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Um brinde ao velho Bukowski!

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Objetividade, muitos litros de álcool e uma boa dose de grossura. Essa pode ser uma, entre muitas, a definição do escritor norte-americano Charles Bukowski. Ele reduziu o sonho americano a personagens enlouquecidos em quartos imundos de hotéis. Em uma existência recheada de desventura, traumas, amores fracassados e prisões inesperadas, o escritor mergulhou em viagem metafísica na noite de sua amada cidade de Los Angeles.

Fernando do Valle, no Homo Literatus

Charles Bukowski nasceu na pequena Adernach (Alemanha) em 16 de agosto de 1920 e morreu há 20 anos, em 9 de março de 1994, por complicações de uma leucemia.

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Vinho, dúzias e mais dúzias de cervejas e discos de música clássica acompanham o escritor na decadente Hollywood dos cafetões, aspirantes a superstars e alcoólatras inveterados. A literatura de Bukowski parece gritar: “já que não gosto do que vejo, então encho a cara, escrevo e mando tudo à merda”.

Acusado de machista e de praticar uma subliteratura pelos amantes da boa e limpinha literatura, o também poeta Bukowski nunca deu muita importância sobre o que se falava dele e destilava sempre sua cáustica percepção da realidade, incomodando os conformados e medíocres.

American Writer Charles Bukowski

Os detratores de Bukowski ignoram como sua literatura sempre conviveu com a indiferença e a violência (ele passou a infância sendo espancando por seu pai que o considerava um indolente sem ambição). Isso foi regurgitado em uma nova forma de expressão em que uma escrita sem rodeios sai em defesa dos fracos e desesperados em busca de algum afeto ou da próxima rodada no bar da esquina.

Com o velho Bukowski, não se tem meio-termo, sua persona literária e seus escritos despertam ódio e amor na mesma intensidade. A sua língua afiada também não perdoava. Nem o papa da geração flower power, Thimothy Leary, e um dos ícones do movimento beat, Allen Ginsberg, escapavam. O trecho é do conto O Grande Rebu da Maconha:

“O deus do ácido deles, Leary, lhes diz: desistam da luta, me sigam, aí aluga um auditório aqui na cidade e cobra cinco pratas por quem quiser ouvir ele falar. depois chega Ginsberg junto com ele, e proclama que Bob Dylan é um grande poeta . auto-propaganda dos que ganham posando de maconheiros. América”.

Bukowski emigrou para os Estados Unidos com apenas dois anos de idade. Alemão de nascimento, o escritor mergulha na alma americana e destrói em sua literatura um dos paradigmas do american way of life: o culto ao vencedor.

Adolescente brigão, problemático e triste, o que fica claro em um de seus melhores livros, Misto Quente – a juventude de Henry Chinaski (alter ego do escritor), Bukowski sofria com os abusos paternos até o dia em que o agride até nocauteá-lo e some de casa.

Em uma das passagens do livro, seu pai soldado o obriga a cortar a grama do quintal (símbolo de toda família classe média norte-americana, uma casa limpa com um belo gramado à frente) com perfeição milimétrica. Qualquer falha era motivo para que seu pai o surrasse impiedosamente.

Sobre o enterro de seu pai, Bukowski escreveu:

“Lembro que atravessamos a rua e entramos na casa mortuária. Alguém dizia que meu pai tinha sido um bom homem. Me deu vontade de contar a eles o outro lado. Que ele era um homem ignorante. Cruel. Patriótico. Com fome de dinheiro. Mentiroso. Covarde. Um impostor. Minha mãe só estava há um mês debaixo do chão e ele já estava chupando os peitos e dividindo o papel higiênico com outra mulher. Depois alguém cantou. Nós desfilamos diante do caixão. Talvez eu cuspa nele, pensei”.

Depois de abandonar sua família, o escritor vagou por quartos de motéis decadentes sobrevivendo de bicos em troca de poucos dólares. Muitas vezes, foi despedido por chegar tarde, embriaguez ou por simplesmente mandar o patrão se foder. Apostador ferrenho em corridas de cavalo, encontra o emprego da maior parte de sua vida: entregar cartas a velhotas falantes, mulheres histéricas e homens “ambiciosos” e “promissores”. Daí nasce outro livro: Post Office (editado no Brasil pela Brasiliense).

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O jornalista Jack Kroll da extinta revista semanal Newsweek escreveu como o fracasso é uma das saídas para artistas como Bukowski: “um pertubador profissional da ordem estabelecida — escreve com delirante insistência romântica, afirmando que os fracassados são menos hipócritas que os vitoriosos, e com veemente compaixão pelos perdidos”.

Crítico da indústria do cinema, Bukowski foi transportado para a sala escura duas vezes. Em uma delas, o diretor italiano Marco Ferreri escolheu a monumental italiana Ornella Muti para interpretar a prostituta Cass no filme inspirado no conto Crônica de um Amor Louco, Chinaski (Bukowski) é interpretado por Ben Gazzara.1

Em outra adaptação, Barfly, literalmente mosca de bar, traz na pele de Chinaski/Bukowski o ator Mickey Rourke em suas andanças pelos bares de Los Angeles. O filme mostra também a relação da editora da revista Harlequim, Barbara Frye, com Bukowski. Ela foi uma das primeiras a publicar o trabalho do escritor que enviava muitos de seus contos e poemas para várias publicações e era constantemente recusado.

Hoje Bukowski tem conquistado aos poucos seu lugar entre os grandes escritores norte-americanos da segunda metade do século passado. Para seus detratores e admiradores, Bukowski resmungaria, com uma long neck na mão: “não importa se me acham um gênio ou um idiota; afinal, nunca pedi nada a ninguém.”

Trecho do conto “A mais linda mulher da cidade” do livro Crônica de um amor louco:

Bebi até a hora de fechar. Cass, a mais bela das 5 irmãs, a mais linda mulher da cidade. Consegui ir dirigindo até onde morava. Não parava de pensar. Deveria ter insistido para que ficasse comigo em vez de aceitar aquele “não”. Todo o seu jeito de quem gostava de mim. Eu é que simplesmente tinha bancado o durão, decerto por preguiça, por ser desligado mesmo. Merecia a minha morte e a dela. Era um cão. Não, para que pôr a culpa nos cães? Levantei, encontrei uma garrafa de vinho e bebi quase inteira. Cass, a garota mais linda da cidade, morta aos vinte anos.

Lá fora, alguém buzinou dentro de um carro. Uma buzina fortíssima, insistente. Bati a garrafa com força e gritei:

– MERDA! PÁRA COM ISSO, SEU FILHO DA PUTA!

A noite foi ficando cada vez mais escura e eu não podia fazer mais nada”.

Bukowski viaja sobre Deus, a mídia e a sorte:

Música Bukowski, da banda Modest Mouse (com legendas em espanhol):

Assista na íntegra o filme Crônica de um amor louco, de Marco Ferreri

Animação do poema O pássaro azul, de Bukowski

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Marina Franconeti, no Literatortura

O poema de Charles Bukowski, O Pássaro Azul, originalmente publicado na sua antologia de 1992 The Last Night of the Earth Poems, é uma meditação sutilmente profunda sobre uma faceta da condição humana que conhecemos muito bem. A compulsão, os vícios, o resultado de uma solidão que corrói diariamente, é a isso tudo que Bukowski consegue se referir – ou melhor, trazer à tona – com o seu poema.

O pássaro azul se mostra como a pureza que buscamos preservar na gaiola, proteger um dos sentimentos mais nobres diante de um mundo corrompido. Essa beleza pura, talvez o ímpeto que move o escritor a criar, pede para se mostrar, mas não é revelado pelo poeta, o qual se encontra à mercê das ofertas ambíguas do mundo. Na hora em que se deita e está sozinho, é na companhia desse pássaro guardado em si mesmo, que o poeta parece se recompor. Pelo menos um pouco, para suportar a dor e o desespero que existe sempre no dia seguinte.

A bela animação adapta o poema de Bukowski e foi criada por Monika Umba, estudante de Cambrigde School of Art. Com uma perfeição visual muito bem desenvolvida pela artista, a trilha de poucas notas dá o toque melancólico que soa na leitura. Os personagens possuem um corpo meio rígido, parecem feitos de recortes de jornal. Por isso, tem algo de cotidiano neles. O pássaro e o azul, os grandes protagonistas da animação, dão o tom aos eventos e brilham pela imagem, trazendo à vida a magia do poema.

Abaixo você pode conferir o poema de Bukowski e a animação:

O pássaro azul

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo, fique aí, não deixarei
que ninguém o veja.

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas eu despejo uísque sobre ele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os atendentes dos bares
e das mercearias
nunca saberão que
ele está
lá dentro.

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo,
fique aí, quer acabar
comigo?
quer foder com minha
escrita?
quer arruinar a venda dos meus livros na
Europa?

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou bastante esperto, deixo que ele saia
somente em algumas noites
quando todos estão dormindo.
eu digo, sei que você está aí,
então não fique
triste.

depois o coloco de volta em seu lugar,
mas ele ainda canta um pouquinho
lá dentro, não deixo que morra
completamente
e nós dormimos juntos
assim
com nosso pacto secreto
e isto é bom o suficiente para
fazer um homem
chorar, mas eu não
choro, e
você?

in Textos autobiográficos, de Charles Bukowski, páginas 478/9. Tradução de Pedro Gonzaga. Porto Alegre, L&PM Editores, 2009.

Aqui o poema em inglês

Como não fiquei amigo de Leminski

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Miguel Sanches Neto, no Valor Econômico

No começo dos anos de 1980, eu era aluno interno no Colégio Agrícola de Campo Mourão (noroeste do Paraná) e vinha lendo a literatura disponível nas bibliotecas públicas locais. Na estante de poesia, havia livros até os anos 1960, depois disso surgia uma grande lacuna, sequela talvez da ditadura militar, que vivia os seus estertores. Por conta disso, eu desconhecia a literatura contemporânea e tinha uma sede muito grande de participar de meu tempo, mesmo estando em um espaço nada apropriado a tais frivolidades – toda a minha família era de agricultores ou de trabalhadores subalternos, sem ou com baixa escolaridade.

Assim, eu não sabia onde ficava o tempo presente.

Não lia jornais de circulação nacional e não tinha professores e amigos com informações que pudessem me orientar na selva selvagem daquela terra vermelha. Foi em 1983 que comecei a participar do agora, por meio do informativo “Primeiro Toque”, da editora Brasiliense, que tinha como slogan um verso de Walt Whitman: “Que pode haver de maior ou menor que um toque?” Essa publicação permitia que comprássemos os livros por reembolso postal, dando dicas de títulos. Foi ali que comecei a conjugar as minhas leituras no presente, recebendo informações sobre autores que seriam fundamentais nos anos seguintes, como Charles Bukowski e John Fante. Mas, entre todos os autores, o meu herói era o poeta curitibano afropolonês Paulo Leminski, que tinha a cara da revista “Primeiro Toque” e da Brasiliense.

Quando chegou a edição com uma capa pop art de “caprichos e relaxos”, que vinha com o subtítulo de “saques, piques, toques & baques”, entrei em êxtase com essa poesia da informalidade, mais próxima do rock do que da literatura. Nunca tinha lido um poeta que falava grandes coisas em poemas completamente diretos e intensos, que manejava a música, a materialidade da palavra e a ironia. Esse é o livro de poemas que mais li na minha vida, e funcionou como uma bíblia para mim, compulsada nos meus momentos de descrença literária.

Continuei lendo Leminski pelas traduções que ele fazia para a mesma editora e depois por meio dos autores a que ele se referia em apresentações. Para o jovem interiorano que eu era, Leminski fez de Curitiba a capital da poesia brasileira. Não havia como ser escritor morando em outro lugar. Depois de uma tentativa frustrada, mudei-me para a capital em 1987. E continuei seguidor fiel de Paulo Leminski, agora já devorando entrevistas dele em periódicos, acompanhando de perto o seu trabalho no jornal “Nicolau”, no qual ele era figurinha fácil.

Discípulo autodeclarado é aquela coisa: quer porque quer ter alguma importância na vida do mestre. Sonha ser aceito e para isso tenta toda sorte de insinuação. Consegui com uma amiga em comum, a poeta Helena Kolody, o endereço do polaco e, numa carta completamente juvenil, mandei um texto para ele, datilografado na minha inseparável (até hoje) Lettera 35.

Só depois de despachar a carta, relendo os originais de meu poema, vi que havia uma crase errada. Essa talvez tenha sido uma das maiores vergonhas de minha vida de escrevinhador. Dirigir-se à pessoa que é para você o resumo da cultura – e Leminski foi isso para mim – numa linguagem inadequada era um crime de lesa-cultura. Não sei se exatamente por isso, mas o fato é que não tive mais coragem de procurar o poeta. Lembro-me que contava com a possibilidade de cruzar por ele no centro da cidade – tinha visto umas fotos dele no calçadão da rua das Flores – ou mesmo em uma livraria, principalmente na Ghiginone, onde ele lançara alguns livros. Passava na frente do Bife Sujo, um de seus lugares preferidos, mas em horários muito vespertinos para encontrá-lo. (mais…)

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