Contando e Cantando (Volume 2)

Posts tagged Carolina Munhóz

Eles estão redefinindo a literatura fantástica nacional

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Os escritores André Vianco, Raphael Draccon, Carolina Munhóz e Eduardo Spohr.

 

Thomas Schulze, no Play Replay

Era uma vez um grupo de autores que, armados apenas com sua paixão pela literatura e vontade de cativar a imaginação de milhares de leitores, redefiniram o mercado nacional e trouxeram a literatura fantástica para os holofotes. Escritores como André Vianco, Raphael Draccon, Carolina Munhóz, Bárbara Morais e Felipe Castilho, nomes que hoje dividem as prateleiras de todo o país com fenômenos internacionais.

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Aqueles mesmos leitores que, sedentos pelas novas aventuras de Harry Potter, Katniss Evenrdeen, Percy Jackson e Tyrion Lannister, lotavam as livrarias e mega stores do país em busca de uma nova dose de aventuras e emoção, hoje voltam suas atenções para livros produzidos em território nacional. Dragões, hobbits, leões falantes e criaturas mitológicas já se sentem em casa dividindo espaço com criaturas do folclore brasileiro. Westeros faz fronteira com São Paulo tanto quanto a entrada secreta para Hogwarts fica logo ali, perdidinha no metrô de Copacabana.

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Afinal, há mais para se curtir por aí além dos clássicos de J.R.R. Tolkien e C.S. Lewis. Como brinca o best seller André Vianco, “nosso folclore é riquíssimo, extrapola o Saci, a Cuca, existem tantas criaturas e tantas histórias. Elfo e fada já deu, né? (risos)”. Uma visão compartilhada por Felipe Castilho, autor de Ouro, Fogo e Megabytes: “Grande parte dos leitores torcem o nariz quando ouvem/leem a palavra ‘folclore’”, lamenta. “Mas acabam desconstruindo a visão antiga com poucas páginas de leitura. Eles sabem identificar o que é bom para eles, e não deixam preconceitos impedirem a leitura de um livro bacana para eles. Mas já ouvi uns absurdos vindo do povo da área, e isso acaba minando a vontade de outros autores se arriscarem nisso. Na real, não tem nada de diferente de escrever sobre cavalos alados e trolls e bruxas e dragões. Histórias podem ser boas ou ruins com a cultura de qualquer lugar. Eu tento fazer a minha parte enriquecendo a daqui.”

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CONTANDO HISTÓRIAS

“Um livro salvou a minha vida.” Revela a autora Carolina Munhóz. “Hoje, se uma palavra de meus livros puder tocar a vida de uma pessoa, já sinto que estou cumprindo a minha missão”. A jornada de um escritor não poderia ser mais nobre, e felizmente, nunca houve tantos talentos dispostos a elaborar grandes histórias, assim como nunca se consumiu tanta literatura fantástica, tanto em versão digital no seu tablet, computador ou smartphone, como no bom e velho material impresso, aquele formato charmoso que tanto gostamos de ostentar em nossas estantes.

Os números, no entanto, ainda estão um tanto aquém do ideal. Não só no universo da literatura, mas também em outras esferas culturais, como o teatro, cinema e musicais nacionais. De acordo com a Federação de Comércio do Estado do Rio de Janeiro, sete em cada dez brasileiros não leram um livro sequer no ano passado. Um dado quase tão preocupante quanto ainda termos 13 milhões de analfabetos pelas ruas do Brasil.

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Para complicar ainda mais a situação, nem sempre as lojas estão dispostas a dar a devida atenção aos lançamentos de menor repercussão, insistindo em um preconceito que jamais deveria ter existido, mas que hoje soa mais obsoleto do que nunca. “Manter seu livro na vitrine da loja não é fácil.”, explica João Silveira Paschoal, autor de Primeira Alvorada. “Nossa trilogia tem arte muito chamativa na capa, e vende muito bem quando está em exposição. Mas quando não está a situação complica. Isso acontece por que temos muita dificuldade em fazer o publico desviar sua atenção dos best sellers.”

Ainda assim, nossos autores audaciosamente desafiam as estatísticas e desbravam os caminhos para que as próximas gerações de leitores e escritores encontrem um mercado mais convidativo. “Ainda é mais fácil já pegar um título internacional que a editora sabe que tem boa resposta do público leitor”, lamenta Bárbara Morais, autora da saga Anômalos. “Mas, nos últimos cinco anos, novos nomes brasileiros estão despontando e incentivando o mercado a investir e trazer títulos de autores iniciantes nacionais. Teve uma moda de vampiros, uma de anjos, agora estamos na de autores nacionais e não acredito que seja passageira como as anteriores.”

Provavelmente não será mesmo. Os resultados dessa longa jornada rumo ao reconhecimento já podem ser notados pelos mais antenados à cena literária, mesmo que os frutos talvez ainda demorem mais alguns anos para serem colhidos pelo grande público. Aqueles que conhecem os prazeres de um bom livro, no entanto, já colocam nossos autores no mesmo patamar que ícones do rock. O que não falta são histórias sobre fãs de todas as idades enfrentando horas e mais horas de fila para aparecer ao lado dos maiores ícones da literatura nacional, cada vez mais próximos do status de grandes estrelas.

“No início a tendência é a gente se apegar aos comentários, seja de amor ou de ódio.” Revela o escritor Raphael Draccon. “Com o tempo vem a experiência e o desapego. Quanto mais famoso, mais pessoas se atinge e não há como agradar a todo mundo. Então o autor vai encontrar alguém dizer que ele é o pior autor do mundo em uma mensagem e logo em seguida outra lhe dizer que é um gênio. E aí ele faz o quê? Acredita que é o pior do mundo ou que é um gênio? Qualquer uma das duas crenças é nociva para ele. O melhor caminho é seguir no caminho do meio e ser grato por ter mais duas pessoas que, apesar das opiniões distintas, não são indiferentes a ele. Porque a morte do artista não vem nem da adoração, nem da antipatia. Ela vem da indiferença.”

NOS OMBROS DE GIGANTES

O crescimento de interesse em nossos autores fez, naturalmente, com que uma nova geração de escritores também sentisse vontade de seguir os passos dos pioneiros da fantasia. Foi o que fez a publicitária e escritora Roberta Splinder, que teve o prazer de ver a obra de seus sonhos (literalmente!) virar realidade “Pode parecer bobo, mas a ideia central de A Torre Acima do Véu surgiu em um sonho, no qual vi claramente pessoas vivendo no topo de prédios altíssimos e que, para sobreviver, deveriam enfrentar os perigos dos andares inferiores.”

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Num claro sinal de amadurecimento do mercado, essa ousada obra distópica não encontrou grande resistência nem por parte das editoras, já dispostas a abraçar um gênero de nicho, e muito menos dos leitores. “Publicar um livro de maneira tradicional exige sempre muito trabalho e dedicação.” explica Roberta. “O principal, no entanto, é encontrar a editora certa, que publique obras no gênero que o autor escreve. No meu caso, fiquei muito satisfeita em trabalhar com a Giz Editorial, que me deu todo o apoio e acreditou no potencial de A Torre Acima do Véu.”

GANHANDO XP

O aumento do interesse do público e editoras em temáticas fantásticas talvez possa ser explicado pelo boom da cultura nerd. Se tornou comum, por todo o planeta, vermos histórias de sucesso sobre super-heróis e todos aqueles mundos medievais incríveis que, até décadas atrás, ficavam restritos apenas às mesas de RPG e cadernos daquele nerd ignorado pelos coleguinhas de escola.

“Desde o início dos anos 2000, ser nerd “está na moda”, e isso tem refletido num aumento da divulgação e da venda de produtos relacionados.”, explica Guilherme Dei Svaldi, editor da Jambô. “Em minha análise, essa popularidade da cultura nerd se deve ao sucesso de alguns produtos, como Harry Potter, O Senhor dos Anéis, filmes de super-heróis, seriados como Lost, entre outros, que levaram ao grande público a paixão pela fantasia que os nerds já tinham há mais tempo.”

Mas não foi só a internet que impactou as vendas do gênero. “Jogadores mais veteranos podem torcer o nariz para jogos estilo Fazendinha Feliz”, prossegue Guilherme, “Mas esses jogos têm um grande mérito: levaram à públicos que normalmente não tinham nada de ‘gamer’, como senhoras de 3ª idade, termos como ‘ganhar XP’ e ‘subir de nível’. Toda essa cultura é muito rica e tem potencial para fazer as pessoas expandirem seus horizontes, aprenderem e, claro se divertirem.”

A paixão pelos RPGs não atrai apenas novos leitores. Também serviu de motivação para autores como João Silveira Paschoal entrarem para o mundo da literatura. “Eu sempre joguei RPG e desenhava muito. Isso me levou a ler muitas coisas.”, revela João. “Só comecei a escrever quando percebi que contar uma história usando a linguagem de quadrinhos demandava muito esforço! Escrevendo em forma de texto flui melhor e mais rápido. Mas nem por isso deixei de desenhar. Hoje eu mesmo faço as capas e as artes dos meu livros.” Para alcançar o sucesso, não é preciso fazer um pouco de tudo, como o João. Mas isso certamente ajuda.

TRABALHO, NÃO MAGIA

Assinar um contrato de vários dígitos com uma editora tradicional é o sonho de centenas de autores por todo o país, só que mesmo alguns de nossos nomes mais tradicionais já buscam métodos alternativos para continuar em evidência. Foi o que fez André Vianco, primeiro criando o seu próprio selo, a Calíope, e então lecionando em aulas de escrita virtuais pela Vivendo de Inventar. “Meus contratos com a editora anterior se encerraram e eu queria cuidar melhor da minha obra, de perto.” explica.

Mas será que uma iniciativa tão ousada e incomum dá retorno financeiro? Não há um caminho fácil para o sucesso, nem uma fórmula mágica para que seu livro chame mais atenção que o último lançamento de George R.R. Martin. O que existe é muito trabalho duro e respeito por sua obra e fãs. Como ensinou Felipe Castilho, “Eu edito, escrevo por encomenda, roteirizo, dou aulas, e acho que tudo isso foi porque sempre me envolvi com o mercado, quando trabalhei com livrarias e editoras. Acho que buscar melhorar a sua técnica de escrita e conhecer os dois lados do ramo de sua paixão (tanto o da arte quanto a parte em que o dinheiro influencia) é essencial para você se situar e definir o que realmente tem a sua cara, o que tem a ver com você, o que te move. Depois disso, é trilhar o caminho. Pode parecer clichê, mas conhecer a si mesmo é essencial para isso. É como escolher tênis confortáveis para a tal caminhada.”

Nossos autores vivem histórias tão distintas quanto as tramas de seus livros, mas todos possuem algo em comum: juntos, estão escrevendo um Brasil fantástico para todos nós.

Do Brasil para o mundo : não enfiar ‘brasilidades’ nas narrativas não significa negar nossa identidade

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Raphael Montes, em O Globo

Alguns dias atrás, enquanto me distraía em uma rede social, encontrei uma interessante matéria jornalística sobre a literatura brasileira produzida pela nova geração de escritores. Endossada por trechos destacados de escritores prestigiados como Carola Saavedra e Luiz Ruffato e por críticos como Manuel da Costa Pinto e Beatriz Resende, a reportagem defendia que as histórias em ambientes rurais e tropicais, com cenários tipicamente brasileiros, foram substituídas na literatura contemporânea por histórias em que a voz subjetiva do escritor ganha maior evidência (vide tantos textos em primeira pessoa e a moda da “autoficção”), situadas num ambiente mais urbano e universal.

Para minha surpresa, o link da matéria estava postado em uma comunidade de leitores e, nos comentários, a larga maioria criticava essa ausência de identidade nacional nas narrativas — as acusações iam de “por isso que não leio autor brasileiro” a “é ridículo que esses autores atuais fiquem tentando copiar os norte-americanos”. Ainda que eu não fizesse parte da discussão, me pus a pensar no assunto.

Pessoalmente, ao escrever, nunca tive preocupação em acrescentar este ou aquele detalhe ao livro para soar mais brasileiro — ou, falando como gringo, soar mais exótico. Acredito que, na medida em que um escritor é brasileiro, antenado a sua cultura, a seus costumes e às particularidades do país, os elementos típicos vão entrando naturalmente, sem que haja a necessidade de se preocupar com isso. Vale dizer: um livro tem nuances brasileiras simplesmente ao ser escrito por um brasileiro — e basta!

É importante dizer que a opção de não enfiar “brasilidades” goela abaixo das narrativas não significa negar nossa identidade, mas sim tratá-la como algo natural, que nasce sem grande esforço. Por muito tempo, a própria expectativa do mercado internacional em relação às narrativas produzidas no Brasil (seja na literatura ou no audiovisual) passava necessariamente por elementos como favela, miséria no Nordeste, corrupção, carnaval, caipirinha e futebol.

A mim, tudo isso sempre pareceu meio absurdo — para não dizer ridículo. Afinal, muito além da nacionalidade, somos todos humanos — e o maior mérito da boa literatura é retratar a alma humana na sua complexidade, independentemente da localização geográfica das personagens. É também isso que permite a crescente profissionalização do escritor brasileiro — outro ponto abordado pela reportagem e criticado nos comentários na rede social.

Nos últimos anos, cresceu o número de pessoas no país que se dedicam apenas a escrever. Nesta seara, um aspecto fundamental que a matéria deixa de abordar é o crescimento da literatura de gênero no Brasil. Qualquer país com uma literatura efetivamente sólida tem uma grande variedade de obras de gênero. Nos Estados Unidos, por exemplo, a seção de livros policiais é subdividida em outras tantas como: crime de espionagem, whodunit, thriller médico, crimes reais, suspense romântico, suspense psicológico, suspense histórico. E, claro, cada um desses subgêneros é explorado por centenas de autores, o que cria um ambiente competitivo, variado e profissional, com um público-leitor fiel e muitas feiras e prêmios voltados ao segmento.

Enquanto isso, a literatura brasileira de gênero — romance, terror, policial, fantasia — sempre enfrentou percalços. Para começo de conversa, encontrava barreiras nos acadêmicos e nos críticos — como esperado de um país subdesenvolvido, só se podia escrever literatura de vanguarda, com elucubrações linguísticas; a literatura de gênero era algo menor. Com isso, as editoras não buscavam esse tipo de livro nos autores nacionais e muitos escritores com vontade de contar boas histórias de gênero se “moldavam” ao sistema para conseguir publicar. No fim das contas, quem saía perdendo era o público, com as livrarias invadidas por best-sellers norte-americanos ou europeus, mas sem chance de ler essas histórias escritas por brasileiros.

Felizmente, nos últimos anos, o cenário mudou. A literatura fantástica teve seu estouro com autores como Eduardo Spohr, Raphael Draccon e Carolina Munhóz, o juvenil se viu representado por fenômenos como Thalita Rebouças e Paula Pimenta e o mesmo vem acontecendo com autores de erótico, de terror e de policial. Com isso, as editoras brasileiras têm buscado autores nacionais de gênero para integrar seus catálogos e todo um novo mercado se sedimenta nesse sentido. Por chegar ao grande público, o autor brasileiro de literatura de gênero é um dos que mais consegue viver “apenas dos livros” hoje em dia e, sem dúvida, contribui fortemente para a internacionalização da nossa literatura. Apesar disso, não havia sequer um autor de literatura de gênero entrevistado ou citado na referida matéria. Prova cabal de que o caminho pela frente ainda é longo…

Bienal aposta em novos autores da literatura fantástica nacional

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Visitantes na 23ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo no Pavilhão de Eventos do Anhembi. EFE

Visitantes na 23ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo no Pavilhão de Eventos do Anhembi. EFE

Rodrigo Casarin, no UOL

Nesta quinta-feira (28), às 18h, a Bienal Internacional do Livro de São Paulo realizará a mesa “Literatura Fantástica – a fantasia ganhando espaço”, com os escritores Affonso Solano, Carolina Munhóz e Raphael Draccon. O título da conversa soa bastante oportuno, principalmente se observarmos como a literatura feita com dragões, magos, vampiros, gnomos, elfos e outros seres do tipo ocupa a Bienal. São diversos eventos que tratam do gênero. “A Bienal é o evento de literatura mais popular do país. Por essa característica, atrai o público que ama a cultura pop, onde nós incluímos a maioria do público jovem, principal consumidor da literatura fantástica”, diz Draccon, autor da bem-sucedida trilogia “Os Dragões de Éter”.

André Vianco, um dos principais nomes do segmento, tem uma opinião complementar. “Parece que grande parte dos organizadores, curadores de feiras e eventos do mercado do livro se renderam à fantasia vendo o grande número de leitores que os escritores do gênero atraem para os eventos”. Já Eduardo Spohr, outro autor de destaque, enxerga essa presença como uma consequência da força que o nicho possui. “Ele não está só na Bienal, mas em diversos eventos que têm se espalhado pelo Brasil. Não me refiro só aos com organização oficial, mas falo também de clubes de livros e de encontros agendados por donos de blogs, por exemplo. A internet tem se tornado uma belíssima ferramenta de comunicação para os amantes da literatura, e o legal é ver que essas pessoas também têm se reunido ao vivo, para trocar ideias e experiências.”

Além de discussões e encontros de leitores, analisando a programação oficial do evento e das editoras é possível encontrar dezenas de lançamentos de autores nacionais do gênero. O próprio Draccon é um dos que apresentará seu novo livro, “Cemitérios de Dragões”, ao público na Bienal, no sábado, dia 30, com direito a show de cosplay. Por lá, Carolina Munhóz, sua parceira de mesa, já lançou “O Reino das Vozes que Não se Calam”, escrito em co-autoria com a atriz Sophia Abrahão. Algumas outras novidades são “Átina Black e o Império de Cronos”, de Valentine Cirano, “Eterno Castigo”, de Kizzy Ysatis, “Sombra de um Anjo”, de Ana Beatriz Azevedo Brandão – uma menina de 14 anos – e “Exorcismos, Amores e uma Dose de Blues”, de Eric Novello.

Capa do livro “Exorcismos, Amores e Uma Dose de Blues”, de Eric Novello, aposta da nova literatura fantástica

Apostas
Novello é apontado por Draccon como um dos nomes do gênero que devem despontar com força em breve. Outro que o indicou como grande promessa foi Felipe Pena, escritor, doutor em Letras e organizador da coletânea “Geração Subzero”, que deu destaque a muitos autores do segmento. “Ele tem perfeito domínio da narrativa, não é óbvio e conhece bem seu instrumento de trabalho, que é a língua portuguesa”, declarou Pena.

Quem também é indicada como alguém a se prestar atenção é Bárbara Morais, autora de “A Ilha dos Dissidentes”, que, na Bienal, lança “A Ameaça Invisível”. “Ela honra a tradição feminina que se vê hoje em dia na literatura internacional em relação às distopias”, diz Draccon. “Ela se inspira em distopias e mutantes (X-Men) para falar de segregação social e abordar diversidade étnica e sexual”, argumenta Novello.

Felipe Castilho, autor de “Ouro, Fogo e Megabytes”, que faz fantasia a partir do folclore brasileiro e já começa a ser lido até mesmo em escolas, é outra aposta. Vianco o considera um exemplo de quem sabe dar caráter nacional a um gênero bastante influenciado pelo que é feito no exterior. ” A maioria das obras lançadas soa muito como emulação de franquias de mercado norte-americano e inglês, faltando brasilidade nos livros. Ainda que o autor eleja criaturas tradicionais do folclore estrangeiro, é preciso pôr uma tinta brasileira nesses bichos, é preciso inventar com mais coisas daqui, como faz bem o Felipe.”

Ao ser perguntado como está a literatura fantástica no Brasil, Vianco se queixa da ausência de ousadia. “Por incrível que pareça, acho que falta um pouco de invenção”. Entretanto outros autores têm uma visão mais positiva. Draccon diz que ela está “consolidada, seja na confiança dos leitores ou dos editores”, enquanto Pena define o momento como “pulsante”. “É o gênero que mais cresce. As editoras estão investindo, novos escritores estão aparecendo e os leitores continuam aumentando.”

Nos últimos anos, com o crescimento do interesse do leitor brasileiro pela fantasia – em muito graças a adaptações para o cinema e televisão, como “O Senhor dos Anéis” e “Game of Thrones”, e do sucesso de séries como “Jogos Vorazes” ou até mesmo “Harry Potter” –, o nicho despertou real interesse das editoras. Uma prova disso é que duas importantes casas, a Rocco e a Leya, recentemente criaram selos (Fantástica Rocco e Fantasy – Casa da Palavra, respectivamente) para abrigar esse tipo de livro. Outras já haviam feito movimento semelhante, como a Record, que publica obras do gênero pelo Galera Record.

A trinca fantástica
Se o momento da literatura fantástica nacional é de efervescência, isso muito se deve a Vianco, apontado como principal representante do gênero. Seu primeiro romance, “O Senhor da Chuva”, saiu em 1998 e foi sucedido de “Os Sete”, de 1999, que teve a primeira edição bancada pelo próprio autor, mas despertou atenção do mercado editorial. Com narrativas normalmente protagonizadas por vampiros, a partir de então vieram títulos como “O Vampiro – Rei” e “Vampiros do Rio Douro”. Se somados todos seus títulos, Vianco já vendeu acima de 900 mil exemplares. Mais do que isso, foi uma espécie de abre-alas para que diversos autores pudessem ter seu espaço.

Outro que despontou com uma força estrondosa é Eduardo Spohr, que em 2010 lançou “A Batalha do Apocalipse”. Para compor a obra – sucedida de títulos como “Filhos do Éden” – o escritor criou uma espécie de mitologia própria, em movimento semelhante ao feito por J.R.R. Tolkien em “O Senhor dos Anéis”. Spohr já ultrapassou a marca dos 600 mil livros vendidos, entretanto, procura afastar os holofotes de si mesmo. “Os principais nomes da nossa literatura são e sempre foram os leitores, não os autores. Os autores são apenas coadjuvantes nesse processo. São os leitores que movimentam essa máquina e que nos permitem continuar trabalhando”.

Quem completa a trinca fantástica dos principais escritores do gênero no país é Raphael Draccon. Sua obra de maior destaque é a série “Dragões do Éter”, que já vendeu cerca de 300 mil exemplares. Draccon credita muito de seu sucesso justamente à Bienal, em especial à edição de 2010. “Era a estreia da editora Leya no Brasil, com um espaço modesto, num canto do pavilhão, e nós transformamos aquilo em uma Comic-Con, com a presença dos personagens, vikings entoando gritos de guerra com o público, bruxa com a pele derretida sendo maquiada ao vivo e animação passando na TV. Era uma aposta arriscada, mas o estande virou uma loucura!”. Assume também que não teria oportunidade melhor para marcar a sua estreia na Rocco. “A Bienal de São Paulo foi e sempre será o evento da minha vida”.

Sobre a Bienal
Com o tema de “Diversão, cultura e interatividade: tudo junto e misturado”, a 23ª Bienal do Livro de São Paulo, que vai até o dia 31 de agosto, no Pavilhão de Eventos do Anhembi, é um dos mais importantes do mercado livreiro e literário em toda a América Latina. Conta com 1.500 horas de programação e mais de 400 atrações, dentre elas nomes reconhecidos internacionalmente, como Harlan Coben (“Confie em Mim”), Ken Follet (“Os Pilares da Terra”), Sally Gardner (“Coriandra”), Kiera Cass (“A Seleção”) e Hugh Howey (“Silo”), Cassandra Clare (“Os Instrumentos Mortais”) e Sylvia Day (“Toda Sua”).

Os ingressos para a Bienal, que dão acesso ao Pavilhão do Anhembi, custam entre R$6 e R$14 – dentro do espaço, toda a programação cultural é gratuita, com sendo que os bilhetes para cada evento devem ser retirados com no mínimo 30 minutos de antecedência. O evento conta com  300 expositores, que representarão 750 selos editoriais. Nos dez dias de evento, são esperados mais de 700 mil visitantes, que, para chegarem ao Anhembi, podem utilizar ônibus gratuitos que saem das estações de metrô do Tietê e da Barra Funda (desta segunda, apenas nos finais de semana). Toda a programação oficial pode ser conferida no site www.bienaldolivrosp.com.br.

Quinta-feira é o dia do cosplay na Bienal do Livro de São Paulo

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Quem for fantasiado, entra de graça; evento também discute a Copa do Mundo, violência e traz apresentações de música e teatro

Publicado por Estadão

Hoje é o dia do cosplay na Bienal do Livro de São Paulo: quem chegar ao Anhembi vestido de seu personagem favorito, não paga entrada – e a fantasia é também tema de um bate papo na Arena Cultural, às 18h, com os escritores Affonso Solano, Carolina Munhóz e Raphael Draccon. O mesmo espaço, mais cedo, às 11h, recebe o escritor Toni Brandão para discutir a interação entre os jovens e a tecnologia.

As outras artes, além da literatura, também têm uma programação destacada nesta quinta-feira. Às 12h, será exibido o filme Uma História de Amor e Fúria (do diretor Luiz Bolognesi). Em seguida, também no Anfiteatro, o rapper Emicida leva sua música aos fãs de literatura. Mais tarde, às 20h, o ator Charles Fricks, da Cia. Atores de Laura, traz de volta a São Paulo o monólogo O Filho Eterno, peça de teatro adaptada do romance de Cristovão Tezza.

Quinta-feira é o dia do cosplay na Bienal do Livro de São Paulo

Quinta-feira é o dia do cosplay na Bienal do Livro de São Paulo

O Anfiteatro ainda recebe o escritor e colunista do Estado Ignácio de Loyola Brandão, ao lado de sua filha, a cantora Rita Gullo, para uma apresentação lítero-musical com histórias e canções.

O Salão de Ideias começa sua programação recebendo Ziraldo, Eva Furnari e Pedro Bandeira para uma conversa sobre primeiras leituras. No fim da tarde, às 18h, estará em discussão a violência no Brasil contemporâneo, com Vladimir Safatle, Jaime Ginzburg e Luiz Eduardo Soares. Para encerrar a programação do espaço, os jornalistas Andrew Jennings, Juca Kfouri e Paulo Vinícius Coelho conversam com o pesquisador Antônio Lassance sobre a Copa do Mundo do Brasil.

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