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Aos 10 anos, Ana Cristina publica seu primeiro livro

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Uma sementinha foi plantada e agora os frutos começam a nascer

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Publicado no Cruzeiro do Sul

Desde que a sementinha da leitura foi plantada em Ana Cristina Rodrigues Henrique, de 10 anos, muitas ideias começaram a florescer em sua mente. As palavras das poesias apresentadas a ela pela família e amigos fizeram com que ela se encantasse com aquele mundo de rimas e mensagens bonitas que nos fazem pensar em nossas vidas. Desde então, Ana Cristina libertou sua criatividade e começou a traduzir seus pensamentos no papel.

Em um cantinho montado na sala de sua casa, que conta com uma mesinha rosa e vários brinquedos e livros, a menina se inspira nos seus autores preferidos, que são Vinicius de Moraes e Carlos Drummond de Andrade, para poder escrever suas próprias poesias. Além de gostar de lembrar das palavras desses grandes poetas brasileiros, Ana Cristina também busca inspiração em coisas simples, do seu dia a dia mesmo. “Sempre que acontece alguma coisa no meu cotidiano eu dou um jeito de escrever sobre aquilo”, diz ela.

Com isso, uma formatura no ensino fundamental, o dia dos pais e até o aniversário de uma professora querida já viraram poesias nas mãos de Ana Cristina. “Amor, amizade e família. É quase sempre sobre isso que eu escrevo”, declara.

“Primeiro de muitos!”

Todo o talento de Ana Cristina não se resume à escrita dos poemas. Como demonstrou essa vontade e prazer pelo mundo dos livros, a menina foi convidada por um vizinho para ir até o Cantinho Girassol, um espaço cultural instalado no bairro Wanel Ville que sempre realiza eventos para amantes dos textos, histórias e poesias. “Ele me chamou para declamar alguns poemas de Drummond num sarau do Girassol”, afirma Ana Cristina.

E a timidez passa longe da menina. Ela diz que nunca teve vergonha de nada e aceitou o desafio, declamando vários poemas no microfone na frente de muitas pessoas que estavam no espaço. Desde então ela passou a adotar o Cantinho Girassol como sua segunda casa.

Em um dos saraus que participou, Ana Cristina conheceu um editor de livros de São Paulo. “Ele então me perguntou se eu queria lançar um livro de poesias. Eu aceitei a ideia na hora”, revela a menina, com muita animação.

Com o desafio lançado, Ana Cristina teve de reunir 21 poesias em cerca de dois meses. Então ela colocou o seu talento e criatividade para funcionar e realmente conseguiu! Na noite de ontem Ana Cristina lançou o seu primeiro livro de poesias, chamado Sementes de Ana Cristina.

Mas ela não vai parar por aí não! Seu grande sonho é continuar lançando publicações, para se tornar uma grande escritora no futuro. “Que esse seja o primeiro de muitos!”

Pela dedicação e pelo talento que a menina já apresenta aos 10 anos de idade, certamente esse sonho se tornará realidade!

Leituras marcantes de 2014 inspiram 2015

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Leituras marcantes de 2014 inspiram 2015

Fotos: divulgação | Edição: Bruno Carvalho/NE10

Fábio Lucas, no NE10

Qual o livro que mais lhe marcou no ano que indo embora? As respostas colhidas para a última coluna do ano também servem de sugestões de leitura para as férias assim como os títulos dos autores consultados. Confira:

Bruno Liberal – “Em 2014 li um livro que me afetou profundamente. “Sofia” (Iluminuras, 2014), do amigo Sidney Rocha. Peguei o livro fininho para matar o tempo durante uma viagem e, por diversas vezes, fechei e olhei para cima tentando controlar e processar a emoção despertada. E “Sofia” é uma ventania mesmo, um sentimento que invade como redemoinho no corpo. Um livro sensível e forte, que expõe esse universo fantástico da literatura de Sidney Rocha.” (Bruno Liberal é autor de “Olho morto amarelo”)

Beatriz Castanheira – “Este ano, a leitura de “Junco” (Iluminuras) me marcou bastante. Um dos principais nomes da arte contemporânea brasileira, o escritor Nuno Ramos teve este livro publicado em 2012. A inventividade de Nuno fala ao leitor, para além do texto escrito, nos 43 poemas em operação com 18 fotografias de troncos de madeira abandonados na praia e corpos de cães mortos na rua ou na beira da estrada. Na foto da capa, cachorro e árvore se apresentam em imagens sobrepostas, ao passo que, nas páginas internas, eles não se mostram tão próximos ao ponto de estarem colados um sobre o outro, mas dispostos lado a lado. O artista escreveu os poemas e fez as fotografias ao longo de quase 14 anos, sempre imaginando “as duas coisas juntas”. O último poema do livro utiliza versos de “A máquina do mundo”, de Carlos Drummond de Andrade.” (Beatriz Castanheira é autora de “Avião de Papel”)

Pablo Capistrano – “O livro que me marcou foi “Mente Espontânea” (Novo Século, 2013), uma coletânea de entrevistas com o poeta beat Allen Ginsberg. São entrevistas selecionadas do período que vai de 1958 a 1996. Incluindo aí o relato completo do testemunho que Ginsberg deu durante os julgamentos de Chicago nos anos sessenta. É espantoso o tom profético com que Ginsberg trata de temas ambientais, sociais e políticos. A gente percebe nitidamente uma antecipação de tendências e problemas atuais. As discussões giram em torno de poesia, política, sexualidade e religião. Recomendo não só para os que são apaixonados pela literatura beat.” (Pablo Capistrano é autor de “A Grande Pancada – Crônicas do tempo do Jazz)

Samarone Lima – “Escolher um só livro, no meio das montanhas que leio, é um grande desafio, mas destaco “Entre Moscas”, o livro de contos do Everardo Norões (Editora Confraria do Vento, 2014). É um livro denso, forte, que mostra um escritor no esplendor da sua escrita. Como somos da mesma casa editorial, recebi o livro e fiquei com ele na estante alguns meses. Quando comecei a ler, não parei mais. Não por acaso, ele foi o vencedor do prêmio Portugal Telecom de 2014, na categoria contos/crônicas. Um prêmio merecidíssimo, um reconhecimento”. (Samarone Lima é autor de “O aquário desenterrado”)

Wellington de Melo – “Uma leitura que me marcou este ano foi a do livro “Olho morto amarelo” (Cepe, 2014), vencedor do Prêmio Pernambuco de Literatura, de Bruno Liberal. É um livro de contos muito consistente, que trabalha o tema da perda e da solidão de maneira muito precisa e cruelmente humana – talvez aí resida a força da literatura do Bruno. Destaque para o último conto, “Juro por Deus que é um final feliz”, um verdadeiro soco no estômago e que pode parecer tetricamente familiar.” (Wellington de Melo é editor da Mariposa Cartonera e escritor, autor de “Estrangeiro no labirinto”)

Andreia Joana Silva – “O Papalagui!!! Voltei a lê-lo após uma questão colocada por um aluno quando falávamos de Descobrimentos. Perguntou-me inesperadamente (após a leitura da carta de descoberta do Brasil de Pero Vaz de Caminha): “E a visão do outro? A visão do índio em relação ao branco, europeu, colonizador?” Lembrei-me dessa obra, e achei que seria bom que eles lessem (e leram-na! Atenção: são alunos franceses universitários que aprendem português). No fim do semestre cada um fez uma exposição oral sobre um capítulo que mais lhe tinha tocado. Fiquei boquiaberta com o espírito crítico e de análise em relação à obra que tinham lido. De fato, “O Papalagui” mostra-nos, através de uma escrita que pode roçar o inocente, o naif, todo o mundo no qual estamos envoltos e ao qual nem prestamos atenção. Este livro obriga-nos a nos relermos a nós próprios, a colocarmo-nos novas questões e a analisarmos os nossos mundos interiores e exteriores. No meu caso foi uma releitura riquíssima. No caso dos meus alunos, uma primeira leitura que espero que vá gerar ainda muitos frutos”. (Andreia Joana Silva é editora na Cephisa Cartonera e professora de português (Leitora do Instituto Camões) na Universidade Jean Monnet em Saint-Étienne, na França. A mais recente edição de “O Papalagui” é de 2012, da Antigona, de Portugal)

 

Belinha leu 14 obras este ano Foto: Fábio Lucas

Belinha leu 14 obras este ano Foto: Fábio Lucas

O PRAZER DE LER COMEÇA CEDO – As novas gerações no Brasil estão desmentindo a previsão sombria de que os aparatos tecnológicos iriam acabar com os livros impressos. E curtem cada vez mais passar horas e horas com livros de centenas de páginas de histórias nas mãos. É o caso de Belinha, de 10 anos de idade. Isabella Gondim Coutinho Lustosa leu mais do que muita gente grande em 2014: foram 14 livros, bem mais do que a média no País, que é de quatro livros por ano.

Na lista de Belinha, só best-sellers: “O Teorema Katherine”, a saga “Percy Jackson”, a saga “Divergente”, “Maze Runner”, “Se eu ficar”, “A estrela que nunca vai se apagar” e “A menina que roubava livros”. Os pais dela, Alexandre e Stella, não escondem o orgulho, e dizem que o exemplo da filha convida-os a ler mais. “Gostei mais da saga Divergente e Maze Runner”, conta Belinha, pronta para bater o próprio recorde em 2015.

Organiza o Natal, por Carlos Drummond de Andrade

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Texto extraído do livro “Cadeira de Balanço”

Publicado no Correio do Estado

Carlos Drummond de Andrade, poeta brasileiro (Foto: Reprodução)

Carlos Drummond de Andrade, poeta brasileiro
(Foto: Reprodução)

Alguém observou que cada vez mais o ano se compõe de 10 meses; imperfeitamente embora, o resto é Natal. É possível que, com o tempo, essa divisão se inverta: 10 meses de Natal e 2 meses de ano vulgarmente dito. E não parece absurdo imaginar que, pelo desenvolvimento da linha, e pela melhoria do homem, o ano inteiro se converta em Natal, abolindo-se a era civil, com suas obrigações enfadonhas ou malignas. Será bom. Então nos amaremos e nos desejaremos felicidades ininterruptamente, de manhã à noite, de uma rua a outra, de continente a continente, de cortina de ferro à cortina de nylon — sem cortinas.

Governo e oposição, neutros, super e subdesenvolvidos, marcianos, bichos, plantas entrarão em regime de fraternidade. Os objetos se impregnarão de espírito natalino, e veremos o desenho animado, reino da crueldade, transposto para o reino do amor: a máquina de lavar roupa abraçada ao flamboyant, núpcias da flauta e do ovo, a betoneira com o sagüi ou com o vestido de baile. E o supra-realismo, justificado espiritualmente, será uma chave para o mundo.

Completado o ciclo histórico, os bens serão repartidos por si mesmos entre nossos irmãos, isto é, com todos os viventes e elementos da terra, água, ar e alma. Não haverá mais cartas de cobrança, de descompostura nem de suicídio. O correio só transportará correspondência gentil, de preferência postais de Chagall, em que noivos e burrinhos circulam na atmosfera, pastando flores; toda pintura, inclusive o borrão, estará a serviço do entendimento afetuoso. A crítica de arte se dissolverá jovialmente, a menos que prefira tomar a forma de um sininho cristalino, a badalar sem erudição nem pretensão, celebrando o Advento.

A poesia escrita se identificará com o perfume das moitas antes do amanhecer, despojando-se do uso do som. Para que livros? perguntará um anjo e, sorrindo, mostrará a terra impressa com as tintas do sol e das galáxias, aberta à maneira de um livro. A música permanecerá a mesma, tal qual Palestrina e Mozart a deixaram; equívocos e divertimentos musicais serão arquivados, sem humilhação para ninguém.

Com economia para os povos desaparecerão suavemente classes armadas e semi-armadas, repartições arrecadadoras, polícia e fiscais de toda espécie. Uma palavra será descoberta no dicionário: paz. O trabalho deixará de ser imposição para constituir o sentido natural da vida, sob a jurisdição desses incansáveis trabalhadores, que são os lírios do campo. Salário de cada um: a alegria que tiver merecido. Nem juntas de conciliação nem tribunais de justiça, pois tudo estará conciliado na ordem do amor.

Todo mundo se rirá do dinheiro e das arcas que o guardavam, e que passarão a depósito de doces, para visitas. Haverá dois jardins para cada habitante, um exterior, outro interior, comunicando-se por um atalho invisível. A morte não será procurada nem esquivada, e o homem compreenderá a existência da noite, como já compreendera a da manhã. O mundo será administrado exclusivamente pelas crianças, e elas farão o que bem entenderem das restantes instituições caducas, a Universidade inclusive. E será Natal para sempre.

Exposição mostra correspondência entre Carlos Drummond de Andrade e sua mãe

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Cartas do escritor para Julieta começam a ser exibidos nesta terça-feira, em BH. Os documentos serão mostrados ao público pela primeira vez

Carolina Braga, no Divirta-se
cartas de Carlos Drummond para sua mãeComo um garimpeiro, Marconi Drummond anda à caça de tudo que possa preservar a memória do primo ilustre, o poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). Depois de encontrar em Lavras, Sul de Minas, importante lote de cartas escritas pelo poeta, muitas delas endereçadas à mãe, Julieta, chegou a hora de o público ter contato com esse rico acervo, acrescido de novas descobertas. Será a oportunidade de conhecer as respostas dadas às cartas encaminhadas pelo poeta à mãe. Uma intimidade inédita que estará aberta à população a partir de terça-feira, na exposição QuasePoema – Cartas e outras escrituras drummondianas.

Há cerca de um mês, Marconi Drummond e Fabíola Moulin, responsáveis pela curadoria da mostra, começaram a organizá-la. Por uma curiosidade – ou instinto investigador –, eles foram para o Rio de Janeiro consultar dois acervos. A primeira parada foi na Fundação Casa Rui Barbosa, que, mesmo com inventário muito organizado, não foi produtiva. Já na segunda tentativa, no Instituto Moreira Salles, Marconi se deparou com um tesouro.

“Conseguimos casar algumas cartas do filho com algumas da mãe. Respostas a perguntas e até comentários sobre mensagens anteriores. É uma grande rede de correspondência afetiva entre mãe e filho”, diz. Será a primeira vez que 88 documentos e cartas escritas por Drummond serão apresentados ao público. Ao acervo do Memorial Carlos Drummond de Andrade se somam as 28 cartas assinadas por dona Julieta Augusta Drummond.

Será um encontro da afetiva poesia postal entre mãe e filho. Uma instalação vai projetar as cartas em mesas antigas. Os escritos em papel também estarão no local, assim como fotografias e outros documentos familiares. Na sala também haverá a exibição do documentário Consideração do poema, com Caetano Veloso, Fernanda Torres, Gregório Duvivier, Drica Moraes, Laerte, Chico Buarque e Marília Pêra, entre outros, recitando trechos da obra do poeta.

Carlos Drummond de Andrade saiu de Belo Horizonte em 1934 para trabalhar no Rio de Janeiro. Vinha com certa frequência visitar a família, mas a comunicação se dava sobretudo por via postal. Pelas cartas, o tom carinhoso era recíproco. “Minha boa mãe” era como ele iniciava a mensagem, por vezes assinada como Carlitos. Ela, por sua vez, respondia “Meu bom Carlos” e frequentemente terminava com “a bênção da tua mãe muito amiga de coração, Julieta”.

Como Marconi Drummond observa, mãe e filho quase nunca fazem referência a questões literárias. “Ele também não compartilha com ela sua vida emocional e de funcionário público”, conta. O que comentam tem mais a ver com as rotinas da vida em Itabira e no Rio de Janeiro, as mudanças trazidas pela guerra e assuntos de natureza prática.

Em uma das cartas, Julieta Drummond fala do início da atividade mineiradora em Itabira. “Ela escreve para o filho dizendo que a cidade estava vivendo um clima progressista e ela estava feliz com isso, mas atenta e receosa pela desconfiguração do cenário da infância dele”, comenta o curador. “É um Drummond visto por uma ótica absolutamente inédita. É um filho afetuoso na sua mais absoluta intimidade.”

Coleção preciosa

As cartas adquiridas pela Fundação Carlos Drummond de Andrade foram compradas em outubro do ano passado do jornalista e empresário Eduardo Cicarelli, de Lavras, que guardou os documentos durante 20 anos. Ele é colecionador de selos e foi graças ao hábito de comprar exemplares antigos que descobriu o acervo de cartas da família Drummond. O lote de documentos pertencia a Ita, a cunhada de Drummond, que, por sua vez, herdou as cartas da sogra, Julieta Augusta, mãe do poeta.

O lote tem 212 itens, entre cartas, fotografias, bilhetes, postais e telegramas. Estão datados entre 1915 e 1986. Quando chegou a Itabira, o material foi higienizado, separado em plásticos adequados e guardado em caixas. Segundo Marconi Drummond, por enquanto não há previsão de itinerância da mostra QuasePoema – Cartas e outras escrituras drummondianas. “Acho que deveria, pelo ineditismo desse encontro. Nem eles mesmos viram essas cartas juntas. É muito bonito promover essa aproximação poética entre mãe e filho”, conclui o curador.

QUASEPOEMA – CARTAS E OUTRAS ESCRITURAS DRUMMONDIANAS
Do dia 18 deste mês a 18 de janeiro de 2015. Casa Fiat de Cultura, Praça da Liberdade, 10, Funcionários, (31) 3289-8900. Terça a sexta-feira, das 10h às 21h; sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h. Entrada franca.

Os 10 melhores poemas de Manoel de Barros

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Carlos Willian Leite, na Revista Bula

Pedimos aos leitores e colaboradores — escritores, jornalistas, professores — que apontassem os poemas mais significativos de Manoel de Barros, um dos mais aclamados poetas contemporâneos brasileiros. Nascido em Cuiabá em 1916, Manoel de Barros estreou em 1937 com o livro “Poemas Concebidos sem Pecado”. Sua obra mais conhecida é o “Livro sobre Nada”, publicado em 1996.

Cronologicamente vinculado à Geração de 45, mas formalmente ao Modernismo brasileiro, Manoel de Barros criou um universo próprio — subvertendo a sintaxe e criando construções que não respeitam as normas da língua padrão —, marcado, sobretudo, por neologismos e sinestesias, sendo, inclusive, comparado a Guimarães Rosa.

Em 1986, o poeta Carlos Drummond de Andrade declarou que Manoel de Barros era o maior poeta brasileiro vivo. Antonio Houaiss, um dos mais importantes filólogos e críticos brasileiros escreveu: “A poesia de Manoel de Barros é de uma enorme racionalidade. Suas visões, oníricas num primeiro instante, logo se revelam muito reais, sem fugir a um substrato ético muito profundo. Tenho por sua obra a mais alta admiração e muito amor”. Os poemas publicados nesta seleção fazem parte do livro “Manoel de Barros — Poesia Completa Bandeira”, editora Leya. Por motivo de direitos autorais, apenas trechos dos poemas foram publicados.

O livro sobre nada

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu queria ser lido pelas pedras.
As palavras me escondem sem cuidado.
Aonde eu não estou as palavras me acham.
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada. Só se compara aos santos. Os santos querem ser os vermes de Deus.
Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
Por pudor sou impuro.
O branco me corrompe.
Não gosto de palavra acostumada.
A minha diferença é sempre menos.
Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
Não preciso do fim para chegar.
Do lugar onde estou já fui embora.

O apanhador de desperdícios

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

Retrato do artista quando coisa

A maior riqueza
do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.

O fazedor de amanhecer

Sou leso em tratagens com máquina.
Tenho desapetite para inventar coisas prestáveis.
Em toda a minha vida só engenhei
3 máquinas
Como sejam:
Uma pequena manivela para pegar no sono.
Um fazedor de amanhecer
para usamentos de poetas
E um platinado de mandioca para o
fordeco de meu irmão.
Cheguei de ganhar um prêmio das indústrias
automobilísticas pelo Platinado de Mandioca.
Fui aclamado de idiota pela maioria
das autoridades na entrega do prêmio.
Pelo que fiquei um tanto soberbo.
E a glória entronizou-se para sempre
em minha existência.

Tratado geral das grandezas do ínfimo

A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.

Prefácio

Assim é que elas foram feitas (todas as coisas) —
sem nome.
Depois é que veio a harpa e a fêmea em pé.
Insetos errados de cor caíam no mar.
A voz se estendeu na direção da boca.
Caranguejos apertavam mangues.
Vendo que havia na terra
Dependimentos demais
E tarefas muitas —
Os homens começaram a roer unhas.
Ficou certo pois não
Que as moscas iriam iluminar
O silêncio das coisas anônimas.
Porém, vendo o Homem
Que as moscas não davam conta de iluminar o
Silêncio das coisas anônimas —
Passaram essa tarefa para os poetas.

Os deslimites da palavra

Ando muito completo de vazios.
Meu órgão de morrer me predomina.
Estou sem eternidades.
Não posso mais saber quando amanheço ontem.
Está rengo de mim o amanhecer.
Ouço o tamanho oblíquo de uma folha.
Atrás do ocaso fervem os insetos.
Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu
destino.
Essas coisas me mudam para cisco.
A minha independência tem algemas

Aprendimentos

O filósofo Kierkegaard me ensinou que cultura
é o caminho que o homem percorre para se conhecer.
Sócrates fez o seu caminho de cultura e ao fim
falou que só sabia que não sabia de nada.

Não tinha as certezas científicas. Mas que aprendera coisas
di-menor com a natureza. Aprendeu que as folhas
das árvores servem para nos ensinar a cair sem
alardes. Disse que fosse ele caracol vegetado
sobre pedras, ele iria gostar. Iria certamente
aprender o idioma que as rãs falam com as águas
e ia conversar com as rãs.

E gostasse mais de ensinar que a exuberância maior está nos insetos
do que nas paisagens. Seu rosto tinha um lado de
ave. Por isso ele podia conhecer todos os pássaros
do mundo pelo coração de seus cantos. Estudara
nos livros demais. Porém aprendia melhor no ver,
no ouvir, no pegar, no provar e no cheirar.

Chegou por vezes de alcançar o sotaque das origens.
Se admirava de como um grilo sozinho, um só pequeno
grilo, podia desmontar os silêncios de uma noite!
Eu vivi antigamente com Sócrates, Platão, Aristóteles —
esse pessoal.

Eles falavam nas aulas: Quem se aproxima das origens se renova.
Píndaro falava pra mim que usava todos os fósseis linguísticos que
achava para renovar sua poesia. Os mestres pregavam
que o fascínio poético vem das raízes da fala.

Sócrates falava que as expressões mais eróticas
são donzelas. E que a Beleza se explica melhor
por não haver razão nenhuma nela. O que mais eu sei
sobre Sócrates é que ele viveu uma ascese de mosca.

O menino que carregava água na peneira

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.

A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.

A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.

O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.

A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.

Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.

Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.

No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.

O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.

Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.

A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.

Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!

Uma didática da invenção

I

Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:
a) Que o esplendor da manhã não se abre com faca
b) O modo como as violetas preparam o dia para morrer
c) Por que é que as borboletas de tarjas vermelhas têm devoção por túmulos
d) Se o homem que toca de tarde sua existência num fagote, tem salvação
e) Que um rio que flui entre 2 jacintos carrega mais ternura que um rio que flui entre 2 lagartos
f) Como pegar na voz de um peixe
g) Qual o lado da noite que umedece primeiro.
etc.
etc.
etc.
Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios.

II

Desinventar objetos. O pente, por exemplo.
Dar ao pente funções de não pentear. Até que
ele fique à disposição de ser uma begônia. Ou
uma gravanha.
Usar algumas palavras que ainda não tenham
idioma.

III

Repetir repetir — até ficar diferente.
Repetir é um dom do estilo.

IV

No Tratado das Grandezas do Ínfimo estava
escrito:

Poesia é quando a tarde está competente para dálias.
É quando
Ao lado de um pardal o dia dorme antes.
Quando o homem faz sua primeira lagartixa.
É quando um trevo assume a noite
E um sapo engole as auroras.

V

Formigas carregadeiras entram em casa de bunda.

VI

As coisas que não têm nome são mais pronunciadas
por crianças.

VII

No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá
onde a criança diz: Eu escuto a cor dos
passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um
verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz
de fazer nascimentos —
O verbo tem que pegar delírio.

VIII

Um girassol se apropriou de Deus: foi em
Van Gogh.

IX

Para entrar em estado de árvore é preciso
partir de um torpor animal de lagarto às
3 horas da tarde, no mês de agosto.
Em 2 anos a inércia e o mato vão crescer
em nossa boca.
Sofreremos alguma decomposição lírica até
o mato sair na voz .
Hoje eu desenho o cheiro das árvores.

X

Não tem altura o silêncio das pedras.

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