Contando e Cantando (Volume 2)

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Como vetos à literatura ocorrem pela ação de gente culta

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O historiador, surpreendido com a censura brasileira, que intimou Sófocles a depor

O historiador, surpreendido com a censura brasileira, que intimou Sófocles a depor

 

Historiador americano Robert Darnton mostra como censores discriminavam um texto refinado de um embuste literário na França, Alemanha e Índia

Rosane Pavam, na Carta Capital

Nem mesmo em 1989 havia alguém tão especializado em Iluminismo quanto o historiador americano Robert Darnton. Eis por que o Brasil o chamava a palestrar sobre o bicentenário da Revolução Francesa. Então aos 50 anos de idade, pai de três filhos, erudito de Harvard e Oxford, ex-repórter policial do New York Times, autor de livros escritos com a clareza dos dias, pesquisados nas profundezas dos arquivos, Robert Darnton mal podia crer em tudo aquilo que presenciava na capital paulista.

Seus habitantes eram cientes do mundo ao redor. Os raios de sol, constantes. Os discursos, inacreditavelmente bem compostos pelo candidato à Presidência Luiz Inácio Lula da Silva. A ascensão do Partido dos Trabalhadores causava profunda excitação em qualquer historiador. E que livrarias São Paulo tinha.

Em agosto daquele ano, Darnton pegaria na capital paulista um voo para Berlim. Convidado por um instituto de estudos avançados, escreveria ali, por um ano, mais uma monografia sobre seu assunto de imersão. Antes partiria para Halle, na então Alemanha Oriental, para um encontro acadêmico. “Eu havia saído do Brasil, que era a luz, para chegar às trevas”, conta a CartaCapital por telefone a partir de Harvard, onde hoje é professor aposentado e dirige sua biblioteca, a maior entre as universitárias em todo o mundo. “Eu estava, então, na profunda Alemanha Oriental, sob uma atmosfera diferente e fascinante, nas suas cidades em que tudo era poluído, chovia o tempo todo e não havia energia elétrica à noite.”

Em A Vida dos Outros, a Alemanha Oriental vigiada

Em A Vida dos Outros, a Alemanha Oriental vigiada

 

Nem por um momento imaginou, então, que a divisão entre dois sistemas políticos estivesse prestes a se esfacelar. “Queria poder dizer a você que eu sabia antecipadamente que o muro iria cair, mas não tinha a menor ideia”, diz sobre o evento a selar o fim da Guerra Fria. Enquanto estudava a revolução burguesa ocorrida dois séculos antes, uma transformação de fato se dava diante de seus olhos. “O chão começou a tremer. Eu saía, assistia às manifestações, conversava com os habitantes. Assim que o muro caiu, em novembro, interrompi meu livro e passei o tempo a viajar para Berlim Oriental e a escrever artigos sobre o que via.”

Interessou-se pelos arquivos do regime e descobriu que fora distinguido por eles. “Um amigo alemão oriental me contou, em 1992, que eu tinha meu próprio dossiê na polícia política Stasi, citado como um ‘jovem burguês progressista’. Nunca vi esse arquivo. Mas o xingamento me divertiu muito, me pareceu elogioso.” Enquanto pesquisava, descobria um universo inaudito.

Os alemães-orientais não apenas censuraram livros. Eles organizaram um imenso sistema para encaminhar a literatura a seus propósitos ditos revolucionários. Os censores discriminavam um texto refinado de um embuste literário. Quando censuravam, às vezes impossibilitando a carreira de um autor, agiam como professores, o que de fato eram, advindos dos melhores cursos de Letras.

Darnton entrevistou dois desses censores, empenhado em mantê-los próximos com simpatia, conforme lhe ensinara a prática jornalística. Sentiu-se incrédulo que ainda advogassem a permanência do muro, este que mantivera distante dos leitores a realidade do país, apenas descrita nos livros se transcorrida ficcionalmente em países capitalistas (os personagens alcoólatras, por exemplo, tinham de ser americanos). A Alemanha Oriental do período, dos móveis às vestimentas e aos comportamentos, foi descrita em perfeição, crê o historiador, no filme A Vida dos Outros, de Florian Henckel von Donnersmarck.

Censores em Ação, lançado agora no Brasil, é o livro em que Darnton analisa, além do sistema alemão-oriental, o sofisticado veto britânico à produção literária indiana, no século XIX, ocorrido até mesmo contra os ideais libertários de expressão defendidos na Inglaterra, e a censura aos livros na Paris dos anos 1700, quando toda publicação, caso não pudesse obter uma autorização real para se efetivar, deveria tentar a sorte em Amsterdã ou Genebra. Darnton estuda como o diretor do comércio de livros comandava uma cadeia de censores e, com o apoio da polícia, restringia a ação dos livreiros clandestinos.

“Havia um inspetor especializado em literatura na polícia francesa. Ele passava todo o tempo a andar pelas livrarias. Refazia a trilha dos autores, conhecia os iluministas.” Darnton gastou horas a entrevistar, por assim dizer, os inspetores da Paris de 250 anos atrás. “A polícia francesa do século XVIII era muito mais sofisticada do que a americana do século XX, quando comecei no jornalismo.” O historiador perdeu o pai enquanto ele cobria a Segunda Guerra Mundial para o New York Times.

“Órfão aos 3 anos, cresci com a ideia de que ser um repórter de jornal era a melhor coisa que jamais se poderia fazer na vida.” Seu irmão tornou-se jornalista, e sua mãe, igualmente editora daquele jornal, sofreu quando Darnton constatou que os arquivos, com os quais aprendera a lidar em Oxford, davam-lhe muito mais satisfação pessoal do que relatar assassinatos e assaltos a banco. “Eu fui a ovelha negra da família. Me tornei apenas mais um professor universitário.”

Um professor que escreve como jornalista, imbuído das palavras nítidas, e que se propôs a analisar uma ação patrocinada pelo Estado, como subscreve o entendimento da censura. Em seu livro, descreveu casos duros. Na Alemanha Oriental, o editor Walter Janka, apesar de leal à ideologia em curso no país, passou cinco anos em uma solitária, autorizado a ver a mulher por apenas duas horas ao ano, apenas porque protegera George Lukács, um autor que caíra em desgraça no partido.

Darnton, contudo, ressalva que, nos três sistemas por ele estudados, quem cortava textos sabia por que o fazia. Os censores franceses concentravam-se mais em questões de conteúdo e estética e menos em ameaças à Igreja, ao Estado e à moralidade. Um censor que era teólogo atestou certa vez que um livro sobre história natural lhe parecia uma ótima leitura. Ele não conseguiu largar o livro, disse, porque inspirava no leitor “essa curiosidade ávida, mas doce, que nos faz continuar a leitura”. Darnton pergunta-se: “Será essa a linguagem que se espera de um censor?”

Por todo o ensaio, o que o historiador parece desejar é que se desfaça uma ampla relativização do conceito (a seu ver, a censura jamais se dá fora do âmbito estatal) e que ela não seja entendida de modo maniqueísta. “Convenci-me, depois da leitura das correspondências e dos memorandos internos dos censores franceses, que se tratava de indivíduos altamente inteligentes. Tinham boas relações com os autores, melhoravam os textos com sugestões. Tentavam defender a honra da literatura francesa. A censura no século XVIII francês foi positiva. Com a ressalva, claro, de que o Iluminismo não passava pela censura, pois era editado em libelos ou em publicações fora da França.”

Darnton lamenta conhecer pouco a história latino-americana. Contudo, enquanto produz um novo ensaio, em torno do vendedor de livros que, montado a cavalo na França de 1778, realizou uma Tour de France por livrarias, sua releitura de cabeceira é O Aleph, de Jorge Luis Borges. O historiador reage com espanto ao saber que no Brasil os censores nunca foram muito inteligentes. E que, na ditadura, convocaram o filósofo Sófocles a depor sobre uma montagem de Antígone.

Leitor das notícias do Brasil a partir do New York Times, Darnton também ignorava que uma decisão do Legislativo impediu recentemente os professores de Alagoas de opinar em sala de aula e que a Justiça havia proibido os estudantes de uma universidade pública de Minas Gerais a discutir o impeachment. Mais que isso, uma censura de mercado, fundamentalista religiosa, dificulta a impressão de obras tidas por blasfemas, como ocorreu a Gênesis, de Robert Crumb. “Meu coração fica com os brasileiros, porque vivem essa crise tão grande. Só posso me solidarizar com eles.”

Tentativa de censura de livro de Monteiro Lobato para no STF

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'Caçadas de Pedrinho', de Monteiro Lobato: alegação de conteúdo racista pode impedir livro de ser distribuído nas escolas (VEJA)

‘Caçadas de Pedrinho’, de Monteiro Lobato: alegação de conteúdo racista pode impedir livro de ser distribuído nas escolas (VEJA)

Publicado na Veja

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luiz Fux negou seguimento a mandado de segurança que tentava impedir que escolas adotassem o livro Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato, alegando que a obra teria caráter racista. Segundo o ministro, o STF não tem competência para apreciar mandado de segurança impetrado contra o ato do ministro da Educação, que liberara a obra para as escolas.

O pedido de mandado de segurança foi feito pelo Instituto de Advocacia Racial e Ambiental (Iara) e pelo professor e técnico em gestão educacional Antônio Gomes da Costa Neto. Eles pediam anulação de parecer do Conselho Nacional de Educação (CNE), que teria liberado a obra de Lobato para adoção nas escolas sem a inclusão de nota explicativa sobre o alegado racismo e sem que os professores fossem treinados para tratar do assunto em sala de aula.

Em seu despacho, o ministro Fux afirma que o STF só tem competência para julgar mandados de segurança conta atos do presidente da República, das Mesas da Câmara e do Senado Federal, do Tribunal de Contas da União (TCU), do procurador-geral da República e do próprio Supremo. “Assim, a incompetência desta Corte para a apreciação de mandamus impetrado contra ato do Ministro da Educação que homologou parecer do CNE”, concluiu.

Após acordo confidencial com Luciana Gimenez, editora suprime trechos de biografia de Jagger

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Autor protesta contra ‘censura’ no livro ‘Mick — A vida selvagem e o gênio louco de Jagger’

Livro deveria ter chegado às livrarias brasileiras em 2013, mas teve lançamento adiado depois que a Objetiva resolveu submeter o texto aos advogados da apresentadora de TV - AFP PHOTO/ANDREW COWIE / AFP PHOTO/ANDREW COWIE

Livro deveria ter chegado às livrarias brasileiras em 2013, mas teve lançamento adiado depois que a Objetiva resolveu submeter o texto aos advogados da apresentadora de TV – AFP PHOTO/ANDREW COWIE / AFP PHOTO/ANDREW COWIE

Maurício Meireles, em O Globo

A novela das biografias ganha mais um capítulo — até agora sem final feliz para quem é favorável à publicação de obras sem autorização dos biografados. O livro “Mick — A vida selvagem e o gênio louco de Jagger”, escrito pelo jornalista americano Christopher Andersen e que a editora Objetiva planeja lançar no Brasil em janeiro, vai chegar às prateleiras com algo a menos que a versão em inglês, lançada em 2012: após negociação com a apresentadora Luciana Gimenez e seus advogados, a editora suprimiu partes da obra que se referem à ex-modelo. O motivo, naturalmente, foi o medo de um processo.

Procurada, Luciana afirmou, por meio de sua assessoria de imprensa, que só vai se manifestar quando o livro sair. Ela ainda não leu a versão com os cortes, como prevê o acordo. Em nota, a Objetiva diz que, durante todo o processo de edição do livro, “encaminhou ponderações do advogado de Luciana ao autor.” A editora afirma ainda que os “ajustes” aceitos pelo biógrafo “foram poucos”, mas que “não pode abrir os detalhes dessa negociação, até porque o acordo foi feito sob a premissa de confidencialidade”.

“Censura é censura”

Apesar de a editora informar que as alterações foram poucas, Andersen, autor também de “Jagger: unauthorized” (1993), diz-se indignado. Ele também não revela o que foi suprimido.

— Fiquei chocado ao saber que o Brasil proíbe biografias não autorizadas. Como o país pode ser uma sociedade livre sem saber a verdade sobre suas figuras públicas? — protesta o autor. — Depois de 45 anos de carreira e 33 livros, aprendi que a maioria das celebridades mentiu por tanto tempo sobre a própria vida que esqueceu o que é real. Em nenhuma edição estrangeira de meus livros trechos foram suprimidos. A verdade é a verdade. Censura é censura. Qual é o próximo passo, fogueiras de livros? Essas celebridades que defendem causas liberais e depois tentam controlar tudo o que é escrito sobre elas são muito hipócritas. Cada sílaba da biografia é real.

O motivo da polêmica é a relação que Luciana Gimenez manteve com o cantor enquanto ele ainda era casado com a modelo e atriz Jerry Hall. Do caso dos dois, nasceu Lucas Jagger, hoje com 15 anos.

O nome de Luciana é citado 55 vezes na versão original. A primeira é para descrever a noite em que os dois se conheceram, numa festa do empresário Olavo Monteiro de Carvalho, em abril de 1998. O biógrafo escreve que Jagger passou a noite “sussurrando” no ouvido de Luciana, até os dois saírem para o jardim da casa para “meditar”.

Andersen menciona uma entrevista que fez com Lars Albert, citado como amigo de Luciana. Albert diz que ela parou de tomar anticoncepcionais porque “sonhava em ser mãe” e por achar que assim Jagger deixaria a mulher. A biografia afirma que, após mais de um ano de briga judicial, Luciana e Jagger assinaram um acordo pelo qual o roqueiro pagou a ela US$ 5 milhões, mais US$ 25 mil mensais de pensão alimentícia.

A base de dados do site “Publisher’s Lunch”, com negociações editoriais do mundo inteiro, mostra que os direitos da biografia foram comprados pela Objetiva em 2012, após um “pre-empt”. Isso significa que, apostando no potencial da obra, foi oferecido um valor para impedir que o livro fosse a leilão. A ideia inicial era publicá-lo em janeiro de 2013, mas o imbróglio atrasou o lançamento.

Os cortes no texto original começaram no mesmo ano da compra, quando o biógrafo publicou um artigo no jornal “Daily Mail” em que dizia que Luciana havia sido atriz pornô, o que não é verdade. A afirmação circulou amplamente nos sites de fofoca brasileiros, culminando em uma retratação do “Daily Mail” e do próprio autor.

A biografia original, na verdade, não se refere à apresentadora como atriz pornô, mas à sua mãe, Vera Gimenez, como atriz de soft porn, expressão que define filmes com cenas eróticas, mas sem sexo explícito. Vera protestou na época. Segundo a base de dados da Cinemateca Brasileira, a mãe da ex-modelo esteve em filmes como “Por que as mulheres devoram os machos?” (1980) e “Marido que volta deve avisar” (1976), classificados pela instituição sob o gênero “erotismo”.

A supressão de trechos do livro vem à tona num momento em que tramita no Brasil a Lei das Biografias, que permite a produção e publicação de biografias sem autorização dos biografados e que aguarda votação na Comissão de Constituição e Justiça do Senado. O relator do projeto, senador Ricardo Ferraço (PMDB-ES), resolveu recentemente adiar a votação em busca de maioria, por acreditar que o PL não seria aprovado. Ele propôs a supressão de uma emenda feita na Câmara que entrega aos juizados especiais cíveis a competência para julgar casos de biografados ofendidos. Ao mesmo tempo, o mercado aguarda o voto da ministra do Supremo Tribunal Federal Cármen Lúcia, relatora da ação direta de inconstitucionalidade movida por editoras para derrubar os artigos do Código Civil que, na prática, impedem a publicação de biografias não autorizadas.

15 artistas e obras que foram censuradas na ditadura militar

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Susana Reis, no Literatortura

Em 21 anos de ditadura militar, a censura teve muito trabalho aqui no Brasil. Segundo o jornalista e escritor Zuenir Ventura, durante os dez anos de vigência do AI-5 (1968-1978), cerca de 500 filmes, 450 peças, 200 livros e mais de 500 letras de música foram proibidas, sem contar as novelas e a censura ao jornalismo. Obras que feriam a “moral e o bom costume”, que criticavam o governo, os problemas sociais brasileiros e que eram considerados comunistas, só poderiam ser liberadas se fossem refeitas, ou eram descartadas na hora. Hoje temos muito contato com essa arte que um dia foi censurada. Conheça então quinze artistas e obras, nacionais e internacionais, que foram censuradas durante a ditadura no Brasil:

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1- Roda – Viva

“Roda-Viva” é um marco na ditadura. Em 1968 a peça de Chico Buarque, que estava sendo encenada no Teatro Galpão, foi invadida por cerca de 100 integrantes do Comando de Caça aos Comunistas (CCC), que agrediram os artistas e depredaram o cenário da peça. O espetáculo é um musical, que conta a história de um cantor que decide mudar de nome para agradar o público. Mas nas entrelinhas, a peça criticava o governo do país. Roda – Viva foi censurada por ser desagradável, não seguir a moral e os bons costumes e utilizar palavras de baixo calão. Chico Buarque até foi chamado de débio mental no documento que o censura.

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2- O berço do herói – Dias Gomes

Escrito em 1962 por Dias Gomes, a primeira encenação de “O berço do herói” seria em 1965. Mas isso não aconteceu. A peça tem como plano de fundo a participação brasileira na campanha da Itália e acaba desmitificando a construção dos heróis. Ela foi censurada por desconstruir o mito do herói, em um momento do país onde havia a tentativa de se criar os heróis militares.

3- Roque Santeiro

Roque Santeiro, de Dias Gomes e Aguinaldo Silva, foi uma adaptação da Rede Globo de “O Berço do Herói” para a televisão e foi censurada com dez capítulos já editados e quase 30 gravados. A justificativa oficial foi a de sempre: ofensa a moral, a ordem pública, aos bons costumes e a igreja. Os militares grampearam uma ligação entre Dias Gomes e Nelson Werneck Sodré, onde Gomes contava ao amigo sobre como a novela era uma forma de enganar os censores e conseguir passar a histórias de “O berço do herói” para os brasileiros. “Roque Santeiro” acabou sendo exibida em 1985, em outra versão.

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4- Laranja Mecânica

É claro que o filme de Stanley Kubrick, Laranja Mecânica, não foi liberado de primeira nas terras tupiniquins. Barrado pelo governo Médici em 1971, o filme só conseguiu ser exibido no Brasil em 1978. Mas bolinhas pretas cobriam os seios e a genitália dos atores nas cenas de nudez do filme.

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5- Encenação de Romeu e Julieta

Uma encenação de Romeu e Julieta, realizada pelo Ballet Bolshoi, seria transmitida pela TV em 1976, mas acabou sendo vetada pelo ministro da Justiça da época, Armando Falcão. O motivo envolve o comunismo. Como Bolshoi é uma companhia Russa e o país fazia parte da União Soviética comunista, a peça poderia ser comunista também, então não poderia ser exibida no Brasil.

6- Pra Não Dizer que Não Falei das Flores

Em 1968, “Pra não dizer que não falei das flores”, de Geraldo Vandré, ficou em segundo lugar no Festival Internacional da Canção. Mas isso não foi suficiente para parar a censura. O hino, que claramente incitava as pessoas a buscarem a liberdade, foi vetada ainda em 1968, e só foi cantada de novo em 1979, por Simone.

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7- Cassandra Rios

Cassandra Rios foi a autora mais censurada do Brasil. Seus livros eram eróticos e pornográficos e lidos escondidos por adolescentes e adultos. Em 1976, ela teve 33 de seus 36 livros proibidos pela ditadura. Alguns dos livros censurados foram: A borboleta branca; Breve história de Fábia; Copacabana Posto Seis; Georgette; Maçaria; Marcella; Uma mulher diferente; Nicoleta Ninfeta; A sarjeta; As serpentes e a flor;Tara; Tessa, a gata; As traças; Veneno; Volúpia do pecado; A paranoia; O prazer de pecar e Tentação sexual.

8- Apesar de você – Chico Buarque

Chico Buarque, um dos músicos mais censurados durante a ditadura militar, entra mais uma vez na nossa lista com “Apesar de você”. Chico tinha acabado de voltar do auto exílio na Itália quando lançou a música. O fato curioso, é que a letra da música é claramente uma crítica a ditadura, quase uma ameaça: “Apesar de você amanhã há de ser outro dia. Eu pergunto a você onde vai se esconder da enorme euforia?[…] Quando chegar o momento esse meu sofrimento vou cobrar com juros. Juro!”. Só que parece que os censores não entenderam e aceitaram a desculpa do autor de que a letra era apenas sobre uma briga entre namorados. Só depois de lançado, os militares perceberam o erro e o LP foi recolhido das lojas e as faixas inutilizadas nas rádios.

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9- Feliz Ano novo – Rubens Fonseca

Foi em 1975 que “Feliz ano novo”, de Rubens Fonseca, foi lançado. Eram cinco contos, com personagens urbanos que se envolviam em situações de extrema violência. Um ano depois, depois de 30 mil exemplares vendidos, o ministro da Justiça Armando Falcão proibiu a venda dos livros. Motivo? Feria a moral e aos bons costumes… Um senador da Arena chegou a dizer que se tratava de “pornografia pura” e incitou a prisão do autor. Rubens Fonseca processou a União por perdas materiais e danos morais. No primeiro julgamento, em 1980, o juiz manteve a proibição e disse que o livro não “feria a moral e aos bons costumes”, mas incitava a violência. O livro conseguiu voltar apenas em 1985.

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10- O Justiceiro – Nelson Pereira dos Santos

O filme “O Justiceiro” foi lançado em Brasília em 1967. O filme era sobre um adolescente rebelde, filho de general rico e aposentado. A menção aos exercito não agradou muito os militares, que retiraram o longa do cinema. Não foram só apreendidas as cópias do filme, como era de costume, mas o rolo original também, que está perdido até hoje. O documento de censura comenta que o filme é uma “propaganda aos transviados” e “mostra bem os cabeludos, com suas ideias erradas”.

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11- Terra em Transe – Glauber Rocha

Em 1967, o filme “Terra em Transe”, do diretor Glauber Rocha, é censurado, com a ordem de recolhimento das nove cópias existentes. O filme narra às contradições do nascimento e da colonização do país imaginário Eldorado, mas faz alusões ao momento político da época. No documento, o censor Manoel Francisco de Souza Leão descreve o motivo da cesura: “Captamos em seu contexto frases, cenas e situações com propaganda subliminar. Mensagens negativas e contrárias aos interesses da segurança nacional. Aspectos de miséria e de luta entre classes, além de uma bacanal e de cenas carnavalescas e de amor são outros pontos inseridos no roteiro – com a finalidade única de enriquecê-lo e torná-lo suscetível ao grande público ávido de novidades na tela. Alguns diálogos chegam a serem agressivos, com insinuações contra a verdadeira e autêntica democracia.”

12- O Bem Amado

A novela “O Bem Amado”, escrita por Dias Gomes, não sofreu veto completamente, mas houve restrições no vocabulário. A censura proibiu que os personagens fossem chamados de “coronel”, porque atingia a patente dos militares. O tema de abertura também foi trocado, saiu a música do Toquinho com o Vinícius de Moraes ‘Paiol de Pólvora’ e entrou uma genérica.

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13- Ney Mato Grosso

Em 1973, quando a banda Secos e Molhados fazia sucesso no Brasil, os três integrantes eram Ney Matogrosso, Gerson Conrad e João Ricardo. Mas foi Ney Matogrosso a vítima da censura. Ney possui a voz fina, que se parece muito com a feminina, um aspecto andrógeno e apresentava-se entre plumas, sem camisa. Por esse motivo, a censura proibiu que as redes de televisão filmassem o cantor de perto, podendo apenas dar close em seu rosto.

14- “Tiro ao Álvaro” – Adoniram Barbosa

Em 1973, Adoniram Barbosa resolveu lançar um CD com suas principais canções da década de 50. Porém, parece que a censora tinha problemas com a língua coloquial das letras das música que estavavam no álbum, entre elas, “Tiro ao Álvaro”. A censora fez círculos nas palavras “tauba”, “revorve” e “artormove” e concluiu que a falta de gosto impedia a liberação da letra. Além disso, exigiu-se que o título passasse a ser “Tiro ao Alvo”. As críticas abrangeram outras músicas do cd, e Adoniram resolveu deixar para gravar o álbum mais tarde.

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15- Liberdade, Liberdade

“Liberdade, Liberdade” é uma peça teatral, de autoria de Flávio Rangel e Millôr Fernandes, que seleciona textos de vários autores sobre o tema que dá a título a peça, entre 30 números musicais. Quatro atores interpretam 57 personagens e se revezam na interpretação de textos de Sócrates, Marco Antônio, Platão, Abraham Lincoln, Martin Luther King, Vinícius de Moraes, Cecília Meireles, Geraldo Vandré, Jesus Cristo e outros. Em junho de 1965, o presidente Castelo branco em nota, escreveu a seu sucessor Arthur da Costa e Silva, afirmando que as ameaças da peça eram de aterrorizar a liberdade de opinião. Em 1966, a Censura Federal proíbiu a apresentação de “Liberdade, liberdade” em todo o território nacional. A peça voltou apenas em 2005, quase 40 anos depois da proibição.

A Poesia Marginal: 10 belos poemas da “Geração Mimeógrafo”

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Diego Santos, no Literatortura

Durante a dura repressão do regime militar brasileiro, muitos artistas tiveram que encontrar meios alternativos para manifestar sua arte ou seus protestos.

Entre tantos artistas, os poetas tiveram um grande destaque a partir do que se chamou “Geração Mimeógrafo”. Como as obras de tais artistas não eram aceitas por grandes editoras ou eram censuradas por órgãos repressivos, eles acabaram aderindo ao mimeógrafo, que era uma tecnologia mais acessível na época.

O mimeógrafo é aquela máquina que faz cópias de papel escrito em grande escala e utiliza na reprodução um tipo de papel estêncil e álcool.

Desta forma, os poetas divulgavam e vendiam seus trabalhos a preços baixíssimos em universidades, praças e ruas.

No ano de 1975, a editora Brasiliense publicou um livro intitulado “26 Poetas Hoje”, divulgando obras e nomes à margem do circuito editorial estabelecido. Esta arte foi chamada de Poesia Marginal e reuniu grandes nomes, até hoje muito estudados!

Nesta lista, você conhecerá 10 poemas e poetas que marcaram toda essa geração e esta história de resistência à ditadura.

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RÁPIDO E RASTEIRO
Chacal

vai ter uma festa
que eu vou dançar
até o sapato pedir pra parar.
aí eu paro, tiro o sapato
e danço o resto da vida

JOGOS FLORAIS
Cacaso

Minha terra tem palmeiras
onde canta o tico-tico.
Enquanto isso o sabiá
vive comendo o meu fubá.
Ficou moderno o Brasil
ficou moderno o milagre:
a água já não vira vinho,
vira direto vinagre.

Minha terra tem Palmares
memória cala-te já.
Peço licença poética
Belém capital Pará.
Bem, meus prezados senhores
dado o avançado da hora
errata e efeitos do vinho
o poeta sai de fininho.

(será mesmo com dois esses
que se escreve paçarinho?)

COGITO
Torquato neto

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.

UMA NOITE
Afonso Henriques Neto

o tio cuspia pardais de cinco em cinco minutos.
esta grama de lágrimas forrando a alma inteira
(conforme se diz da jaula de nervos)
recebe os macios passos de toda a família
na casa evaporada

mais os vazios passos
de ela própria menina.

a avó puxava linhas de cor de dentro dos olhos.
uma gritaria de primos e bruxas escalava o vento
escalpelava a tempestade
pedaços de romã podre
no bolor e charco do tanque.

o pai conduzia a festa
como um barqueiro
puxando peixes mortos

nós
os irmãos
jogávamos no fogo
dentaduras pétalas tranças
fotografias cuspes aniversários
e sempre
uma canção
só cal e ossos
a mãe de nuvem parindo orquídeas no cimento.

RECEITA
Nicolas Behr

Ingredientes:

2 conflitos de gerações
4 esperanças perdidas
3 litros de sangue fervido
5 sonhos eróticos
2 canções dos beatles

Modo de preparar

dissolva os sonhos eróticos
nos dois litros de sangue fervido
e deixe gelar seu coração

leve a mistura ao fogo
adicionando dois conflitos de gerações
às esperanças perdidas

corte tudo em pedacinhos
e repita com as canções dos beatles
o mesmo processo usado com os sonhos
eróticos mas desta vez deixe ferver um
pouco mais e mexa até dissolver

parte do sangue pode ser substituído
por suco de groselha
mas os resultados não serão os mesmos
sirva o poema simples ou com ilusões

TIRA-TEIMA
Bernardo Vilhena

Tire a faca do peito
e o medo dos olhos
Ponha uns óculos escuros
e saia por aí. Dando bandeira

Tire o nó da garganta
que a palavra corre fácil
sem desculpas nem contornos
Direta: do diafragma ao céu da boca

Tire o trinco da porta
liberte a corrente de ar
Deixe os bons ventos levantarem a poeira
levando o cisco ao olho grande

Tire a sorte na esquina
na primeira cigana ou no velho realejo
Leia o horóscopo e olhe o céu
lembre-se das estrelas e da estrada
Tire o corpo da reta
e o cu da seringa
que malandro é você, rapaz
o lado bom da faca é o cabo

Tire a mulher mais bonita
pra dançar e dance
Dance olhando dentro dos olhos
até que ela morra de vergonha

Tire o revólver e atire
a primeira pedra
a última palavra
a praga e a sorte
a peste, ou o vírus?

MUITO OBRIGADO
Francisco Alvim

Ao entrar na sala
cumprimentei-o com três palavras
boa tarde senhor
Sentei-me defronte dele
(como me pediu que fizesse)
Bonita vista
pena que nunca a aviste
Colhendo meu sangue: a agulha
enfiada na ponta do dedo
vai procurar a veia quase no sovaco
Discutir o assunto
fume do meu cigarro
deixa experimentar o seu
(Quanto ganhará este sujeito)
Blazer, roseta, o país voltando-lhe
no hábito do anel profissional
Afinal, meu velho, são trinta anos
hoje como ontem ao meio-dia
Uma cópia deste documento
que lhe confio em amizade
Sua experiência nos pode ser muito útil
não é incômodo algum
volte quando quiser

SONETO
Ana Cristina César

Pergunto aqui se sou louca
Quem quer saberá dizer
Pergunto mais, se sou sã
E ainda mais, se sou eu

Que uso o viés pra amar
E finjo fingir que finjo
Adorar o fingimento
Fingindo que sou fingida

Pergunto aqui meus senhores
quem é a loura donzela
que se chama Ana Cristina
E que se diz ser alguém
É um fenômeno mor
Ou é um lapso sutil?

AMOR BASTANTE
Paulo Leminski

quando eu vi você
tive uma ideia brilhante
foi como se eu olhasse
de dentro de um diamante
e meu olho ganhasse
mil faces num só instante

basta um instante
e você tem amor bastante

OLHOS DE RESSACA
Geraldo Carneiro

minha deusa negra quando anoitece
desce as escadas do apartamento
e procura a estátua no centro da praça
onde faz o ponto provisoriamente

eu fico na cama pensando na vida
e quando me canso abro a janela
enxergando o porto e suas luzes foscas
o meu coração se queixa amargamente
penso na morena do andar de baixo
e no meu destino cego, sufocado
nesse edifício sórdido & sombrio
sempre mal e mal vivendo de favores

e a minha deusa corre os esgotos
essa rede obscura sob as cidades
desde que a noite é noite e o mundo é mundo
senhora das águas dos encanamentos

eu escuto o samba mais dolente & negro
e a luz difusa que vem do inferninho
no primeiro andar do prédio condenado
brilha nos meus tristes olhos de ressaca

e a minha deusa, a pantera do catre
consagrada à fome e à fertilidade
bebe o suor de um marinheiro turco
e às vezes os olhos onde a lua

eu recordo os laços na beira da cama
percorrendo o álbum de fotografias
e não me contendo enquanto me visto
chego à janela e grito pra estátua

se não fosse o espelho que me denuncia
e a obrigação de guerras e batalhas
eu me arvoraria a herói como você, meu caro
pra fazer barulho e preservar os cabarés.

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