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Resenha: Lição de anatomia do temível Dr. Louison

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Barbara Rodrigues, no Cuzcuz Literário

Antes de começar a falar do livro em si, devo citar que Lição de Anatomia do temível dr. Louison, do gaúcho Enéias Tavares foi o vencedor do concurso literário do selo Fantasy, da Editora Leya (Casa da Palavra), e dentre cerca de 1.400 autores inscritos, Enéias saiu vencedor e com a publicação de sua obra garantida.

Lição de Anatomia do temível dr. Louison

Sinopse: Porto Alegre. Dirigíveis gigantescos dominam o céu. Abaixo, o vapor cinzento dos bondes, das fábricas e dos estaleiros ao redor soma-se à fumaça dos charutos, dos cachimbos e das cigarrilhas. Vozes robóticas, barulho de hélices e maquinários misturam-se ao alarido do povo. De um Zepelin, desembarca Isaías Caminha, um jornalista carioca enviado à cidade para escrever uma matéria sobre o assassino em série Antoine Louison, que há poucos dias assombrava o local com um verdadeiro show de horrores – a exposição dos órgãos de suas vítimas. A aventura começa depois que o Dr. Louison, finalmente capturado e preso no hospício, desaparece misteriosamente de sua cela de segurança máxima sem deixar vestígios. Nesta busca pelo paradeiro do assassino, Isaías e um grupo de investigadores ainda vão topar com conhecidos do Dr. Louison, pertencentes a uma sociedade secreta de intelectuais, chamada Parthenon Místico, que estão dispostos a tudo para defendê-lo e desmascarar os criminosos. Esses amigos de Louison são alguns aclamados personagens da literatura brasileira, em reinvenção – Rita Baiana e Pombinha, de Aluísio Azevedo, Simão Bacamarte, de Machado de Assis, Solfieri, Álvares de Azevedo, entre outros.

Lição de Anatomia do temível dr. Louison

Lição de anatomia do temível dr. Louison se trata de um romance ambientado em 1911, em uma Porto Alegre retrofuturista. E é neste cenário que acompanhamos a investigação dos crimes cometidos pelo dr. Antoine Frederico Louison, condenado pelo assassinato de oito membros da alta sociedade, que se encontra preso no asilo São Pedro para Psicóticos e Histéricos a espera de sua execução.

Eis então que conhecemos Isaías Caminha, um jornalista que sai de sua cidade – Rio de Janeiro – para Porto Alegre dos Amantes com a missão de descobrir todos os detalhes e desvendar o caso mais comentado dos últimos tempos.

Enéias Tavares pega emprestado alguns dos grandes personagens da literatura clássica brasileira para criar uma fantasia steampunk, e por isso o livro é tão interessante. Podemos ver na personalidade dos protagonistas, características retiradas diretamente de clássicos brasileiros como O Alienista, de Machado de Assis; O Ateneu, de Raul Pompeia ou até mesmo O Cortiço, de Aluísio de Azevedo.
E isso, provavelmente, se tornou o ponto responsável pela criação de personagens tão marcantes, completos e entregues à trama.

Eneias-Tavares

Enéias Tavares

Tavares consegue criar um personagem misterioso, intrigante, e cheio de charme; dr. Louison encanta o leitor desde a sua primeira aparição, se tornando um personagem digno de comparação à Hannibal Lecter, por sua frieza e inteligência.

“Projetava-se ali a imagem que correspondia aos antigos e moribundos ideais de um título de doutor. Sua voz pausada e sua fabulação eloquente, um pouco desencontrada das imagens em projeção, me feriam os ouvidos como apenas a mais perfeita sinfonia era capaz. Era um doutor aquele homem, que resgatava da humanidade decaída o pecado original de sua origem simiesca. Um doutor que conquistava a audiência seguro de sua majestade, falando e gesticulando como um herói mítico, desses que a vida insiste em esfumaçar de nossa imaginação.”

Lição de Anatomia do temível dr. Louison

Enquanto isso, vemos o jornalista lutando para descobrir o que levou um famoso dr. a cometer tal absurdo e porque essas pessoas foram escolhidas. Será que elas possuíam uma ligação entre si? E assim, o universo Brasiliana Steampunk já começa a fazer sucesso e conquistar o coração dos leitores.

Com o diferencial de uma narrativa dividida em partes compostas por cartas, bilhetes, diários, ou simples e comuns dissertações, Lição de anatomia do temível dr. Louison consegue ser atemporal abordando temas como racismo e descriminação, e ainda assim, tratar-se de uma ficção fantasiosa.

A obra foi uma empreitada ousada da editora, mas ainda assim, muito bem feita. Até porque, nada melhor do que ler uma bela obra brasileira, sabendo que há uma continuação.

Tuíte de gaúcho convence editora a publicá-lo

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Professor Enéias Tavares (Foto Reprodução/A Razão)

Professor Enéias Tavares (Foto Reprodução/A Razão)

Cadão Volpato, na Folha de S.Paulo

“Num cenário retrofuturista, os heróis da literatura brasileira do século 19 investigam os crimes do ousado assassino serial Antoine Louison.”

Foi assim, em exatos 139 caracteres, que o escritor Enéias Tavares passou pela primeira etapa de um concurso de ficção científica promovido pela editora Casa da Palavra.

O desafio era resumir a trama de um romance num formato de Twitter, cujas mensagens são de no máximo 140 caracteres. Enéias acabaria vencendo mais de 1.500 concorrentes com o livro “A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison”, um exemplar da corrente “steampunk”, surgida no final dos anos 80.

O “steampunk” é um subgênero retrofuturista da ficção científica, o oposto do cyberpunk, com um pé no século 19 e outro no amanhã.

O gaúcho Enéias Tavares, 32, é professor de literatura clássica na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e especialista nos “Livros Iluminados” do britânico William Blake (1757-1827).

“A Lição de Anatomia…” mistura inúmeras referências da literatura brasileira do século 19, associando livremente as obras e personagens de Machado de Assis (1839-1908), Aluísio de Azevedo (1857-1913) e Lima Barreto (1881-1922) a serviçais-robôs e zepelins.

É um parente amalucado de Júlio Verne (1828-1905) e da série de televisão dos anos 1960 “James West”.

INFLUÊNCIAS

O Brasil já tem uma tradição no terreno da ficção científica, e Enéias Tavares conhece bem os autores brasileiros da área.

“Além de A Máquina Voadora’ (1994), de Braulio Tavares, sempre sugiro o primeiro livro de ficção científica nacional, que é O Doutor Benignus’ (1875), de Augusto Emílio Zaluar”, diz Tavares sobre suas preferências.

“Dos contemporâneos, adoro a obra de Fabio Fernandez, bem como os romances de Felipe Castilho (Ouro, Fogo & Megabytes’, de 2012) e Nikelen Witter (Territórios Invisíveis’, lançado no mesmo ano).”

Mas o idiossincrático roteirista de quadrinhos inglês Alan Moore (“Watchmen” e “A Liga Extraordinária”) é uma das fontes de inspiração mais palpáveis em “Lição de Anatomia”.

“Alguns amigos, quando leram pela primeira vez o meu romance, disseram que era A Liga Extraordinária’ com heróis brasileiros, o que foi o melhor elogio que eu poderia ter recebido”, conta o escritor.

“A Lição de Anatomia” traz uma espécie de “samba do crioulo doido” do mundo cibernético. Mas a graça está toda aí.

Faz muito tempo que a literatura brasileira contemporânea, tão comportada, não se deixa levar pela imaginação, conversando com o próprio passado.

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