Canal Pavablog no Youtube

Posts tagged Casa Museu

Um dia a casa cai

0
Com apoio estadual, a casa de Guimarães Rosa em Cordisburgo é um exemplo bem-sucedido de museu com atividades culturais, recebendo 33 mil visitantes em 2012

Com apoio estadual, a casa de Guimarães Rosa em Cordisburgo é um exemplo bem-sucedido de museu com atividades culturais, recebendo 33 mil visitantes em 2012

Joselia Aguiar, no Valor Econômico

Austero quando prefeito e avesso à autopromoção, Graciliano Ramos talvez aprovasse o estado-limite da casa onde morou e hoje abriga o museu que leva seu nome em Palmeira dos Índios, a cerca de 120 km de Maceió. A principal atração turística da cidade funciona de domingo a domingo e recebe escolas de todo o Estado. No ano passado, foram 16 mil alunos. Somando os turistas, foram 22 mil visitantes.

O museu funciona, mas longe do recomendado. Falta climatização; o modelo das vitrines, hoje, é vetado por museólogos; fiação e canos precisam de reparos e faltam equipamentos de segurança. O imóvel não passa por manutenção há duas décadas.

“Não, Graciliano não aprovaria”, diz João Tenório, responsável pela conservação e divulgação da casa-museu há 16 anos, algo como um administrador-geral. “O mestre sabia da importância da cultura.”

Para falar com Tenório, disca-se o número do celular, pois não há telefone na instituição. O administrador-geral não esconde a admiração pelo autor, que, na função de intendente, escreveu relatórios de prestação de contas ao governo que lhe trouxeram fama. Graciliano concebeu ali dois romances, “Caetés” e “São Bernardo”. Ele denunciava nos artigos e livros problemas que, ressalta João Tenório, são atuais não só em Alagoas, mas em todo o país.

A recente extinção da Secretaria de Cultura em Palmeira dos Índios – medida com que o prefeito reeleito James Ribeiro (PSDB) espera reduzir gastos em meio a uma arrecadação irrisória de ISS e IPTU – alarmou Luiza Ramos, única filha viva de Graciliano. “A situação é muito preocupante, o acervo está em risco”, disse. A casa-museu surgiu com a doação de sua mãe, Heloísa Ramos, em 1973. O acervo do escritor se distribuiu por quatro instituições. O IEB [Instituto de Estudos Brasileiros], da Universidade de São Paulo, ficou com a maior parte dos originais e manuscritos. O Arquivo Público de Maceió e o Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas receberam cartas, jornais e documentos relacionados ao Estado. Em Palmeira dos Índios, conservam-se objetos pessoais, que também precisam de restauro: a máquina de escrever e a cadeira, o barbeador elétrico, roupas, título de eleitor e passaporte, manuscritos e edições de livros.

Graciliano já apareceu em campanha publicitária do governo alagoano como o pai da responsabilidade fiscal no país. Para Luiza Ramos, porém, “o Brasil todo gosta de Graciliano, menos Alagoas”. Em março, os 60 anos de morte do escritor foram lembrados em eventos no país. Em julho, ele será o homenageado na Flip. Como a casa-museu não tem recursos para montar um estande, há risco de não conseguir se representar em Paraty.

Casa de Jorge Amado espera há oito anos para ser tombada, mas, se fosse, talvez não estivesse tão preservada

Em Ilhéus, no sul da Bahia, o quadro é semelhante. O prefeito, James Ribeiro (PP), assumiu o cargo declarando situação de emergência, com contas da prefeitura bloqueadas. Dois centros culturais estavam ameaçados de interdição: além do Teatro Municipal, a casa de cultura de seu artista mais famoso, Jorge Amado. Infiltração, vigas frágeis e ar-condicionado à beira do colapso demonstram que a casa precisa de reforma, como diz João Jorge Amado Filho, neto do escritor.

Em Salvador, outro lugar amadiano se encontra num impasse. A Casa do Rio Vermelho, onde Jorge viveu com Zélia Gattai por mais de 40 anos, ainda não se tornou um memorial, mas o projeto existe há oito anos. Seria mantido como uma PPP (parceria público-privada), modelo semelhante ao de três casas do poeta Pablo Neruda (1904-73), no Chile, e quatro do pintor Diego Rivera (1886-1957), no México. Em 2006, o Conselho Estadual de Cultura da Bahia negou o tombamento. A decisão dificultou a criação do memorial, mas não a manutenção do imóvel. Tombado, talvez não estivesse conservado como está. “Ainda queremos ver a casa transformada em memorial, mas a cada dia é um sonho mais distante”, diz João Jorge. “Na passagem do centenário [de Jorge Amado], nenhuma empresa, nem o governo mostrou interesse em nos ajudar.”

A diferença entre estar ligado a uma prefeitura em dificuldades ou a um governo dotado de mais recursos pode ser atestado numa experiência mineira, o Museu Casa Guimarães Rosa, em Cordisburgo, a 120 km de Belo Horizonte. O site da entidade é repleto de imagens e informações sobre atividades. “Somos tratados com muito carinho”, diz Ronaldo Alves de Oliveira, coordenador da instituição, que não depende da prefeitura da pequena cidade, mas da Secretaria Estadual de Cultura de Minas Gerais, por meio da Superintendência de Museus e Artes Visuais. A casa onde o autor mineiro nasceu se tornou museu em 1974. Guarda documentos e originais, objetos pessoais e mobília. Em 2012, teve quase 33 mil visitantes, dentre os quais 25 mil estudantes.

Desde 1990, o museu tem ações educativas e culturais, em parceria com a Associação dos Amigos do Museu Casa Guimarães Rosa, com fontes variadas de patrocínios. Na Semana Roseana, anualmente realiza-se uma série de eventos, como oficinas literárias, apresentações teatrais e shows musicais. Uma atração permanente é o grupo de contadores de histórias Miguilim, com 52 jovens entre 11 e 18 anos, que recebem treinamento em técnicas de narração e se apresentam em todo o país.

Especialistas em gestão cultural argumentam que, com o financiamento privado incerto e sazonal, as entidades devem ser amparadas por instâncias públicas. “Governos não devem bancar tudo, mas devem ficar com a maior responsabilidade. As atividades nesses centros não são autossustentáveis. Não conheço outro modo de uma casa-museu funcionar: tem de ter subsídio”, diz Ronaldo Bianchi, consultor de gestão cultural da Animus Consultoria. Em casos dramáticos, quem cuida de uma casa-museu tem uma saída: “Procurem o Ministério Publico”.

Captar recursos privados com leis de incentivo só é “relativamente” fácil em grandes cidades do Sudeste e para projetos de visibilidade, diz Ilana Goldstein, professora de gestão de bens culturais na Fundação Getúlio Vargas. “Mesmo assim, resta o problema da manutenção permanente.” Gestores de casas-museus se queixam da dificuldade em manter equipe capacitada e permanente, em realizar obras de infraestrutura e até manter o ar-condicionado em funcionamento.

A ajuda pública contribui para que a Casa do Sol, sítio em Campinas onde viveu e escreveu Hilda Hilst, conseguisse o tombamento. Como grande propriedade em zona urbana, pagava R$ 100 mil em IPTU, valor incompatível com um instituto cultural. “A preservação e as atividades só se tornaram viáveis com o tombamento”, diz Daniel Fuentes, herdeiro e gestor do acervo. “Não se entendem demandas vinculadas à memória, só à edificação de valor arquitetônico. Foi preciso o apoio de dois secretários de Cultura e até do prefeito.”

Fuentes recomenda a seus pares um plano de negócios factível no mercado cultural brasileiro. “Deve-se buscar a maior diversidade possível de fontes de financiamento. Patrocínio é só uma das possibilidades e depende de sucessos anteriores da instituição.”

No caso de Hilda Hilst, incluem-se direitos autorais, o Programa de Residências Criativas e, agora, um teatro de arena recém-inaugurado graças a recursos obtidos com crowdfunding, em mobilização pela internet.

Especialistas iniciam processo para exumar restos mortais de Neruda

0

Objetivo é esclarecer se poeta morreu de câncer ou por envenenamento.
Dúvidas foram levantadas por motorista dele, em entrevista dada em 2011.

Especialistas forenses iniciam processo de exumação de restos mortais de Pablo Neruda. (Foto: Justiça do Chile/AP Photo)

Especialistas forenses iniciam processo de exumação de restos mortais de Pablo Neruda. (Foto: Justiça do Chile/AP Photo)

Publicado por G1

O poeta chileno Pablo Neruda (Foto: Divulgação/ "Siete Días Ilustrados"/Wikicommons)

O poeta chileno Pablo Neruda (Foto: Divulgação/
“Siete Días Ilustrados”/Wikicommons)

Os trabalhos de retirada de terra do túmulo de Pablo Neruda começaram no domingo (7) no Chile a fim de que possam ser exumados nesta segunda-feira (8) os restos mortais do poeta. O objetivo é esclarecer se ele morreu de câncer ou se foi envenenado por agentes da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990), informou a agência EFE.

Os preparativos foram iniciados na tarde de domingo na cidade litorânea de Isla Negra, 100 km a oeste de Santiago, onde fica a casa-museu em cujo pátio estão os restos do poeta junto aos de sua terceira esposa, Matilde Urrutia.

A casa-museu fechou suas portas ao público antes do horário habitual, e a polícia bloqueou o acesso à sua rua.

‘Esta diligência é transcendental, é muito importante para estabelecer o objetivo que nós temos’, disse o juiz responsável pelo caso, Mario Carroza, à imprensa.

Os preparativos consistem em retirar toda a terra que cobre o túmulo a fim de descobrir a lápide, sobre a qual foi colocada uma tenda protetora.

A equipe que participará da exumação do corpo é composta por cinco peritos do Serviço Médico Legal, quatro da Universidade do Chile e quatro especialistas internacionais.

Entre eles estão a toxicóloga americana Ruth Winecker e três espanhóis, o também toxicólogo Guillermo Repetto, o cirurgião Aurelio Luna e o médico legista Francisco Etxeberría, que também participou, em 2011, da exumação do presidente chileno Salvador Allende.

A diligência será realizada nesta segunda-feira a partir das 8h locais (mesmo horário em Brasília).
No procedimento estarão presentes três observadores internacionais, além do presidente do Partido Comunista (PC), Guillermo Teillier; o advogado da legenda, Eduardo Contreras; um sobrinho do poeta, Rodolfo Reyes, e o antigo motorista de Neruda, Manuel Araya.

Depois, os restos mortais serão levados a um laboratório de antropologia do SML em Santiago, que contará com vigilância permanente e medidas de segurança especiais, para serem submetidos a diversas análises.

Câncer ou envenenamento?

Os exames visam determinar a veracidade da versão oficial da morte de Neruda, segundo a qual o autor morreu em um hospital particular de Santiago em 23 de setembro de 1973, apenas 12 dias depois do golpe de Estado de Pinochet. A causa oficial da morte foi câncer de próstata.

As dúvidas surgiram em 2011, quando seu antigo motorista, Manuel Araya, defendeu em entrevista a uma revista mexicana que Neruda tinha morrido por uma injeção que recebeu naquele mesmo dia.

Todas as testemunhas da época concordam que ele recebeu essa injeção, mas o fator chave está em saber se era um calmante, como se disse então, ou se continha outro tipo de substância.

“Existem muitas contradições no processo, principalmente sobre o que aconteceu na clínica em que Neruda recebeu atendimento”, disse o advogado que fez o pedido de exumação, Eduardo Contreras, à agência Efe.

“Para citar um exemplo, há dúvidas a respeito da real identidade do médico que teria injetado um medicamento (dipirona) no poeta, supostamente para lhe aliviar a dor”, completou Contreras, que ressaltou que Neruda “deveria ser atendido por um médico chamado Sergio Draper”.

“É estranho o fato de que Draper fosse trabalhar na clínica apenas três dias antes da morte de Neruda, ainda mais por ser um médico ligado ao Hospital Militar e, inclusive, mencionado na morte (em 1982) do ex-presidente Eduardo Frei Montalva nessa mesma clínica por envenenamento, como está credenciado na Justiça”, precisou.

“É preciso citar que a ficha médica de Neruda também desapareceu e que a Clínica Santa Maria não entregou a lista com todos os seus funcionários em 1973″, afirmou o advogado, que lembrou que, no dia 24 de setembro de 1973, o jornal ‘El Mercurio’ publicou que Neruda morreu de infarto após ter recebido uma injeção”.

Isla Negra, 100 km a oeste de Santiago, onde fica a casa-museu em cujo pátio estão os restos do poeta junto aos de sua terceira esposa, Matilde Urrutia. (Fto: Justiça do Chile/AP Photo)

Isla Negra, 100 km a oeste de Santiago, onde fica a casa-museu em cujo pátio estão os restos do poeta junto aos de sua terceira esposa, Matilde Urrutia. (Fto: Justiça do Chile/AP Photo)

dica do João Marcos

Go to Top