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“A morte é uma sacanagem, sou contra”, diz Luis Fernando Verissimo em entrevista

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Giuliana de Toledo, na Folha de S.Paulo

Há pouco mais de um mês de volta à sua casa, em Porto Alegre, o escritor gaúcho Luis Fernando Verissimo, 76, não se recuperou totalmente do período de 24 dias de internação hospitalar –metade dele na UTI– em função de uma gripe que evoluiu para um quadro de infecção generalizada em novembro de 2012.

Do hospital, além da mobilidade prejudicada, ele trouxe lembranças de devaneios provocados pela medicação recebida.

“Tenho quase certeza de que não dancei uma valsa com a enfermeira que me ajudou a sair da cama pela primeira vez”, brinca.

O escritor Luis Fernando Verissimo (Zanone Fraissat/Folhapress)

O escritor Luis Fernando Verissimo (Zanone Fraissat/Folhapress)

No início deste mês, Verissimo voltou a publicar suas crônicas (nos jornais “O Globo”, “O Estado de S. Paulo” e outros pelo país). Faz tratamento intensivo de fisioterapia e espera pelo dia em possa voltar a tocar sax, instrumento que o acompanha desde a adolescência.

Leia a entrevista que o escritor deu à Folha, por e-mail.

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Folha – Como está sendo o processo de recuperação? O sr. já recuperou a mobilidade ou ainda faz tratamento?
Luis Fernando Verissimo – Faço fisioterapia quase todos os dias. Já reaprendi a levantar, andar e sentar. Correr na São Silvestre ainda vai levar algum tempo.

Como tem sido sua rotina desde então?
A maior mudança foi do computador, que trouxeram para a parte de cima. Assim eu não preciso descer a escada para a toca no porão [como chama o escritório no subsolo de sua casa] onde normalmente trabalho.

Existe algo de que o sr. esteja privado a contragosto depois desse susto?
As privações são mais decorrentes da diabetes, não têm nada a ver com o ataque viral. Pudim de laranja, nunca mais.

O sr. já voltou a tocar sax?
Ainda não peguei o sax, mas acho que o fôlego não vai faltar. Os pulmões estão bem. É só eu conseguir ficar de pé.

A doença afetou a sua percepção sobre a vida? Em reportagem da Folha de novembro de 2011, o sr. disse que a morte é “uma injustiça”. Segue sendo essa a sua visão?
A morte é uma sacanagem. Sou cada vez mais contra.

Além dos delírios descritos na primeira crônica após a alta (“Desmoronando”), teve outros durante a internação? Foram sempre angustiantes?
O problema é que eu não conseguia distinguir alucinação de realidade. Ouvia conspirações à minha volta, meu espírito, ou coisa parecida, andou até em Pelotas, que fica a 200 quilômetros de Porto Alegre, e tenho quase certeza de que não dancei uma valsa com a enfermeira que me ajudou a sair da cama pela primeira vez, na UTI.

O sr. pretende contar mais sobre esse período de internação nos seus textos?
Não. Mas, estranhamente, comecei a apelar para reminiscências quando recomecei a escrever. Talvez por uma vontade inconsciente de começar de novo, do passado.

Sentiu alguma dificuldade especial para voltar a escrever?
Dificuldade, exatamente, não. Mas não vou dizer que fazer crônica é como andar de bicicleta, a gente não desaprende. A analogia é boba. Nem andar de bicicleta é como andar de bicicleta. Sempre é preciso recuperar o equilíbrio.

Em dezembro, o seu livro “Jazz” saiu apenas em versão digital pela editora Objetiva. Em 2011, o sr. disse que o livro eletrônico “não é nada do que a gente gosta num livro”, porque lhe falta calor humano. O sr. gostou do resultado da publicação? Já adotou a leitura em dispositivos eletrônicos?
Ainda não aderi ao e-book, se é assim que se chama, e confesso que nem sabia que o “Jazz” eletrônico já tinha sido publicado. Mas não sou um bom exemplo. Ainda não aderi nem ao celular.

Há previsão de lançamentos para este ano?
A Objetiva quer republicar “A Mancha” [conto sobre a ditadura militar brasileira], que saiu há algum tempo pela Companhia das Letras com textos sobre o mesmo tema do Moacyr Scliar, do Zuenir Ventura e do [Carlos Heitor] Cony. A ideia é relançar “A Mancha” com mais três ou quatro contos meus. Ainda neste ano. Os contos adicionais são tão inéditos que ainda não foram escritos. Não tratarão do mesmo tema de “A Mancha”. Ou tratarão, não sei. Talvez um deles seja uma espécie de paródia do “Lolita” do [Vladimir] Nabokov. Veremos.

O genial reinventor da educação

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Gilberto Dimenstein, na Folha de S.Paulo

Está chegando ao Brasil um jovem que está ajudando a reinventar a escola e, ainda por cima, ajudando a fazer com que as pessoas mais pobres, em qualquer lugar do planeta, tenham acesso à educação de mais qualidade: Salman Khan. Ele faz parte de um dos movimentos contemporâneos mais interessantes e generosos. É daquelas coisas que servem como marcos na humanidade (mais detalhes aqui).

Ele tem encontro marcado com a presidente Dilma Rousseff e com ministro Aloizio Mercadante (Educação), quando vai falar não apenas de seus vídeos sobre as mais diferentes matérias, cada vez mais populares na internet, mas sobre um sistema de ensino em que o professor assume uma posição diferente em sala de aula. Tudo de graça.

Boa parte da transmissão do conteúdo fica com o computador, capaz de analisar o ritmo do aprendizado de cada aluno e até propõe exercícios de reforço. A partir daí, o professor consegue ajudar melhor o aluno.

O professor vira então uma espécie de tutor.

Imagine quanto tempo e dinheiro poderíamos economizar com esses recursos usados corretamente dentro e fora da sala de aula.

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Muitas dessas aulas estão sendo traduzidas para o português pela Fundação Lemann

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Aproveito para colocar uma seleção das melhores universidades (Harvard, Stanford, USP, MIT) que disponibilizam gratuitamente seu conteúdo na internet (veja aqui).

Como transformar um livro em um belo esconderijo

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Publicado originalmente no HypeScience

Ladrões dificilmente roubam livros quando invadem casas. A princípio, ladrão algum vai se interessar por seus romances e trilogias ou por suas enciclopédias. Suas prateleiras podem ser os últimos lugares em que ele vai mexer. Por isso mesmo é que os livros são esconderijos perfeitos.

Se quiser guardar pertences valiosos em casa e, ao mesmo tempo, parecer inteligente, faça isso. Mas vai doer: você precisará cortar uma área vertical do capítulo 2 ao capítulo 15. Só resta decidir qual será o livro-vítima.

Materiais e ferramentas necessárias

  • um livro de capa dura
  • uma cola branca
  • uma pequena vasilha ou pote
  • um rolo de filme plástico para embalar alimentos
  • uma lâmina afiada (de preferência uma faca)
  • um pincel
  • um lápis e uma régua
  • uma furadeira
  • um objeto pesado e mais largo que a capa do livro

Dificuldade e custos
Em uma escala de 1 a 10, essa tarefa tem um nível 4 de dificuldade. E os custos giram em torno de R$ 10 a 30. Para reduzir os gastos, não use primeiras-edições, livros raros ou autografados. Fica a dica. Avisar nunca é demais!

Construindo seu esconderijo
Pegue o livro: quanto maior, melhor. Dê preferência para livros que tenham pelo menos 300 páginas e que tenham capa dura. Isso facilitará o trabalho.

Misture a cola: faça uma solução de cola branca com um pouco de água – uma parte de cola para duas partes de água – em uma vasilha. A aparência final deve ficar semelhante à viscosidade de tinta acrílica.

Isole as páginas: agrupe as primeiras 20 páginas do livro com o plástico e se certifique de que estejam bem emboladas de todos os lados. Repita o processo para as últimas 20 páginas.

Passe cola: cubra os três lados das páginas restantes com a mistura de cola. Feche o livro, coloque o objeto pesado em cima e espere secar.

Corte: depois de seco, abra o livro e as páginas revestidas pelo plástico. Utilizando a régua e o lapis, marque a primeira página – daquelas que você passou cola nas laterais – com as margens que você desejar. Coloque o livro sobre uma superfície firme, segure e utilize a furadeira para furar as intersecções do seu desenho das margens. Pare antes de atingir as páginas plastificadas.

Cave: a ideia aqui é utilizar os buracos para que sirvam de pontos de entrada para a lâmina, que tirará o volume do livro. Cave e tenha cuidado para não estragar as partes das páginas que não devem ser retiradas. Se quiser, pode utilizar uma serrinha.
Limpe e cole: termine de limpar as páginas da cavidade e pinte-as com a mistura de cola. Feche o livro, coloque o peso em cima e espere secar.

Adicione uma última camada: uma vez que esteja seco, pinte mais uma vez as páginas e as laterais com a mistura de cola. Feche o livro e espere secar.

Esconda: quando tudo estiver seco, remova os plásticos e coloque o que desejar no espaço interno, como joias, dinheiro e o que mais for possível. Agora é só pôr na prateleira.

O livro é um objeto sensual

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Imagem: Google

Publicado no blog do Sostenes Lima

O desejo de ver está presente na leitura. A capa, a encadernação de um livro são sua roupa. Indicam um nome, um título, um pertencer (a casa editora) que se propõem ao olhar e o atraem.

Quando o livro está na estante de uma biblioteca, seu acesso é fácil para o olhar em busca de prazer; quando está posto na vitrine de uma livraria, esta barreira transparente aumenta nossa curiosidade. Entramos na livraria pra ‘dar uma olhada’. Exceto no caso em que já sabemos o que queremos e pedimos ao livreiro, não gostamos de ser perturbados em nossa inspeção. Fuçamos até que, atraídos por um vago indício, seguramos um livro. Aí começa o prazer, quando o abrimos, tocamos, folheamos, sondamos aqui e ali. Se o livro não está com as páginas cortadas, às vezes somos obrigados a fazer uma pequena acrobacia ocular para ler uma página pregada por cima ou pelo lado, pois é justamente aquela passagem que nos interessa.

Enfim, é preciso escolher. Se a promessa de prazer nos parece que vai poder ser mantida, pagamos o preço do livro e partimos abraçados com ele. Dependendo de se não nos desagrada mostrá-lo em nossa posse ou se algum pudor nos leva a esconder a sua identidade, o mostraremos nu ou embrulhado. Para ler, precisamos nos isolar com o livro – em público ou em particular – e às vezes em lugares bem estranho e a priori pouco propícios a este tipo de exercício.

O que nos leva a ler? A busca de um prazer pela introjeção visual que satisfaz uma curiosidade.

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Texto extraído de: André Green. Literatura e psicanálise: a desligação. In: Luiz Costa Lima (Org.). Teoria da literatura em suas fontes. 3. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002. p. 233-234.
(O título “O livro é um objeto sensual” não consta no original).

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