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Negra, ex-catadora e “favelada”: Você conhece a escritora mineira lida em 14 línguas?

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Carolina Maria de Jesus, a “escritora favelada” – Crédito: Arquivo público do Estado de São Paulo/Produção original dos fotógrafos do “Última Hora”

Carolina Maria de Jesus, a “escritora favelada” – Crédito: Arquivo público do Estado de São Paulo/Produção original dos fotógrafos do “Última Hora”

 

Carolina Maria de Jesus foi cozinheira, empregada doméstica e passou fome. Com dois anos de estudo, escreveu sobre o cotidiano das favelas em contos, poesias e romances

Publicado na Brasileiros

Não é todo dia que uma escritora vende 1 milhão de exemplares só no Brasil e é traduzida para 14 línguas. Também não é sempre que se é lido nos Estados Unidos meio século depois. Mesmo assim, não é todo mundo que conhece esse fenômeno literário, a brasileiríssima Carolina Maria de Jesus, a “escritora favelada”.

O termo, de dar arrepios, fez sucesso na década de 1960, quando uma moradora da favela do Canindé, zona norte de São Paulo, ganhou os holofotes. Carolina já tinha sido doméstica e auxiliar de cozinha no interior paulista quando passou a catar lixo. Era do lixão que recolhia cadernos velhos em que registrava o cotidiano da comunidade em que vivia.

Nascida em Sacramento (MG) em 1914, ela se mudou para a capital paulista em 1947, depois de passar por Franca – no interior paulista –, época em que nasciam as primeiras favelas na cidade. Estudou pouco. Frequentou o Colégio Allan Kardec entre 1923 e 1924. Mesmo assim, reunia em casa mais de 20 cadernos com testemunhos sobre o cotidiano da comunidade. Um deles rendeu seu bestseller, Quarto de Despejo, publicado em 1960. Na época, foram três edições, 100 mil exemplares vendidos, tradução para 14 idiomas e vendas em mais de 40 países. Hoje, contabiliza-se 1 milhão de exemplares vendidos em todo o Brasil.

Carolina depois da fama – Crédito: Arquivo público do Estado de São Paulo/Produção original dos fotógrafos do “Última Hora”

Carolina depois da fama – Crédito: Arquivo público do Estado de São Paulo/Produção original dos fotógrafos do “Última Hora”

 

Carolina era uma mulher briguenta, que ameaçava os vizinhos prometendo escrever tudo em um livro. Os cadernos continham contos, poesias e romances. Um deles foi publicado em 1958 pelo grupo Folha de S.Paulo e, em 1959, pela revista O Cruzeiro.

As descrições versavam sobre o cotidiano na comunidade: como acordar, buscar água, fazer o café. “Ela conta que tinha um lixão perto da favela, onde ela ia catar coisas. Lá, ela soube que um menino, chamado Dinho, tinha encontrado um pedaço de carne estragada, comeu e morreu. Ela conta essa história sem comentário, praticamente. Isso tem uma força extraordinária”, lembra Audálio Dantas, jornalista que descobriu a escritora em 1958, em entrevista para a EBC.

Em um trecho de um dos seus livros, a autora escreve sobre passar fome. “Que efeito surpreendente faz a comida no nosso organismo! Eu que antes de comer via o céu, as árvores, as aves, tudo amarelo, depois que comi, tudo normalizou-se aos meus olhos.” Para Audálio, “um escritor pode ficcionar isso, mas ela estava sentindo”.

Carolina se considerava uma escritora mesmo antes da primeira publicação. O sucesso do primeiro livro, no entanto, não se repetiu nos títulos seguintes. A Casa de Alvenaria (1961) vendeu 10 mil exemplares.

Artista de sangue, tinha pretensões de se aventurar por diferentes ramos artísticos, como a música. Em 1961, lançou um disco com o mesmo título de seu primeiro livro: 12 canções de sua autoria, entre elas O Pobre e o Rico. “Rico faz guerra, pobre não sabe por quê. Pobre vai na guerra, tem que morrer. Pobre só pensa no arroz e no feijão. Pobre não envolve nos negócios da nação”, diz um trecho.

Como muitos artistas de hoje, a escritora acabou consumida como curiosidade e depois descartada pela classe média. “Costumo dizer que ela foi um objeto de consumo. Uma negra, favelada, semianalfabeta e que muita gente achava que era impossível que alguém daquela condição escrevesse aquele livro”, acredita o jornalista.

Carolina de Jesus publicou ainda Pedaços de Fome e Provérbios, os dois em 1963, custeados por ela. Quando morreu, em 1977, foram publicados o Diário de Bitita, com recordações da infância e da juventude; Um Brasil para Brasileiros (1982); Meu Estranho Diário; e Antologia Pessoal (1996).

Se no Brasil ela foi quase esquecida, Carolina Maria de Jesus é muito lida nas escolas norte-americanas até os dias de hoje.

Carolina Maria de Jesus em sua casa – Crédito: Arquivo público do Estado de São Paulo/Produção original dos fotógrafos do “Última Hora”

Carolina Maria de Jesus em sua casa – Crédito: Arquivo público do Estado de São Paulo/Produção original dos fotógrafos do “Última Hora”

Autora Carolina Maria de Jesus é celebrada em feiras e relançamentos

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Carolina Maria de Jesus em 1958 na favela do Canindé, às margens do rio Tietê, onde viveu até lançar 'Quarto de Despejo' (foto: Divulgação/Audalio Dantas)

Carolina Maria de Jesus em 1958 na favela do Canindé, às margens do rio Tietê, onde viveu até lançar ‘Quarto de Despejo’ (foto: Divulgação/Audalio Dantas)

Karla Monteiro, na Folha de S.Paulo

Aos 60 anos, a professora Vera Eunice de Jesus Lima está descobrindo, “estupefata”, como ela gosta de dizer, a “força e a poesia” de sua mãe, Carolina Maria de Jesus (1914-1977).

Até então, Vera se via apenas como personagem de uma fábula de miséria e glória, que começa em 1958, na favela do Canindé, nos arredores do estádio da Portuguesa, em São Paulo, e termina silenciosa em um sítio em Parelheiros, zona sul da cidade.

“Não tinha dimensão da importância dela. Só agora, com este rebuliço, é que fui reler tudo o que ela escreveu. É como se eu estivesse conhecendo a minha mãe agora”, diz, sentada na sala do apartamento de dois quartos, em condomínio de Interlagos.

O “rebuliço” tem razão de ser: uma série de eventos marcam o centenário da escritora negra, favelada, semianalfabeta, nome acidental e revolucionário da literatura brasileira, que desapareceu das estantes das livrarias.

Carolina Maria de Jesus será a homenageada da edição deste ano da Flink Sampa, festival de literatura negra que acontece neste sábado (22) e domingo (23), no Memorial da América Latina. Haverá o relançamento de dois de seus livros: “Quarto de Despejo” (Ática, 200 págs., R$ 34,90) e “Diário de Bitita” (Sesi-SP, 216 págs., preço a definir).

Ela é também a homenageada da Balada Literária, com eventos que vão até domingo em SP. E no Rio, foi a estrela da Flupp (Festa Literária Internacional das Periferias), na semana passada.

Na segunda (17), foi lançado, na Câmara Municipal de SP, o livro “Onde Estaes Felicidade?”, com dois contos inéditos e apoio do MinC.

“Para o grande público, é um resgate de Carolina”, diz Uelinton Farias Alves, professor de literatura brasileira da Universidade Zumbi dos Palmares e curador da Flink.

“Hoje há muitos autores de periferia, como o Paulo Lins. Ela é a precursora. Abriu um precedente na literatura”.

CONFIRA DESTAQUES DA FLINK SAMPA

Sábado (22)

14h – Mesa Carolina Maria de Jesus, com Audálio Dantas, Vera Eunice e Elzira Perpétua

16h – Conversa com as misses negras Deise Nunes, Yitayish Ayenew (Israel) e Leila Lopes (Angola) e Paulo Borges

Domingo (23)

14h – Lançamento do livro “O Leito do Silêncio”, da escritora angolana Isabel Ferreira

16h – Palestra com a ativista Graça Machel, viúva de Nelson Mandela, em defesa das mulheres e crianças

FLINKSAMPA
QUANDO sab. (22) e dom. (23), das 9h às 19h
ONDE Memorial da América Latina, av. Auro Soares de Moura Andrade, 664, Barra Funda, tel. (11) 3823-4600
QUANTO grátis
CLASSIFICAÇÃO livre

 

Quarto de despejo – Diário de uma favelada: a escrita como válvula de escape

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Carolina Maria de Jesus, moradora da antiga favela do Canindé, em São Paulo, relatou em seu diário o cotidiano miserável de uma mulher negra, pobre, mãe, escritora e favelada.

Carolina Maria de Jesus

Carolina Maria de Jesus

Estela Santos, no Homo Literatus

Introdução

Alguns escritores já escreveram sobre o cotidiano miserável das favelas, mas a grande maioria o fez de uma perspectiva de fora, isto é, sem viver, de fato em uma favela. Em Quarto de despejo temos uma perspectiva diferente: quem escreve é alguém que viveu na favela: a perspectiva é de Carolina Maria de Jesus, moradora da, agora, antiga favela do Canindé de São Paulo¹, uma catadora de papel e de outras sucatas, uma mulher negra, pobre, mãe, escritora e favelada.

O diário foi escrito na década de 1950 e conta a dura realidade dos favelados de Canindé e dos seus costumes. Trata-se de um diário relata e denuncia a violência, miséria e fome – bem como a dificuldade para se ter o que comer.

E como Carolina foi descoberta? O jornalista Audálio Dantas foi encarregado de escrever uma matéria sobre uma favela que vinha se expandindo próxima a beira do Rio Tietê, no bairro do Canindé. Em meio a todo rebuliço da favela, Dantas conheceu Carolina e percebeu que ela tinha muito a dizer, e logo desistiu de escrever a matéria.

A negra Carolina escreveu a (sua) história da favela em 20 cadernos encardidos, cadernos que ela encontrou em meio às suas andanças em busca de sustento para seus três filhos: João José, José Carlos e Vera Eunice. Como o próprio jornalista declara: “repórter nenhum, escritor nenhum poderia escrever melhor aquela história – a visão de dentro da favela”.

O livro conserva a escrita de Carolina, sua sintaxe, seu discurso. Audálio Dantas apenas alterou algumas vírgulas e palavras que seriam incompreensíveis aos leitores, também cortou excesso de repetições de certas situações, assim a leitura do diário não se torna exaustiva.

Quarto de despejo é atemporal. Os anos se passaram, mas a situação de quem ainda vive nas favelas e na miséria ainda é muito semelhante à situação de Carolina décadas atrás. Além disso, o livro foi traduzido para 13 línguas, sendo referência para os estudos sociais e culturais brasileiros.

O diário de uma favelada

Primeiramente, pensemos no diário, ou melhor, no que é um diário. Carolina escreveu um diário íntimo, que não é qualquer diário: é o diário de uma favelada, o diário de quem morou em uma das favelas assoladas pela miséria e violência na década de 1950, a Canindé.

O diário íntimo tem como característica central a escrita do eu. Essa escrita marca uma identidade, o que nos remete a pensar em: Quem é a pessoa se escreve? Quem é a pessoa que fala de si? A identidade da narradora, que é Carolina, é basicamente esta: mulher, negra, mãe – que cria seus filhos sozinha nos anos 1950 e 1960 –, escritora, pobre e favelada.

Este diário tem como característica forte a autobiografia “real”. Por que este real entre aspas? Porque não existe uma autobiografia sem elementos ficcionais. Nós não conseguimos representar o real pela escrita sem ficção, uma vez que nem mesmo temos acesso a todo real, de fato (um exemplo de autobiografia “real” é o romance São Bernardo, de Graciliano Ramos, a diferença está em não ser exatamente Paulo Honório, o personagem principal, o autor da história, sua história ganha vida pelas mãos do escritor Graciliano Ramos).

De forma resumida, o diário de Carolina é uma espécie de literatura-verdade, que relata a cruel e triste vida na favela. Sua linguagem é ao mesmo tempo simples e rebuscada: simples pela forma que escreveu algumas palavras, aproximando-se da linguagem oral (como “iducada”) e rebuscada pelas palavras altamente cultas que utiliza (como “funestas”). Seu diário comove leitores devido a sensibilidade como conta os acontecimentos durante os anos que morou em Canindé. Percebemos que tudo que é narrado, Carolina sentiu, viu, vivenciou.

Carolina Maria de Jesus escreveu o diário entre 15 de julho de 1955 à 01 de janeiro de 1960. Não escreveu todos os dias, às vezes passava cerca de três a dez dias sem escrever. Percebemos, porém, que na maioria das vezes era porque estava doente e sentia-se fraca.

A formação educacional e escolar de Carolina

Carolina se mostra uma mulher educada e que se preocupa com a educação de seus filhos; embora não tenha tido estudado muito, relata que se preocupou em formar seu caráter, ser uma pessoa de bem. Através do diário, que possui inúmeras reflexões, fica evidente que ela tem uma imensa preocupação com a sociedade e a política.

Uma autodidata: aprendeu a ler e escrever com os cadernos, revistas e jornais que encontrava pelas ruas. Conforme conta: “Tenho apenas dois anos de grupo escolar” (JESUS, 2007, p.16). Sua mãe sonhava em vê-la professora, mas o destino e a vida de miséria não permitiram.

A escritora dava muito valor à formação escolar e preocupava-se, sobretudo com a formação de seus filhos. Mesmo tendo imenso medo da violência da favela, mandava-os à escola, fazia questão de que eles estudassem.

Carolina e seu Diário

Carolina e seu Diário

A fome e a cor da fome

Como citado anteriormente, Carolina coletava papelão e sucatas nas ruas de São Paulo. Esta era a forma como sustentava seus filhos. No entanto, o dinheiro nem sempre era suficiente, muitas vezes não havia nada para comer e ela e os filhos iam dormir com fome.

A fome permeia todo o diário. Carolina mostra a preocupação que tem em alimentar bem seus filhos, todo dinheiro é utilizado para comprar alimentos (ou sapatos para as crianças, pois se preocupava muito com os filhos e sentia pena ao vê-los descalços). O diário nos mostra a escritora contando dinheiro quase todos os dias no intuído de comprar alimentos: quando conseguia comprar arroz, feijão e carne, conforme conta, era um dia de festa, via a felicidade estampada no rosto de cada filho.

Também pegava verduras e legumes, que eram descartados nas feiras, fábricas e mercados. E quando ela e os filhos não tinham nada pra comer e estavam passando fome, comiam alimentos que encontravam no lixo. Às vezes Carolina também pegava ossos em um frigorífico e com eles fazia uma sopa para as crianças.

Carolina trabalhava demais e mesmo assim ainda não dava conta de comprar comida; muitas vezes passava mal, tinha tonturas por causa da fome. Declara que a tontura da fome é pior que a do álcool: “A tontura do álcool nos impede de cantar. Mas a da fome nos faz tremer. Percebi que é horrível ter só ar dentro do estômago” (JESUS, 2007, p. 45).

Depois de pegar tudo que encontrou pelas ruas para vender, Carolina ganhou algum dinheiro e resolveu “tomar uma media e comprar um pão”, em seguida fala sobre a cor amarela da fome:

“Que efeito surpreendente faz a comida no nosso organismo! Eu que antes de comer via o céu, as árvores, as aves, tudo amarelo, depois que comi, tudo normalizou-se aos meus olhos.

… A comida no estômago é como o combustível nas maquinas. Passei a trabalhar mais depressa. O meu corpo deixou de pesar. Comecei a andar mais depressa. Eu tinha impressão que eu deslisava no espaço. Comecei a sorrir como se estivesse presenciando um lindo espetáculo. E haverá espetáculo mais lindo do que ter o que comer? Parece que eu estava comendo pela primeira vez na minha vida” (JESUS, 2007, p.45-46).

A pobre Carolina demonstra nervosismo em vários dias narrados no diário. O(s) motivo(s) era(m) o fato de não ter dinheiro para comprar um pouco de arroz sequer: o medo da fome, o medo da enfermidade e o medo de morrer. Ficava ainda mais nervosa quando o fim de semana chegava e ficaria com os filhos em casa sem ter o que comer o dia inteiro: “Deixei o leito furiosa. Com vontade de quebrar e destruir tudo. Porque eu tinha só feijão e sal. E amanhã é domingo” (JESUS, 2007, p 108).

A favela: violência e alcoolismo

A favela do Canindé, como a própria Carolina relata, é extremamente violenta: homens batem em suas mulheres que, às vezes, saem correndo nuas de seus barracos, o que, para os favelados, é um espetáculo e não um absurdo; mulheres brigam por inúmeros motivos, inclusive por coisas banais; homens brigam com vizinhos também por inúmeros motivos; homens desafiam crianças. Tudo é motivo de briga.

A violência é muitas vezes causada pelo álcool. Carolina não bebe, diz que beber é um gasto desnecessário, que o vício no álcool gera violência e que prefere gastar seu dinheiro, conseguido com tanto esforço, comprando alimentos para seus filhos. Pais e mães bebiam na favela, o que acabava por causar mal aos seus filhos diretamente e indiretamente. Veja este relato:

“Assustei quando ouvi meus filhos gritar. Conheci a voz de Vera. Vim ver o que havia. Era Joãozinho, filho da Deolinda, que estava com um chicote na mão e atirando pedra nas crianças. Corri e arrebatei-lhe o chicote das mãos. Senti o cheiro de alcool. Pensei: ele está bêbado porque ele nunca fez isto. Um menino de nove anos. O padrasto bebe, a mãe bebe e a avó bebe. E ele é quem vai comprar pinga. E vem bebendo pelo caminho.

Quando chega, a mãe pergunta admirada:

— Só isto? Como os negociantes são ladrões!” (JESUS, 2007, p.109)

Como podemos observar no trecho acima, um menino de 9 anos, já é influenciado pelo costume de seus familiares, isto é, desde cedo bebe pinga e já pratica atos de violência, algo extremamente recorrente na favela, e ninguém se dá conta (ou não se importa), a não ser ela, Carolina. Esta costumava sempre separar brigas na favela ou chamar a polícia, e por essa razão era chamada de intrometida pelos vizinhos. Ela detestava violência e não queria aquelas cenas violentas na favela, cenas que as crianças viam e aplaudiam. Contudo, a violência em Canindé era pública, uma espécie de espetáculo ao ar livre que todos paravam pra assistir.

Relacionamentos amorosos

A moradora do Canindé dizia que não queria se casar, que preferia criar seus filhos sozinha, que não precisava de homem para criá-los. Além disso, fazia uma comparação com as mulheres da favela que apanhavam de seus homens/maridos: do quê adiantava não ser sozinha e apanhar de um homem (principalmente quando bebem)?

Durante o período do diário, passam pela vida da escritora dois homens: Manoel e Raimundo. Manoel um homem distinto, trabalhador e que insiste em casar com ela. Raimundo, um cigano, belo e sedutor. Mas Carolina não fica com nenhum dos dois, tem alguns envolvimentos, nada além. Sempre quis ficar sozinha, não queria um homem na casa em que vivia com seus filhos.

Questões políticas e sociais

A escritora sempre lia revistas e jornais, procurava sempre estar a par das questões políticas e sociais do país. Lembrando que em 1950 vivia-se no governo Juscelino Kubitschek (1955-1960), época do progresso, da expansão do país, período do “50 anos em 5”. Nesta época, Brasília era construída, o símbolo do desenvolvimento do Brasil, que representava a ideologia da época. E realmente foi um período de desenvolvimento no que fiz respeito a infraestrutura do país: grandes obras foram construídas; avenidas foram alargadas; pontes foram construídas; túneis foram feitos – tudo isto aumentou ainda mais a circulação de automóveis.

Em sua narrativa, Carolina dá um tom de sensibilidade ética no que diz respeito à política. Falava das condições de vida das pessoas pobres, falava da miséria, da fome, da falta de educação e instrução, da divisão de classes, exclusão social e ideologia da época. Carolina comparava a cidade como uma espécie de sala de visitas e favela, por sua vez, era o quarto de despejo:

“… As oito e meia da noite eu ja estava na favela respirando o odor dos excrementos que mescla com o barro podre. Quando estou na cidade tenho a impressão que estou na sala de visita com seus lustres de cristais, seus tapetes de viludos, almofadas de sitim. E quando estou na favela tenha a impressão que sou um objeto fora do uso, digno de estar num quarto de despejo” (JESUS, 2007, p.38).

Se de um lado o país crescia, sobretudo a cidade de São Paulo, por outro mais pessoas iam para os quartos de despejo, repletos de miséria e violência. O motivo é: o governo e as grandes empresas, visando o progresso e o lucro, tomavam conta das terras onde havia as favelas, o que gerava ainda mais despejos, ainda mais exclusão social.

Breve conclusão (ou: por que Carolina escrevia todos quase todos os dias, afinal?)

1Como consta no título deste modesto ensaio, em Quarto de despejo a escrita é uma “válvula de escape”. Uma forma de fuga da realidade. E qual seria esta realidade? A realidade vivida por Carolina é permeada pela miséria, pela fome, pela violência, pela tristeza e por poucos momentos de felicidade.

Em entrevista, a escritora Carolina Maria de Jesus conta o que a motivava escrever:

“Quando eu não tinha nada o que comer, em vez de xingar, eu escrevia. Tem pessoas que, quando estão nervosas, xingam ou pensam na morte como solução. Eu escrevia o meu diário” (JESUS, 2007, p. 195).

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¹ Em 1960, Canindé foi extinta para a construção da Marginal do Tietê.

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Dicas musicais:

Uma música dos anos 50, época em que se passa parte do Diário: Saudosa Maloca, de Adoniram Barbosa.

Ainda sobre a fome: Ronco da Cuíca, de João Bosco.

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Referências

BENEVENUTO, Silvana José. Quarto de despejo: A escrita como arma e conforto à fome. Revista online do Grupo de Pesquisa e Estudos em Cinema e Literatura. Disponível em: <http://www2.marilia.unesp.br/revistas/index.php/baleianarede/article/viewFile/1359/1184> Acesso em: 29 de set. 2014.

JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo: Diário de uma favelada. 9ª ed. São Paulo: Editora Ática, 2007, (Sinal Aberto).

A literatura da mulher negra

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Marina da Silva Santos, no Blogueiras Negras

Particularmente, eu, mulher e negra – e que, eventualmente me considero escritora, anônima, mas ainda assim escritora – conheço pouco de literatura feminina, quem dirá feminina e negra (aceito sugestões!).

Há pouco comecei a ler “Quarto de despejo – Diário de uma Favelada”, da maravilhosa Carolina Maria de Jesus. Me apaixonei por suas palavras… Portanto, esse texto segue com suas bases em cima da favelada que se letrou só, catando papel no lixo na década de 50, criando uma literatura própria e extremamente pessoal, que escrevia todos os dias pra mostrar a realidade da favela. Quero ressaltar que, tão pessoal quanto o diário de Maria Carolina, o meu texto também o é.

O livro abre portas para um contingente gigantesco de questões que permeiam e embasam a discussão sobre etnias, gêneros, divisões de classes… Mas o que quero propor de fato é uma reflexão pensada a partir de uma única questão: o que é uma literatura feminina e negra? Venho pensando nisso e sinto que é mais uma das formas de lutar, diariamente por uma identidade excepcionalmente deturpada, a de ser mulher e ser negra.

Há um imenso arsenal de livros conhecidíssimos sobre negros e não propriamente escritos por negros. E Quarto de Despejo, pode ser entendido como um marco (pouco conhecido), por trazer maravilhosamente a ideia de uma cultura negra existente e ativa, escrita por uma pessoa que vive na pele a condição de o ser. Carolina se demonstrava muito segura de si em relação à sua cultura e etnia bem como ao seu sexo, percebendo que poderia viver como quizesse (algo que em sua época ainda era muito contestado), mesmo que dentro das limitações impostas por sua condição social .

A nossa autora sabe que para cuidar de seus filhos, por exemplo, pode o fazer sozinha sem sucumbir aos preconceitos que recebe por conta de suas decisões. Assim, percebo na escrita da Carolina uma busca por uma identidade própria num período onde o “ser negro” é ainda tido como inferior ao mesmo tempo em que, em todos os momentos, ressalta sua etnia com orgulho.

“…Eu escrevia peças e apresentava aos diretores de circos. Eles me respondia:
– É pena você ser preta.

Esquecendo eles que eu adoro a minha pele negra, e o meu cabelo rústico. Eu até acho o cabelo de negro mais iducado do que o cabelo de branco. Porque o cabelo de preto, onde põe, fica. É obediente. E o cabelo de branco, é só dar um movimento na cabeça ele já sai do lugar. É indisciplinado. Se é que existe reincarnações, eu quero voltar sempre preta…Um dia, um branco me disse:
– Se os pretos tivessem chegado ao mundo depois dos brancos, aí os brancos podiam protestar com razão. Mas, nem o branco nem o preto conhece a sua origem.

O branco é o que diz que é superior. Mas que superioridade apresenta o branco? Se o negro bebe pinga, o branco bebe. A enferminade que atinge o preto, atinge o branco. Se o branco sente fome, o negro também. A natureza não seleciona ninguém.” Carolina Maria de Jesus

O curioso no livro como um todo é a ferrenha crítica social que esta mulher emprega à sociedade em que vive, onde lembra-se sempre da condição em que o “preto” se encontra, bem como a questão pessoal de ter optado por não ter marido e cuidar de seus três filhos sem ajuda externa. São situações que se pensadas atualmente, se renovam e se impõem diante de inúmeras de nós. A sensibilidade que ela cria em suas narrações e descrições faz com que tenhamos o seu universo percebido em nossas vidas. Dessas percepções tão sutis dela, tiro as minhas próprias.

Acredito fielmente no poder da literatura. E acredito que a luta negra e feminista está muito bem encaminhada, pois é cada vez mais conhecida e propagada (embora, muito se conteste sobre nós e nossos direitos, seja o de recebermos cotas, abortar, ir e vir sem sofrer com humilhações…). Sinto que uniar literatura à busca por ideais é um meio tão tranformador que pode gerar fins que antes talvez nem fossem cogitados.

Carolina Maria de Jesus percebia isso e, todos os dias em sua lida diária para colocar comida dentro de sua casa, não se cansava nunca de escrever. Sinto que nós, mulheres e negras, com nossos poemas, nossas palavras, nossos manifestos pessoais, temos muito a dizer. Vejo que nossa literatura que exalta o que somos e reafirma de onde viemos e o porque do nosso orgulho, precisa existir, para mostrar não só o poder da palavra, mas o poder do existir pelo que somos.

Para celebrar a autora, recomendo o video de nando reis cantando Negra Livre.

dica do Tom Fernandes

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