Posts tagged Clarice Lispector

A paixão por Clarice Lispector

0

clalispec

Ninguém passa impune pela leitura de Clarice. Raríssimos são os escritores, homens ou mulheres, capazes de provocar no leitor o mesmo efeito.

Helio Gurovitz, na Época

A imagem do Brasil no exterior sofreu um baque em tempos recentes. A crise econômica levou as agências de avaliação de risco a rebaixar nossa nota. O petrolão não sai da pauta da imprensa internacional. Dois dos maiores jornais globais, New York Times e Financial Times, discutiram em editoriais na semana passada a crise política brasileira e o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Foi-se, enfim, o encanto de país emergente. A mágica da Era Lula esfacelou-se toda – e somos agora expostos pela realidade crua de nossos limites. Em toda essa maré negativa, um fato chama a atenção: o mundo descobriu Clarice Lispector. Duas das publicações mais respeitadas pela intelectualidade americana, as revistas New Yorker e Paris Review, fizeram uma extensa cobertura do lançamento de uma nova tradução de sua obra em inglês. Resenhas positivas, nos grandes jornais americanos, começam enfim a se dar conta do valor literário de Clarice. É verdade que a imagem da cultura brasileira lá fora ainda está associada ao futebol, ao Carnaval e à musicalidade de um povo alegre e brejeiro. Ou àquele provincianismo que mistura compadres, coronéis e “questões sociais” no rame-rame medíocre que caracteriza boa parte da literatura latino-americana. Mas também temos Clarice. E ela é o oposto de tudo isso.

Uma mulher atormentada, de texto considerado difícil, até metafísico. Clarice é tão diferente de tudo o que conhecemos e esperamos da literatura brasileira que a reação sempre foi colocá-la numa gaveta própria, separada dos movimentos literários que sacudiram o país, classificada sob rótulos preconceituosos como “autora feminina” ou “para poucos”. Só que ninguém passa impune pela leitura de Clarice. Raríssimos, no mundo todo, são os escritores, homens ou mulheres, capazes de provocar no leitor o mesmo efeito. É possível não entendê-la, até mesmo odiá-la – mas não ignorá-la. Seu maior e mais difícil romance, A paixão segundo G.H., pode ser tão perturbador que ela mesma recomenda no prefácio que seja lido apenas por “pessoas de alma já formada”. “É um livro poderoso o bastante para destruir um ser humano”, disse em entrevista à Paris Review Benjamin Moser, biógrafo de Clarice, organizador da nova tradução de sua obra para o inglês e, sem dúvida, maior responsável pela atual “onda Lispector” nos círculos literários americanos.

Se você for alguém de “alma já formada” e quiser encarar o romance, esteja preparado para ler algo como nunca leu. O enredo é banal. Uma escultora de iniciais G.H. toma café da manhã em seu apartamento no Rio de Janeiro. Decide começar a limpar a casa pelo quarto da empregada que pedira demissão na véspera. Lá, encontra uma barata que prende com a porta do armário. Ao contemplar o bicho, meio morto, meio vivo, dispara uma reflexão sobre a vida, a semelhança entre seres humanos e insetos, amor e sexo, Deus e religião. A “paixão” do título é sua via-crúcis pelos labirintos da mente humana, capaz de desnudar, estação a estação, nossos temores, nossa hipocrisia, nossos limites e nossos sofrimentos. Ela culmina com uma estranha comunhão, em que G.H., no clímax de seu devaneio, come a pasta branca que escorre do corpo da barata.

É uma narrativa visceral, intimista, de um só fôlego, com um domínio incomum da primeira pessoa. Como muitos aspirantes da literatura, Clarice pratica uma espécie de escrita espontânea, em que as palavras vão da mente ao papel numa torrente de sentimentos e ideias. Num fluxo de consciência ininterrupto, ela “põe tudo para fora”. Mas, ao contrário desses aspirantes, cujas obras costumam ser um exercício sofrível de narcisismo e autocomiseração, a sofisticação e o talento de Clarice se encarregaram de produzir uma obra-prima. Seu estilo é gorduroso, cheio de desvãos e palavras que sobram (ela não revisava os textos depois de enviá-los ao editor). As ideias vêm, vão, voltam e tornam a ir embora, para mais uma vez voltar. O efeito é único. Muito escritor – ou escritora – de primeira viagem adoraria escrever como Clarice. Só ela consegue.

Judia nascida na Ucrânia, Clarice chegou com 2 anos ao Brasil, naturalizou-se e sempre se considerou pernambucana. Casada com diplomata, morou muitos anos fora do país e escreveu o romance depois de se separar do marido e voltar ao Rio de Janeiro. O livro saiu em meio ao clima tenso que vivia o Brasil de 1964. Demorou mais de 50 anos para o público brasileiro entender que Clarice Lispector é um nome que deve figurar ao lado de Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade ou Guimarães Rosa. Moser a considera também o “maior escritor judeu” desde Franz Kafka – com quem ela ainda partilha um improvável fascínio por baratas. A descoberta de Clarice pelos americanos poderá contribuir para lhe conferir o lugar merecido na literatura mundial e para revelar lá fora uma faceta inesperada e mais complexa do Brasil.

Benjamin Moser: “As almas estão mais preparadas para receber Clarice”

0
Benjamin Moser, 32, escritor americano e autor da biografia de Clarice Lispector "Why This World" Foto: luiz maximiniano / Divulgação

Benjamin Moser, 32, escritor americano e autor da biografia de Clarice Lispector “Why This World” Foto: luiz maximiniano / Divulgação

Autor da biografia “Why This World”, de Clarice Lispector, fala sobre a recepção da obra da brasileira nos Estados Unidos

Carlos André Moreira, no Zero Hora

Os Estados Unidos descobriram Clarice Lispector (1920 – 1977). O lançamento do volume The Complete Stories, reunindo todos os contos da escritora, recebeu acolhidas entusiasmadas – foi a primeira brasileira a figurar na capa do suplemento de livros do New York Times, e o Wall Street Journal a chamou de “a Virginia Woolf do Brasil”.

Em parte responsável pela “Claricemania” e coordenador da edição em inglês (traduzida por Katrina Dodson), o americano Benjamin Moser, autor da biografia Why This World (publicada no Brasil como Clarice), fala sobre a recepção da obra de Clarice lá fora.

Clarice já havia sido publicada nos EUA, e você mesmo já comandou outras edições da obra dela. A que você atribui a imensa repercussão que está tendo este volume com os contos?

As pessoas agora estão mais familiarizadas. Quando publiquei a biografia, pouca gente sabia quem era Clarice Lispector. Era uma coisa difícil comunicar a importância dessa pessoa para quem não podia ler seus livros. Eu tinha de dizer: “Leia este livro, porque esta autora é interessante”. E o meu livro repercutiu bastante, as pessoas se interessaram pela história de Clarice. Depois, editamos cinco romances dela. Lançamos quatro de uma vez, e eu já havia lançado A Hora da Estrela. E o “clube Clarice” foi aumentando com cada publicação. Este livro dos contos é muito grande, quase 700 páginas, e acho que as almas estão mais preparadas para receber Clarice. Muita gente agora já sabe quem ela é.

Arte Fraga/Reprodução

Arte Fraga/Reprodução

Você pensa que o gênero do conto possa de algum modo ser responsável por essa aceitação recente, Clarice comunicando-se melhor no espaço concentrado da narrativa curta?

Acho que não. Um amigo meu, brasileiro, diz que o Brasil demorou 50 anos para absorver Clarice e ainda não absorveu tudo. Quando ela morreu, era um nome consagrado entre intelectuais e artistas, e o alcance de sua obra foi gradativamente aumentando. As pessoas nem leram esses contos ainda nos Estados Unidos, porque o livro, por ora, foi apenas enviado para a imprensa, quem leu até agora foram os críticos, mas a explosão de interesse parece ser porque as pessoas já têm interesse em seguir a obra dela, a conhecem pelos outros lançamentos. Essa questão de se ela foi melhor no conto ou romance vai aparecer depois. Essas coisas mais avançadas que o Brasil está debatendo há décadas agora ganharão espaço. E vai ser interessante ver que opiniões esses leitores terão.

De algum modo seu sentimento é próximo ao de ver um amigo sendo reconhecido pelos méritos que antes só você via?

É até mais do que um amigo, é mais alguém da família, algo muito próximo. Estava explicando isso a uma jornalista americana amiga minha: gostar de Clarice não é uma coisa intelectual, apenas, é amor. E quando eu vejo Clarice chegando a essas alturas que poucos escritores que não escreveram em inglês chegam, e mesmo muitos escritores americanos não chegam à capa do New York Times duas vezes em uma semana, tenho orgulho de ter contribuído para isso. Eu sou o encarregado do projeto, mas trabalhei com muitas outras pessoas, outros tradutores. E até agora não vimos nenhuma avaliação negativa. Porque a minha ambição quando eu comecei a me dedicar a Clarice, em uma biografia pensada para o público americano, era: você não conhece esta pessoa, mas devia. Eu sei como eu me sinto com relação a Clarice, e sei como os brasileiros que a admiram se sentem. Quem gosta, gosta mesmo. Por isso, é uma gratificação enorme para mim.

Você agora trabalha na biografia de Susan Sontag. Como você chegou a esse projeto?

A Clarice de certa forma me levou a Susan Sontag. Havia uma espécie de comitê não muito oficial, o filho da Sontag, o agente e o editor dela, estavam procurando uma pessoa que pudesse fazer jus a Susan. E isso sem que eu soubesse de nada, eu estava no Rio de Janeiro, ignorante de tudo, e eles encontraram o livro da Clarice e gostaram tanto que me convidaram.

E representa uma dificuldade adicional o fato de Sontag ser alguém que escreveu tanto sobre si mesma, em comparação com Clarice, mais reservada?

Politicamente, a Clarice quase não emitia opinião, e além disso viveu a última parte da vida ou no Exterior ou durante a ditadura militar. Mas a Clarice era mais íntima no que publicava. Susan Sontag é mais mascarada, disfarçada, ela não abre o jogo em seus ensaios e textos públicos, mas nos escritos privados conta tudo. É, então, muito interessante para o biógrafo ler que ela escreveu alguma coisa em determinado dia e, ao ler os diários dela, saber o que ela estava pensando naquele dia. Ela escrevia também sobre muitas personalidades, e quando você tem a chave você percebe que ela está, na verdade, sempre escrevendo sobre Susan Sontag, mas que está chamando essa pessoa de outra nome. A biografia é uma operação muito pessoal do biógrafo, e o reflete. Numa biografia de Clarice quanto você pode citar de A Paixão Segundo G.H.? Digamos 1%. Esse 1% dirá o que você achou interessante. Por isso, toda biografia é um retrato de uma pessoa e também um autorretrato mascarado.

Traições – cadernos de fofocas sobre mim mesmo

0

Douglas, no Cafeína Literária

Traições – cadernos de fofocas sobre mim mesmo
Antônio Ramos da Silva

Acredito que a grande maioria das pessoas já pensou em escrever sua autobiografia. É comum que todo aquele que tenha uma autoestima normal veja a si mesmo como o maior protagonista de sua própria vida. Pensamos que as coisas que nos ferem e/ou nos trazem alegria são dignas de registro e podem impressionar aos demais.

Eu, como ser humano, escritor e com uma autoestima possivelmente um pouco maior que a média, já aventei escrever sobre mim mesmo. O que me impede é que, ao analisar as histórias que contaria, tirando uma peripécia ou outra, não vejo nada que poderia ser tão interessante que já não tenha ocorrido com as outras pessoas.
(mais…)

Governador da Bahia cita poema falso de Clarice Lispector na posse

0
Chegada do governador Rui Costa à Assembleia Legislativa para a posse

Chegada do governador Rui Costa à Assembleia Legislativa para a posse

João Pedro Pitombo, na Folha de S.Paulo

O novo governador da Bahia, Rui Costa (PT), iniciou seu discurso de posse, nesta quinta-feira (1º), lendo um poema falsamente atribuído a Clarice Lispector em correntes da internet.

“Peço licença para citar um trecho de um poema que me foi enviado recentemente por um amigo como forma de incentivo”, disse o petista, logo após fazer os agradecimentos, na Assembleia Legislativa do Estado. Ele não mencionou a autoria do texto.

“Sonhe com aquilo que você quer ser/ porque você possui apenas uma vida/ e nela só se tem uma chance/ de fazer aquilo que quer”, diz um trecho lido pelo governador.

BBC indica coleção de Clarice Lispector para ser lida em 2015

0
Publicação ressalta que Clarice é comparada a autores como Kafka e Virginia Woolf | Foto: Acervo Paulo Gurgel Valente / Divulgação / CP

Publicação ressalta que Clarice é comparada a autores como Kafka e Virginia Woolf | Foto: Acervo Paulo Gurgel Valente / Divulgação / CP

A sugestão faz parte de uma lista do canal, que contempla mais nove escritores

Publicado no Correio do Povo

Consagrada no mundo todo, Clarice Lispector teve sua obra destacada pela plataforma de notícias BBC poucos dias antes do ano terminar. Isso porque o canal incluiu uma coleção com textos da romancista brasileira em uma lista seleta que sugere dez livros para serem lidos em 2015.

“Clarice Lispector – The Complete Stories”, traduzido por Katrina Dodson e Benjamin Moser, é a primeira coletânea com textos da escritora publicada em língua inglesa. Reunindo 86 histórias, muitas das quais tornaram Clarice uma das principais autoras de seu tempo, o livro apresenta as diversas fases de seu trabalho.

A BBC destaca também que Benjamin Moser e Gregory Rabassa, ambos tradutores de Clarice para diversos jornais dos Estados Unidos, comparam a obra dela a de nomes como Virginia Woolf e Kakfa, seja pelo seu gênio raro ou pela forma de sua escrita. A lista, que também contém livros recém-lançados de premiados escritores norte-americanos, ressalta a importância do legado da autora para a literatura mundial.

Go to Top