Contando e Cantando (Volume 2)

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Quadrinhos fazem adaptação de grandes romances e autores

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Adaptação.No risco do quadrinista gaúcho Rodrigo Rosa, “Grande Sertão: Veredas” ganhou ares de aventura clássica

Adaptação.No risco do quadrinista gaúcho Rodrigo Rosa, “Grande Sertão: Veredas” ganhou ares de aventura clássica

Editoras apostam em adaptações de romances e grandes autores ganham nova roupagem em quadrinhos que prometem ser tão densos quanto as obras originais

Lygia Calil, em O tempo

Quadrinhos e literatura sempre conversaram entre si. Há uma década, o mercado brasileiro vive um bom momento para adaptações de romances para gibi – sobretudo de títulos dedicados ao público infantojuvenil, ainda em formação, para quem as versões apresentam clássicos ou obras recomendadas pelos principais vestibulares do país.

Agora, as editoras voltam o foco para um público mais experiente e conhecedor de alta literatura, com quadrinizações que procuram ser obras completas, tão densas quanto os romances originais. Nesta seara, de Milton Hatoum a Guimarães Rosa, de Adolfo Bioy Casares a Albert Camus, variados autores têm seus livros transformados em romances gráficos.

Uma das mais esperadas adaptações deste ano é a de “Dois Irmãos”, do amazonense Milton Hatoum, feita pelos paulistanos Fábio Moon e Gabriel Bá para a Companhia das Letras, que será lançada neste mês.

No fim do ano passado, “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, ganhou uma versão pelos quadrinistas Eloar Guazzelli e Rodrigo Rosa, em edição caprichada (com 7.000 volumes numerados) lançada pela Biblioteca Azul, selo da Globo.

Já “A Morte de Ivan Ilitch”, de Liev Tostói, ganhou sua versão pelas mãos do cartunista Caeto para a editora Peirópolis. E outras ainda deverão chegar ao mercado, como “O Seminarista”, que comemora os 90 anos de Rubem Fonseca, com roteiro adaptado por ele mesmo e ilustrado por Rodrigo Rosa, para a editora Agir.

Na avaliação do veterano Guazzelli, há três décadas envolvido no setor, “o mercado brasileiro de quadrinhos nunca viveu um momento tão positivo e muito disso aconteceu em função das adaptações”. Através delas, as editoras “descobriram” o nicho e o talento dos quadrinistas nacionais.

De acordo com Renata Farhat Borges, diretora da editora Peirópolis, essa virada aconteceu a partir de 2006, quando as adaptações de clássicos em quadrinhos passaram a ser incluídas nos editais de compra de livros para escolas.

Assim, obras importantes para o currículo escolar, como “O Alienista”, de Machado de Assis, começaram a ser quadrinizadas. No afã de vender para o governo, três versões somente desse romance machadiano já foram publicadas até agora, pelas editoras Companhia Editora Nacional, Ática e Escala, cada uma delas adaptadas por quadrinistas diferentes. Como elas exemplificam, uma enxurrada de quadrinizações de livros em domínio público inundou o mercado.

Para Guazzelli, a euforia do mercado para o nicho tem seu lado positivo e negativo. “Foi lindo ver quadrinistas podendo se dedicar a desenhar, ganhando por isso. Mas tudo que exige um ritmo industrial acaba perdendo na qualidade. O principal dessa história é que passaram a ver valor nos profissionais, que já estavam prontos para quando a oportunidade surgisse”, diz.

Novo momento. O que acontece, agora, é uma nova percepção das editoras: a possibilidade de vender as adaptações para quem já consome os livros, para além da sala de aula.

É o caso de “Dois Irmãos”, história que trata da relação conflituosa dos gêmeos Yaqub e Omar. “É uma obra bem densa, que continua com essa intensidade no quadrinho. Não diria que é somente para adultos, mas para o público infantil certamente não é”, explica Gabriel Bá.

A adaptação demorou quase cinco anos, em que eles se dedicaram, também, a outras tarefas. Para trazer a história aos quadrinhos, foram inúmeras horas de leitura do livro e de dedicação solitária aos desenhos. “O livro traz várias camadas de informação, e procuramos contá-las de outra forma no quadrinho. Existem coisas sugeridas na história que ficam mais claras no desenho, por exemplo”, diz.

Como pesquisa iconográfica, os irmãos foram visitar Manaus, a cidade onde a trama se desenvolve. Em 2011, eles voltaram da capital do Amazonas com centenas de fotos e ainda livros antigos com imagens para reconstruírem lugares que hoje já não existem mais. O mais difícil, porém, segundo contam, foi criar um rosto para cada figura. “O livro não descreve fisicamente os personagens, então o processo foi um pouco subjetivo. Foi uma das coisas que o Milton (Hatoum) ajudou muito, porque fomos lá mostrar se era algo que ele imaginava. Ele nos recebeu muito bem”, afirma Fábio Moon.

Para a ilustração de “Grande Sertão: Veredas”, Rodrigo Rosa encontrou um problema diferente: para a caracterização de Diadorim havia muita descrição no livro, mas a família de Guimarães Rosa, envolvida em todo o processo, pediu que o jagunço não ficasse parecido com a atriz Bruna Lombardi, que interpretou o personagem na série homônima na Globo. “A dificuldade é que, pelo livro, Diadorim era exatamente como a Bruna Lombardi – traços finos, olhos verdes e tudo mais. Tive de refazer algumas vezes até a família se convencer. Até hoje acho um pouco parecida com a Bruna”, diz, aos risos.

Quem fez a adaptação do primoroso texto de Guimarães Rosa foi Guazzelli, que até pensou em dispensar o trabalho. Aceitou pensando no futuro. “Eu ia ficar maluco quando visse o quadrinho feito por outra pessoa”, confessa. E embora não tenha sido contratado para fazer os desenhos, só conseguiu terminar o roteiro quando riscou a história – e diz estar pronto para levar pedrada pela ousadia de mexer no texto. “Adaptar nunca é fácil. Tive de me concentrar em uma das histórias do livro e tirar daquele texto maravilhoso as pepitas de poesia. Para mim, isso era o mais importante: captar o espírito poético da obra”.

Gabriel Bá chama a atenção para um aspecto quase sempre ignorado do trabalho do quadrinista: eles são escritores. O processo completo de uma boa adaptação requer um apuro de escrita e desenho que não é para qualquer um. “É mais do que uma transposição. Sinto como se fosse uma tradução, porque o livro e o quadrinho são linguagens completamente diferentes. A HQ é muito mais próxima do cinema do que da literatura”, avalia.

Em tempo de crise, clássico volta a ser um bom negócio

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Leitura (iStockphoto/Getty Images)

Leitura (iStockphoto/Getty Images)

Maria Carolina Maia e Meire Kusumoto, na Veja

Alguém pode dizer que um clássico nunca sai de moda. Isso não é inteiramente verdade. Há ciclos de interesse e de oferta que os tornam mais atraentes de tempos em tempos. Mais quentes. É o que se vê agora no mercado literário brasileiro, e em boa hora. Em um momento em que a economia caminha para a recessão e grandes títulos como O Pequeno Príncipe caem em domínio público ou rumam para tal, duas pequenas editoras começam a operar focadas nesse nicho, e outras duas já consolidadas, a Hedra e a Rocco, preparam coleções — de holandeses “esquecidos” e de obras canônicas para jovens, respectivamente. É uma boa notícia para o leitor, que tem no filão o seu investimento mais seguro.

Consagrados pela qualidade e pela maneira como tocam o público, tanto de sua época quanto das que se seguem a ela, clássicos são livros formadores não apenas de leitores, mas de escritores e de outras obras, de cultura e de imaginário coletivo. Quando se fala de amor, não conhecer a história de Romeu e Julieta é, guardadas as proporções, o mesmo que boiar naquela conversa sobre a novela que você não acompanha. “Um clássico nunca perde a importância. Lendo clássicos, a gente se aproxima do nosso passado comum”, diz Juliana Lopes Bernardino, da Poetisa, editora que iniciou trabalhos no final de 2014 com a ideia de tirar da gaveta traduções feitas pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), onde sua sócia, Cynthia Beatrice Costa, estuda.

O primeiro livro lançado pela editora, que tem sede em Florianópolis, foi uma tradução integral de Bela e a Fera, que só contava com adaptações no mercado brasileiro. O texto é assinado por Marie-Hélène Catherine Torresta, professora da UFSC. O próximo título da Poetisa, previsto para março, será o infantil O Coelho de Veludo, da inglesa Margery Williams (1881-1944), nunca editado no país. Lançado em 1922 na Inglaterra, o livro está entrando em domínio público, algo que, pelas leis brasileiras, acontece 70 anos após a morte do autor. “Nossa intenção é ter de quatro a cinco lançamentos em 2015. Além de clássico ter um retorno mais garantido, há a questão do domínio público. São obras que não custam tanto para a editora”, diz Juliana.

Os clássicos de aventura

A Odisséia

Espécie de sequência de Ilíada, que narra a Guerra de Troia, A Odisseia retrata a volta de Odisseu, o herói do conflito, para seu reino, Ítaca, e para sua mulher, Penélope. Ao longo de 24 cantos e mais de 12 000 versos, o personagem enfrenta uma tormenta e perde seu rumo, o que o leva a encarar toda a sorte de aventuras e levar dez anos para concluir a viagem. No Brasil, o livro é publicado por casas como Penguin, Cosac Naify e Editora 34. Ao lado de Ilíada, este poema épico escrito por volta do século VIII a.C. e atribuído a Homero é considerado o texto inaugural da literatura ocidental.

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Dom Quixote

Considerado o primeiro romance moderno, Dom Quixote foi publicado em 1605. No livro, o espanhol Miguel de Cervantes retrata o fidalgo decadente Alonso Quijano, ardoroso fã das histórias de cavalaria que perde o juízo e assume a personalidade de Dom Quixote de La Mancha, partindo em aventuras ao lado do fiel escudeiro Sancho Pança. Idealista, Dom Quixote está sempre em busca de justiça e chega a enfrentar um conjunto de moinhos, que pensa se tratar de gigantes que se colocam em seu caminho. No Brasil, o livro é publicado por casas como Companhia das Letras e Editora 34.

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Moby Dick

No livro publicado em 1851, o americano Herman Melville retrata a viagem do navio baleeiro Pequod, da costa dos Estados Unidos para o Pacífico Sul. O narrador da história, o marinheiro Ishmael, aceita integrar a tripulação sem saber que a trajetória da embarcação foi definida por seu capitão, Ahab, que deseja se vingar do cachalote Moby Dick. Em uma de suas viagens anteriores, Ahab enfrentou o animal e sobreviveu, mas perdeu uma das pernas e seu antigo navio. No Brasil, o livro é publicado por casas como Cosac Naify e Editora Landmark.

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Robinson Crusoé

No romance de 1719 do inglês Daniel Defoe, Robinson Crusoé é um marujo que perde quase tudo ao naufragar perto de uma ilha da América do Sul. No local, que ele apelida de Ilha do Desespero, ele sobrevive com os objetos que consegue resgatar do navio, no que será uma longa espera por resgate. Ele vive por vinte anos sem qualquer contato com outro ser humano, até que encontra e salva um nativo de um ataque de canibais e o transforma em seu criado. No Brasil, o livro é publicado por casas como Companhia das Letras e Edições BestBolso.

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O Coração das Trevas

Publicada originalmente como uma série na revista inglesa Blackwood (1817-1980), a história do britânico de origem polaca Joseph Conrad foi transformada em livro em 1902 e serviu de inspiração para um dos filmes mais conhecidos do diretor Francis Ford Coppola, Apocalypse Now (1979). O enredo acompanha a viagem do marinheiro Charles Marlowe pela selva africana, onde descobre a crueldade dos métodos empregados na exploração e na venda de marfim, principalmente por Kurtz, um comprador do material. No Brasil, o livro é publicado por casas como Companhia das Letras e Hedra.

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Em domínio público também entrou neste ano outro clássico que, como Bela e a Fera, é consumido por crianças e adultos, o campeão de vendas O Pequeno Príncipe, de Antoine Saint-Exupéry (1900-1944). Presença constante nas listas de mais vendidos, onde pode ser visto com a marca da Agir, editora que o publica no país desde 1952, o livro agora deve ganhar edições da L&PM, da Geração Editorial e da Autêntica, entre outras. Preocupada com a perda de seu menino de ouro, a editora do grupo Ediouro já tratou de preparar produtos que compensem o fim da sua exclusividade. No final de 2014, a Agir firmou um contrato de licenciamento com os representantes e herdeiros de Saint-Exupéry para a criação de novos projetos, que já começam a ser publicados a partir de abril deste ano. O primeiro deles é uma versão adaptada para crianças pequenas, feita por Geraldo Carneiro e Ana Paula Pedro.

Se a Agir corre para mitigar o prejuízo causado pela queda em domínio público de O Pequeno Príncipe, a L&PM comemora a novidade. A gaúcha anuncia que a sua edição corrigirá “erros” presentes na da rival, como a omissão de uma estrela em uma cena em que o astrônomo olha por um telescópio. “Na margem interna da página, vê-se uma estrela (justamente o corpo celeste que está sendo observado pelo personagem). Nas edições brasileiras disponíveis para o público até 1º de janeiro de 2015, a estrela era omitida”, diz a editora, que tem 30% de suas vendas feitas de clássicos e para 2015 prepara também uma nova edição de A Divina Comédia, de Dante.

“Para o leitor, o benefício óbvio de toda essa movimentação entre as editoras é que há uma diversificação maior nas prateleiras: o mercado brasileiro atualmente é um dos mais aquecidos do cenário literário internacional, pois as editoras querem agir com rapidez para colocar nas prateleiras o que o público quer ler”, diz Larissa Helena, editora na Rocco Jovens Leitores, que prepara a coleção Memória do Futuro, organizada pelo poeta e tradutor Marco Lucchesi. Outra boa notícia: os livros terão texto na íntegra, e não aquelas adaptações para leitores iniciantes que quase sempre empobrecem a obra. “Clássicos são histórias com apelo universal, que têm qualidade extraordinária na narrativa e que deixaram marcas indeléveis na literatura.”

Histórias Clássicas de Amor

Romeu e Julieta

A trágica história de amor de Romeu e Julieta foi escrita por William Shakespeare entre os anos 1591 e 1595. Filhos únicos de famílias inimigas, os Montecchio e os Capuleto, os jovens se conhecem em uma festa promovida pelo pai de Julieta e se apaixonam. Para fugir do casamento arranjado pelo pai com Páris, Julieta bebe uma poção que a fará dormir e parecer ter morrido, mas acordará a tempo de ser salva por Romeu. O mocinho, no entanto, descobre a morte da amada antes de saber que ela se trata de uma farsa e toma veneno, tirando a própria vida. Ao acordar, Julieta percebe o que aconteceu e se mata com o punhal de Romeu. No Brasil, o livro tem edições por casas como L&PM e Saraiva.

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Madame Bovary

O livro do francês Gustave Flaubert causou controvérsia ao ser publicado, em 1856, por contar a história de uma mulher adúltera. Emma, uma jovem sonhadora que passou a adolescência na companhia de romances açucarados e arrebatadores, se vê frustrada em um casamento entediante com Charles Bovary, um médico do interior da França. Para escapar de seu dia a dia maçante, ela se aventura fora do casamento duas vezes, primeiro com Rodolphe, depois com Léon. No Brasil, o livro tem edições por casas como Penguin e L&PM.

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Anna Karenina

Publicado originalmente entre 1875 e 1877 na revista The Russian Messenger, o livro do russo Liev Tolstói conta a história de Anna Karenina, casada com o político Aleksey Karenin, com quem leva uma vida confortável. Ao visitar um irmão em São Petersburgo, Anna conhece o Conde Vronsky, por quem se apaixona. Seu marido logo descobre o caso, mas pede apenas discrição do casal para (mais…)

Novas tecnologias, velhos hábitos: smartphones impulsionam a leitura de livros físicos

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pedrosimoes7 | Flickr

pedrosimoes7 | Flickr

Rodolfo Viana, no Brasil Post

Um debate que se arrasta nos últimos anos é sobre a possível “morte” do livro físico — sobretudo dos grandes romances — diante das novas tecnologias. Afinal, com o universo digital tão presente em nossas vidas, somos seduzidos pela distração a ponto de não mais conseguirmos dissociá-la de uma atividade que demande concentração, como a leitura.

O escritor Will Self decretou a morte do romance no Guardian, em artigo de maio de 2014. Ele justifica o óbito: “A marca da nossa cultura contemporânea é uma resistência ativa à dificuldade em todas as suas manifestações estéticas.” Ele tem razão quanto à “resistência ativa à dificuldade”, e um exemplo claro disso foi o caso da escritora Patrícia Secco, que queria simplificar clássicos da nossa literatura. Ler Machado de Assis se tornou algo hercúleo.

Ler não é passar os olhos sobre palavras, mas sim o exercício de criar ligações cognitivas baseando-se nos signos. As palavras em si nada significam: elas ganham alma apenas quando nós conseguimos, a partir delas, criar mundos na mente. Isso demanda um tempo que, hoje, não temos. E não temos porque desperdiçamos mais e mais segundos com meras distrações. O ser humano é basicamente um ser de desperdícios. Temos interesse no acúmulo e queremos mais de tudo; mas, no final das contas, somos apenas um e não temos como consumir tudo. Queremos tudo porque somos finitos. As coisas não acabam; nós, sim.

Mas há uma luz.

A ascensão do digital faz com que mais pessoas busquem livros físicos. Sério. Um relatório da Biblioteca Britânica mostra que o aumento do público no último ano foi de aproximadamente 10%. A visitação cresceu de 1,46 milhão em 2013 para mais de 1,61 mi em 2014.

“Quanto mais as nossas vidas estão ligadas a uma tela, mais percebemos o valor de encontros humanos e artefatos físicos reais: as atividades em cada ambiente alimentam o interesse no outro”, diz o relatório.

Depois da divulgação do documento, Roly Keating, chefe executivo da Biblioteca Britânica, apresentou os dados e disse: “As pessoas me perguntam — talvez mais do que eu poderia esperar —: ‘na era do Google e de grandes ferramentas de busca e de grandes telas, a ideia de uma livraria ainda faz sentido?’ O que nós coletivamente acreditarmos ser o propósito de uma livraria determinará sua sobrevivência nos anos futuros.”

Então talvez seja um pouco cedo para “matar” o livro físico.

O que levar para ler nas férias?

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No Dia do Leitor, uma lista de livros sugeridas pela equipe do Segundo Caderno

O livro 'Uma escuridão bonita', do angolano Ondjaki, é uma das sugestões de eleituras para as férias - Divulgação

O livro ‘Uma escuridão bonita’, do angolano Ondjaki, é uma das sugestões de eleituras para as férias – Divulgação

Mariana Filgueiras e Maurício Meireles em O Globo

RIO — Dia 7 de janeiro é o dia de celebração da Cabanagem, a revolta popular do Pará que em 1789 exigia a autonomia da província brasileira; é o dia em que, em 1890, foi decretada a separação entre a Igreja e o Estado no Brasil; é o dia do aniversário do cantor e compositor Luís Melodia e, mais do que importante para saber tudo isso, é o Dia Nacional do Leitor. Para celebrar a data, os repórteres Mariana Filgueiras e Maurício Meireles sugerem uma lista de leitura para as férias com alguns de seus livros prediletos. Obras de ontem e de hoje, lançamentos ou clássicos, romanções ou quadrinhos, que tenham aquele apelo inevitável das férias, do verão — o livro que não pesa na bolsa de praia e que é muito melhor se lido ao ar livre. Confira:

1. “A vida descalço”, Alan Pauls (Cosac Naify)

As lembranças das férias de infância do autor argentino em Cabo Polônio, praia uruguaia. Um livro perfeito para se ler na praia, apesar de a edição ser de luxo — dá uma certa pena de enfiá-lo numa bolsa cheia de protetor solar, farelo de biscoito e areia. Mas o risco vale a pena. Principalmente quando o autor descreve as espécies de sonhos que temos quando estamos na praia, e só nela e as conclusões que também só temos ali, pés fincados na areia quente.

2. “Pavões misteriosos, 1973-1984: A explosão da música pop no Brasil”, André Barcinski (Ed. Três estrelas)

Verão combina com música pop, texto solar e revelações inesperadas. Impossível não levantar da rede e partilhar com os amigos as histórias sensacionais que o jornalista André Barcinski conta dos ícones da nossa música popular que fazem muita gente torcer o nariz, como Sidney Magal, Gretchen ou Benito de Paula — e as lições de quanto eles contribuíram para a história da MPB.

3. “O professor do desejo”, Philip Roth (Companhia das Letras)

O filho de um dono de hotel de veraneio em Nova York toma lições de vida com uma espécie de faz-tudo artístico do estabelecimento. E usa todas as histórias, artimanhas e manemolências aprendidas com o sujeito para “passar o rodo” (e a expressão aqui é exatamente esta, se me faço entender), nas mulheres que encontra pela vida. Humor existencial da pena fina de um dos maiores romancistas americanos.

4. “Uma escuridão bonita”, Ondjaki (Ilustrações de António Jorge Gonçalves, editora Pallas)

“Histórias sem luz elétrica” é o subtítulo deste romance delicioso do angolano Ondjaki. Escrito no escuro, narrado no escuro, onde as pessoas só veem sorrisos e perdem pirilampos de vista — para se ler bem longe das luzes econômicas de escritórios, numa noite de janeiro fresca e sem pressa.

5. “A invenção de Morel”, Adolfo Bioy Casares (Cosac Naify)

Outro argentino, este um clássico. Talvez a história de amor mais bonita escrita em espanhol, e quem diz não sou eu, mas o escritor cubano Guillermo Cabrera Infante. Jorge Luís Borges chamava esta novela de “perfeita”. São pouco mais de 100 páginas numa viagem que vai da poesia à ficção científica, passando pelo romance policial e realismo fantástico sem paradas — que farão o leitor economizar (ou aprender a pinçar bem) nos adjetivos quando ficar viciado em nova série de TV americana…

6. “Cartas de viagem e outras crônicas”, Campos de Carvalho (José Olympio)

Parece despropositado o livro nesta lista, mas é um artifício sensorial: as cartas escritas por um mal-humoradíssimo (e ainda mais genial) Campos de Carvalho de Londres, nos anos 70, para o jornal Pasquim. Ele reclama tanto do inverno duríssimo daquelas paragens, e o faz com tanto humor involuntário (”Em Londres, há um jornal chamado The Sun, só sai duas vezes ao ano”, era uma das piadas recorrentes), que é impossível que o leitor não sinta ao menos uma brisa gelada no rosto.

7. “O mar”, John Banville (Rocco)

Simplesmente porque não há descrição do mar mais bela. São páginas e páginas a vencer o desafio, num romance que também volta às férias de infância — e ainda há quem subestime a importância das redações escolares com o tema… Vencedor do Booker Prize, encerra esta lista de livros que te dão o mundo inteiro numa tarde de sol.

Maurício Meireles

1. “Obras completas”, Bruno Schulz (Cosac Naify)

m escritor para entrar na lista de favoritos de muita gente. Bruno Schulz é um dos maiores nomes da literatura polonesa, mas se tornou injustamente pouco conhecido fora dos meios literários. Morto pelo nazismo, suas obras completas — com a bela tradução de Henryk Siewierski — são curtas e valem sobretudo pelo livro “Lojas de canela”, no qual Schulz trabalha suas memórias de infância com uma prosa poética que tende ao fantástico e à fabulação. Livro capaz de enternecer os brutos.

2. “O Aleph”, Jorge Luís Borges (Companhia das Letras)

Este livro é uma maravilha. Serve para mostrar que a obra de Borges, cuja grande erudição o tornou um dos autores favoritos da academia, sustenta-se por conta própria — e não é preciso bagagem acadêmica para desfrutá-la. O argentino desenvolve as grandes abstrações típicas de sua obra, deixando o leitor trêmulo. Se você for impressionável, evitar ler antes do dormir, porque a mente fica funcionando a mil.

3. “Palmeiras selvagens”, William Faulkner (Cosac Naify)

Faulkner ficou com fama de “difícil”, em partes por conta da prosa experimental de “O som e a fúria”, seu livro mais famoso. Pois este aqui é uma ótima introdução à sua obra. O livro reúne duas novelas, “Palmeiras selvagens” e “O velho”, que se alternam — mas podem ser lidas separadamente. Todos os elementos faulknerianos já estão no livro: a dimensão trágica dos personagens, o peso da escravidão e da Guerra de Secessão, a melancolia e a própria arquitetura do romance. Apesar da dimensão sombria do escritor, as duas novelas falam sobre dois tipos de amor. A primeira, em especial, sobre um amor proibido.

4. “O complexo de Portnoy”, Philip Roth (Companhia das Letras)

Um dos clássicos que surgiram durante a liberação sexual nos Estados Unidos. Neste que é um dos primeiros — e melhores — livros de Philip Roth, o escritor já nos apresenta um dos seus personagens típicos: Alexander Portnoy, um homem neurótico, irônico, mulherengo e obcecado pela mãe. Para chorar de rir com as histórias familiares do protagonista: o pai com uma prisão de ventre crônica, a mãe que oprime a todos (inclusive a si mesma) com o próprio amor — e relação com a masturbação, tema que chocou muita gente à época do lançamento.

5. “Odisseia”, Homero (Várias)

Há quem se assuste em ler 24 cantos de um poema épico, mas pode esquecer toda a reputação de grande clássico da literatura ocidental: a saga de Ulisses é antes de tudo uma grande história. Além disso, ela já faz tanto parte do nosso imaginário que dá a sensação de já ter sido lida antes. Então vale aproveitar as férias para acompanhar o herói grego em suas aventuras com ninfas, sereias, feiticeiras, ciclopes — e contra a própria ira dos deuses. Também é uma feliz surpresa para quem gosta de cinema, TV ou literatura: afinal, tudo que se faz hoje em termo de estrutura narrativa já tem suas bases neste épico de quase 3 mil anos.

6. “Antologia do conto húngaro”, Paulo Rónai (org. e tradução, Topbooks)

Drummond dizia que este livro era o “mel de agosto”. Paulo Rónai, em um dos maiores legados que nos deixou, o descrevia como “um retrato poético da Hungria”, terra onde cresceu, foi feliz e sofreu — e de onde precisou fugir com a ascensão do nazismo. Aqui, o intelectual húngaro reúne escritores que lhe foram fonte “alegrias e deslumbramentos”. É uma antologia feita com muito carinho, uma ótima chance para conhecer uma literatura feita na região central da Europa, palco de conflitos entre religiões e impérios, pouco conhecida no Brasil.

7. “O gosto do cloro” (HQ), Bastien Vivès (Leya)

Esta história em quadrinhos ganhou o Prêmio Angoulême de 2009, principal troféu do gênero na França. Ela traz uma história de muitos silêncios e grandes significados. O protagonista tímido, desengonçado, vai a uma piscina por recomendação do fisioterapeuta. Lá, encontra uma garota. Os dois conversam, riem, flertam, marcam um encontro para dali em breve — e nunca mais se veem. É um pequeno relato, para ler em uma hora, sobre a solidão.

Adultos não deviam se sentir envergonhados por lerem clássicos da literatura infantil

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Publicado por Literatortura

Não julgue um livro pela capa – mas sim por suas páginas!

Por trás de toda a histeria causada pela nova capa do livro “A Fantástica fábrica de chocolate”, de Roald Dahl, há questões muito mais relevantes: para quem são escritos os livros? – e que diferença prática isso faz?

O romance em questão, lançado há 50 anos e publicado originalmente “para crianças” foi relançado pelo selo britânico Penguin Modern Classics, numa edição “para adultos”. Seja qual for a sua opinião sobre a capa – para mim, uma boneca vestindo marabu é lindamente perturbador e coube muito bem ao estilo da terrível Verônica Salt – trata-se de um clássico. O romance de Roald Dahl deve ser considerado canônico, independentemente de quem o leia.

Adultos passaram a se interessar por livros infantis através da série Harry Potter e esse interesse continuou vivo quando Crepúsculo e Jogos Vorazes foram lançados. As grandes editoras chegaram ao ponto de relançá-los com capas mais infantilizadas, como se quisessem nos relembrar de que eles também foram feitos para crianças.

 

É incontestável que o atual público do mercado editorial nunca foi tão amplo – o que gera, portanto, um ambiente em que confusões como essa certamente virão a ocorrer. Algumas gerações atrás houve uma discussão parecida envolvendo Enid Blyton e George Orwell. Nos Estados Unidos, Philip Roth lançou, em 1969, um romance “para adultos” chamado O Complexo de Portnoy. Em 1973, Judy Blume lançou Deenie, para “adolescentes”. Masturbação é um tema recorrente em ambos, o que resultou no banimento dos mesmos de várias livrarias dos EUA. Roth, no entanto, jamais diria que seu livro foi escrito para crianças e Blume nunca afirmou que sua obra era destinada ao público adulto. Portnoy é inegavelmente um clássico da literatura estadunidense; Deenie, por sua vez, pode ter sido a responsável pelo desenvolvimento da maturidade emocional de muita gente.

Muitos livros lançados hoje em dia são obras “cruzadas”: protagonistas crianças inseridas em tramas densas e elaboradas. Como leitor, de qualquer faixa etária, você deve-se fazer apenas uma única pergunta: esse livro é bom ou não?

Apesar de muitos livros infantis conterem capas bobinhas, isso não precisa ser um padrão. Se você vir o seu filho lendo um livro que te desagrade, pergunte a ele o que ele acha da história e encontre um livro que contenha essas características, mas de qualidade superior.

A ideia de que um livro oferecer algum tipo de proteção às crianças que o leem é uma tremenda bobagem – a versão original de muitos contos de fadas, por exemplo, é macabra o suficiente para revirar o estômago de qualquer adulto. Há muita porcaria sendo publicada ultimamente e creio que isso se deve ao fato de que hoje há uma gana doentia em tentar adivinhar o que vai vender ou não. Editores deveriam parar de perder tempo se perguntando se um livro é “literatura” ou “comercial”, se é para “adultos” ou “crianças” – eles deveriam apenas se perguntar se possuem em mãos livros bons ou ruins.

Exemplo: quando 50 tons de cinza foi lançado, toda a discussão que o envolveu – além da vergonha de se admitir de o ter lido – era a respeito de seu alto teor erótico. Então, eu disse que, se o objetivo das pessoas era de fato ler literatura erótica, que as direcionássemos a bons livros eróticos, como por exemplo A História de O. Por motivos óbvios, fui dissuadida a evitar tal assunto. Entretanto, mantive o meu ponto: não interessa a qual gênero literário 50 Tons de cinza pertence. O que interessa é que se trata de um péssimo romance. Mas um péssimo romance que vendeu, como todos sabem. Contudo, um possível relançamento de A História de O não venderia também?

Atualmente, há um novo rótulo para livros em alta, o que as editoras chamam de “thriller”. Parece-me uma estratégia de marketing degradante e de muito mau gosto. Soa como “não fique constrangido ao ler este livro, pois se trata de uma obra genial”.

Ninguém que já tenha lido um thriller o viu dessa maneira, porque um thriller bem escrito é apenas um livro bem escrito – sem a necessidade de tal denominação. John Le Carré, ou qualquer um de seus devotos fãs, sabem muito bem do que estou falando. Quando O Espião Perfeito foi lançado, ninguém menos que Philip Roth o descreveu como “o melhor livro já lançado desde a segunda guerra”. Nada de thriller. Livro.

Se mais alguém quiser se aprofundar nessa rotulação interminável, certamente verá em J. K. Rowling a próxima “vítima” a ser analisada: ele escreveu, por muitos anos, livros infantis e se tornou famosa por isso. Mais recentemente, um romance para adultos e dois thrillers foram lançados pela mesma. Os seus livros “de gente grande” foram comicamente apontados pela quantidade notável de palavrões, como se ela tivesse guardado-os por todos esses anos.

Contudo, em vez de dividi-la em categorias, você apenas se pergunta se ela é uma boa escritora ou não. É possível traçar muitas semelhanças entre seus livros. Seu estilo não é excepcional, mas é funcional: ainda que por vezes sua escrita seja previsível, Rowling é uma escritora deveras instigadora e consegue criar um universo coerente e conduzi-lo com maestria. E o mais importante: ela é capaz de entrar na mente das crianças como poucos escritores o fazem.

Ironicamente – ou não, se você jogar todas essas classificações e rótulos no lixo – a visão de Rowling das crianças é muito mais clara em Morte Súbita, em que os adolescentes roubam a cena: eles são rebeldes, cheios de traumas, inteligentes e indecisos. Mas todos estão doidos para se envolver com o mundo exterior e irem adiante, rumo à próxima fase de suas vidas.

E então eu li A Fantástica fábrica de chocolate. Trata-se de um excelente livro, sem dúvida alguma. Algo mais importa?

Traduzido por Pedro Lima

PS: Traduzido de: aqui!

PPS: O presente texto é um artigo de opinião postado no site do jornal britânico Telegraph escrito por Gaby Wood, não contendo necessariamente a opinião da equipe do Literatortura.

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