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O homem que escreve cartas de amor

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Durante a FLIM (Festa Literomusical) no Vicentina Aranha, em São José dos Campos Divulgação

Durante a FLIM (Festa Literomusical) no Vicentina Aranha, em São José dos Campos
Divulgação

 

O escritor e poeta Rafael Sarzi compartilha experiências com o público

Andre Fressante, no Meon

Na última reportagem da série “Ano bom que se vai, ótimo ano que virá”, nada mais justo do que finalizar com a palavra de ordem para 2017 – amor. Quando você usa o dom das palavras para beneficiar alguém e se preocupa em compartilhar boas experiências, o sucesso bate à sua porta.

Há quem diga que cartas escritas à mão estão fora de moda. Ainda mais agora, num tempo em que e-mail e aplicativos de mensagens instantâneas são as maiores ferramentas de comunicação. Hoje, muito raras, são relíquias encontradas apenas em velhas caixas de recordação em algum lugar perdido dentro de casa.

O fato é que usar a caneta no papel para se comunicar – por mais que pareça antiquado – é uma das formas mais bonitas de se dizer que se ama. E é exatamente buscando este impacto positivo que o escritor e poeta Rafael Sarzi, de 25 anos, tem espalhado suas palavras generosas por aí.

O interesse em escrever surgiu na adolescência, quando tinha doze anos de idade. Durante sua primeira paixão ele não entendia muito bem o que se passava e o que significava este sentimento. “Fazia alguma reflexões para não me sentir perdido e comecei a escrever. E desde então levei a escrita como uma forma de terapia para momentos tristes, e de eternizar os momentos bons”, conta o escritor.

O projeto “Escrevo cartas de amor e ex-amor” nasceu em setembro deste ano após um convite para participar da FLIM (Festa Literomusical), no Parque Vicentina Aranha, em São José dos Campos. Na intervenção poética, Rafael Sarzi escreve, à mão, cartas para o público.

“Os organizadores da FLIM quiseram levar uma intervenção poética de alguém que pudesse escrever cartas em tempo real para o público da feira e queria que fosse algum escritor da região. De uma forma um pouco insegura, eu aceitei o projeto, e para a surpresa minha e de todos, tivemos um resultado incrível, com muitas cartas e histórias belíssimas”, comemora ao lembrar do sucesso da Feira.

A inspiração para transformar versos em algo tão intenso se deve ao poder de fazer as pessoas se sentirem bem. “Isso me faz querer escrever sempre e tentar falar do amor numa forma simples, mas com toda a intensidade e complexidade que ele carrega. São esses pequenos detalhes que gosto de enfatizar nas minhas poesias para falar e levar o amor”.

Uma lista grande e poderosa com nomes importantes da música e literatura brasileira como Vinícius de Moraes, Oswaldo Montenegro, Mário Quintana, Carlos Drumond de Andrade e Fernando Pessoa são responsáveis pela criatividade e paixão que dá ao Rafael credibilidade de explanar sobre formas de amar.

Por que você deveria escrever cartas de amor e não deixar o romantismo morrer? “As pessoas têm medo de se machucar e com isso ficam receosas para se entregar, mas se alguém desperta um sentimento que te faz sorrir sozinho, vale a pena acreditar, pois o amor é raro, e mais raro quem se entrega a ele”.

Apenas algumas horas para iniciar o ano de 2017, os próximos passos do escritor poeta são lançar dois livros, que já devem estar nas prateleiras das livrarias no primeiro trimestre. Outra novidade é que a intervenção poética será levada para outras cidades do Vale do Paraíba e em eventos em regiões do Brasil.

E não podemos finalizar sem um recado de quem entende realmente sobre amor. “Que tragam esse sentimento no cotidiano, que as pessoas se acostumem a amar de forma simples e verdadeira. Que saibam e quebrem a barreira para falar de amor. Que não precisa ser mestre, artista, ator, ou qualquer outra coisa para saber dizer um “eu te amo” olhando nos olhos do outro”. Amar vai mais além. “Eu te amo pode ser dito de muitas maneiras. Preparando um café, dormindo abraçado, dando um bom dia sorrindo, deixando um bilhetinho, escrevendo uma carta ou aquele olhar intenso quando as palavras se calam, mas que sempre estejam com o coração aberto para demonstrar e enxergar o “eu te amo”, ou melhor, o amor”, finaliza Rafael.

Com cartas inéditas, livro retrata relação entre Caio F. e Hilda Hilst

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Amizade turbulenta dos dois escritores é tema do livro ‘Numa hora assim escura’, de Paula Dip

Bolívar Torres, em O Globo

Caio F. em frente à Casa do Sol, residência de Hilda Hilst, onde ele passou diversas temporadas entre 1969 e 1971 - Autor desconhecido / Acervo pessoal Paula Dip

Caio F. em frente à Casa do Sol, residência de Hilda Hilst, onde ele passou diversas temporadas entre 1969 e 1971 – Autor desconhecido / Acervo pessoal Paula Dip

RIO — O ano é 1992. Depois de mais uma briga com Caio Fernando Abreu, Hilda Hilst juntou as cartas que havia recebido do amigo desde o final da década de 1960, decidida a destruí-las. Como para oficializar o rompimento, ignorou o valor histórico e afetivo da correspondência, e só não a queimou porque seu namorado na época, o jovem poeta Antônio Nahud Júnior, resolveu intervir.

“Quer para você? São suas. Leve-as daqui rápido antes que eu me arrependa”, disse a escritora. Nahud guardou as cartas e, em 2010, seis anos após a morte de Hilda e 14 após a de Caio, vendeu-as para a jornalista Paula Dip.

A autora, que em 2009 retratou a sua própria amizade e correspondência com o escritor gaúcho no livro “Para sempre teu, Caio F.” (Record), emocionou-se ao ler o material inédito. As missivas mais antigas mostravam um Caio diferente daquele que ela conhecera, já consagrado e com uma obra construída. O escritor que trocava suas primeiras cartas com Hilda era, ao contrário, um jovem saído da adolescência, inseguro sobre o seu futuro e sua arte. Além de uma fonte preciosa sobre sua formação, contudo, também havia ali a história de amizade de dois autores importantes da literatura brasileira, que Paula transformou no coração de seu recém-lançado “Numa hora assim escura — A paixão literária de Caio Fernando Abreu e Hilda Hilst” (José Olympio).

No livro, a jornalista contextualiza a relação tumultuada e apresenta, pela primeira vez, o conteúdo salvo por Nahud Júnior.

— Comprei as cartas de Nahud num impulso, e quando eu as li minha primeira ideia foi fazer um mestrado em cima delas — conta Paula, que conheceu Caio em 1981 e foi sua amiga até a morte dele, em 1996. — Mas depois percebi que, mais interessante do que levá-las para a academia era tomá-las como base de um novo livro sobre o Caio, em cima da relação com a Hilda.

A importância de Hilda na vida de Caio é notória. O escritor começou a se corresponder com a poeta aos 19 anos de idade, ainda em Porto Alegre. Entre 1969 e 1971, passou uma série de temporadas na Casa do Sol, chácara em Campinas (SP) para onde Hilda havia se mudado em busca de isolamento e inspiração. A residência era um oásis de liberdade em meio ao clima político da época. Os convidados de Hilda (incluindo jovens aprendizes como Caio) eram estimulados a trabalhar sua escrita, e falava-se de amor, de magia, de discos voadores e, claro, literatura.

Para um rapaz tímido, que não se encaixava nos círculos sociais tradicionais, o contato com a efervescência criativa — e permissiva — da Casa do Sol e com uma autora consagrada e tão certa de seus caminhos foi um turning point. Mas o que as cartas revelam de novo, segundo Paula, é uma influência mútua. De certa forma, Caio, que foi o primeiro dos muitos pupilos que a escritora “hospedaria” em seus quase 40 anos na chácara, também teria inspirado Hilda.

— Claro que houve uma influência forte da Hilda na forma de o Caio trabalhar. Mas acho que ele também foi um dos responsáveis por uma guinada na vida dela — opina Paula. — O encontro foi benéfico para os dois. No início dos anos 1970, Caio ainda estava circulando ali pela Casa do Sol, e a Hilda, depois de ser muito premiada com poesia, publica seu primeiro livro em prosa, “Fluxo-Floema”. Caio pode tê-la ajudado a se libertar da estrofe.

O autor de “Morangos Mofados” vê em Hilda uma referência de artista comprometida com sua arte. Ela havia abandonado uma vida no high society e namoros com estrelas de Hollywood, como Dean Martin, para se dedicar mais profundamente à escrita, que não via como entretenimento ou distração, mas como uma experiência visceral. Ela seguia toda uma ética da criação, que norteou a carreira de Caio. A sua aproximação de Hilda o fez se afastar espiritualmente de sua primeira musa, Clarice Lispector. Não por acaso ele faz, em uma carta de 1978, duras críticas a um livro póstumo da autora (leia trecho abaixo).

Para além da relação mestre-discípulo, porém, há uma ligação marcada pelo aprendizado conjunto. Como observa Paula, ambos tinham uma tendência natural para as “escuras regiões transcendentes da alma”, eram “almas gêmeas em relação aos mistérios insondáveis da existência”. Hilda cultivava a aura de “feiticeira que captava a essência das pessoas”. Já Caio vestiu sem medo a manta de xamã e se jogou nas experiências místicas da Casa do Sol, que envolviam alienígenas e forças misteriosas. Como não poderia deixar de ser, a correspondência é marcada por frases como “uma ótima revolução solar”, “tenho me voltado cada vez mais para o oculto”, “os céus andam cheios de discos voadores e os crepúsculos têm durado duas horas” ou “estou procurando a simplicidade e, ao mesmo tempo, o mito e a magia”.

Bilhere de Caio para Hilda, de 1975 - Divulgação / Acervo Pessoal Paula Dip

Bilhere de Caio para Hilda, de 1975 – Divulgação / Acervo Pessoal Paula Dip

Em sua busca espiritual e esotérica, Hilda inventava apelidos excêntricos para Deus — Cara Mínima, Sumidouro, Menino Precioso, Flamejante Sorvete de Cereja. Ambos também tinham uma maneira peculiar de descrever a literatura. Em uma entrevista que fez com Hilda em 1987 para a revista “Leia livros”, Caio pergunta: “E a sua literatura, é a escuridão ou o sorvete?”. Ela responde: “É o centro, a procura do centro”.

— Eles eram curiosos da morte, da alma, não escreviam livros de viagem ou de culinária, escreviam o “de dentro”, e faziam isso para sobreviver — afirma Paula. — Eles se encontram muito nisso, inclusive nesse misticismo. Me disseram que, numa noite na Casa do Sol, Caio encarnou o espírito de Frederico García Lorca e ele e Hilda fizeram uma performance. Os céticos achavam que eles eram loucos.

Para o crítico Ítalo Moriconi, que acaba de relançar em e-book “Cartas: Caio Fernando Abreu” (e-galáxia), organizado por ele em 2002, essa correspondência inédita amplia o conhecimento que se tinha da ligação entre Caio e Hilda.

— Acredito que a publicação em larga escala desse conjunto de cartas favorece a transição do olhar contemporâneo do cronista para o olhar mais construtivo do historiador — diz ele. — Favorece uma renovação do olhar crítico da literatura brasileira pós anos 1960 e pré gerações 2000 e 2010 do século corrente. As cartas do Caio para a Hilda certamente constituem um instigante “caso” de história da vida literária. O mais fascinante delas são as discussões e impressões sobre literatura. Mas a relação entre os dois tinha dimensões pessoais muito fortes. O pessoal e o formativo se confundem. Na verdade, o “romance de formação” de Caio teve muito a ver com essa segunda mãe musa transgressiva, permissiva e bela. Nas cartas, recuperamos um pouco da presença selvagem da literatura de Hilda no nosso cânone dos anos 70/80.

A correspondência incluída no livro vai até o ano de 1990, e cobre a evolução de uma amizade oscilante, temperada por brigas e reconciliações. Praticamente apenas Caio escreve para Hilda (há só um bilhete e uma carta da autora no livro), e muitas vezes se queixa do silêncio da interlocutora. Mas ele era um “epistolista”, lembra Paula, contando que enviava até cinco cartas por dia a pessoas diferentes, mesmo sabendo que poderia não receber resposta. Em tom confessional, as missivas eram repletas de amor à vida, mas também de lamentos em voz alta, nos quais ele chorava suas dificuldades emocionais, profissionais e financeiras.

Após a discussão que quase resultou na destruição das cartas, os dois retomaram a amizade e passaram a se falar quase todos os dias, por telefone, até os últimos dias de vida Caio, que morreu precocemente aos 45. Hilda, que garantia captar as vozes dos mortos via ondas de rádio, contou em uma entrevista que o amigo veio visitá-lo logo após sua passagem: “A gente tinha combinado isso. Ele estava com um cachecol vermelho. Era a nossa senha: o vermelho ia significar que estava tudo bem. Eu abracei Caio muito e disse: ‘Nossa, como você está bonito! Está jovem! Mas ninguém acredita.”

TRECHOS

Em carta a Caio em 23 de setembro de 1977, Hilda fala sobre a relação com os jornalistas e críticos:

“Penso que isso de escrever provoca sempre no outro um desejo de, vontade de parecença, de posse, e em vez de acarinharem a gente, dizerem isto, o que seria muito bom para a gente porque é sempre gostoso o carinho o desejo o gosto, pois bem, ficam dando chifradas e ironizando”

Em carta enviada a Hilda em 18 de dezembro de 1978, Caio critica obra de Clarice Lispector:

“No mais, tô lendo o livro póstumo de Clarice, ‘Pulsações’, e achando muito chato, repetitivo, aquela coisa de ‘Escrevo em estertor. Escrever me é. A luz se me entra. Cada palavra é o avesso de nenhuma’ – entende? Ai, meu saco. Acho que ela morreu na hora certa, porque tava repetindo demais a receita”.

J.K. Rowling divulga cartas de rejeição de títulos escritos sob pseudônimo

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As assinaturas das cartas de rejeição foram apagadas para, segundo a autora, servirem de inspiração e não como "vingança'

As assinaturas das cartas de rejeição foram apagadas para, segundo a autora, servirem de inspiração e não como “vingança’

 

”Harry Potter” também foi rejeitado pelos mesmos editores que negaram a publicação de um livro assinado sob o pseudônimo de Galbraith

Publicado em O Povo

A autora da série de livros “Harry Potter”, J. K. Rowling, mostrou aos fãs cartas recebidas por editoras quando tentava vender seus títulos sob o pseudônimo de Robert Galbraith. As “rejeições” foram postadas no Twitter, nesta quinta-feira, 24.

Tudo começou quando um fã contou que havia sido rejeitado por um editor. J.K. então falou que a sua primeira carta de negação está pendurada na parede da cozinha. “Está pendurada porque ela me deu algo em comum com todos os meus escritores”, disse.

Segundo a autora, “Harry Potter” também foi rejeitado pelos mesmos editores que negaram a publicação de um livro assinado sob o pseudônimo de Galbraith.

O nome Galbraith havia sido adotado novamente pela escritora, nos últimos anos, porque ela sentia uma pressão grande ao escrever e vender novas histórias.

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Cartas inéditas de Machado de Assis são doadas à Academia de Letras

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Foto inédita de Machado de Assis faz parte do acervo doado à Academia Brasileira de Letras (ABL) por herdeiros de José Veríssimo (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

Foto inédita de Machado de Assis faz parte do acervo doado à Academia Brasileira de Letras (ABL) por herdeiros de José Veríssimo (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

 

Publicado no Correio de Uberlândia

Textos manuscritos, datados do início do século passado, e até uma fotografia e 12 cartas inéditas do patrono da Academia ficaram guardados por décadas em um antigo gaveteiro de madeira, que veio passando de geração em geração e, por último, estava no apartamento da aposentada Helena Araújo Lima Veríssimo, viúva do jornalista Jorge Luiz Veríssimo, um dos netos de José Veríssimo.

Apesar do valor histórico e sentimental do material, a família achou melhor entregar a guarda dos documentos à ABL, que tem condições ideais para cuidar e preservar a coleção.

“O acervo do José Veríssimo estava com o marechal [Inácio José Veríssimo, filho do acadêmico], que era uma pessoa voltada para a literatura, apesar de ser militar. O marechal organizou o acervo, escreveu uma biografia de José Veríssimo e depois passou tudo para meu marido”, disse Helena.

A decisão de doar os documentos foi amadurecida em família durante dois anos, segundo o professor de filosofia Luiz José Veríssimo, bisneto de José Veríssimo, que destacou o valor do acervo para a pesquisa literária. “Nós pesquisadores temos um verdadeiro culto sagrado à fonte primária. É um momento de êxtase, para poder dali fazer crescer o conhecimento”.

O primeiro contato com o material foi feito pela pesquisadora Ireno Moutinho, especializada na história de Machado de Assis, responsável pela reunião da correspondência do patrono da Academia em uma obra com cinco volumes, englobando 1.289 cartas.

“São dez cartas e dois cartões de visita [inéditos]. As cartas, que nunca foram publicadas, são curtas, coisas que eles trocavam, mas são super importantes. Porque às vezes uma que nunca foi publicada faz uma ponte entre outras duas. Elas eram a forma pontual deles mandarem ume-mail um para o outro”, comparou Irene.

Para o presidente da ABL, Geraldo Holanda Cavalcanti, trata-se de um acervo precioso e que pode incentivar outras famílias, detentoras de material histórico sobre os acadêmicos, a também doarem o acervo à Academia.

“Isto pode despertar a atenção de outras pessoas que tenham documentos em casa e se disponham a trazer para a Academia, que é a guardiã desse tipo de acervo, que é muito difícil de ser guardado em casa, pois o tempo destrói e aqui temos a melhor técnica de conservação de documentos”, disse Cavalcanti.

Segundo o presidente da ABL, futuramente este material poderá ser conhecido pelo público, em um próximo volume sobre a correspondência de Machado, fundador da Academia e que carinhosamente era chamado de o Bruxo do Cosme Velho, em referência ao bairro em que ele morou, na zona sul do Rio.

Correspondência inédita de Guimarães Rosa mostra a influência do pai em sua obra

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Obra recebeu influência de seu pai, Florduardo, matuto e contador de casos

Marcelo Bortoloti, na Época

No princípio do século passado, Florduardo Pinto Rosa era o dono de um armazém em Cordisburgo, interior de Minas Gerais. Vendia de arroz e feijão a aguardente e querosene. O comércio abastecia os tropeiros que passavam pela região. Atrás do balcão, Seu Fulô, como era conhecido, colecionava as histórias dos viajantes. Além de comerciante, foi vereador e juiz de paz, celebrou casamentos e mediou conflitos. Dono de uma coleção de espingardas, regularmente saía para caçadas. Conhecia muito bem a região e seus tipos humanos. Teve seis filhos e pretendia que o armazém ficasse sob os cuidados do primogênito, João Guimarães Rosa.

Logo cedo, no entanto, o garoto mostrou aptidão para o estudo. Aos 9 anos mudou-se para Belo Horizonte, onde foi estudar e morar com o avô, Luis Guimarães, médico e escritor. Abandonou de vez Cordisburgo e o sonho do pai em torná-lo comerciante. O jovem João passou a mirar a figura erudita do avô e se afastou da trajetória do pai, matuto e contador de histórias. Formou-se em medicina, aprendeu línguas e tornou-se diplomata. Morou no Rio de Janeiro, depois na Alemanha e na França. Tornou-se extremamente culto. Falava francês, inglês, alemão, espanhol, italiano, esperanto e russo.

RAÍZES Guimarães Rosa,  escritor, diplomata e poliglota. Ele atribuiu ao pai a “bossa” de sua literatura (Foto: Folhapress)

RAÍZES
Guimarães Rosa, escritor, diplomata e poliglota. Ele atribuiu ao pai a “bossa” de sua literatura (Foto: Folhapress)

Aos 38 anos, João publicou seu primeiro livro de contos, Sagarana. A obra era uma reaproximação com o universo do pai, o interior que o diplomata deixara para trás. A partir daí, consagrou-se produzindo uma literatura intimamente conectada ao ambiente que o velho Florduardo conhecia tão bem. E passou a se corresponder intensamente com o pai. Guimarães Rosa escrevia de longe e tinha pouca intimidade com o sertão que aparece o tempo todo em sua obra. Fez apenas duas viagens pela região e precisava de informantes como Seu Fulô. A correspondência dos dois, arquivada no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (USP), mostra a bonita relação de um escritor erudito com o pai comerciante que ajudou a construir uma das mais importantes obras da literatura brasileira.

As cartas do escritor para o pai foram publicadas no livro Relembramentos, de Vilma Guimarães Rosa, filha do autor. Os textos de Florduardo permanecem inéditos no arquivo do instituto. É um interessante passeio por histórias do interior mineiro. Apesar dos problemas de pontuação e erros de português, Florduardo tinha um estilo muito próprio, engraçado e atraente de escrever. Encaixava uma história dentro da outra, numa técnica que foi recuperada por seu filho. Em 1962, Guimarães Rosa escreveu para a mãe: “Gosto muito do jeito dele escrever, de dar notícia de todos. Fico pensando que a minha ‘bossa’ de escritor eu herdei dele, que maneja a pena com tanta facilidade, personalidade, vivacidade e graça”.

Florduardo enviava com receio os textos para o filho já consagrado. Em 1947, um ano após a publicação de Sagarana, escreveu: “Fico com vergonha de te mandar estas tolices que eu escrevo sempre à noite quando me falta o sono, e que talvez você nem compreenda a minha letra e o mal escrito”. Mas, diante da insistência do filho, mandava regularmente novas histórias. “Tenho que escrever, não conferir o que escrevi e te mandar logo, pois do contrário eu desanimo e rasgo tudo como já tenho feito muitas vezes”, disse, em 1954.

FAMÍLIA Guimarães Rosa entre a mãe, Chiquitinha, e o pai, Florduardo. O futuro escritor foi estudar em Belo Horizonte aos 9 anos (Foto: acervo pessoal/livro “Relembramentos”, editora Nova Fronteira)

FAMÍLIA
Guimarães Rosa entre a mãe, Chiquitinha, e o pai, Florduardo. O futuro escritor foi estudar em Belo Horizonte aos 9 anos (Foto: acervo pessoal/livro “Relembramentos”, editora Nova Fronteira)

Guimarães Rosa lhe pedia histórias de crimes, de personagens curiosos de Cordisburgo, detalhes do trabalho na roça, da fala do povo, do comércio na cidade, das caçadas, dos hábitos dos animais e dos tipos de planta. Embora sua obra fosse ficcional, os informes ajudavam a compor o cenário. Os pedidos se intensificaram no começo dos anos 1950, quando Guimarães Rosa escrevia simultaneamente seus dois livros mais importantes: Corpo de baile e o romance Grande sertão: veredas. “Preciso de explorar mais o senhor, que a mina é ótima”, afirmou para o pai.

Para seus livros, Guimarães Rosa trabalhava como um escritor-pesquisador. Reuniu milhares de páginas com anotações das duas viagens que fez pelo sertão, trechos de livros de filósofos e escritores clássicos, recortes de jornal, guias de botânica e agricultura. Num caderno específico, transcreveu (mais…)

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