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Cartas de Carlos Drummond de Andrade integram acervo público em Itabira

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Mais de 100 documentos comprados por fundação dedicada ao escritor serão expostos em sua terra natal

Publicado no Divirta-se

Marconi Drumond Lage

Lavras  – No dia em que Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) completaria 111 anos, nesta quinta-feira, os admiradores do poeta, em especial a população da terra natal, Itabira, vão ganhar um presente: a Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade acaba de adquirir um lote de documentos raríssimos. São correspondências destinadas a amigos e, principalmente, à mãe dele, escritas a partir de 1915 e que vão até 1986.

Em tempos de debate sobre a importância das biografias, o conjunto de documentos pode ser consideado uma espécie de capítulo de autobiografia, fundamental para a compreensão da vida e obra do poeta. Até então, esse tesouro estava guardado dentro de um armário. O dono era o jornalista e empresário de Lavras, no Sul de Minas, Eduardo Cicarelli. “Estou duplamente feliz. Primeiro porque não queria que essas cartas saíssem de Minas em hipótese alguma. Além disso, porque a história de Itabira agora tem um capítulo de Lavras”, diz.

Cicarelli é colecionador de selos e foi graças ao hobby que descobriu a correspondência de Drummond, há mais de 20 anos. Na verdade, foi por intermédio de um amigo, o advogado Anísio Cader, que conseguiu comprar o lote de documentos de parentes do poeta. Somente anos mais tarde soube que pertenciam a Ita, a cunhada de Drummond, que, por sua vez, herdou as cartas da sogra, Julieta Augusta, mãe do poeta.

Do Rio de Janeiro, o jornalista e empresário levou o material para Lavras com o intuito de fazer uma exposição no Instituto Brasil Estados Unidos da cidade. A mostra não vingou e ele guardou o material por 20 anos. “Se você detém essa informação e não repassa, é preferível nem ter. Chega uma hora que não dá mais para ficar atendendo jornalistas e pesquisadores”, afirma Eduardo. Quando tornou público seu desejo de vender o material, recebeu propostas de um site inglês e também de pesquisadores franceses.
“Imediatamente, fiquei alvoroçado. Não é todo dia que se encontra um lote de documentos tão preciosos, que dizem respeito sobretudo à intimidade do poeta”, conta Marconi Drummond Lage, primo do escritor e atual superintendente da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade. Pelo lote de valor inestimável entregue ontem durante cerimônia realizada em Lavras, a instituição pagou R$ 21 mil.

“São cartas endereçadas à mãe e conhecemos pouco da relação dele com ela. Com o pai, a obra traz alguns apontamentos. As cartas guardam muito sobre rotinas familiares, a saúde, o nascimento da filha, a notícia do noivado. É um manancial riquíssimo que ainda está por ser desvendado”, completa Marconi.

O lote tem 212 itens, entre cartas, fotografias, bilhetes, postais, escrituras e telegramas. O que mais chama a atenção são as trocas de afetos com a mãe, Julieta. Para se ter uma ideia da delicadeza com que se tratavam, sempre iniciava as correspondências com “Querida mamãe” e terminava com pedidos de bênçãos, uma curiosidade para o poeta de conhecido ateísmo. “Aqui, todos bem. Abençoe a netinha e o filho e receba as lembranças de Dolores”, escreveu em 1948.

TIMBRADO Em geral, as correspondências foram escritas em papéis timbrados do Ministério da Educação e Saúde, onde o poeta trabalhava na época como chefe de gabinete de Gustavo Capanema. O envelope era timbrado com o nome dele. Algumas das cartas ficaram incompletas. As peças mais antigas datam de 1892 e são escrituras da família Drummond.

Com a letra do poeta, bem pequena, o que há de mais antigo é uma folha de cheque do Banco da Amizade, entregue a Ita, a cunhada. O valor em questão era 365 dias de felicidade. Em uma clara brincadeira de criança, ele assina como Carlito o documento trocado em 28 de dezembro de 1915, quando tinha 13 anos. Nos cartões de visita endereçados à família, riscava o sobrenome, uma forma de ressaltar intimidade. Uma carta para Naná, de dezembro de 1986, é o último documento assinado por ele.

Em meio a tanta raridade, há uma carta enviada ao irmão Flaviano em 1925, informando o desejo de se casar com Dolores, o que ocorreu em 30 de maio daquele ano. “Comunicado isso, faço um convite, muito sincero e muito amistoso, tanto a ti como a Ita e crianças para que venham assistir o meu casamento”, redigiu. O lote tem também o cartão que comunica o nascimento da filha, Maria Julieta, em março de 1928, assim como a foto oficial da formatura em farmácia, em 1925. Na dedicatória: “Ao meu bom pai, lembrança de um amor filial”.

FONTE PARA PESQUISA

Assim que chegar a Itabira, o material fará parte do acervo do Memorial Carlos Drummond de Andrade. Antes de estar disponível para o público, os documentos serão higienizados e acondicionados corretamente. “Nesse processo vamos fazer a digitalização. É uma forma de salvaguardar o acervo e permitir que ele seja consultado a distância. A ideia é fazer um banco de dados”, informa Marconi Drummond. Segundo ele, com a aquisição deste lote Itabira se insere no mapa de instituições que guardam a memória do poeta, junto à Fundação Casa de Rui Barbosa e o Instituto Moreira Salles, ambos no Rio de Janeiro.

O Memorial Carlos Drummond de Andrade recebe anualmente média de 11 mil visitantes. O espaço mantém exposição permanente de livros e documentos. Entre as raridades do acervo, obras traduzidas para o alemão, inglês, italiano, espanhol e holandês. Outra recente aquisição é um exemplar de Alguma poesia, o primeiro publicado por Drummond, em 1930. “Acho que o que estamos levando para Itabira é um baú de prendas, como ele mesmo fala em sua obra”, resume Marconi.

Assim que chegar a Itabira, o material fará parte do acervo do Memorial Carlos Drummond de Andrade. Antes de estar disponível para o público, os documentos serão higienizados e acondicionados corretamente. “Nesse processo vamos fazer a digitalização. É uma forma de salvaguardar o acervo e permitir que ele seja consultado a distância. A ideia é fazer um banco de dados”, informa Marconi Drummond. Segundo ele, com a aquisição deste lote Itabira se insere no mapa de instituições que guardam a memória do poeta, junto à Fundação Casa de Rui Barbosa e o Instituto Moreira Salles, ambos no Rio de Janeiro.

O Memorial Carlos Drummond de Andrade recebe anualmente média de 11 mil visitantes. O espaço mantém exposição permanente de livros e documentos. Entre as raridades do acervo, obras traduzidas para o alemão, inglês, italiano, espanhol e holandês. Outra recente aquisição é um exemplar de ‘Alguma poesia’, o primeiro publicado por Drummond, em 1930. “Acho que o que estamos levando para Itabira é um baú de prendas, como ele mesmo fala em sua obra”, resume Marconi.

Leia trechos de cartas escritas por Drummond e familiares

de maio 1925

“Flaviano, abraço a todos Vou dar-te uma notícia: pretendo casar-me no dia 30 de maio próximo futuro com a srta. Dolores Morais. Comunicado isso, faço um convite, muito sincero e muito amistoso, tanto a ti como a Ita e crianças para que venham assistir o meu casamento.”

4 de maio 1943

“Querida mamãe, Aqui esta de novo seu filho depois de alguns dias de silencio, motivado pela trabalheira no ministério. De saúde vamos todos bem aqui nesta casa. A vida é normal, apesar da carestia de gêneros que a guerra tem determinado. Como deve saber, falta municipalmente açúcar e o governo resolveu racionar esse produto, para evitar mal maior. A quantidade de que dispomos, entretanto, é suficiente para o gasto normal. Espero que também aí a senhora não esteja privada do necessário. Se houver falta de alguma coisa, talvez eu possa ajudá-la, remetendo, por portador. Não tenha, pois, constrangimento em escrever.”

 

De Maria Julieta para Julieta

Rio, 5 de agosto de 1943

“Dindinha, Papai ganhou de um admirador incógnito uma rede colorida. Instalamo-la na pérgola e atualmente, o maior encanto da família consiste em munir-se de enorme provisão de biscoitos e – um livro debaixo do braço, Puck saltando atrás – deitar-se na rede. (…) Muito obrigada por tudo, Dindinha. A senhora é um amor. E eu serei sempre a neta dedicada. Maria Julieta”

Rio, 27 de fevereiro 1948

“Querida mamãe, Hoje resolvi fazer-lhe uma surpresa: mandar-lhe estas fotografias, para despertar na senhora algumas saudades. Lembra-se desse lugar? Certamente que sim. É o seu antigo Colégio de Macaúbas, onde a senhora passou algumas horas de sua vida.

Continuo naturalmente sem notícias suas, mas fico desejando que elas não sejam más. Como eu desejaria fazer alguma coisa para confortá-la em sua doença! Só me resta, porém, pensar afetuosamente na senhora e desejar-lhe dias tranquilos no seu cantinho do São Lucas.

Aqui, todos bem. Abençoe a netinha e o filho e receba as lembranças de Dolores. Todo carinho e saudades do Carlos”

 

Bando invade museu e leva livros e obras raras

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Documentos foram roubados do Centro de Ciências, Letras e Artes, em Campinas; as peças devem entrar no catálogo da polícia internacional

Publicado no MSN

A Polícia Civil e a Polícia Federal investigam um grupo de assaltantes que levou livros e obras raras, incluindo cartas enviadas ao ex-presidente Campos Sales (1898- 1902). Os documentos foram roubados do Centro de Ciências, Letras e Artes (CCLA), em Campinas, interior paulista, na quinta-feira.

Por volta das 16 horas, cinco assaltantes em uma Fiorino invadiram o CCLA, dominaram 12 pessoas que estavam no local – seis funcionários e seis visitantes – e levaram parte do acervo. Todos foram amarrados e trancados em uma sala enquanto o restante do grupo agia.

Entre as obras está uma coleção de 11 livros franceses de botânica do século 17, que já tinham sido roubados e recuperados pela Polícia Federal, no Rio de Janeiro, quatro anos atrás. O presidente do CCLA, Marino Ziggiatti, disse que os ladrões foram direto para uma sala onde ficam as obras mais raras. “Eles sabiam o que queriam, mas o valor dessas obras é histórico, não tem como dar um preço para elas.”

Mais de cem peças foram levadas do local. Entre o material roubado estão cartas e documentos do Museu Campos Sales, que fica no prédio, em homenagem ao quarto presidente da República, Manuel Ferraz de Campos Sales, que nasceu em Campinas e, antes de morrer, doou seu acervo pessoal para o CCLA.

Entre os documentos retirados também estão uma carta do imperador chinês Guangxu (1875-1908), enviada ao ex-presidente, e um volume sobre a história da Dinastia Romanov, que foi um presente do czar Nicolau II (1894-1917), último imperador da Rússia, a Campos Sales.

Na fuga, os assaltantes fugiram na Fiorino, com adesivos colados com a escrita “Museu das Artes”. Para a Delegacia de Investigações Gerais, de Campinas, foi um disfarce para a ação. A PF ainda não recebeu o catálogo com a descrição de quais obras foram roubadas, mas informou que assim que receber vai acionar a Interpol para tentar impedir que o material saia do País.

Alerta internacional. O delegado da PF, Hermógenes de Freitas Leitão Neto, destacou que um alerta logo será divulgado. “A Interpol (polícia internacional) tem um cadastro de obras raras roubadas e de suspeitos procurados especializados nesse tipo de crime. Isso vai auxiliar nas investigações da Polícia Civil”, disse.

O presidente do CCLA afirmou que até quinta-feira vai concluir o levantamento das obras furtadas e fornecer a lista dos títulos para a polícia iniciar as buscas. “Quem roubou acha que esse material tem valor, mas são documentos históricos, não acredito que alguém colecione esse tipo de coisa.”

Adolescente cria imagens surrealistas com efeitos de edição

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Zev Hoover, de 14 anos, criou série de fotos que lembram contos infantis
Imagens mostram contraste entre tamanho da pessoa e de outros elementos

Zev Hoover, de 14 anos, cria imagens surreais em seu projeto de fotografia “Little folk” Reprodução de internet / Fiddle Oak

Zev Hoover, de 14 anos, cria imagens surreais em seu projeto de fotografia “Little folk” Reprodução de internet / Fiddle Oak

Publicado em O Globo

RIO – Esta imagem parece ter sido extraída de um livro de contos infantis, mas é, na verdade, uma montagem com fotografias. O criador dessa e de outras fantásticas montagens é o americano Zev Hoover, de 14 anos. O adolescente da cidade de Natick, em Massachusetts, criou a série “Little folk” (ou Gente pequena, em tradução livre para português), na qual trabalha desde agosto de 2011 com a colaboração de sua irmã, Nellie, de 18 anos.

Para criar suas fotos surrealistas, ele brinca em programas de edição com a proporção de tamanho. É possível perceber pela grandeza dos elementos das imagens em comparação com as – pequenas – pessoas. Basta ver como o próprio Zev aparece nas imagens: montar uma torre de baralhos sendo da altura das cartas, voar segurando duas penas enormes em cada braço, ou estar na companhia de outra pessoa em um barco, feito com palitos de sorvete e uma folha, iluminado apenas por uma vela.

Em seu blog pessoal, o adolescente mostra o making off das imagens. Por exemplo, a imagem na qual voa em um avião de papel foi feita em algumas etapas. Os aviõezinhos foram presos em fios, e estes colados em uma placa de isopor (que, segundo ele, é um difusor que cria uma luz agradável nos objetos). As fotos foram tiradas com uma lente “tilt and shift” – na qual cenários reais parecem miniaturas ou maquetes. Com a ajuda do irmão, Zev fotografou as pernas e depois a parte de cima do corpo.

 

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O resultado do trabalho pode ser visto em sua conta no Flickr.

Educação pelas ondas do rádio

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Programa Para Ouvir e Aprender, veiculado pela Rádio Rural de Santarém, funciona como instrumento pedagógico e estimula aprendizado dos alunos

Alunos durante gravação do programa 'Para Ouvir e Aprender' (Foto: Divulgação)

Alunos durante gravação do programa ‘Para Ouvir e Aprender’ (Foto: Divulgação)

Publicado por G1

Em tempos de tecnologias modernas e avançadas, o rádio ainda se supera e mostra seu valor na educação. Que o digam as crianças da Escola São Jorge, na comunidade de Tapará Grande, próxima de Santarém, no Pará. Todas as segundas, quartas e sextas elas param o que estão fazendo e prestam atenção ao “Para Ouvir e Aprender”, veiculado pela Rádio Rural de Santarém de 7h30 às 8h e de 14h05 às 14h35. O programa é o carro-chefe do projeto Rádio pela Educação, que desde 1999 desenvolve ações usando o veículo como instrumento pedagógico. Atualmente, 76 escolas, além da São Jorge, participam do projeto. O Rádio pela Educação é premiado como iniciativa de sucesso em educomunicação, metodologia pedagógica que propõe o uso de recursos tecnológicos e técnicas da comunicação na aprendizagem, e faz parte do Mídias pela Educação, programa de educação a distância do Ministério da Educação (MEC).

“O programa traz para as ondas do rádio as realizações da escola, os sonhos dos alunos e as experiências que os educadores desenvolvem nas salas de aula. É a comunidade escolar falando dela e para ela. O objetivo do programa é incentivar a leitura, a escrita e o desenvolvimento da expressão oral de alunos e professores. O “Para Ouvir e Aprender” tem várias atrações, como entrevistas, radionovelas, cartas dos alunos e a sessão pedagógica, que semanalmente apresenta textos para incentivar a leitura de estudantes e professores. Com base em um guia pedagógico, produzido pela equipe do Rádio pela Educação em parceria com a Universidade Federal do Pará (UFPA), são propostas atividades para serem realizadas após o programa”, explica Cesar Souza, um dos coordenadores do projeto.

Ouvir o programa educativo pelo rádio já é uma atividade que faz parte do dia a dia das crianças de Santarém  (Foto: Divulgação)

Ouvir o programa educativo pelo rádio já é uma atividade que faz parte do dia a dia das crianças de Santarém (Foto: Divulgação)

O Rádio pela Educação utiliza o método Paulo Freire de ensino a distância aplicado às séries iniciais – 1º a 5º ano –, tendo o rádio como recurso pedagógico. Durante trinta minutos, o projeto leva para a sala de aula a realidade da Amazônia, na voz das crianças, adolescentes e professores das zonas urbana e rural, estimulando a leitura dos gêneros textuais presentes na escola e na sociedade (livros, cartazes, histórias, causos, rádio, TV, jornal, etc). Os alunos são os próprios repórteres e recebem gravadores para fazer matérias em suas comunidades. Quando a fita chega a Rádio Rural de Santarém, a equipe do programa faz um pré-edição e põe no ar. A oportunidade de participar ativamente deixa os alunos ainda mais atentos ao programa, conta o professor Lucenildo Santos da Silva, da Escola São Jorge.

“Quando está chegando a hora de começar, todo mundo se organiza para ouvir. Acho que os veículos de comunicação podem ajudar muito no processo de aprendizagem, tornando-o mais eficiente e divertido”, ressalta o professor.

Entretanto, mesmo sendo reconhecido e fazendo sucesso entre alunos e professores, o Rádio pela Educação esbarra em dificuldades técnicas. O projeto atende atualmente 12 mil alunos, porém, poderia ser ampliado se houvesse mais recursos, defende o coordenador Cesar Souza.

“Quando começou a ser realizado, em 1999, mais instituições de ensino participavam, no entanto, com o tempo, os aparelhos de rádio foram quebrando e não havia dinheiro para manutenção; fora as escolas que não têm mesmo rádio ou sistema de som. Para driblar a dificuldades, muitas vezes os colégios fazem ‘vaquinha’, bingos e contam com a ajuda de pessoas que doam aparelhos”, revela Souza.

De acordo com o coordenador, as escolas que desejarem participar do projeto Rádio pela Educação devem entrar em contato com a equipe por meio do telefone (93) 3523-1679 ou do email [email protected] Mais informações também no blog radiopelaeducacao.wordpress.com

A história da professora que se correspondia com Drummond

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Helena Maria Balbinot Vicari, de 72 anos, guarda 60 cartas que trocou com o autor mineiro

A professora, moradora de Guaporé, trocou cartas com o escritor durante 25 anos Foto: Fernando Gomes / Agencia RBS

A professora, moradora de Guaporé, trocou cartas com o escritor durante 25 anos
Foto: Fernando Gomes / Agencia RBS

Carlos André Moreira, no Zero Hora

Carlos Drummond de Andrade era um missivista intenso, mesmo para uma época em que escrever cartas era comum. Sua correspondência com Mário de Andrade foi editada em mais de 600 páginas. A com Cyro dos Anjos, em mais de 300.

Em Guaporé, a 235 quilômetros de Porto Alegre, uma professora guarda 60 cartas – para ela, tão valiosas quanto.

Helena Maria Balbinot Vicari, 72 anos, começou a se corresponder com Drummond de Andrade quando tinha 21 anos, em 1961 (o poeta estava chegando aos 60). Ela era aluna da escola normal em Guaporé e queria manifestar solidariedade diante de uma pedra recorrente no caminho do autor mineiro: a má vontade da crítica.

– Uma professora comparou em um livro um poema da Cecília Meirelles e um do Drummond, para dizer que ela sim fazia poesia, e que ele provavelmente sumiria das vitrines das livrarias em alguns anos. Fiquei indignada e escrevi para ele que o achava o melhor, ainda que meus professores não concordassem – conta ela.

Correspondente atencioso, Drummond respondeu, em mensagem datada de 16 de junho de 1961. Agradecia as palavras gentis e enviava, atendendo ao pedido da leitora, um cartão de visitas autografado. De tempos em tempos, Helena retomava o contato e sempre recebia resposta – as cartas seguintes já falavam de uma maior aceitação de Drummond na escola (a professora havia mudado). “Para um autor de minha geração, é interessante verificar como rapazes e môças aceitam a poesia chamada modernista, que foi tão combatida e mesmo ridicularizada pelos professores de ginásio, por aí além”, comemorava o poeta em novembro de 1962, ao saber que Helena e os colegas haviam realizado uma dramatização do drummondiano Noite na Repartição.

O contato foi sempre por escrito. Helena jamais conheceu o poeta, e só falou com ele por telefone uma única vez. A amizade epistolar durou até 1986 – um ano antes da morte dele. Helena mantinha Drummond informado de sua vida, seus progressos na escola normal, seu noivado e posterior casamento com Jurandir Vicari, o nascimento dos filhos, poemas que escrevera. Drummond sempre respondia, enviava versos, conselhos de alguém mais experiente (Drummond era quatro décadas mais velho).

Mais do que um testemunho da amizade de Helena com Drummond, as cartas que ela mantém bem guardadas nas folhas de plástico de um classificador preto são indício de uma relação ainda mais duradoura.

A convivência de Helena com a poesia.

Assista ao vídeo aqui.

Correspondência vai virar filme

É a própria Helena quem reforça essa impressão ao contar a história. Para falar das cartas a Drummond, recua até o momento em que descobriu o endereço do poeta, em um almanaque antigo. Aí se lembra de que precisa falar de como descobriu a poesia do autor, na adolescência, por meio da jornalista e poeta Lara de Lemos, que mantinha uma coluna de crônicas e poesia no Correio do Povo, e a quem Helena também escreveu.

– Ela me respondeu, e até me convidou para ir visitá-la em Torres, na praia. Bem que eu quis, mas meu pai disse: “ir pra casa de uma mulher que a gente nem conhece direito? Não vai”. E eu não fui – relembra.

Certa ocasião, em 1960, quando precisou ir a Porto Alegre para fazer exames médicos, Helena aproveitou para visitar a escritora com quem se correspondia. Foi Lara quem apresentou a jovem estudante ao trabalho de Drummond, lendo o poema Consolo na Praia (aquele do “o primeiro amor passou / o segundo amor passou…”). Por sugestão de Lara, Helena comprou o mesmo livro, na Livraria do Globo – Poemas, coletânea lançada em 1959 pela José Olympio, que ela guarda até hoje.

Helena escreveu por desagravo ao que considerava a avaliação injusta de uma professora à obra de Drummond. Em outra ocasião, confrontou outra mestra que havia apresentado em uma aula, o poeta como teatrólogo.

– Eu pulei e disse: o Drummond não é teatrólogo, é poeta. Ela só me respondia: mas é o que está aqui no papel que eu tenho. Escrevi para ele e ele comentou que havia apenas autorizado adaptações de sua obra, mas não era homem de teatro. Quando mostrei a resposta, a professora ficou branca de susto – narra.

Helena é cuidadosa com suas lembranças. Além de manter intacta a maior parte da correspondência com Drummond – por ingenuidade, ela mesmo admite, recortou para dar a uma professora a assinatura do poeta na segunda carta que ele enviou. Também mantém guardada uma carta que recebeu de Cecília Meirelles, também em resposta a uma correspondência enviada pela leitora.

Outro autor que durante anos recebeu palavras atenciosas da missivista foi Moacyr Scliar. Muitas vezes, Scliar registrava o recebimento das cartas em notas curtas na coluna que mantinha em Zero Hora – Helena ainda guarda os recortes. Até hoje, anota os livros que leu, peças e filmes a que assistiu. Geralmente, nos mesmos cadernos e agendas em que escreve os versos que ainda compõe, embora nunca tenha publicado.

Professora na ativa até 2010 – aposentou-se mais pela exigência legal e menos por intenção plena –, Helena já foi tema de outras reportagens como esta. Uma delas foi publicada neste mesmo Segundo Caderno de ZH, em 2002. Outro texto, do jornalista Emiliano Urbim, para a revista Piauí, em 2008, foi o responsável indireto por Helena agora estar prestes a ser tema de um filme. A diretora Mirela Kruel, autora do curta Palavra Roubada, leu a revista em uma viagem aérea voltando de Brasília. Chegou em Porto Alegre decidida a encontrar a correspondente do poeta em Guaporé. As conversas iniciais falavam em um curta de 15 minutos. Hoje, Mirela finaliza a preparação para começar as filmagens, possivelmente em abril. Financiado pelo Fumproarte, o filme vai equilibrar a voz de Helena contando a história e reencenações estreladas pelos Janaína Kraemer e Rodrigo Fiatt.

– Quero fazer um filme sobre a poesia, a própria criação poética – diz Mirela.

– Há três anos ela divide comigo esse sonho. Na primeira vez em que falou nisso, nem dormi à noite de nervosa. Mas confio nela – assevera Helena.

Depois de anos convivendo com a arte, ela está pronta para ser, ela própria, arte.

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