Canal Pavablog no Youtube

Posts tagged Cima

“10 livros para idiotas [?]” e 1 texto para o maior deles – #ARTIGO RESPOSTA

2

1

Gustavo Magnani, no Literatortura

*este é um ARTIGO RESPOSTA. Leia na íntegra e entenderá que eu não ataco os livros, mas os defendo.

Ontem foi publicado um texto na revista bula [de quem sou seguidor e admirador, pra constar] ao qual os colaboradores do literatortura trouxeram ao nosso grupo, para discutirmos. Não demorou muito, então, para eu receber os links direto dos leitores, abismados com tanta bestialidade bobeira em um único artigo de teor cultural. E veja você, leitor, que poucas vezes aqui usamos palavras sem volta, de teor ofensivo ou pesado, prezamos pelo bom senso, equilíbrio e boa argumentação nas matérias cá escritas. Se por vezes erramos? Naturalmente, mas jamais com a intenção de soar pretensioso ou ofender uma classe, enquanto olhamos de cima, desprezando-a.

Foi isso, porém, que fez o publicitário que escreveu o respectivo artigo: 10 livros para idiotas, repleto de falácias, ignorância teórica (e humana, por que não?) da área e uma pretensão, hum, que não faz jus ao conhecimento aplicado no artigo: por isso o título, que espelha a infeliz afirmação do autor que, por sair conclamando idiotice à torto e à direito, acaba apontando pra si mesmo o que tanto condena. – eu questionei, também, se o texto não seria uma sátira, uma grande ironia… e não [o autor até pode vir a dizer algo do gênero, para amenizar a discussão, mas não há pistas pra tal interpretação. O texto não é falacioso pra ser irônico, é falacioso porque é falacioso mesmo]

Diferente do autor de lá, não quero bater o martelo aqui e concluir a discussão que apontarei, pelo contrário, quero apenas enriquece-la e apontar, dentro da fala originária, os erros, contradições e furos que ele cometeu ao conclamar idiota milhões de pessoas – por pura aleatoriedade.

Antes disso, citarei aqui a introdução do autor (mas você pode acessar o texto na íntegra e ler aqui, enquanto vai lendo lá:

Está enganado quem acha que idiotas não leem. A verdade é que boa parte da literatura está voltada para eles, que tratam de transformar autores sem talento em multimilionários. Acontece desde antes do tempo em que seu bisavô era criança. Antes disso, Schopenhauer já dizia que “quem escreve para os tolos encontra sempre um grande público”.

Também é notado que não só os livros ruins conseguem leitores idiotas. Clássicos da literatura, alguns dos livros mais brilhantes já escritos, também carregam esse fardo. Nesta lista, elejo os 10 maiores livros para idiotas, que chamam de burro quem fala “indiota”, mas citam “Harry Potter” como um dos melhores livros já escritos na história.

O teor de verdade absoluta tá aí, deu pra sentir, não? “autores sem talentos em multimilionários”. Tem a citação de um autor renomado (Schopenhauer) – fora de contexto, pra melhorar -, que supostamente corrobora a afirmação, né, pra mostrar como ele encontra base nos gênios. E aí começa a ficar ainda mais legal, pois o autor entra no terreno dos clássicos, trata de escrever um deboche sutil (“indiota” e Harry Potter”) e parte pra lista.

Antes de dissecar, um por um, os livros que ele traz, vou deixar claro que: é óbvio que existem idiotas leitores, como existem idiotas cinéfilos, idiotas fazendeiros, idiotas políticos, idiotas sacerdotes e, pasmem, idiotas publicitários. Isso é algo inerente a estar no mundo, a existir. Sempre terão idiotas. Em todos os lugares. Em todas as classes. Em todas as atividades. Todavia, isso não limpa a barra do autor, pois ele não vai por esse lado, mas para o lado de conclamar a idiotice de todos os leitores que ele cita, sem chance de questionamento ou reflexão. Aponta sua arma e pimba!

E o que torna tudo isso ainda mais abismal é que não há lógica definida em seu texto, nem lógica interna [de raciocínio, mesmo], nem amparada em qualquer escola de crítica literária. Nada. Há um bocado de falácias, ao qual, tentarei tratar aqui, à pedido do nosso querido leitor, que sempre envia mensagens desejando saber sobre nossa opinião em cima de determinado fato, matéria. E aqui já aproveito para dizer que não há nada pessoal contra o autor do texto base, obviamente.

Antes da lista, dou a palavra para a linguista e colaboradora Cecília García dar uns pitacos técnicos:

“O que foi dito a respeito do valor dos livros tem, inclusive, um equivoco de concepção de letramento. O conceito de sujeito letrado abrange, por exemplo, como um indivíduo lida com o hábito da leitura. Isto é, ler é um hábito adquirido, que tem passos e etapas. Isso significa que, basicamente, (quase) ninguém sai do “Meu pé de laranja lima” para um Ulysses de uma hora para a outra. Existe um processo, uma escada. Livros com a forma mais fácil – como é o caso das sagas adolescentes – são alguns destes degraus e colaboram para que o indivíduo crie o hábito de sentar, ler, manusear o livro, entender a capa, a organização de capítulos. Tudo é letramento e, tendo este hábito cultivado, é mais fácil mediar o processo até os livros de maior valor acadêmico. Todo leitor precisa passar por este processo – na escola, com os pais, os amigos, a avó, enfim. Ler Crepúsculo também é letramento, por mais que haja muita divergência acadêmica sobre seu real valor enquanto arte literária. Só a arte literária e ela por si só não compõem o letramento de ninguém nem tornam ninguém proficiente na leitura”

10- O morro dos ventos uivantes e a contradição que marca toda a falácia do artigo

[10 livros para idiotas – o link do artigo que eu rebato, pra você acompanhar.]

Existe uma contradição tão notável que já deixa perceptível que a matéria ali é totalmente pessoal e sem nenhuma apuração técnica, visto que, ao longo do texto inteiro, é dito que “best-sellers” não servem para nada, mas quando um deles (crepúsculo), cita O Morro dos Ventos Uivantes, de repente, como quem não quer nada, o autor acha ruim (!) que Stephenie Meyer tenha disseminado um clássico (!!!!!), mas… não era esse o ponto da idiotice dos best? que eles não disseminam nada de “útil”?

E depois, o publicitário reclama do fato da capa de uma reedição do livro constar “O livro favorito de Bella e Edward da série Crepúsculo”, ora, eu também achei isso terrível, do ponto de vista de leitor de clássicos. Agora, do ponto de vista mercadológico, foi a referência encontrada pela editora para poder vender a obra.

“Acontece que a memória do clássico de Ellis Bell, pseudônimo da britânica Emily Brontë, está sendo perturbada nos últimos anos.”

Perturbada pelo quê exatamente? Por ser lida…? Ah sim, pois deveria repousar em berço esplêndido e apenas leitores sábios, direcionados, terem a chance de ler a obra. Entendi.

9- “Inferno”, Dan Brown.

Essa eu faço questão de citar na íntegra:

“Inferno”, o mais recente livro do autor best-seller Dan Brown, é a perfeita definição de “mais do mesmo”. O autor escreveu seis livros; são meia dúzia de histórias iguais com panos de fundo diferentes. Só muda o tema (às vezes nem isso) e as informações pesquisadas. Seus livros possuem personagens sempre iguais, superficiais e ordinários. Dan Brown é um autor para se ler de vez em quando, para relaxar a mente, não ter compromisso algum. Adorar Dan Brown é, digamos… idiotice.

A inconsistência argumentativa é, mais uma vez, notável. Há uma descrição bastante comum do que é Dan Brown e do que se trata sua obra – a qual eu não posso falar por mim, pois nunca li um livro dele -, e no final a conclusão de que quem adora Dan Brown é idiota. mas, nesse meio termo existe uma defesa, um “lado positivo”, que ler pra relaxar a mente não tem problema. Ora, existe aí quase uma vergonha em admitir que gosta de ler os textos do Dan.

“ah… eu leio sim… mas só pra relaxar a mente, né? Ah… Se eu comprei na pré-venda, com o dobro do preço, tenho edição especial, vou na pré-estreia dos filmes? ah… só pra relaxar a mente”

Isso pra não cair no mérito da “adoração”. Até parece conspiração religiosa. Vixi, aí já virou trama do Dan Brown e não pode, pra não sermos idiotas.

8-Assim Falou Zaratustra (Friedrich Nietzsche)

Vamos na íntegra, que é curtinho.

Um exemplo de um livro e escritor genial que é lido por um grande público idiota. Nove entre dez idiotas que querem falar sobre filosofia citam Nietzsche. A razão, confesso, desconheço, mas o fato sempre me incomodou. Talvez seja pelo seu conhecido ateísmo. Existe muito ateu fanático atualmente. Quer algo mais idiota?

tem até dados do Ibope ali. Nove entre dez. E daí que nove entre dez que vão falar de filosofia citam Nich? O que isso tem a ver com “Assim falou zaratustra”, confesso, desconheço, mas o fato me incomodou.

7-A Hora da Estrela (Clarice Lispector)

Ainda acaba que, por isso (popularização nas redes sociais), muita gente se interessa e busca conhecer os autores. O livro oficial desse público é “A Hora da Estrela”, muito porque o livro não chega nem a cem páginas. Esse status pop de Clarice Lispector se elevou ainda mais, recentemente, entre o público adolescente no Brasil por causa do seriado Malhação. Uma das personagens costumava soltar frases aleatórias e remetê-las a Clarice. “Então a anta pisca o olho e os burros vem atrás” — Fatinha Lispector.

Se ele admite que muita gente se interessa e BUSCA os livros (algo que eu nem sei se realmente acontece), por que, então, partindo do pressuposto estabelecido, isso é ruim? Que seja 100, 200 páginas, porque é ruim, eu não entendi. E a crítica velada de que “A Hora da Estrela” é só o livro preferido por ter 100 páginas, desmerece um pouquinho uma das obras mais aclamadas de Clarice, não?

Outra coisa interessante é citar a personagem de Malhação. E agora agradeço por ter televisão na academia, porque eu me lembro exatamente de uma citação de Clarice, onde, pra mim, pareceu muito mais ironia/piada dos roteiristas do que algo a ser levado a sério. Faltou um tiquinho de interpretação aí, também. Quem diria, em…

Para você ver como era tudo uma ironia, brincadeira das roteiristas, pode clicar aqui, ou só acompanhar o diálogo que eu transcrevi de uma das cenas do vídeo, e você verá:

Fatinha: ”Como diria Clarice Lispector: pau que nasce torto nunca se endireita”

Menino: não viaja

Menina: Fatinha, essa frase não foi da Clarice Lispector, não. Essa é de uma letra do “É o tchan”

Vale se informar antes de sair atirando pro lugar errado, ou, caprichar na interpretação.

6 — Saga Crepúsculo (Stephenie Meyer)

Tanto já se disse sobre “Crepúsculo” que falar mal já virou clichê, mas uma saga que mistura história de monstros com romance platônico e que, incrivelmente, consegue ter seus livros entre os mais vendidos do mundo por anos, merece um lugar cativo entre os maiores livros para públicos idiotas.

existem inúmeros motivos pra questionar a qualidade literária de Crepúsculo, mas o autor não concede nenhum, pra que, né? TUDO IDIOTAA!!

5 — O Retrato de Dorian Gray (Oscar Wilde)

um fator inusitado está seduzindo boa parte dos leitores do autor irlandês: a homossexualidade […] O que se vê ultimamente é um culto à memória de Wilde mais pela sua herança de mártir do que pela sua capacidade intelectual. E não é incomum ouvir palavras proferidas por seus personagens na boca de seus leitores sem nenhum traço de personalidade.

Veja como a matéria não possui nem lógica interna. O Retrato de Dorian Gray, segundo o autor, figura entre os seus 10 livros para idiotas. Mas a crítica dele é dirigida aos leitores “sem nenhum traço de personalidade” …? Falta nexo, falta coerência, falta tato literário, falta sentido. Só não falta ataque gratuito e presunção.

4 — Justin Bieber: A Biografia

Biografias geralmente não são grandes obras literárias e o que se pode dizer da biografia de, na época, uma criança de 16 anos? Biografias deveriam ser feitas apenas para grandes personagens da história na maturidade ou fim de suas vidas, pois praticamente toda sua estória já estaria escrita. Acontece que, para se aproveitar dos milhões de fãs idiotas que possui, Justin Bieber decidiu fazer mais dinheiro e lançar um livro sobre seus 16 anos de vida. O que me deixa horrorizado é que nem sempre são crianças que compram esse tipo de livro.

Eu acho um absurdo Justin ter lançado uma biografia com 16 anos? Lógico. provavelmente ele não viveu nem 1/4 de sua vida. Porém, chamar seus milhões de fãs de idiotas é de um ataque ridículo. Minha prima de 10 anos era uma idiota por ler um livro de 300 páginas, então? Será mesmo? 10 anos.

3 — Porta dos Fundos / Não faz Sentido: Por Trás da Câmera

De sensações do Youtube para escritores best-sellers, os comediantes do Porta dos Fundos e o vlogger Felipe Neto parece que decidiram aventurar-se em novas mídias para fazer um pouco mais de dinheiro explorando seu enorme público idiota. Pessoalmente, acho que eles estão certos mesmo, errado está quem gasta seu dinheirinho com um livro que não acrescentará nada a sua vida.

Esse elitismo literário, crendo que só “grandes obras” devem ser publicadas e circular pelas livrarias, é o que afastou e continuará afastando as crianças, os jovens, o grande público, da literatura. Esse pensamento é vexatório, totalmente preconceituoso e soberbo. Além disso, o autor diz que “errado está quem gasta seu dinheirinho com um livro que não acrescentará nada a sua vida”, mas admite que ler Dan Brown “pra relaxar” pode. Ora, ora, ora…

2 — Kafka para Sobrecarregados (Allan Percy)

“Livros de autoajuda já são, essencialmente, destinados a pessoas idiotas”

Não vou citar o resto. Parei por aí. Eu, Gustavo Magnani, detesto autoajuda, mas conheço pessoas de uma inteligência absurda que são leitoras assíduas do gênero. Além de que, a dona de casa, a mulher que trabalhou o dia inteiro, o pai que chegou do serviço, o pai que cuidou do filho, eles que querem só sentar, ler um livro “fácil”, “didático”, eles são idiotas? Sério mesmo?

A conclusão é de que, então, um leitor de autoajuda está destinado a idiotice suprema e irremediável. Me assusta, realmente me assusta, pessoas que supostamente leem tanto, terem uma visão tão preconceituosa, fechada, limitada, como se tudo precisasse encaixar nos seus parâmetros de vida e inteligência. O problema não é da autoajuda, não, o problema é a falta de ajuda que esses seres tiram dos clássicos que tanto veneram – muitas vezes sem a menor noção do que realmente estão lendo.

1 — Cinquenta Tons de Cinza (E.L. James)

“Sim! Ele ainda reina soberano entre os (a) idiotas do mundo.”

Não se preocupe, há um candidato a ocupar esse trono, autor.

.

.

Por que eu fiz questão de tratar ponto por ponto? Para mostrar que não, nenhum leitor é idiota por ler determinado livro, seja erótico, seja biográfico, seja autoajuda, seja lá o que for.

adj. 2 g. s. 2 g.

1. Que ou quem se mostra incapaz de coordenar idéias. = ESTÚPIDO, IMBECIL, PARVO, PATETA

2. Que ou quem denota estupidez. = ESTÚPIDO, IMBECIL, PARVO, PATETA

3. Que ou quem apresenta idiotia. [retirado de priberam]

Acredite, você não é incapaz de coordenar ideias por ler 50 tons de cinza, crepúsculo, porta dos fundos. Essa crença de que todo livro precisa acrescentar, diretamente, algo palpável em sua vida, é conto da carochinha. A literatura não foi feita pra ser uma caixinha de conhecimento facilmente codificado: “olha só, aqui eu li 1984 e não serei mais manipulado pelo governo!!!”… vai nessa, bobinho.

Aprendi [sabe quando alguém define algo que você sente, mas nunca conseguiu definir, expressar?] em uma aula sobre Bakhtin, com um dos melhores professores que já tive, que, primeiro, a arte deve ser sentida. É você e ela, amigo. No livro, é você ali, sentado, deitado, em pé, encurvado, e ela, sempre disposta, a te entregar emoção. Pode ser Dostoiévski, Machado ou Rowling. O sentimento é entre você e o livro. A técnica, o “CONHECIMENTO” são secundários, bem vindos, mas secundários. Um romance pode conter a sabedoria do mundo, mas se ele não for um bom romance, não será bem recebido pelo leitor [e quando falo de bom romance, é de uma forma abstrata. bom romance pra você é diferente de bom romance pra mim].

A recepção da obra pelo indivíduo, é muito mais importante para ele, como Ser, do que a análise crítica de tal livro. A crítica fica pra gente, que ama e adora esse assunto [sim, eu me incluo, pois por mais que defenda a suma e máxima importância da recepção individual, sou um grande aficionado por teoria e crítica literária. Porém, esse sou eu, é um adendo que funciona PRA MIM e pode não funcionar pro Zé – e não, não é de extrema importância que o Zé tenha noção das ferramentas teóricas. É de extrema importância que o Zé seja confrontado, tirado do lugar comum, emocionado. ISSO é importante. Acima de qualquer coisa.]

Quantas histórias você já não ouviu de livros que, literalmente, mudaram a vida das pessoas? Pode ter sido Os Sofrimentos do Jovem Werther, O Apanhador no campo de centeio, ou A Cabana, Kairós, Ágape. E como se mede isso? Como se mede o impacto que um livro pode ter na vida de uma pessoa, por pior que o livro seja para você? Qual a importância disso perante a interpretação da ironia machadiana?

Nós, que amamos teoria e clássicos, não devemos, de maneira alguma, subirmos num pedestal e lá de cima julgarmos os incultos leitores de best-seller, pois pareceremos bestiais, presunçosos, tolos… idiotas: incapazes de coordenar idéias.

.

p.s: para deixar claro – por que eu me dei ao trabalho de escrever um artigo sobre o assunto, você pode se perguntar. Bem, tanto pela interessante discussão que tivemos no grupo, quanto pelo pedido dos leitores, quanto pela reação nos comentários da matéria, quanto pelo alcance e, principalmente, pela paixão em discutir literatura e a cultura em questão: Bakhtin neles!

p.s2: não quis, de maneira alguma, ofender pessoalmente o autor do texto, apenas confrontar suas ideias.

As bicicletas na literatura e na (por vezes trágica) vida real

0

Publicado em O Globo

O jornal espanhol El País publicou nesta segunda-feira um texto do escritor Antonio Muñoz Molina, membro da Real Academia Española, sobre ciclistas. Molina começa falando sobre a presença das bicicletas nas artes, na literatura, no cinema (pra música não ficar de fora, coloquei um vídeo bacaninha de “Bike”, do Pink Floyd, ali embaixo). Depois, passa a relatar um triste caso de atropelamento recentemente ocorrido em Madrid. Acho que os comentários dele sobre o trânsito e o sistema judiciário espanhol vão ressoar nos corações dos leitores brasileiros.

“A bicicleta é uma máquina tão literária que recém-inventada já começou a circular pelos livros. Relendo “Misericórdia”, descobri algo que não lembrava desse romance assombroso, publicado em 1897: um dos personagens aluga uma bicicleta para ir de Madrid ao Pardo. Na Madrid de subúrbios macabros e personagens desgarrados de Valle-Inclán, essa bicicleta insuspeita é um sobressalto ágil da vida moderna em meio ao atraso, obscurantismo, injustiça crua e pobreza. Quem quiser saber mais sobre ela, pode imaginá-la elevada e veloz, democrática, futurista, circulando entre carroças lentas e carruagens arrogantes da aristocracia.

Marcel Proust via fraqueza em todas as formas de transporte moderno, em particular os automóveis e os aviões, mas quando quis retratar a primeira visão das “jovens em flor” que deslumbram um adolescente durante um passeio marítimo as descreveu montadas em bicicletas, avançando em bandos com os vestidos desportivos livres de adornos barrocos e espartilhos que permitiram que as mulheres adotassem o hábito do ciclismo na virada do século.

H. G. Wells observou que cada vez que via um adulto em cima de uma bicicleta crescia sua confiança na possibilidade de um mundo melhor.

Há relatos de que Henry James tentou aprender a pedalar, mas com consequências desastrosas. Se lançou por uma estrada rural e perdeu o controle da bicicleta, atropelando, sem gravidade, uma menina que brincava na porteira de uma fazenda. Que essa menina tenha se tornado Agatha Christie é dessas coincidências que assombram os aficcionados da literatura e do ciclismo.

Ramón Casas gostava de sugerir um erotismo moderno nas mulheres ciclistas, mulheres em automóveis, mulheres fumantes. Em um de seus melhores contos escritos em espanhol, e também um dos mais tristes, “La cara de la desgracia”, Juan Carlos Onetti toma de Proust o tema do verão e da mulher na bicicleta. Mas quem a vê passar de um balcão é um homem desolado que graças a ela revive, desfazendo-se em desejo e ternura.

Uma figura numa bicicleta é passageira, mas não tão rápida que seja também fugaz. A verticalidade necessária favorece o perfil. O ritmo da pedalada ressalta a beleza das pernas.

O ápice da arte inspirada em torno das bicicletas talvez seja um curta de François Truffaut de 1957, “Les mistons”, um poema visual de 17 minutos feito de longos planos sinuosos de uma mulher muito jovem, a atriz Bernadette Lafont, pedalando descalça, as pernas nuas, o vestido branco agitado pela brisa da velocidade.

A bicicleta é uma máquina silenciosa e perfeita, como um veleiro, tão prática que causa assombro também ser poética.

As bicicletas são para o verão, disse um pai ao filho adolescente na comédia triste na qual Fernando Fernán-Gómez pôs o melhor de seu talento e a verdade de sua memória e imaginação. Sobre o infortúnio de se crescer numa cidade em guerra e a saudade de um pai que era maior e mais nobre por, no caso de Fernando, ser um pai inventado.

O verão pode ser um modesto paraíso para os fãs das bicicletas, sobretudo para os ciclistas urbanos que lidam com o tráfego nos dias de trabalho, mas nas cidades espanholas, que com duas ou três exceções são hostis para quem se atreve a pedalar, assim como com qualquer um que tente exercer o direito soberano de caminhar de um ponto a outro. E também, desde cedo, para os lentos, os distraídos, os idosos.

Quando se volta de países com o tráfego mais civilizado, é difícil se adaptar à agressividade dos motoristas na Espanha. Nova York não é exatamente Amasterdã ou Copenhagen nas facilidades que oferece aos ciclistas, mas quando venho de lá para Madrid e saio na rua, me imponho uma mudança instintiva de atitude.

É preciso estar muito mais alerta, na defensiva, atento sempre a acelerações bruscas. É preciso acostumar-se ao fato de que a visível fragilidade raramente gera maior cuidado – alguns motoristas se tornam ainda mais agressivos contra os mais frágeis, como se despertasse neles uma impaciência que leva a acelerar sobre a faixa de pedestres, ou deixa passar quem vai mais lento contendo o impulso do motor como quem trinca os dentes. Como se caminhar lentamente fosse uma ofensa que merece o desprezo e punições ocasionais.

Às 7h, hora do frescor da manhã, no silêncio das ruas amplas e vazias nas quais alguém pode pedalar com mais velocidade, também pode acontecer o choque. As bicicletas são para o verão, para o exercício saudável e a mobilidade sem emissões tóxicas, mas não têm defesa contra a barbárie.

As bicicletas são para o passeio despreocupado, mas também para a ida diária ao trabalho.

Óscar Fernández Pérez, um garçom de 37 anos, ia para o sul de Madrid na quarta-feira, 6 de agosto, quando foi atropelado por um motorista que fugiu e o deixou agonizando na rua. Óscar Fernández Pérez está morto e o infeliz que o matou não tem motivos para preocupação.

Em 2012 foi preso por dirigir bêbado, de forma “negligente e temerária”, e lhe tomaram a carteira. Mas em fevereiro desse ano já havia voltado a conduzir. Com esse histórico, e tendo fugido depois de matar um ciclista, era de se esperar que a justiça o tratasse com algum rigor. Mas em nosso país as leis e o sistema judicial quase sempre protegem os poderosos contra os mais frágeis, os corruptos contra os honrados, os bárbaros contra as pessoas afáveis, os motoristas contra os ciclistas ou pedestres.

O golpe que matou Óscar Fernández Pérez foi tão forte que sua bicicleta despedaçada voou a 15 metros do seu corpo. Mas o juiz considerou que o motorista sem carteira que o atropelou e não teve sequer a compaixão de parar para ajudá-lo merece se defender em liberdade. Ele foi denunciado por homicídio culposo, por imprudência. A pena por acabar com uma vida é de um a quatro anos.

José Javier Fernández Pérez, irmão de Óscar, resumou o caso melhor que ninguém, com poucas palavras, muito verdadeiras: “A justiça é uma merda. Matar sai muito barato nesse país”.”

Preço do Livro no Brasil sobe após 9 anos de queda e Mercado Editorial encolhe

0

1

Gustavo Magnani, no Literatortura

O título pode gerar certa ambiguidade e dar a entender que o mercado editorial encolheu porque o preço do livro aumentou. A resposta direta para esse questionamento é não, não foi esse o motivo. A principal razão foi o fato do Governo ter comprado menos exemplares do que em 2011 – e isso mostra o quão dependente do Estado ainda são as editoras.

Mas, antes que alguém taque pedras no governo, é necessário explicar que em 2011 houve uma grande compra e 2012 foi o ano apenas de “‘preencher” lacunas e reabastecer livros.

A pesquisa ao qual baseio-me é a última edição da “Produção e e vendas do setor editorial brasileiro”, encomendada pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) e pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), a qual tem periodicidade anual e serve como parâmetro para analisar o mercado editorial brasileiro, suas tendências e seu funcionamento. Possivelmente, devo fazer mais matérias em cima desses números. Hoje pretendo me focar na diminuição do mercado e no aumento do preço dos livros.

Para isso usarei como texto base a matéria publicada no Oglobo. Todas as falas de especialistas foram retiradas de lá.

Quanto ao que já citei do mercado:

— A queda faz parte do ciclo normal dos programas do governo. Um ano eles compram muito, no outro são só reposições — diz Leonardo Müller, coordenador da pesquisa.

Porém, é interessante notar que o faturamento aumentou. Todavia, o número de exemplares diminuiu. Como isso é possível? Precisamos de outro fator, portanto, para que o faturamento tenha crescido. E eis o lamento para nós, consumidores: o preço do livro aumentou.

Mas, continuemos no mercado. Em suma:

As vendas diminuíram 7,36%.

A produção de livros diminuiu em 2,91%

O faturamento aumentou em 3,04%.

Ou seja, mesmo com a queda de produção e de vendas, o faturamento aumentou.

Explicação: preço dos livros aumentou (a ser tratado abaixo)

Ora, como, portanto, é possível que o mercado tenha encolhido? E aí entra outro fator, geralmente deixado de lado em uma análise mais detalhada: inflação.

O mercado encolheu porque a inflação da área cresceu mais do que o faturamento. Ou seja, a porcentagem do aumento de faturamento foi interior ao crescimento da inflação. Assim, é verdade que o mercado “cresceu” (aparentemente), mas não o suficiente para acompanhar a inflação. Ou seja, no final, a inflação venceu o faturamento e o mercado encolheu 3,04%, para ser mais exato, como pode conferir no gráfico abaixo:

1

PREÇO DOS LIVROS:

Como puderam ver, os livros tiveram um aumento razoável de 2011 para 2012, de aproximadamente 12,46% (um valor bastante razoável). É muito interessante a brusca queda de 41% em 9 anos, porém, o preço continua salgado para o brasileiro, principalmente quando se tratam se autores super valorizados, como Stephen King e até clássicos como Gabriel García Márquez (livros de 120 páginas custando 40 R$!).

Mas, em média, colocando tudo nos panos quentes, o valor do livro pulou de R$ 12,15 para R$ 13,66. Um aumento de R$ 1,51. É necessário, obviamente, lembrar que ele valor é antes dos exemplares chegarem às livrarias, o que costuma ser metade do preçofinal (nem sempre, como no caso de Gabo, King e tantos outros). Ou seja, se calcularmos baseado na exata metade, o livro teria um salto de R$ 24,30 para R$ 27,32!

Produto antes das livrarias: R$ 12,15 (2011) -> R$ 13,66 (2012)

Produto nas livrarias: R$ 24,30 (2011) -> R$ 27,32

Um salto bastante considerável.

— Tem um momento em que não dá para sustentar essa redução. Temos uma alta nos insumos do livro, como o papel. Os adiantamentos de direitos autorais também estão crescendo — diz Sônia (Sônia Jardim, presidente da SNEL).

— A queda é causada pela chegada das edições mais baratas, como os livros de bolso. Mas há outros atores na cadeia do livro. Embora os números indiquem que o preço caiu, esse não é um índice de inflação — diz Leonardo Müller.

Interessante notar, também, que os livros didáticos e religiosos tiveram o maior aumento entre os gêneros.

Respectivamente: R$ 19,62 para R$ 24,10; R$ 5,29 para R$ 6,26.

Valores acima da inflação, tendo sido os principais a alavancarem a subida de toda a pesquisa. O crescimento dos religiosos pode parecer insignificante (0,97 centavos), mas em porcentagem chega a quase 20%! Já os didáticos possuem um resultado direto bastante grande: mais de quatro reais e também mais de 20%!

Ou seja, o crescimento neste segmento não se fixou, de maneira alguma, apenas à inflação. Infelizmente, a tendência é de que os preços continuem subindo, ainda mais num ano bastante complicado como 2013 para a o controle inflacional. O panorama não é dos melhores para o Mercado editorial brasileiro, mas também não é dos mais obscuros.

Espero que tenham gostado e compreendido a análise que propus aqui. Como já disse, mais matérias sobre a pesquisa devem ser publicadas nesses dias. Deixe seus comentários e fique de olho no site.

Idealizadora da Flip confirma próxima edição para agosto de 2014

1

Liz Calder fez declaração durante última mesa do evento, no domingo.
Este ano ficou marcado pelo tema protestos e três cancelamentos de autores.

Publicado no G1

 

No último dia da  11ª Flip, público recebe cachaça gratuita em mesa montada atrás da Tenda dos Autores (Foto: Cauê Muraro/G1)

Logo após o encerramento da 11ª Flip, público recebe cachaça gratuita em mesa montada atrás da Tenda dos Autores (Foto: Cauê Muraro/G1)

Liz Calder, idealizadora da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), confirmou que a próxima edição do evento acontecerá em agosto de 2014 – normalmente acontece em julho. Ela fez o anúncio durante o encerramento da 11ª Flip, na “Mesa de cabeceira”. O diretor-geral Mauro Munhoz já havia falado durante coletiva na tarde deste domingo que a 12ª Flip provavelmente seria adiada para agosto por conta da Copa do Mundo.

O evento chegou ao final na noite deste domingo (7), comemorando o fato de ter sido “tão harmônica e tranquila nesse momento de manifestações”, declarou o diretor-geral Mauro Munhoz durante entrevista coletiva. No entanto, os protestos foram o centro das atenções neste ano, cuja programação ganhou três mesas somente sobre a situação atual política brasileira, com muita participação da plateia. Além disso, o assunto foi abordado em meio a outros debates literários e os próprios paratienses organizaram suas reinvidicações.

Outra questão da 11ª Flip foi a desistência de três autores estrangeiros: o francês Michel Houellebecq e o norueguês Karl Ove Knausgård, por “problemas pessoais”, e o egípcio-palestino Tamim al-Barghouti, por “extravio de passaporte”. “Os cancelamentos são muito chatos e não tem como controlar. Tentamos manter contato regular com o autor para ter certeza de que ele não mudou de ideia, mas, quando acontece em cima da hora, não tem o que dizer além de insistir e contornar. Mas encontramos boas substituições. Fiquei feliz que o T.J. Clark topou fazer uma aparição extra”, contou.

Por conta disso, o curador Miguel Conde afirmou não ter tido tempo de pensar na próxima edição. “Ainda não temos um autor homenageado escolhido para o ano que vem. Essas semanas foram corridas e ainda está em aberto. Pensamos em vários nomes, mas isso vai ter de ser conversado”, declarou. Munhoz disse que Mario de Andrade, Lima Barreto, Rubem Braga ou “talvez alguma mulher” sejam as possibilidades.

O evento homenageou o romancista alagoano Graciliano Ramos, o que o curador considerou “adequado para este momento político”. “Nos outros anos tivemos Gilberto Freyre e Nelson Rodrigues, mas o Graciliano não é apenas um escritor que teve uma atuação de militância, mas cuja obra se define com essa preocupação. É um escritor que pensa as implicações do seu próprio lugar como intelectual no Brasil”, disse.

(mais…)

Adolescente cria imagens surrealistas com efeitos de edição

1

Zev Hoover, de 14 anos, criou série de fotos que lembram contos infantis
Imagens mostram contraste entre tamanho da pessoa e de outros elementos

Zev Hoover, de 14 anos, cria imagens surreais em seu projeto de fotografia “Little folk” Reprodução de internet / Fiddle Oak

Zev Hoover, de 14 anos, cria imagens surreais em seu projeto de fotografia “Little folk” Reprodução de internet / Fiddle Oak

Publicado em O Globo

RIO – Esta imagem parece ter sido extraída de um livro de contos infantis, mas é, na verdade, uma montagem com fotografias. O criador dessa e de outras fantásticas montagens é o americano Zev Hoover, de 14 anos. O adolescente da cidade de Natick, em Massachusetts, criou a série “Little folk” (ou Gente pequena, em tradução livre para português), na qual trabalha desde agosto de 2011 com a colaboração de sua irmã, Nellie, de 18 anos.

Para criar suas fotos surrealistas, ele brinca em programas de edição com a proporção de tamanho. É possível perceber pela grandeza dos elementos das imagens em comparação com as – pequenas – pessoas. Basta ver como o próprio Zev aparece nas imagens: montar uma torre de baralhos sendo da altura das cartas, voar segurando duas penas enormes em cada braço, ou estar na companhia de outra pessoa em um barco, feito com palitos de sorvete e uma folha, iluminado apenas por uma vela.

Em seu blog pessoal, o adolescente mostra o making off das imagens. Por exemplo, a imagem na qual voa em um avião de papel foi feita em algumas etapas. Os aviõezinhos foram presos em fios, e estes colados em uma placa de isopor (que, segundo ele, é um difusor que cria uma luz agradável nos objetos). As fotos foram tiradas com uma lente “tilt and shift” – na qual cenários reais parecem miniaturas ou maquetes. Com a ajuda do irmão, Zev fotografou as pernas e depois a parte de cima do corpo.

 

1 2 3 4 5

O resultado do trabalho pode ser visto em sua conta no Flickr.

Go to Top