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As cartas de Mario de Andrade a Anita Malfatti, Carlos Drumond e Portinari

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Mario de Andrade. / ACERVO IEB-USP

Mario de Andrade. / ACERVO IEB-USP

Exposição das cartas trocadas pelo escritor com os principais expoentes das artes do século 20 abre as portas em São Paulo

Camila Moraes, no El País

Há uma maneira de se aproximar de Mário de Andrade (1893-1945) para conhecê-lo como quem conviveu com ele: debruçar-se sobre suas cartas. O escritor paulistano – também músico e agitador cultural – sofria, como ele mesmo diz, de “gigantismo epistolar”. Escrevia cartas de todos os estilos e tons, sobretudo aos amigos, com quem tricotava com a mesma facilidade que estabelecia as bases do Modernismo brasileiro. Pois, para quem quer ter o gostinho de ser seu amigo, as cartas de Mário acabam de virar tema de uma exposição que abre as portas neste sábado, 19 de setembro, no Centro Cultural dos Correios, em São Paulo – depois de passar pelo Rio de Janeiro e por Brasília e ser vista por 50.000 visitantes.

O valor dessas cartas aumenta à medida em que seus destinatários não eram personagens quaisquer. Mário era uma das vozes e mentes principais de um grupo composto pelos maiores representantes das artes e da cultura no Brasil em sua época. À amiga Tarsila do Amaral, por quem nutria certa paixão, escreveu em novembro de 1923, quando a pintora e outros modernistas passavam uma temporada na França – com a qual Mário não estava muito de acordo:

“Cuidado! Fortifiquem-se bem de teorias e desculpas e coisas vistas em Paris. Quando vocês aqui chegarem, temos briga, na certa. Desde já, desafio vocês todos juntos, Tarsila, Oswaldo, Sérgio para uma discussão formidável. Vocês foram a Paris como burgueses. Estão épates [chatos]. E se fizeram futuristas! (…) Se vocês tiverem coragem, venham para cá, aceitem meu desafio”.

O desafio em questão era construir um Brasil moderno, com cara de brasileiro. Sobre esse país autêntico e pra frente, pelo qual Mário não se cansava de lutar, ele falou ao poeta Carlos Drummond de Andrade – que tanto o admirou, apesar dos estilos diferentes de ambos.

“Carlos, devote-se ao Brasil junto comigo. Apesar de todo o ceticismo, apesar de todo o pessimismo e apesar de todo o século XIX, seja ingênuo, seja bobo, mas acredite que um sacrifício é lindo. (…) Nós temos que dar ao Brasil o que ele não é, e que por isso até agora não viveu, nós temos que dar uma alma ao Brasil e para isso todo o sacrifício é grandioso, é sublime”, disse o escritor em uma carta de novembro de 1924. O discurso, de tão pertinente aos dias de hoje, chega a comover.

Bom conselheiro e crítico que era, Mário de Andrade era procurado pelos amigos para que opinasse sobre a produção artística deles. À pintora e sua grande amiga Anita Malfatti, dirigiu-se em uma carta cujo ano é desconhecido assim:

“Agora são 10 e meia. Apenas me levantei. Mas a primeira coisa que faço é pensar em ti e no teu desenho. Acabo de tornar a olhá-lo. Queres a minha opinião sobre ele, orgulhosinha? Pois fica sabendo que me entusiasmei”.

Era o tipo de interlocução íntima e, ao mesmo tempo, profissional, que o escritor tinha também com o pintor Cândido Portinari. Os dois foram especialmente íntimos no período em que, depois de afastado de seu cargo no departamento de cultura da prefeitura de São Paulo, foi chamado para trabalhar em um cargo menor no Rio de Janeiro, no começo da década de 30. À época, as diferenças entre as paisagens e especialmente entre os climas paulistano e carioca chamavam ainda mais a atenção. Os amigos se corresponderam certo dia, em 1935, e Mário discorreu sobre um fevereiro:

“O Carnaval aqui esteve bem divertido, apesar da frieza paulista. Eu, pelo menos, me diverti à larga e os bailes estiveram colossais, todos dizem. Mas nem assim deixava de imaginar de vez en quando no que estariam fazendo vocês aí do grupinho”.

Mário de Andrade – Cartas do Modernismo, em cartaz até 11 de novembro, traz a correspondência do autor de uma maneira didática, pincelando em diferentes estações de visita os momentos mais marcantes de sua trajetória. Dividida em períodos e feita para ser degustada em camadas, de acordo com o conhecimento de cada um sobre Mário, a mostra traça uma cronologia do Primeiro Modernismo por meio de reproduções de obras, livros e textos. No Segundo Modernismo, trata da amizade de Mário com Portinari mostrando a admiração e o carinho mútuos. Para ampliar a experiência, algumas obras de arte modernistas de Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti e, claro, Portinari, complementam os textos. (mais…)

Livro sobre Pablo Escobar afirma que ‘o monstro também era humano’

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‘Los días del dragón’, da jornalista colombiana Silvia Hoyos, conta como era a cidade de Medellín durante a onda de terror e morte imposta pelo narcotraficante

Publicado no Divirta-se

A jornalista colombiana Silvia Hoyos, que acaba de publicar um livro com as cartas que trocou com o narcotraficante Pablo Escobar em 1991, afirma que, apesar da correspondência não ter obtido respostas para suas dúvidas, permitiu descobrir que “o monstro também era humano”.

No livro ‘Los días del dragón’, Hoyos conta, a partir de sua perspectiva de jovem repórter, como era a cidade de Medellín, centro de operações do narcotraficante, durante a onda de terror e morte imposta por Escobar, que a afetou diretamente como jornalista e com os assassinatos de parentes e amigos.

“Na minha condição de mulher, mãe e repórter conto este período da história de Medellín, entre 1987 e 1991. E o último capítulo do livro tem as cartas de Escobar”, afirma à AFP a jornalista, que se correspondeu com o criminoso para tentar encontrar respostas para tanta violência.

“A origem é um assunto pessoal, relacionado com as dores que tinha, com os mortos e por saber que estava grávida (…) porque, quando você vai ser mãe pela primeira vez, se questiona muito sobre o mundo no qual vai botar seus filhos, ainda mais naquele momento, e também porque gostaria de perguntar a ele como explicava aos filhos sobre a morte e a cidade”, explica.

Assim, quando o narcotraficante estava detido em uma prisão que ele mesmo havia mandado construir e da qual fugiu, a jornalista escreveu a Escobar e, para sua surpresa, recebeu sete cartas de resposta, entre junho e agosto de 1991, algumas de várias páginas, assinadas e com a impressão digital de Escobar.

“Ele não respondeu exatamente o que eu queria, mas falou de outras coisas (…) Coisas pessoais, o que pensava da educação, do sexo, das drogas, de sua faceta de homem que escrevia contos infantis para sua filha, dos poemas de amor escritos por sua mulher”, conta Hoyos.

“Você percebe que o monstro também era um ser humano”, destaca a autora, que acredita na sinceridade de Escobar nas cartas, sobretudo considerando que ele mencionou apenas a esfera íntima.

Em uma das cartas, divulgada com antecedência pela editora Semana, Escobar afirma: “A meu filho ofereci essencialmente amizade e o trato como amigo. Às vezes fazemos um pouco de boxe esportivo e agora está se interessando muito por sexo e falo bastante sobre isto com ele porque penso que uma sábia relação sexual é o pilar fundamental na vida de toda pessoa”.

Mais um documento

Entre as perguntas que ficaram sem respostas estão as relacionadas ao assassinato em 1988 do tio da jornalista, o procurador-geral Carlos Hoyos, supostamente por ordens de Escobar, que em sua luta para evitar a extradição aos Estados Unidos mandou matar centenas de funcionários do governo e jornalistas.

Por sua proximidade dos acontecimentos e para evitar cair em um sentimentalismo ou na apologia do narcotraficante, Hoyos decidiu contar não a história de Escobar, e sim as suas próprias experiências durante a época em que o criminoso espalhou a violência pela Colômbia, em particular em Medellín.

“Eu fiz assim após sete anos de tentativas: escrevi dois roteiros de filmes, outros textos (…) ou seguia pela dor ou resultava apologético ou estava julgando e não pretendia nenhuma destas três coisas”, disse Hoyos.

Ao falar sobre as cartas, a jornalista afirma que, com o passar do tempo, as considera “um documento a mais da história recente”.

“Em qualquer conflito todas as vozes são importantes e é mais uma contribuição ao tecido desta história dolorosa do país, na qual ainda faltam muitas vozes e pontos de vista diferentes ao prontuário delituoso dele”, afirma.

A Colômbia, atualmente o maior produtor mundial de folha de coca, principal insumo da cocaína, entrou no mapa do narcotráfico pelas mãos de Escobar, que morreu em 1993 quando fugia das autoridades.

As últimas cartas de grandes escritores

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Hemingway, sempre tão fotogênico, com sua máquina de escrever. / Kurt Hutton/Getty Images

O que autores como Hemingway, Plath, Lorca e Faulkner escreveram antes de morrer

Eduardo Laporte, no El País

Estes escritores alcançaram a imortalidade com suas obras, mas isto não impediu que sua hora chegasse. Antes houve uma última carta, um efêmero legado que todo escritor inevitavelmente deixou e do qual recuperamos uma pequena seleção.

A paisagem é linda por aqui, e tive a oportunidade de ver parte do maravilhoso campo ao longo do Mississippi, onde costumavam transportar os troncos nos velhos tempos da indústria madeireira, e as rotas por onde chegaram os primeiros colonos do norte. (…) Não sabia nada do alto Mississippi até agora, e realmente é um país maravilhoso, que se enche de faisões e patos quando o outono chega.

(…)

Meus melhores desejos para toda a família. Estou bem e muito contente pelas coisas em geral, com vontade de ver todos vocês em breve.

Papai

Extrato das 210 últimas palavras que Ernest Hemingway enviou pelo correio pela última vez. Dirigiam-se ao filho de um amigo, de 9 anos, doente do coração. Foram escritas 17 cartas antes de seu suicídio e, segundo Paul Hendrickson – que explora o tema em seu livro Hemingway’s Boat: Everything He Loved in Life, and Lost – são uma prova de beleza, coragem e lucidez.

4 de fevereiro, 1963

Querida mãe,

(…) Eu jamais poderia ser autossuficiente nos Estados Unidos; aqui tenho os melhores médicos completamente grátis e, com crianças, isto é uma verdadeira bênção. Além disso, Ted [Hughes] vê as crianças uma vez por semana e isto faz com que se sinta mais responsável na hora de pagar a pensão. Simplesmente, terei que continuar aqui me virando sozinha.

(…) Agora as crianças precisam de mim mais do que nunca, de modo que durante mais alguns anos tentarei continuar escrevendo de manhã e dedicando-me a elas durante a tarde, e verei meus amigos ou lerei e estudarei de noite.

Começarei a ir à consulta de uma doutora, também a cargo da Seguridade Social, que me recomendou um médico do bairro muito bom que conheço, e confio que me ajudará a superar esses tempos difíceis. Mande meu beijo carinhoso a todos.

Sivvy

Uma semana separa a última carta de Sylvia Plath (1932-1963) da noite, segunda-feira, lua quase cheia, em que abriu a válvula de gás do forno e enfiou ali a cabeça até morrer intoxicada. Seu ex-companheiro, o poeta Ted Hughes, havia definido a escritura de cartas como “um excelente treinamento para aprender a conversar com o mundo”. Não sabia que também servia para se despedir dele. Excelente escritor de cartas, Hughes redigiu textos secos e frios para comunicar a notícia fatal:

Querida Olwyn:

Na segunda-feira de manhã, às 6 da madrugada, Sylvia se suicidou asfixiando-se com gás. O funeral será em Heptonstall na segunda que vem. Ela me pediu ajuda, como muitas vezes fazia. Eu era a única pessoa que podia tê-la ajudado, e a única tão cansada de suas exigências que não foi capaz de reconhecer quando realmente precisava de ajuda. Escreverei mais para você depois.

Com carinho,

Ted

[Cartas de Arthur Rimbaud, extraídas, respectivamente, dos livros Cartas a mi madre, Mondadori, 2000, e Postdata: historia curiosa de la correspondencia, de Simon Garfiel, Taurus, 2015]

Áden, 30 de abril de 1891

Minha querida mamãe,

(…)

Estou prostrado, com a perna vendada, atado, amarrado, acorrentado para que não possa mexê-la. Me transformei num esqueleto: dou medo. A cama acabou provocando feridas na minhas costas: não consigo dormir nem um minuto. E aqui o calor é muito forte. A comida do hospital, apesar do preço que pago por ela, é muito ruim. Não sei o que fazer.

(…)

Não se assustem com tudo isso. Dias melhores virão. É uma triste recompensa depois de tanto trabalho, privações e penas. Ai, que miserável é nossa vida!

Rimbaud

Três semanas depois, o autor de Uma Temporada no Inferno sofreria a amputação de sua perna doente, após chegar a Marselha. Mas cortar o mal pela raiz não surtiu efeito no seu caso, porque a infecção cancerosa se alastrou e ele morreu meses depois, em novembro de 1890. Na véspera, em pleno delírio, deixou uma nota dirigida ao diretor do correio marítimo de Marselha, que dizia:

Estou completamente paralisado. Portanto, desejo estar a bordo ao raiar do dia. Diga-me a que horas devem me levar a bordo.

[Cartas extraídas de Cartas de África, Gallo Nero, 2012]

Paris, 15 de março de 1938.

Meu prezado e recordado amigo:

Um terrível abatimento me deixou prostrado de cama há um mês, e os médicos não sabem quanto ainda conseguirei seguir assim. Preciso de um longo tratamento e, como estou sem recursos para prossegui-lo, pensei no senhor, don Luis José, no grande amigo de sempre, para pedir a sua ajuda a meu favor. Em nome de nossa velha e inalterável amizade, permito-me esperar que o querido amigo de tantos anos me estenderá a mão, como uma nova prova deste nobre e generoso espírito que sempre o animou e que todos conhecemos.

Agradeço de antemão, com um abraço apertado, seu firme e invariável amigo.

César Vallejo.

Autor de Trilce, o peruano César Vallejo deixou uma última carta que revela suas dificuldades econômicas, graves a ponto de ter que (mais…)

Livro traz correspondências de mentes brilhantes

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(Fotos: Hulton Archive/Getty Images (2), Spencer Arnold/ Getty Images, Topical Press Agency/Getty Images)

(Fotos: Hulton Archive/Getty Images (2), Spencer Arnold/ Getty Images, Topical Press Agency/Getty Images)

Grandes ideias não precisam ocupar grandes livros. Personalidades geniais concentraram belos e complexos pensamentos em missivas breves

Marcos Coronato, na Época

Há muitos motivos para gostar de cartas – elas funcionam como delicadas cápsulas do tempo, a preservar sutilezas e segredos do pensamento. Elas convidam o autor, confiante na intimidade da correspondência, a expor ideias, desejos e medos que não confessaria em público. Hoje, e-mails assumiram essa função. Mas, impalpáveis, de existência frágil, sempre a um clique do extermínio, não oferecem um refúgio seguro às pequenas histórias da vida privada – ou às grandes correspondências, destinadas, em algum momento, à posteridade. A historiadora britânica Sarah Pearsall, da Universidade de Cambridge, considera o gênero epistolar o preferido dos viajantes, migrantes e refugiados – e, principalmente em períodos turbulentos, “nos esclarecem sobre os conceitos fluidos de privacidade, segredo e confiança”. Gosto especialmente delas porque obrigam o autor a concentrar, em poucas linhas, o que há de mais intenso em suas opiniões e seus sentimentos.

Por esses motivos e mais alguns, o editor inglês Shaun Usher garimpa cartas históricas há anos. Desde 2009, Usher mantém o blog Letters of Note, dedicado a publicar correspondência à moda antiga – cartas, cartões e memorandos com algum interesse histórico. Usher ama cartas não apenas por elas serem reveladoras, (às vezes) concisas e valiosas como documentos. Ele as adora por ser um nostálgico. Sua devoção precisou de espaço em um segundo blog, o Letterheady, dedicado apenas à beleza de papéis de carta, envelopes e carimbos. Em 2013, Usher escolheu 125 cartas para publicar numa coletânea, Letters of note (recém-lançada no Brasil pela Companhia das Letras, com o título Cartas extraordinárias). Na Inglaterra, o editor usou um site de financiamento coletivo para conseguir lançar o livro. O entusiasmo dos adoradores de cartas garantiu que ele levantasse o triplo do dinheiro necessário.

As 125 cartas formam um conjunto variado, às vezes engraçado, às vezes tocante. Há missivas de famosos a anônimos – a escritora Anaïs Nin explica a um leitor boçal por que escreve sobre sexo sem boçalidades. E de anônimos a famosos – o menino Jim Berger propõe ao consagrado arquiteto Frank Lloyd Wright que projete uma casinha de cachorro. Anaïs e Jim fazem parte de um grupo que brilha. Muitas das cartas revelam medos recônditos, paixões equivocadas e sonhos grandiloquentes. Outras tantas expõem pensamentos e ideias que mudaram o mundo. Todas permanecem vivas – e têm algo a nos dizer.

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Livro reúne cartas de celebridades e anônimos sobre temas variados

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Entre as correspondências, palavras de Fidel Castro ao presidente Franklin Roosevelt

Elias Thomé Saliba, no Estadão

“Se for de seu agrado, mande-me uma nota verde americana de dez dólares, na carta, porque eu nunca vi uma nota verde americana de dez dólares e gostaria muito de ter uma.” Quem escreveu isso, num inglês meio torto, foi um menino de 12 anos chamado Fidel Castro, em novembro de 1940, numa atrevida carta ao presidente Franklin Roosevelt. Esta é uma entre as 125 reunidas por Shaun Usher em Cartas Extraordinárias. Concebido a partir do blog Letters of Note, o livro reproduz, em bela apresentação gráfica, a maior parte dos fac-símiles das missivas.

Como quase tudo que vem da internet, Usher não se pautou por nenhum critério de seleção, o que só vira um problema porque desorienta o leitor incauto. De qualquer forma, libera quem lê para começar por onde quiser, numa surpreendente viagem por esses espaços privilegiados, cheios de sinceridade, farta irrestrição verbal e que conectam, quase sempre em alta voltagem emocional, o privado e o público.

CARTAS EXTRAORDINÁRIAS

Reprodução > "Amigos insistiram para que eu lhe escrevesse pelo bem da humanidade. Mas relutei em fazê-lo por achar que seria uma insolência de minha parte. (...) É evidente que o senhor é a única pessoa do mundo capaz de impedir uma guerra que pode reduzir a humanidade ao estado de barbárie. (...)" (1939)

Reprodução
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“Amigos insistiram para que eu lhe escrevesse pelo bem da humanidade. Mas relutei em fazê-lo por achar que seria uma insolência de minha parte. (…) É evidente que o senhor é a única pessoa do mundo capaz de impedir uma guerra que pode reduzir a humanidade ao estado de barbárie. (…)” (1939)

Reprodução > Início da carta enviada por Fidel Castro a Franklin Roosvelt: "Tenho 12 anos. Sou um menino mas penso muito mas não penso que estou escrevendo para o presidente dos Estados Unidos. Se for de seu agrado, mande-me uma nota verde americana de dez dólares, na carta, porque eu nunca vi uma (sic)" (1940)

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Início da carta enviada por Fidel Castro a Franklin Roosvelt: “Tenho 12 anos. Sou um menino mas penso muito mas não penso que estou escrevendo para o presidente dos Estados Unidos. Se for de seu agrado, mande-me uma nota verde americana de dez dólares, na carta, porque eu nunca vi uma (sic)” (1940)

Reprodução > "Aceitei sua sugestão referente a Charlotte Braun e vou descartá-la. (...) Lembre-se, porém, de que você e seus amigos carregarão na consciência a morte de uma criança inocente. Está disposta a assumir tal responsabilidade?" (1955)

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“Aceitei sua sugestão referente a Charlotte Braun e vou descartá-la. (…) Lembre-se, porém, de que você e seus amigos carregarão na consciência a morte de uma criança inocente. Está disposta a assumir tal responsabilidade?” (1955)

Reprodução > De Grace Bedell, 11 anos, para Abraham Lincoln: "Eu tenho quatro irmãos e alguns deles vão votar no senhor e se o senhor deixar crescer a barba eu vou tentar convencer os outros a votar no senhor o senhor ficaria muito melhor porque tem o rosto muito magro” (sic) (1860)

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De Grace Bedell, 11 anos, para Abraham Lincoln: “Eu tenho quatro irmãos e alguns deles vão votar no senhor e se o senhor deixar crescer a barba eu vou tentar convencer os outros a votar no senhor o senhor ficaria muito melhor porque tem o rosto muito magro” (sic) (1860)

Reprodução > De Abraham Lincoln a Grace Bedell: "Querida mocinha. Recebi sua amabilíssima carta. (...) Quanto à barba, como nunca usei, você não acha que as pessoas iriam dizer que é afetação de minha parte, se agora eu passasse a usar?" (1860)

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De Abraham Lincoln a Grace Bedell: “Querida mocinha. Recebi sua amabilíssima carta. (…) Quanto à barba, como nunca usei, você não acha que as pessoas iriam dizer que é afetação de minha parte, se agora eu passasse a usar?” (1860)

Reprodução > De Jack, o Estripador, "do inferno", para Georges Lusk: "Envio para o sinhor metade do rim que tirei de uma mulier gardei para o sinhor pois a outra parte eu fritei e comi estava muito gostozo” (sic) (1888)

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De Jack, o Estripador, “do inferno”, para Georges Lusk: “Envio para o sinhor metade do rim que tirei de uma mulier gardei para o sinhor pois a outra parte eu fritei e comi estava muito gostozo” (sic) (1888)

Nosso olhar pode borboletear por cartas pouco conhecidas, como a do sobrinho de Adolf Hitler, Patrick Hitler – o qual um ano depois de fugir da Alemanha e já residente nos Estados Unidos foi recusado pelo exército americano. Ele escreve ao presidente Roosevelt que, afinal, autoriza o alistamento – obviamente, após intensas e detalhadas investigações do FBI. Ou pode deter-se em missivas cheias de uma humildade desiludida, como a de Gandhi para Hitler, em julho de 1939, simplesmente pedindo “pelo bem da humanidade, para impedir uma guerra que nos poderia reduzir a um estado de barbárie”.

É sempre recomendável passar ao largo de alguns bilhetes de profundo mau gosto, colhidos no setor de criminalística, como aquele de outubro de 1888, acompanhado de uma caixinha de horrível conteúdo orgânico, remetido para George Lusk, o delegado de Whitechapel, e atribuído a Jack, o Estripador: “Envio para o sinhor metade do rim que tirei de uma mulier gardei para o sinhor pois a outra parte eu fritei e comi estava muito gostozo” (sic). Melhor vaguear pelos desvãos obscuros da vitrine, relendo escritos permeados de desbocados conselhos eróticos, como a de Anaïs Nin, de 1932, numa das muitas cartas nas quais, juntamente com seu amante Henry M[/TEXTO]iller, enviaram a um fictício “Colecionador”, obcecado com sexo: “Atividade intelectual, criatividade, romantismo, emoção. É isso que dá ao sexo suas texturas surpreendentes, suas sutis transformações e seus elementos afrodisíacos. (…) Por que você está perdendo tanto tempo por causa desse periscópio na ponta do pênis quando poderia desfrutar de todo um harém de maravilhas diferentes e sempre novas?”

O leitor pode ainda encher-se de nostalgia com a intensidade de cartas cheias de declarações afetivas, dor pela falta da pessoa amada ou registros comoventes da perda e do luto – nem sempre escritas por celebridades. Em 1615, Kimura Shigenari, jovem samurai de 22 anos, se preparou para comandar seus homens no cerco de Osaka. Sua esposa, sabendo que ele jamais voltaria e, sentindo-se incapaz de conviver com sua ausência, escreveu, pouco antes de se suicidar: “Nos últimos anos, partilhamos o mesmo travesseiro como marido e mulher que pretendiam viver e envelhecer juntos, e me incorporei a ti como se fosse tua própria sombra. (…) Agora perdi toda a esperança em relação ao nosso futuro juntos neste mundo e, atenta ao exemplo daqueles homens, decidi dar o passo extremo enquanto ainda estás vivo. Estarei esperando por ti no fim do que chamam o caminho para a morte.”

Muitas cartas descrevem o sempre inconformado desabafo da impotência humana em relação às tragédias da vida. Em novembro de 1905, Marc Twain, depois de perder o filho de nove meses com difteria, em seguida a sua filha Suzy, com meningite, e alguns anos depois, sua esposa, Olivia, assim respondeu a uma carta de 1904, acompanhada de um panfleto de J. H. Todd, criador e vendedor do “elixir da vida”, um remédio mágico capaz de curar todas as doenças: “Quem escreveu a propaganda é, sem dúvida, a criatura mais ignorante do planeta; sem dúvida, é um idiota (…) descendente de uma longa linhagem de idiotas que remonta ao Elo Perdido. (…) Daqui a alguns instantes, minha raiva vai passar e eu, provavelmente, vou rezar pelo senhor, mas enquanto não passa, apresso-me a desejar que o senhor, por engano, tome uma dose do seu próprio veneno.”

Hemingway. Estima-se que seu acervo seja composto de 6 mil correspondências

Hemingway. Estima-se que seu acervo seja composto de 6 mil correspondências

Mas o destaque da vitrine epistolográfica acaba, como sempre, arrebatado pelas cartas de crianças, as quais quando não escrevem – mas rabiscam seus inumeráveis desenhos entre tortuosas linhas num estilo pueril, de honestidade pura e chocante – acabam provocando as mais notáveis respostas aos seus bilhetes escritas por adultos compulsoriamente levados a desprezar papas na língua ou metáforas hipócritas. Em 1860, depois de ver um retrato ainda imberbe do então candidato a presidente Abraham Lincoln, Grace Bedell, uma menina de 8 anos, escreveu-lhe uma carta dizendo, sem mais delongas: “Eu tenho quatro irmãos e alguns deles vão votar no senhor e se o senhor deixar crescer a barba eu vou tentar convencer os outros a votar no senhor o senhor ficaria muito melhor porque tem o rosto muito magro” (sic). Lincoln respondeu à carta e até hoje se diz (sem insistir muito na verdade do fato) que ele passou a usar a barba por sugestão da menina. Já em 1897, Virgina O’Hanlon, de nove anos, seguindo o impaciente conselho do pai, que lhe dissera “se está no Sun é verdade”, escreve para o editor do jornal: “Por favor, diga a verdade para mim, Papai Noel existe?” A resposta vem em alto estilo: “Você poderia pedir para o seu papai contratar alguns homens para vigiar chaminés e pegar o Papai Noel, mas ainda que eles vissem Papai Noel entrando, o que isso provaria? (…) As coisas mais concretas do mundo são as que nem as crianças nem os adultos conseguem ver. (…) O mundo invisível é coberto por um véu que nem o homem mais forte, que nem todos os homens mais fortes juntos são capazes de rasgar. Só a fé, a fantasia, a poesia, o amor e o sonho conseguem abrir aquela cortina e contemplar e retratar a suprema beleza. Tudo isso é real? Ah, Virginia, essa é a única coisa real e imutável que existe neste mundo.”

“Lembre-se, porém, de que você e seus amigos carregarão na consciência a morte de uma criança inocente. Está disposta a assumir tal responsabilidade?” Essa foi a resposta certeira de Charles Schulz, o criador da série Peanuts a uma adolescente quando, em janeiro de 1955 ele teve que atender aos pedidos de defenestrar a personagem Charlotte Braun de seus quadrinhos, que despertara profunda antipatia nos leitores.

Diversão garantida mesmo só com as engraçadíssimas cartas nas quais Rudyard Kipling recomenda uma etiqueta escolar para o editor de uma revista de meninos, em 1898; ou na hilária resposta do humorista do stand-up, Bill Hicks, em 1993, a um padre que havia considerado blasfemo seu programa de TV: “Otimistas ou pessimistas divergem apenas sobre a data do fim do mundo”, escreve, parodiando o polonês Stanislaw Lec. Mas o arremate final vai para a carta de Groucho Marx, ainda um piadista incorrigível nos seus quase 86 anos, enviada a Woody Allen, em 1976: “O Goodie Ace falou para um amigo meu que você estava desapontado ou chateado ou feliz da vida ou bêbado porque não respondi a carta que você me mandou anos atrás. Você naturalmente sabe que responder cartas não dá dinheiro – a menos que sejam cartas de crédito da Suíça ou da máfia. Escrevo com relutância, pois sei que você está fazendo seis coisas ao mesmo tempo – cinco, incluindo sexo. Não sei onde você arruma tempo para se corresponder.” Humor marxista legítimo. Quer dizer, groucho-marxista.

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