divina Cleo”. E de Carlos Drummond de Andrade ganhou poema, cujos versos dizem: “Até Fernando Pessoa, com respeitoso carinho/ trago pois, minha oferenda/ de bem humilde vizinho/ nesta ensancha prazenteira/ a justiça que me impede/ à genuína fazendeira/ Cleonice Berardinelli.”

Recentemente, atraiu olhares de todo o Brasil ao dividir uma mesa, na Flip, com sua mais nova fã, Maria Bethânia. Durante uma hora e meia, leram poemas de Pessoa selecionados por Dona Cleo. A simpatia do público pelo carisma da professora foi imediata. O carinho foi retribuído nos autógrafos de seu novo livro, Antologia Poética, na mesma noite. “Fiquei exausta, mas virei notável, foi um sucesso”.

A professora recebeu a coluna, em seu apartamento, em Copacabana, na zona sul do Rio, antes da vinda do papa Francisco ao Brasil. Católica, ela se disse contente. “Ele é de uma falta de atavios, uma simplicidade impressionante. E escolheu o nome de Francisco. Amo a oração de Francisco”, diz.

No seu escritório, montou uma biblioteca – batizada de “Galeria Camões”. Os livros, diz, deixará para a Academia Brasileira de Letras, para que sejam bem cuidados. Além deles e das inúmeras fotografias dos netos e bisnetos espalhadas pela biblioteca, Dona Cleo coleciona uma séria de prêmios e honrarias, acumulados ao longo de sua carreira: “Das profissões, professora é a que dá mais gratificação amorosa. Tenho mais de mil ex-alunos”.

Ela impressiona pela memória. Não esquece um verso de qualquer poeta, recitando tudo de cor. A boa saúde, explica, tem dois grandes motivos: a família e a religiosidade: “Tenho conversas particulares com o pai do céu. Enquanto eu estiver vivendo como estou… eu gosto de viver”.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

A mesa da última Flip de que a senhora participou junto com Maria Bethânia, sobre Fernando Pessoa, foi um sucesso. Como vocês duas se conheceram?

Faz um tempinho. Júlio, nosso mediador na Flip e meu ex-aluno, me disse que Bethânia queria que eu olhasse uma seleção de poemas do Fernando Pessoa, feita por ela, para um show. Fui assistir ao espetáculo, fui ao camarim cumprimentá-la. E foi assim que a conheci. Sobre os poemas, ela pediu que eu escolhesse. Ela é de um grande carinho e delicadeza comigo.

E então nasceu uma amizade?

Mais ou menos. Começamos a nos encontrar em muitas homenagens. No Conselho Federal de Educação, na Sociedade Hebraica do Rio de Janeiro, em Portugal. E brinquei com ela que estávamos habituadas a receber prêmios juntas.

Foi difícil fazer uma seleção de poemas de Pessoa para a Flip?

É como tirar pedaços seus, levar e deixar outros pedaços. Mas como escolhemos muitos, não foi tão doído. Mandei para ela com um bilhetinho assim: “Para Bethânia, com a condição de que, corte, acrescente, altere à vontade”. Então, foi engraçado, porque ela tem umas cisma. Por exemplo, ela não diz a palavra “desgraça”.

Não?

Não. E iríamos ler um poema muito bonito que diz assim: “…ou desgraça, ou ânsia – Com que a chama do esforço se remoça/ E outra vez conquistemos a distância/ Do mar ou outra, mas que seja nossa.” Daí ela me disse “Dona Cléo: eu não falo essa palavra”. E eu emendei, dizendo que não tinha importância. Poderíamos trocar por “desgraça” ou por “miséria”. Então mantivemos um poema de que eu gosto muito (risos).

Maravilhoso. Mas a senhora trocou mesmo?

Sim (risos), tem o mesmo nome – “miséria”, “desgraça”. Mesmo lugar de acentuação, não ia estragar o poema. Então, lá ficou.

A senhora já afirmou que não gostaria de ser uma heterônima do poeta, porque o Fernando Pessoa foi muito triste.

Acho que ele foi, de um modo geral, uma pessoa tendendo mais à infelicidade. Dos heterônimos, o mais “contentinho” é o Alberto Caeiro. O Ricardo Reis não é nem isso nem aquilo, é o equilíbrio.

Por que a senhora acha que os leitores têm mais dificuldade com Ricardo Reis?

É uma poesia muito reflexiva, inteligente e, às vezes, um pouco difícil de entender. Possui uma sintaxe alatinada, mas é interessante.

A senhora é bem religiosa. O que acha da religiosidade na obra de Fernando Pessoa?

Tem o poema em que ele fala sobre o Menino Jesus. Esse poema é uma faca de dois gumes. De um lado, começa lindo, quando ele diz “Um meio dia de fim de primavera/ Tive um sonho como uma fotografia/ Vi Jesus Cristo descer à terra”. E ele fazia isso, fazia aquilo. E é uma gracinha o menino Jesus, chapinhando na lama, aquela coisa toda que é de uma delicadeza altamente poética. Principalmente no fim, quando ele diz: “Quando eu morrer, filhinho/ Seja eu a criança, o mais pequeno/ Pega-me tu no colo. E leva-me para dentro da tua casa”. Mas há passagens que são de uma grosseria horrível, por exemplo, quando o texto diz que o espírito santo é uma pomba suja, que suja as cadeiras todas do padre eterno. Quer dizer, eu acho isso de mau gosto. Não dava esse poema, em classe, justamente por causa disso.

Fernando Pessoa se dizia cristão agnóstico, Dona Cleo?

Ele não era de religião nenhuma, era uma pessoa metafísica, sem dúvida. Queria o antes e o depois. Isso está na poesia dele. O Alberto Caeiro, por exemplo é o guardador de rebanhos. O rebanho são os meus pensamentos. E os meus pensamentos são todos sensações. Com as mãos, os pés, os olhos, os ouvidos, etc. É o homem das sensações. Depois ele diz: “Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia/ Não há nada mais simples / Tem só duas datas — a da minha nascença e a da minha morte”.

Como católica, o que a senhora acha do papa Francisco?

E é de uma falta de atavios, de uma simplicidade… Repare. Não quis avião especial, não quis regalias. E São Francisco é um santo maravilhoso, foi muito bem escolhido esse nome dele. Se tem uma coisa que eu gosto é a oração de São Francisco. Você conhece essa?

Sim.

A oração diz assim: “Senhor fazei-me instrumento de vossa paz. Onde houver ódio, que eu leve o amor. Onde houver ofensa, que eu leve o perdão”. É feita de antinomias. Eu acredito, justamente, que esse papa vai trazer tudo isso. Ele se inspirou em São Francisco porque esse é o sonho dele. Que ele seja para todos e de todos. E eu digo: tomara.

Quando foi que a senhora se descobriu professora?

Desde que eu entrei para a faculdade, com Fidelino de Figueiredo. Queria ser como ele. Claro que nunca cheguei lá. Mas era um homem de uma cultura enorme.

Qual para senhora é a maior emoção de dar aula?

É a profissão que dá mais gratificação amorosa. Eu encontro, em todo lugar, algum ex-aluno. É um clã, uma coisa imensa. Tenho mais de mil. Comecei dando aula particular, depois passei para colégios. Em um deles, introduziram o latim nas turmas. E eu fui parar nisso. Adoravam as aulas de latim.

A senhora acredita que o latim faz falta na grade escolar hoje em dia? Principalmente por conta da etimologia das palavras?

Eu acho mesmo, a etimologia! É uma coisa automática. Quando me deparo com uma palavra que não conheço, digo: espera aí! Como é que ela é formada? Agora mesmo eu estou tomando um remédio que se chama Condroflex. Repare: Condro é articulação. Flex, flexibilidade. Esses nomes de remédio são muito bem escolhidos. Então Condroflex é um remédio para dar flexibilidade à minha articulação.

E a senhora se recorda bem de latim?

Ainda lembro. Eu lecionei esse tempo todo, né? E tive a sorte de ter um professor de latim do primeiro colégio, que era um rapaz bem moço, inteligente, que me fez, uma vez, uma dedicatória em latim que dizia: “A primeira entre os primeiros alunos meus, pequena recordação do Professor Aquimo.” Fiquei orgulhosíssima.

A senhora acha que mudou muito o perfil do aluno universitário ou o interesse pelo conhecimento continua o mesmo?

Olha, eu dei aula, em turmas, até uns três anos atrás. É o mesmo interesse.

Dona Cleo, esse ano temos o centenário de Vinicius de Moraes. O que a senhora acha da obra de Vinicius?

Veja, eu não li muito de Vinicius de Moraes, mas do que eu conheço, gosto. Ele foi um grande sonetista. Alguns sonetos são muito lindos, primorosos mesmo. Eu acho que alguns poemas dele têm uns requintes maiores, há muita coisa que é muito bonita e que vale a pena…

O que a senhora recomendaria para quem quer começar a ler poesia?

Mostre a ela o que está dentro daquela poesia. Que às vezes parece meio indevassável. A sensação de “não posso passar daqui, não estou entendendo nada”. Porque há poesia difícil, mas há poesia fácil também. A do Vinicius, por exemplo, não é das mais difíceis, é bem acessível. /MARILIA NEUSTEIN

Lygia de todas as letras

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Às vésperas de completar 90 anos, a escritora faz das memórias uma contínua celebração da vida e lembra sua trajetória sempre marcada por ‘vocação e paixão’

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Mariana Timóteo da Costa, em O Globo

Lygia Fagundes Telles mora quase na esquina da rua Oscar Freire, em São Paulo. Sai pouco de casa mas, quando sai, gosta de conversar com leitores, a quem chama de cúmplices, adora quando eles vêm lhe tomar satisfação sobre um personagem. De quando em vez, janta fora com amigos. Vai quase toda semana ao chá da Academia Paulista de Letras. À Academia Brasileira, no Rio, vai pouco agora, porque anda de birra com aviões e aeroportos, “muitos cheios e apertados”. É avó duas vezes, de Lúcia e Margarida; bisavó de Marina e ainda fuma cigarro “quando dá aquela saudade”. Lygia é, sobretudo, escritora (acima, ela lê trecho do conto “A disciplina do amor”). Considerada uma das melhores ficcionistas brasileiras, autora de romances como “As meninas” e “Ciranda de pedra”, entre outros clássicos, gosta de “lutar com as palavras”, como dizia o amigo Carlos Drummond de Andrade. E comemora 90 anos no próximo dia 19 sem nunca ter parado de escrever, desde menina. Inéditos? Sim, ela tem. Festa? Não, ela não quer chá especial na Academia, nem vai ao Rio para as homenagens que acontecerão dia 18 no Instituto Moreira Salles (IMS), para onde doou seu acervo em 2004. Lygia, no entanto, agradece o carinho.

— Tenho birra de aniversário desde os 10 anos, quando já escrevia e minha mãe me preparou uma festa linda. Minhas amigas não apareceram. Eu era “alucinadote”, esqueci de dar os convites e só descobri quando a festa já tinha começado. Aniversário é uma data boa quando se é jovem. Depois da velhice brutal, chega, não quero mais.

O encontro acontece em seu apartamento. Quem lê assim esta frase, logo no início da conversa, pode achar que Lygia entristeceu. Bobagem. A “velhice brutal” é dita repleta de doçura, com um sorriso largo no rosto (“A Clarice Lispector, que quase nunca sorria, dizia para eu rir menos se quisesse ser levada a sério, mas não adianta, sou risonha mesmo”).

As frases vêm acompanhadas de presentinhos. Lygia oferece fotos, de 1941, com as amigas de da Faculdade de Direito do Largo São Francisco (“éramos poucas e todas virgens, acabei me casando com um professor”, conta, lembrando sua união com Goffredo da Silva Telles Júnior, da qual nasceu seu único filho, Goffredo Neto, morto em 2006). Distribui, com dedicatória, seu livro preferido, “A disciplina do amor” (Companhia das Letras), reeditado com carinho por ela mesma em 2010 — além de vários recortes com textos seus e do segundo marido, o cineasta Paulo Emílio Sales Gomes. Lamenta não ter para dar a cópia de uma em que aparece, com Paulo Emílio, no túmulo de Karl Marx no Cemitério de Highgate, em Londres. A imagem foi capturada pelo jornalista Vladimir Herzog, em 1970, cinco anos antes de ele ser morto pela ditadura.

— O Paulo (fundador da Cinemateca Brasileira e morto em 1977) era comunista, amava o Marx, odiava o Getúlio Vargas. Quem me deu esta foto foi o filho do Herzog (Ivo) há pouco tempo. Guardarei para sempre.

Mesmo sem querer festa, Lygia usa a data para lembrar a vida. Tudo passa por “vocação e paixão”, expressão que repete sempre. São as memórias que a alegram, a fazem produzir e, especialmente, afastam qualquer medo da morte.

— Penso nos meus mortos, se vou estar com eles ou não.

Os mortos de Lygia já estão o tempo todo com ela, que não guarda datas porque, como já escreveu, “veio o vento e soprou o calendário”, mas conhece a riqueza dos detalhes. Ela quase não lê coisa nova, prefere reler Drummond, Manuel Bandeira, João Cabral e Melo Neto e Guimarães Rosa, que “me fazem companhia, gosto deles e não me esqueço”. As lembranças. Com Paulo Emílio, por exemplo, descobriu Pasárgada.

— Eu amava o poema do Manuel Bandeira, achava lindo e dizia para ele: que bom que você inventou essa Pasárgada! E ele me dizia: “Lygia, mas ela existe”. Eu não acreditava, até que eu e Paulo fomos ao Irã e a visitamos (a cidade da antiga pérsia). Voltei para o hotel e mandei logo um cartão para o Manuel: “Manuel, tinha Pasárgada mesmo!”. Sempre fui um horror em geografia.

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Com a amiga Clarice Lispector se divertiu num encontro literário em Bogotá. Imitando a língua presa de Clarice, Lygia conta que as duas fugiam para “beber e fumar” pelos bares colombianos.

— Clarice ficava louca com as esmeraldas colombianas, saíamos de braços dados pela Colômbia. Uns meninos ofereciam umas coisas para a gente na rua e a gente dizia: “Já somos loucas pela nossa natureza, não precisamos de nada mais”.

Clarice, aliás, é autora de um dos muitos eloquentes elogios feitos a Lygia ao longo de sua trajetória. “Com Lygia há o hábito de se escrever que ela é uma das melhores contistas do Brasil. Mas, do jeitinho como escrevem, parece que é só entre as mulheres escritoras que ela é boa. Erro: Lygia é também entre os homens escritores um dos escritores maiores”, escreveu Clarice certa vez. (mais…)

Criadora de “Diário de Classe” lançará livro sobre sua experiência

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Isadora Faber caminha para a escola em Florianópolis / Marco Dutra/UOL

Isadora Faber caminha para a escola em Florianópolis / Marco Dutra/UOL

Publicado por UOL

A criadora do “Diário de Classe”, Isadora Faber, vai escrever um livro sobre sua experiência de ativismo pelas redes sociais. O contrato foi fechado com a editora Gutenberg e o livro deve sair até o fim do ano, explica Alessandra Ruiz, publisher da editora.

No livro, a garota contará toda a trajetória da experiência, começando pelos problemas na escola e a ideia de criar uma página no Facebook para denunciá-los até a fama e as conquistas na escola.

“O livro vai mostrar o poder das redes sociais e a coragem dela em denunciar os problemas de sua escola, mesmo sofrendo represálias”, afirmou Alessandra.

“A negociação foi rápida, já tínhamos recebido propostas anteriores, mas achamos que não era o momento. Agora a editora procurou a gente, conversamos com a Isadora, que gostou da ideia e resolveu fazer o livro”, conta Mel Faber, mãe de Isadora.

O texto será escrito pela própria Isadora Faber, com o suporte da editora. O livro trará também depoimentos de personalidades sobre a experiência da menina no “Diário de Classe”.

“Ela está gostando bastante da ideia. A gente está incentivando ela porque sempre tentamos passar a importância dos livros”, afirma a mãe de Isadora.

Após a fama, Isadora Faber, criadora da página “Diário de Classe”, tenta manter rotina escolar

A casa em que mora com a família tem de tudo, até piscina. Também vive lá a avó materna, portadora de uma doença degenerativa que exige cuidados. Isadora e as irmãs ajudam Mel. A tarefa de Isa é alimentar a senhora - o que faz com paciência e carinho /  Marco Dutra/UOL

A casa em que mora com a família tem de tudo, até piscina. Também vive lá a avó materna, portadora de uma doença degenerativa que exige cuidados. Isadora e as irmãs ajudam Mel. A tarefa de Isa é alimentar a senhora – o que faz com paciência e carinho / Marco Dutra/UOL

Fama
Isadora Faber foi citada em uma lista de “estrelas ascendentes” brasileiras do jornal inglês Financial Times. A lista de personalidades tem 25 nomes — Isadora está na categoria “social” junto com a escritora Thalita Rebouças — e foi divulgada no dia 22 de fevereiro.

Os protestos de estudantes por melhorias nas escolas públicas ganharam força nas redes sociais com a iniciativa da menina catarinense. A garota deu o que falar: ganhou muitos elogios, fez palestras e concedeu várias entrevistas, mas também criou inimizades, principalmente na escola, teve a casa apedrejada e acabou tendo que ir depor na delegacia mais de uma vez. O último episódio que a envolveu foi uma ameaça de morte pelo Facebook, rede social que a tornou famosa.

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