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Posts tagged Chico Buarque

Irmão que nunca conheceu inspira novo livro de Chico

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Filho que Sergio Buarque de Holanda teve na Europa dá título ao romance
Compositor pesquisou paradeiro de parente para escrever ‘O Irmão Alemão’, que chega às livrarias no dia 14

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Publicado na Folha de S.Paulo

O conteúdo do novo romance de Chico Buarque, “O Irmão Alemão”, será conhecido só no dia 14, mas pelo menos o título da obra é inspirado numa obsessão que acompanha o autor há quase 50 anos: a história de seu meio-irmão Sérgio Georg Ernst, a quem nunca conheceu.

Foi na segunda metade dos anos 1960 que o compositor descobriu a existência do irmão, filho de seu pai, o historiador Sergio Buarque de Holanda (1902-1982), com Anne Margerithe Ernst, sua namorada quando viveu em Berlim, no final dos anos 1920.

Sérgio Georg Ernst nasceu por volta de 1930, seis anos antes de Sergio Buarque de Holanda se casar, já no Brasil, com Maria Amélia de Carvalho Cesário Alvim, mãe de Chico e de seus seis irmãos.

Quem revelou a Chico a existência do irmão foi o poeta Manuel Bandeira (1886-1968), amigo do historiador, durante visita de Chico, Tom e Vinicius à sua casa.

“No meio de algumas lembranças ele mencionou ‘aquele filho alemão’. Eu perguntei: ‘Que filho?’. Eu não sabia que meu pai tinha tido um filho na Alemanha”, contou Chico em 1994 à Folha.

“Fiquei muito chocado e, quando pude ir a São Paulo, perguntei ao meu pai. No começo ele não quis falar, mas depois abriu o jogo”, disse.

A única vez que Sergio Buarque de Holanda teve notícias do filho foi na Segunda Guerra: a ex-namorada escreveu pedindo documentos que provassem que o menino não tinha ascendência judaica.

Chico e seus irmãos sempre tentaram encontrar o meio-irmão, sem sucesso. A hipótese mais forte é que ele tenha morrido na guerra.

“Sempre que ia à Alemanha, Chico olhava curioso para os rostos dos homens para ver se reconhecia em alguém os traços dos Buarque de Holanda”, lembra Regina Zappa, biógrafa do compositor.

É provável que Chico tenha aprofundado a pesquisa para escrever “O Irmão Alemão”. “Cada vez que alguém ia para a Alemanha, chegava com alguma pista ou história. Mas quem descobriu mesmo foi o Chico”, afirma a irmã Miúcha, que diz não saber “o quanto é ficção e o quanto é realidade” nessa descoberta.

Isso pode ter sido mais relevante para o autor do que para o romance –que, afinal, trata-se mesmo de uma ficção.

Chico Buarque lê trecho de ‘O irmão alemão’, seu novo livro

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Assista ao vídeo com o músico e escritor

Publicado em O Globo

A editora Companhia das Letras divulgou um vídeo em que o cantor e compositor Chico Buarque exibe a capa e lê um trecho de seu novo romance, que chega às livrarias no dia 14 de novembro.

“O irmão alemão” é o quinto romance do autor, que completou 70 anos em junho. Seu último livro, “Leite derramado”, foi lançado há cinco anos e venceu o Prêmio Jabuti de livro do ano (foi a terceira vez que o escritor ganhou o prêmio).

Chico Buarque publicou seu primeiro texto em 1966, um conto chamado “Ulisses”, no songbook “A banda”, de 1966. Na década seguinte, ele lançou a “novela pecuniária” “Fazenda modelo” (1974) e o infantil “Chapeuzinho Amarelo” (1979).

Em 1981, chegou às livrarias o livro de poesia “A bordo do Rui Barbosa”, com texto de Chico e ilustrações do artista plástico e arquiteto Vallandro Keating.

Dez anos mais tarde, Chico Buarque publicou seu primeiro romance,

Capa de "O Irmão Alemão", romance de Chico Buarque

Capa de “O Irmão Alemão”, romance de Chico Buarque

“Estorvo”, que já lhe rendeu um Prêmio Jabuti e foi adaptado para o cinema no ano 2000, por Ruy Guerra.

“Benjamim”, seu segundo romance, saiu em 1995. E também virou filme, com Paulo José no papel-título, contracenando com Cleo Pires, sob a direção de Monique Gardenberg (2003). No mesmo ano em que o filme chegou aos cinemas, Chico lançou o romance “Budapeste”, que lhe rendeu seu segundo Jabuti e mais uma vez ganhou uma versão cinematográfica, do diretor Walter Carvalho (2009).

Em 2010, a premiação de “Leite derramado” como livro do ano gerou uma polêmica. A obra tinha ficado em segundo lugar na categoria romance, atrás de “Se eu fechar os olhos agora”, de Edney Silvestre. O livro do jornalista ficou, por sua vez, atrás do de Chico no prêmio principal, de livro do ano. Sérgio Machado, presidente do Grupo Record, que publicava Silvestre, ameaçou não participar mais do Prêmio Jabuti se as regras não fossem alteradas. No ano seguinte, o troféu literário determinou que só os primeiros colocados de cada categoria poderiam concorrer a livro do ano.

Do novo romance, a Companhia das Letras divulgou, por ora, apenas a capa e o vídeo em que Chico lê um trecho (veja o vídeo acima e leia a transcrição abaixo). Nele, narra as lembranças de um menino em relação à biblioteca do pai e à intensa relação paterna com os livros.

Apesar de ainda ser cedo para assumir que o romance tenha traços autobiográficos, vale lembrar que Chico já se referiu algumas vezes, em entrevistas, a um meio-irmão mais velho que seu pai, Sergio Buarque de Hollanda, teria tido quando morou na Alemanha entre 1929 e 30. Ele se casaria com Maria Amélia, mãe de Chico e seus irmãos, em 1936. Sobre o fato, o compositor e escritor explicou alguns detalhes em entrevista a Geneton Moraes Neto, em 2010: “Eu tenho um meio-irmão alemão. Não sei se ainda tenho. Mas tive. O meu pai teve um filho alemão antes de se casar. Depois, perdeu de vista, porque voltou para o Brasil, onde se casou. Não se relacionou mais com a mulher nem com o filho que teve na Alemanha. A última notícia que ele teve foi durante a guerra. A mulher pediu que o meu pai enviasse documentos provando que não tinha sangue judeu até a segunda ou terceira geração. O meu pai providenciou. Depois da guerra, não teve notícias”.

LEIA TRECHO DE ‘O IRMÃO ALEMÃO’

“Calma, Ciccio, disse minha mãe, quando já crescido lhe perguntei por que meu pai não escrevia um livro, uma vez que gostava tanto deles. Ele vai escrever o melhor libro del mondo, disse arregalando os olhos, ma prima tem que ler todos os outros. A biblioteca do meu pai contava então uns quinze mil livros. No fim superou os vinte mil, era a maior biblioteca particular de São Paulo, depois da de um bibliófilo rival que, dizia meu pai, não havia lido nem um terço do seu depósito. Calculando que ele tenha acumulado livros a partir dos dezoito anos, posso tirar que meu pai não leu menos que um por dia. Isso sem contar os jornais, as revistas e a farta correspondência habitual, com os últimos lançamentos que por cortesia as editoras lhe enviavam. A grande maioria destes ele descartava já ao olhar a capa, ou após uma rápida folheada. Livros que jogava no chão e mamãe recolhia de manhã para juntar no caixote de doações à igreja. E quando porventura ele se interessava por alguma novidade, sempre encontrava algum pormenor que o remetia a antigas leituras. Então chamava com seu vozeirão: Assunta! Assunta!, e lá ia minha mãe atrás de um Homero, um Virgílio, um Dante, que lhe trazia correndo antes que ele perdesse a pista. E a novidade ficava de lado, enquanto ele não relesse o livro antigo de cabo a rabo. Por isso não estranha que tantas vezes meu pai deixasse cair no peito um livro aberto e adormecesse com um cigarro entre os dedos ali mesmo na espreguiçadeira, onde sonharia com papiros, com os manuscritos iluminados, com a Biblioteca de Alexandria, para acordar angustiado com a quantidade de livros que jamais leria porque queimados, ou extraviados, ou escritos em línguas fora do seu alcance. Era tanta leitura para pôr em dia, que me parecia improvável ele vir a escrever o melhor libro del mondo. Por via das dúvidas, quando ao sair do quarto eu ouvia o toque-toque da máquina de escrever, tirava os sapatos e prendia a respiração para passar ao largo do seu escritório. E me encolhia todo se por azar naquele instante ele arrancasse num ímpeto o papel do rolo, achava que em parte era de mim a raiva com que ele esmagava, embolava a folha e a arremessava longe. Outras vezes a máquina cessava para meu pai pedir socorro: Assunta! Assunta!, era alguma citação que ele precisava transcrever urgentemente de um determinado livro. Com isso levava meses para redigir, rever, rasurar, arremessar bolotas, recomeçar, corrigir, passar a limpo e certamente contrafeito entregar para publicação o que seriam rascunhos do esqueleto do grande livro da sua vida. Eram artigos sobre estética, literatura, filosofia, história da civilização, que ocupariam uma coluna ou um rodapé de jornal. Quando papai morreu, apareceu um editor disposto a publicar uma coletânea dos artigos assinados por ele ao longo da vida. Fui contra, cheguei a mostrar à minha mãe a profusão de correções e emendas ilegíveis que meu pai sobrepusera ao texto ou anotara à margem dos próprios artigos, recortados dos jornais. Mas mamãe estava convencida de que o livro seria aclamado no meio acadêmico, quiçá editado até na Alemanha, graças aos escritos de juventude concebidos naquele país. E ainda insinuou que desde a infância eu procurava sabotar meu pai, haja vista aquele ensaio que por minha culpa desfalcaria suas obras completas. Meia verdade, porque era ao meu irmão que de tempos em tempos meu pai confiava um envelope a ser entregue na redação de A Gazeta, do outro lado da cidade, para isso, além do dinheiro do bonde, ele o remunerava com uma quantia suficiente para uma semana de milk-shakes. Mas volta e meia meu irmão me repassava o dinheiro do bonde e o envelope, que eu levava a pé à redação. Não me movia o dinheiro poupado, que mal pagava duas mariolas, eu ficava era todo prosa com tamanha responsabilidade. Ainda ganhei a simpatia dos funcionários do jornal, e não me importava de passar por um suado estafeta do meu pai, em cujas mãos despejavam mais umas moedas. Mas certa vez, a caminho da redação, parei para jogar um futebol de rua, era comum naquele tempo. Carros circulavam só de quando em quando, e ao avistá-los ao longe os meninos gritavam: olha a morte! Logo recolhíamos as lancheiras, as pastas, os agasalhos que representavam as balizas e aguardávamos na calçada a passagem do carro para recomeçar a partida. Mas nesse dia não foi o trânsito, foi uma chuva súbita que nos obrigou a apanhar depressa nossas coisas e buscar abrigo sob a marquise de um empório. Chegou a cair granizo, que catávamos do chão, chupávamos, atirávamos uns nos outros, uma festa. Mas de repente calhou de eu me lembrar do envelope do meu pai, que eu deixara debaixo de um pulôver e agora estava ali no meio do aguaceiro. Corri para salvá-lo e por pouco não fui atropelado, pois naquele segundo passou um Chevrolet que agarrou o envelope com o pneu e só o soltou duas quadras adiante. Fui colher seus restos, e não havia remédio, o artigo do meu pai era uma estranha massa cinzenta, uma maçaroca de papel molhado”.

Novo romance de Chico Buarque sai em novembro

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Publicado na Folha de S.Paulo

O novo romance de Chico Buarque, 70, será publicado no próximo dia 14 de novembro, informou a Companhia das Letras.

Assim como no lançamento de romances anteriores do compositor, a editora faz suspense em torno da obra. O tema, por exemplo, não será divulgado até a data da chegada às livrarias.

Na próxima segunda (3) pela manhã, a editora colocará no ar um vídeo que incluirá a capa e o título, em que o compositor e escritor lê um trecho do romance —pelo qual, segundo a editora, não será possível identificar o assunto.

O compositor e escritor Chico Buarque de Hollanda

O compositor e escritor Chico Buarque de Hollanda. Daryan Dorneles/Divulgação

A obra sai cinco anos depois do romance mais recente do autor, “Leite Derramado” (2009), que levou o Prêmio Jabuti de Livro do Ano em 2010. Autor bissexto, Chico Buarque escreveu também, entre outros, “Budapeste” (2003) e “Benjamin” (1995).

Como a doença influenciou a obra final do poeta João Cabral

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Como a doença influenciou a obra final do poeta João Cabral

(Foto: Eder Chiodetto/Folhapress)

Um livro analisa os últimos trabalhos de João Cabral de Melo Neto e conclui que, mesmo cego e deprimido, ele manteve sua excelência literária

Marcelo Bortoloti, na Época
Quando morreu, em 1999, o poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto estava cego. Passava os dias com as janelas fechadas em seu apartamento no Rio de Janeiro, ouvindo o noticiário do rádio. Não gostava de música. Havia muito tempo não saía de casa e estava afastado de seu principal prazer, a leitura. Deprimido, não podia beber por proibição médica. Tomava dezenas de medicamentos, que atrapalhavam sua dicção. Mesmo ateu, dizia ter medo da morte, impressionado com a imagem do inferno que descobrira criança num colégio de padres. Para amigos próximos, falava do receio de ver sua obra esquecida depois que se fosse.

O fim dele foi o ponto mais triste de uma trajetória marcada por transtornos físicos e psicológicos nas duas últimas décadas da vida. Nesse período turbulento, ele produziu cinco livros que compõem sua produção menos conhecida e estudada. Naquela época, rechaçado pela nova geração de poetas (que o considerava formalista demais), desacreditado pelos críticos (que supunham que sua poesia se esgotara nos anos 1960), ele escreveu livros como Auto do frade, que quase ninguém leu. Quinze anos após sua morte, o principal especialista em sua obra, Antônio Carlos Secchin, lança um livro que pode fazer justiça à fase final. Publicado pela editora Cosac Naif, Uma fala só lâmina analisa criticamente cada um dos 20 livros de João Cabral, incluindo os últimos, que Secchin põe no mesmo patamar dos demais. É um convite para voltar às obras derradeiras e também a seus anos finais de vida, cujo drama seguramente influenciou os rumos de sua poesia.

João Cabral ainda é pouco lido. Foi o escritor brasileiro que teve mais chances de ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, em 1992. Grande parte do público não conhece mais que seu poema Morte e vida Severina, musicado por Chico Buarque e transformado em filme e peça de teatro. Mestre do rigor formal e das sobreposições de imagem, produziu uma obra que exige grande concentração e raciocínio do leitor. Isso afastou o público acostumado à poesia mais leve e emotiva. “Existem escritores que produzem em função de uma expectativa do público. Cabral estava completamente fora disso. Ele quis fazer uma obra coerente até o final, quem quiser que o acompanhasse. Muita gente não acompanhou”, diz Secchin. Essa poesia que não transige tem relação com o temperamento de João Cabral. Ele foi um diplomata pouco sociável. Por causa da profissão, passou 40 anos longe do Brasil e escreveu a maior parte de sua obra fora do país. Em razão da distância, não frequentou as rodas literárias de sua geração. Dizia ter horror a escrever cartas e se correspondeu com poucos amigos. Nos postos diplomáticos que ocupou, tinha aversão a festas e badalações. Vivia recolhido a sua casa, lendo e escrevendo. “Me interessava escrever minha obra, não conhecer paisagens”, disse, em sua última entrevista, ao cineasta Bebeto Abrantes.

O ponto alto de sua carreira aconteceu na segunda metade dos anos 1960, quando o poema Morte e vida Severina foi adaptado para o teatro. Nesse mesmo período, ele entrou para a Academia Brasileira de Letras e publicou A educação pela pedra, considerada sua obra-prima. Muitos críticos consideravam que Cabral não tinha mais para onde avançar.

OLHAR FEMININO Marly de Oliveira, a segunda mulher de João Cabral, em foto de 1987. Ela lia para ele, mas João Cabral só acompanhava textos curtos (Foto: Agência O Globo)

OLHAR FEMININO
Marly de Oliveira, a segunda mulher de João Cabral, em foto de 1987. Ela lia para ele, mas João Cabral só acompanhava textos curtos (Foto: Agência O Globo)

Em 1972, ele partiu para um posto no Senegal, onde ficou mais de sete anos. Vivia numa mansão com 14 empregados para servi-lo, à mulher e a um filho. Sua rotina era de clausura. “Ele voltava a 1 da tarde do trabalho e ficava a tarde inteira lendo. Sete da noite, trocava de roupa e continuava lendo”, diz seu filho, João Cabral de Melo. Na correspondência com o editor Daniel Pereira, depressão e doenças se tornaram tema constante. Em 1975, escreveu: “Tenho andado ocupado, ocupadíssimo e, para variar, doente. Doenças acumuladas: polineurite, seguida de crises hepáticas, seguidas de alergia”. O resultado desse período foi A escola das facas, recebido friamente pela crítica. Secchin defende o livro. Diz que inaugura um viés histórico e mais autobiográfico. João Cabral dificilmente punha suas emoções ou experiências particulares nos poemas que escrevia. Nesse livro, estão presentes com força suas vivências de infância. A partir daí, sua escrita foi ficando rara e difícil. João Cabral costumava dizer que escrever lhe era doloroso. Ele anotava suas ideias em pequenos papéis que guardava no bolso. Depois, se trancava no escritório para desenvolvê-las em forma de poema, num trabalho exaustivo de lapidação. Um poe­ma poderia levar anos para atingir a forma final. “Posso dizer que, de livro para livro, o fazer poético torna-se mais difícil. Meus primeiros livros saíam com mais facilidade”, disse em entrevista na época.

Em 1984, transferido para Portugal, escreveu ao editor Daniel Pereira. “Gostaria de nunca ter escrito uma linha, pois a poesia só me tem dado aporrinhações”, dizia. No ano seguinte, lançou Agrestes, cuja produção o deixou esgotado. Nesse livro, com 14 poemas sobre a morte, ele se despede do leitor em forma de verso. Mas não parou de escrever. Um novo choque tumultuou sua vida em 1986, com a morte de Stella, a primeira mulher, vítima de câncer. Durante 40 anos, ela cuidara de todos os aspectos práticos da rotina de João Cabral. Datilografava seus poemas e ajudava na organização dos papéis. Deixava seu terno, calças e sapatos prontos, do lado de fora do banheiro, para que ele vestisse ao sair do banho. Quando a mulher morreu, ele perdeu o rumo. Passou meses deprimido no Rio de Janeiro. Foi quando conheceu a poeta Marly de Oliveira. Apaixonou-se no meio do luto.

Marly era uma mulher bonita, inteligente e refinada. João Cabral era considerado o maior poeta brasileiro. Tinha 15 anos a mais e parecia ainda mais velho, por causa das doenças. Não foi uma conquista fácil. João Cabral voltou para seu posto em Portugal. Ligava diariamente para ela, muitas vezes embriagado, pedindo que o acompanhasse. Acabaram se casando. Hoje, as duas famílias avaliam negativamente o casamento. “Minha mãe se tornou uma espécie de enfermeira dele e acabou com a mesma depressão do João. Ela anulou sua carreira para cuidar dele”, afirma Mônica Moreira, filha do primeiro casamento de Marly. “Marly estava acostumada a que tomassem conta dela. Passava o dia inteiro fechada no quarto, lendo literatura clássica. Meu pai ficou entregue às traças”, diz Inez Cabral, filha de João Cabral.

Aposentado, ele não conseguiu se adaptar à vida no Rio de Janeiro. A sacada de seu apartamento tinha uma vista maravilhosa da Baía de Guanabara, e ele não achava graça. “Essa natureza opulenta do Rio não me interessa”, disse na época. Pouco saía de casa, com medo da violência. Começou a fumar aos 69 anos. Fumava até ficar com os dedos amarelados. Foi proibido de beber depois da operação da úlcera, mas não cumpria a ordem. Marly tentava esconder as bebidas de casa. Ele saía em silêncio para o botequim da esquina, onde comprava vodca ou cachaça de má qualidade. A mistura da bebida com remédios era explosiva. Várias vezes João Cabral caiu dentro de casa e se cortou. Embora escrevendo com sofrimento e dificuldade, a poesia ainda lhe dava sentido à vida. Reuniu uma nova leva de poemas e lançou seu último livro, Sevilha andando, em 1990. João Cabral declarou que pretendia continuar escrevendo, mas o problema da visão interrompeu seus planos. Começou a sofrer uma degeneração macular, que gradativamente o impediu de ler e escrever. Ficou cada vez mais recolhido e deprimido. “Nunca fiz outra coisa na vida senão ler. Ficar cego foi um castigo violento que Deus me deu”, disse. Marly e sua filha Inez liam em voz alta para ele, mas João Cabral só conseguia acompanhar textos curtos. A televisão lhe dava dor de cabeça. Só restava o rádio. Os poucos amigos que frequentavam seu apartamento encontravam um cenário melancólico. “Estou sem vontade, sem razão de viver”, disse ao escritor e crítico José Castello, autor da biografia João Cabral de Melo Neto: o homem sem alma. Num derradeiro esforço para continuar produzindo, tentou ditar versos para Marly. O último poema que escreveu na vida, usando esse método, fala da impossibilidade da escrita sem visão: Pedem-me um poema,/um poema que seja inédito,/poema é coisa que se faz vendo,/como imaginar Picasso cego? Com esses versos melancólicos, se despedia. O livro de Antônio Carlos Secchin mostra que conseguiu concluir com dignidade e talento suas obras finais.

Paulo Rónai e a inspiração do romance ‘Budapeste’ (de brinde, um poema)

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Raquel Cozer, no A Biblioteca de Raquel

O crítico e tradutor Paulo Rónai (1907-1992) nunca chegou a sumir de livrarias brasileiras. Mesmo que houvesse uma má vontade fora do comum das editoras, ia ser difícil estancar publicações relacionadas a ele, que sofria de uma invejável incontinência produtiva, fosse com traduções, como “Os Meninos da Rua Paulo” (Cosac Naify), de Ferenc Molnár, fosse com obras próprias, como “Curso Básico de Latim” (Cultrix), que é, acredite, o título mais vendido dele no Brasil.

Mas algumas pérolas de sua produção andaram esquecidas, lapso que vem sendo revertido desde 2012, quando quatro editoras passaram a reeditar alguns de seus trabalhos mais importantes como ensaísta, tradutor ou organizador.

A saber: Globo (“A Comédia Humana”, de Balzac), José Olympio (“A Tradução Vivida” e “Escola de Tradutores”; em breve, “Pois É”), Casa da Palavra (“Como Aprendi o Português e Outras Aventuras”; em breve, “Encontros com o Brasil”, “Não Perca o Seu Latim” e “Contos Húngaros”) e Nova Fronteira (em breve, “Mar de Histórias”, parceria com Aurelio Buarque de Holanda).

Esse resgate, incluindo o motivo pelo qual essas obras andaram deixadas de lado, foi tema de reportagem minha para a “Ilustríssima”, mais de um metro e meio de texto, uma maravilha de espaço, mas precisaria de uns três metros para incluir tudo de que gostaria.

Rónai (o segundo da esq. para a dir.) com Drummond (ao centro), de quem ficou amigo (os outros não sei mesmo, você me diga se souber)

Rónai (o segundo da esq. para a dir.) com Drummond (ao centro), de quem ficou amigo (os outros não sei mesmo, você me diga se souber)

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Um ponto que ficou de fora, embora tenha sido conversado com familiares, foi a extensão da inspiração em Paulo Rónai para o romance “Budapeste”, de Chico Buarque.

Quem atentou para a semelhança às avessas com a vida de Rónai (no livro de Chico, um brasileiro vai lidar com letras na Hungria) foi Sérgio Rodrigues, no extinto No Mínimo. O texto, reproduzido no blog da jornalista Cora Rónai, filha do crítico, me chegou no Facebook via Renata Lins, que disse ter tido, na época, a mesma impressão ao ler “Budapeste”.

Ele escreveu à época, sobre “Como Aprendi o Português e Outras Aventuras”:

“Um livro que, escrito a partir dos anos 40 e lançado em 1975, compartilha com o grande best-seller do momento [o livro de Chico] dois traços fundamentais: a oscilação entre a capital húngara e o Rio de Janeiro (com a diferença de que parte daquela para chegar a este, enquanto o herói buarquiano faz o caminho inverso) e a coragem de mergulhar de cabeça nos abismos da língua, das línguas, da linguagem.

[…] De um lado, encontramos o brasileiro José Costa, que por acaso ou fastio começa a construir uma nova identidade – uma identidade húngara – no dia em que a música de um idioma incompreensível o subjuga e mesmeriza. “Sem a mínima noção do aspecto, da estrutura, do corpo mesmo das palavras, eu não tinha como saber onde cada palavra começava ou até onde ia. Era impossível destacar uma palavra da outra, seria como pretender cortar um rio a faca.”

[…] Do outro lado, temos a presença comovente de um jovem húngaro, Paulo Rónai, e sua paixão também gratuita pelo português, numa Budapeste que estava a poucos anos de se tornar quintal da Alemanha nazista. “A mim, sob seu aspecto escrito, (o português) dava-me antes a impressão de um latim falado por crianças ou velhos, de qualquer maneira gente que não tivesse os dentes. Se os tivesse, como haveria perdido tantas consoantes?”

***

Quando entrevistei Laura, filha mais nova de Rónai, perguntei se Chico chegara a falar algo com a família a respeito, algum sinal além da impressão.”Ele nunca falou, mas todo mundo percebe. É fato conhecido. É tão fato que é a história do papai ao contrário”, ela respondeu.

Então perguntei ao Mario Canivello, assessor do Chico, que entrou em contato com o homem, na França, e me enviou a resposta dias depois: “Durante a escrita de Budapeste, Chico leu alguns contos húngaros traduzidos por Paulo Rónai, numa antologia organizada por ele e com prefácio do Guimarães Rosa. Dos contos, ele se lembra de ter tirado alguns apelidos húngaros, como Kriska e Pisti. E se lembra sobretudo de ter adorado o prefácio, mas só isso.”

Tendo lido “Budapeste” e “Como Aprendi o Português e Outras Aventuras”, também tenho a impressão de que foi mais do que isso. Ainda que Chico acredite que não.

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Rónai com a mulher, a professora aposentada Nora, que hoje, duas décadas após essa foto, é campeã de natação na faixa 85-89 anos

Rónai com a mulher, a professora aposentada Nora, que hoje, duas décadas após essa foto, é campeã de natação na faixa 85-89 anos

E vai aqui também a íntegra do poema que encerra a reportagem, enviado por Rónai para Américo, marido de sua irmã Clara.

Foi escrito em 13 de março de 1970, logo depois de Américo ter comprado um carro novo. No aniversário do cunhado, Rónai lhe deu uma pasta para guardar documentos (Américo era um bagunceiro convicto), acompanhada dos seguintes versos:

Américo, eu vos peço,
Prestai atenção ao problema:
Como reza o nosso lema,
Sem ordem não há progresso.

Para que à desordem escapeis
Sem perder tempo em vã busca,
Correndo feliz no fusca,
Guardai bem os vossos papéis

Arquivados, classificados,
Em bom lugar conservados,
Todos na pasta competente,
Para serem encontrados fácilmente.

Afim de atingirdes essa perfeição
Oferecemos-vos neste dia festivo
Para bem e felicidade da nação
Nada menos do que êste arquivo.

Ficai digno dêste lindo móvel
Arranjando quanto antes algum imóvel
Valores à beça, cédulas em quantidade
Consolando-vos assim dos estragos da idade.

A ambição da criação poética Rónai abandonou muito cedo, antes mesmo de vir ao Brasil. Mas, em seu acervo no sítio Pois É, em Nova Friburgo –biblioteca para a qual a família busca, sem sucesso, uma instituição disposta a administrar–, há vários poeminhas do gênero. Escritos para amigos, familiares, colegas, sempre como brincadeira.

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