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Livro reúne cartas de John Lennon

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Imagem do livro ‘As Cartas de John Lennon’
Divulgação

Roberto Nascimento, no Estadão.com

Em 1968, John Lennon deixou George, Paul e Ringo constrangidos ao lançar o disco Unfinished Music No. 1: Two Virgins. Na capa, em cima de uma nobre frase encomendada a Paul McCartney, “Quando dois santos se encontram, a experiência nos faz mais humildes. A longa batalha para provar que ele era um santo”, John e Yoko se abraçavam, nus. Dentro, gravações experimentais tão subversivas quanto a arte que as envolvia indicavam o início de uma fértil carreira solo. Two Virgins chegou às lojas dez dias antes do lançamento do White Album, e o choque provocado pela capa, não só entre os Beatles, mas no mundo inteiro, é caso de estudo nas enciclopédias do rock.

É também um retrato da multifacetada personalidade de John Winston Lennon, nascido em 1940, em Liverpool, e assassinado em Nova York, em 1980. Ao mesmo tempo em que foi um balde de lama na imagem da banda mais querida do mundo (jogado por um criador cansado de aturar as falsidades inerentes à projeção de uma carreira internacional), o nu de Two Virgins pode ser visto por diversos ângulos: uma brilhante tacada de autopromoção, uma pura e inocente declaração de amor, um grito autodestrutivo, um vil surto em sua já deteriorada relação com Paul McCartney, ou apenas um trabalho vanguardista de um dos gênios do século 20. Não há resposta errada, e isto faz de John Lennon o Beatle mais complexo e, no olhar de muitos, o mais interessante.

Carente. Estes vários Johns – o gênio, o beberrão, o misantropo, o romântico inveterado, o mártir, o marido submisso – ganham vida em As Cartas de John Lennon, coleção completa de sua correspondência que chega às lojas amanhã, no dia em que John completaria 72 anos. A coleção, concebida por Hunter Davies, o único biógrafo autorizado dos Beatles, é em parte um agrado aos beatlemaníacos, em parte o retrato de uma das personalidades mais cativantes da história do rock. Entre suas pérolas estão as cartas que um apaixonado e carente John trocava com futura esposa, Cynthia, enquanto os Beatles aperfeiçoavam suas canções na zona de baixo-meretrício de Hamburgo; uma perversa troca de farpas com Paul McCartney depois do fim do grupo; e veementes cala-bocas em críticos, ativistas e músicos.

Imagem do livro ‘As Cartas de John Lennon’, de Hunter Davies
Divulgação

A primeira coisa a vir à tona são as complicadas relações que John tinha com as mulheres. Sem pai, órfão aos 18, criado por uma tia que sempre o quis castrar, e colocar seu pênis numa torta de maçã, de acordo com o próprio, John encontrava a salvação – ou a perdição – nos braços de mulheres como Cynthia Powell, seu primeiro grande amor, para qual escrevia, ainda aos 18 anos, cartas de amor adolescente. Uma delas ocupa uma página inteira com a frase I Love You, que tem o mesmo tipo de paixonite de outra carta, escrita anos depois, quando John já se separara de Cynthia e casara-se com Yoko, em que uma série de perguntas de uma revista holandesa, sobre cantores, filmes, cores e hábitos é respondida com a palavra “Yoko”, e as respostas de Yoko com a palavra “John”. Os desenhos de John e Yoko, e de Cynthia e John também costuram a narrativa do artista apaixonado, pronto para entregar sua autonomia a mulheres fortes.

Impiedoso. A genialidade e o humor de Lennon permeiam toda a sua correspondência, em que faz trocadilhos de forma incessante, escreve em inglês falso-shakespeariano e imita sotaques. Notas de um diário que compunha quando jovem são particularmente excêntricas e criativas. Mostram, no começo, a curiosidade infantil, tão crucial para a sua arte, que o músico manteria até o fim da vida.

Entretanto, ao mesmo tempo que podia ser submisso e “fofo”, em suas relações íntimas, John era também impiedoso e cruel com quem o incomodasse. Uma resposta, datada de 1969, para um ativista, que criticou a revolução pacífica de Lennon e Yoko, é cortante. Outra, clássica, endereçada a um crítico do The New York Times, que acusou os Beatles de roubarem a música negra americana, é um ácido tapa de luvas: “Não cantávamos as nossas músicas nos primeiros tempos – elas não eram tão boas, verdade -, a única coisa que sempre fizemos foi informar que as originais dos negros existiam, que amávamos a música… Não foi um roubo. Foi amor”, escreveu.

Inimigos. As brigas com Paul McCartney depois que os Beatles se separaram, em 1970, têm um capítulo próprio. Neste se encontra a carta mais impressionante do livro. John dispara contra Paul e sua mulher, Linda: “Eu espero que vocês percebam a merda que vocês e o restante dos meus amigos ‘amáveis e abnegados’ jogaram em Yoko e em mim, desde que estamos juntos. Nós dois ‘nos elevamos acima disso’ algumas boas vezes – e perdoamos vocês dois -, então é o mínimo que podem fazer por nós, seus nobres. Linda -se você não liga para o que eu digo -cale a boca! – deixe Paul escrever – ou algo assim”.

O termo “cartas” é amplo. Listas de supermercado, memorandos empresariais, resenhas, cartas aos fãs e cartas pessoais compõem o livro. E pelo fato das mais longas, em que John revela sua personalidade serem escassas, As Cartas de John Lennon tem momentos eletrizantes em meio a um mar de trivialidades, que, para os não-iniciados na história do rock, são costuradas por uma didática narrativa de Davies, sobre o contexto de cada correspondência.

Transcritas e fotografadas nas páginas do livro, as cartas fazem parte do mercado de memorabilia de John. Por isso, aquele tom de adoração, comum em quase todos que presenciaram os Beatles em seu ápice, é recorrente. Às vezes, uma bilhete de coisas a fazer, é apenas um bilhete. Para Hunter Davies, pode ser um recado dos deuses.

Cartas inéditas expõem o pensamento de Jorge Amado nos anos 40 e 50

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O RETORNO
Jorge Amado, Zélia Gattai e seus filhos Paloma (no colo) e João Jorge no Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, em 1952. De volta do exílio em Praga (Foto: acervo Folha Press)

Luis Antonio Giron, na Revista Época

Um dos maiores mistérios da literatura brasileira é a mudança radical do escritor Jorge Amado nos anos 1950. Na primeira metade da década, ele era um autor politicamente engajado. Escreveu em 1951 Um mundo da paz, livro de viagem que exalta as proezas do ditador Josef Stálin e dos países da antiga Cortina de Ferro. Na mesma época, embrenhou-se numa longuíssima ficção formatada na estética do realismo socialista, Os subterrâneos da liberdade, que seria publicada em 1954. Depois disso, ficou quatro anos sem publicar romances. Voltou em 1958 totalmente transformado. Em Gabriela, cravo e canela, e nos livros que se seguiram, o engajamento político daria lugar a uma ficção exuberante, colorida, viva, que o tornaria um dos escritores mais queridos do Brasil e inspiraria diversos filmes e novelas de televisão. São dessa fase, além de Gabriela, algumas de suas melhores obras: Os velhos marinheiros, Dona Flor e seus dois maridos, Tenda dos milagres e Tieta do Agreste. O que aconteceu entre 1954 e 1958 para haver transformação tão radical? Um fator, claro, deve ter sido a denúncia dos crimes de Stálin pelo líder soviético Nikita Kruschev, em 1956. Jorge Amado nunca falou longamente sobre sua desilusão com o comunismo – daí o mistério. Por causa disso, o lançamento, nesta semana, de um volume de cartas inéditas escritas entre 1948 e 1967 causou expectativa entre os fãs e estudiosos do escritor.

Toda a saudade do mundo: a correspondência de Jorge Amado e Zélia Gattai. Do exílio europeu à construção da casa do rio vermelho (Companhia das Letras, 192 páginas, R$ 34,50), organizado por João Jorge Amado, filho do casal, contribui pouco para deslindar o mistério. Por duas razões. A primeira é que a maior parte das cartas da seleção versa sobre temas de cunho pes¬soal. A segunda é que, para burlar a censura, Jorge Amado evitava falar de política e usava certos “códigos” para comentar determinados temas com sua mulher, a escritora Zélia Gattai. Chamava a União Soviética de “o país dos meus amigos”. Mencionava amigos militantes de forma indireta: Pablo Neruda era “o poeta” e o escritor russo Ilya Ehremburg era chamado de “Ikya”. Provavelmente, eram cuidados inúteis. Todo mundo sabia o que ele estava fazendo. Até os espiões do governo Dutra.

Embora a questão mais importante tenha ficado de fora, o pacote de cartas tem outros atrativos. Segundo o organizador da reedição das obras de Jorge Amado, Thyago Nogueira, o volume traz alguns de seus derradeiros textos inéditos. “Outras cartas hão de ser achadas”, afirma Nogueira. “E há ainda uma dezena de páginas do romance Bóris, o Vermelho, que ele estava escrevendo quando morreu e podem ser reveladoras.” As cartas foram encontradas pelos filhos em cinco pastas deixadas por Zélia Gattai. “Não foi difícil organizá-las”, diz João Jorge. “Difícil foi segurar a emoção.” A correspondência entre Jorge e a família é repleta de manifestações de amor, saudade e de luta pela sobrevivência no exílio em Paris, de 1948 a 1950, e – quando expulso da França – em Praga, de 1951 a 1952.

As cartas de Jorge são datilografadas às pressas ou, quando lhe faltava a máquina, redigidas à mão, algo que ele detestava. As que a família enviava a ele contam miudezas cotidianas. O conjunto narra a vida de Jorge e sua “querida Zé” nos anos 1940, entre compromissos políticos, dificuldades econômicas, a criação de dois filhos – Paloma e João Jorge – e o medo de serem eliminados num dos expurgos de Stálin. Longe de casa, Jorge declara seu amor a Zélia. Em certas passagens, subestima a beleza da pianista Anna Stella Schic (1925-2009), com quem parece ter tido um caso que provocou ciúme em Zélia. Muitas vezes pede à mulher que envie mantimentos.

Uma carta de Jorge Amado
a Zélia Gattai (Foto: divulgação)

Hospedado em hotéis baratos em Paris, tentava concluir o terceiro volume da saga Os subterrâneos da liberdade e divulgar a arte e a literatura brasileiras.

As melhores fontes para entender a guinada do escritor nos anos 1950 continuam a ser seus livros de memórias. Em Navegação de cabotagem, ele conta do choque que sofreu quando, entre 1951 e 1952, ficou hospedado num castelo em Praga com outros escritores comunistas. Lá, tomou conhecimento de que havia tortura na União Soviética, algo que dizia desconhecer. Além disso, amigos foram expurgados e eliminados no período de Praga. Em entrevistas, Jorge e Zélia disseram que a repulsa ao stalinismo se deu mais pelo pavor que testemunharam do que por argumentos racionais. Nas primeiras cartas enviadas a Zélia, antes que ela se juntasse a ele em Praga, Jorge deixa entrever a angústia. Mas não fala de política explicitamente nas cartas nem esmiuçou o tema em entrevistas posteriores. “Meu pai manteve o segredo sobre os detalhes de sua militância”, afirma João Jorge. “Isso não significa que não tenha mantido, até o fim, sua posição em favor dos pobres contra os ricos, dos fracos contra os fortes. Não houve uma mudança de pensamento. Ele apenas se afastou da rigidez comunista e trocou o realismo socialista pela crítica e pelo humor.” O romance brasileiro saiu ganhando.

Todas as cartas de amor de Fernando Pessoa e Ofélia

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Publicado originalmente na Revista Cult

Pela primeira vez, um único volume reune a correspondência completa entre Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz, tida como único amor do poeta. Ambos se conheceram no final de 1919, em um escritório onde Ofélia, então com 19 anos, trabalhava como secretária, e Pessoa, com 31, como tradutor.

Uma das curiosidades da compilação é a presença de cartas do heterônimo Álvaro de Campos, sobre o qual Ofélia diz, em carta de junho de 1920: “não gosto dele, é mau”. Em novembro do mesmo ano, o casal rompe, para se unir novamente dali a 9 anos, em 1929, e romper definitivamente em 1931.

Em depoimento ao jornal espanhol El Pais, a organizadora da obra Manuela Parreira da Silva, da Universidade Nova Lisboa, diz que a linguagem de algumas das cartas dá a entender que os dois não tiveram uma relação de amor platônico como se pensava. Além disso, ressalta a reticência de Pessoa em conhecer a família de Ofélia e um constante desejo por parte dela para que ele se comprometesse mais.

A obra ainda não tem previsão de lançamento no Brasil.

Cartas de João Cabral de Melo Neto vão a leilão

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Correspondências foram trocadas com Drummond, Vinicius de Moraes e Manuel Bandeira

Publicado no Último Segundo

Quanto valem cartas particulares assinadas por Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira, três dos maiores poetas brasileiros? Para a família de João Cabral de Melo Neto, o destinatário, são papéis de pouco valor, “porcaria” empoeirada pelo tempo.

No leilão que será realizado nos dias 10 e 11, no Rio, pela Babel Livros, conjuntos de parte da correspondência deles ao amigo comum, mais um nome nessa lista de gigantes, têm lances que começam em R$ 600, no caso de Vinicius (13 cartas e telegramas enviados entre 1949 e 1966), e R$ 1.200, no de Drummond (35 cartas datadas de 1940 a 1953).

Foto: Reprodução

 

Os itens estarão em exposição aos interessados a partir de sábado. O catálogo pode ser visto em www.babellivros.com.br/miolo_para_site.pdf e inclui primeiras edições de outros autores, entre raridades diversas.

Também à venda, bilhetes de artistas espanhóis, como Joan Miró, Joan Brossa e Modest Cuixart, dos quais o pernambucano, poeta e diplomata, se aproximou quando trabalhou no Consulado Geral de Barcelona, além de rascunhos manuscritos por ele e uma primeira edição de “Duas Águas” (poemas reunidos) com a singela dedicatória: “Para Papai e Mamãe, lembrança do filho amigo, João. Recife, 1956”.

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