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Claudia Werneck: a escritora que se tornou a voz dos direitos dos jovens deficientes

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Com 14 livros sobre inclusão e fundadora de grupo de teatro que leva peças a quem não enxerga ou ouve, ela recebe prêmio internacional

Maria Elisa Alves em O Globo

A escritora Claudia Werneck, há mais de 20 anos, dedica a vida à luta pela inclusãoFoto: Daniela Dacorso / Agência O Globo

A escritora Claudia Werneck, há mais de 20 anos, dedica a vida à luta pela inclusãoFoto: Daniela Dacorso / Agência O Globo

RIO – Era para ser uma visita de cortesia qualquer: Diego, filho da jornalista Claudia Werneck, insistia para que ela fosse visitar o irmãozinho recém-nascido de um amigo dele. Ela adiou um pouco o compromisso, afinal, nem conhecia direito a família. Mas, como pedido de filho quase nunca se nega, acabou indo. Quando a mãe do bebezinho descobriu que Claudia trabalhava na revista “Pais & Filhos” —, uma espécie de Bíblia para pais aflitos na era pré-internet —, contou que o menino tinha síndrome de Down e a agarrou, implorando ajuda. Sem o hoje onipresente Google ou livros sobre o tema para leigos, ela queria saber se o filho ia se casar, chamá-la de mãe, viver muito. Claudia saiu de lá impressionada e propôs à revista uma reportagem sobre o assunto. Surgiu ali a semente para uma mudança radical na vida de Claudia, que, depois da imersão de quatro meses no universo Down, escreveu 70 páginas. A reportagem tinha apenas cinco e Cláudia logo descobriu o que fazer com o que ficou de fora: nasciam ali o seu primeiro livro, “Muito prazer, eu existo”, e uma militante da inclusão, que se tornou uma das mais importantes vozes dos direitos dos deficientes no Brasil.

— Quando eu escrevi o livro, recebi três mil cartas. Entendi que algo acontecia e ninguém sabia. Eu não era a jornalista maravilhosa que pensava. Não trabalhava com o repertório de rostos da humanidade. Se eu fazia uma matéria sobre amamentação, eram dicas para as mães com dois braços. E as que não têm os dois? Percebi que eu não estava pensando em todo mundo. E também me dei conta de que precisava documentar histórias silenciosas, não conhecidas — diz Claudia, que mudou por dentro e por fora. — Quando entendi o que era inclusão, minha providência foi mudar o cabelo. Abandonei o corte Chanel e usei moicano, raspado de um lado e pintado de vermelho. Uma vez uma moça no aeroporto disse que era o cabelo mais doido que ela já tinha visto. Era uma das filhas da Baby Consuelo — diverte-se Claudia.

A mudança foi em 1990 e, de lá para cá, Claudia, de 56 anos, já escreveu 14 livros sobre inclusão, direitos humanos, discriminação e diversidade, e vendeu mais de 220 mil exemplares em português, inglês e espanhol. E nunca deixou que a máxima “Casa de ferreiro, espeto de pau” se aplicasse à sua vida: com dificuldade para contar suas histórias em diferentes plataformas, que atendessem quem não enxerga ou não ouve, fundou com o marido, Alberto, a WVA Editora. O seu último título, “Sonhos do dia”, tem exemplares acompanhados de DVDs com audiodescrição para quem não enxerga, em braile, linguagem de sinais e mais quatro formatos. O reconhecimento foi rápido: em 2000, Claudia tornou-se a primeira escritora brasileira a ter livros recomendados simultaneamente pela Unesco e Unicef.

Em 2002, ela deu um outro passo importante: fundou a Escola de Gente, uma organização preocupada com a comunicação para a acessibilidade. Um dos projetos é o grupo de teatro Os Inclusos e os Sisos, responsável pela primeira peça de teatro infantojuvenil completamente acessível do país. Durante a apresentação de “Um amigo diferente”, já vista por mais de 60 mil pessoas, há intérprete de linguagem de sinais e legendas para as pessoas surdas, programas em braile para os cegos, que sobem ao palco para pegar no cenário todo e recebem um fone de ouvido para escutar tudo o que se passa ou saber quando os atores fazem caretas ou dançam. As peças têm um tom bem-humorado, não fosse Claudia a mãe da atriz e humorista Tatá Werneck, a espevitada Valdirene, da novela “Amor à vida”.

— Eu trabalhava muito e tinha aquela culpa típica de mãe, mas meus filhos deram certo — diz, aliviada com o sucesso de Tatá e de Diego, professor da Fundação Getulio Vargas.

Claudia continua ralando muito e conta nos dedos as vezes em que dorme no seu colorido refúgio na Barra da Tijuca, decorado com lembranças de suas inúmeras viagens. Teve ano em que ela só passou quatro dias úteis em casa. O filho, ela estava quase há um mês sem ver.

— Eu gosto de música, mas não ouço, gosto de praia, mas não vou. Outro dia, fiquei em casa num domingo. Comi camarão e mergulhei na piscina. Foram as minhas férias — diz Claudia, que, quando diminui o ritmo, é para valer. Em 2011, foi meditar na África e, em 2007, fez um retiro espiritual na Índia.

O ano de 2014 já começará na Áustria, onde Claudia receberá um prêmio por Os Inclusos e os Sisos, eleito este mês, entre 245 trabalhos de 58 países, um dos maiores inovadores do mundo pelo programa Zero Project Innovative Practices, da organização austríaca Essl Foundation. Em parceria com o World Future Council e o Bank Austria, a instituição escolhe as melhores experiências voltadas para a garantia de direitos de pessoas com deficiência.

— A Claudia não fica quieta. Onde tiver uma discussão sobre inclusão, ela está presente. Ela luta o tempo todo por políticas públicas para esses jovens. Se não fosse ela, o programa ProJovem Urbano, do governo federal, que oferece a conclusão do ensino fundamental com treinamento profissionalizante, não estaria contemplando jovens com deficiência — diz Fábio Meireles, coordenador-geral de Direitos Humanos do Ministério da Educação, que admira principalmente a firmeza de Claudia em suas posições. — Ela é considerada radical por muita gente. Fez inimizades porque, com ela, é tudo ou nada.

Esse tudo ou nada se reflete principalmente na questão de acessibilidade nas escolas: para Claudia, não há nenhuma dúvida de que um jovem com deficiência deve estar sempre integrados em colégios, e não em escolas ou turmas especiais. A posição encontra ainda resistência:

— Eu tenho um filho com Down e concordo com muitas posturas da Claudia. Minha divergência é sobre a forma de incluir. Acho que os pais devem botar os filhos numa escola especial se quiserem. Isso não é ser segregacionista, é defender a inclusão com dignidade — diz Tânia Athayde, diretora da Associação de Pais e Amigos de Excepcionais (Apae-Rio).

Mas Claudia aposta na formação de pessoas com uma visão diferente. Ela fechou parcerias para treinar novos agentes de acessibilidade no Alemão e na Cidade de Deus. Quase 50 jovens terão aula de língua brasileira de sinais (Libras).

— Quando eu boto no currículo que sei Libras, é um diferencial. Quem ia imaginar que uma menina do Jacarezinho saberia a linguagem? — diz Mayara Gonçalves, aluna da primeira leva do curso.

Claudia Werneck imaginou.

dica do Ailsom Heringer

100 livros para inspirar o Jornalismo

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Publicado por Leonardo Sakamoto

Respondendo a uma leitora receosa em cursar jornalismo, escrevi que poderia recomendar uma lista de livros de reportagens, literatura e reflexões sobre o mundo e a profissão para acompanhá-la na caminhada – seja ela qual fosse. Na verdade, confesso, o comentário foi puramente retórico. E grande foi minha surpresa quando recebi mais de uma centena de mensagens (!) exigindo a tal lista.

Coloquei-me, então, a organizar os títulos. Como um bom livro puxa o outro, foi impossível me ater a apenas uma dúzia de sugestões. E considerando o quão somos incompletos e errado quando sozinhos, pedi ajuda a amigas e amigos jornalistas. Dessa reflexão coletiva, nasceu uma lista com 100 livros para inspirar o jornalismo e ao jornalismo. Pelo menos um para cada mensagem recebida. É claro que listas servem para cometer injustiças, então peço desculpas de antemão.

Agradeço a Antônio Biondi, Caio Cavechini, Carlos Juliano Barros, Claudia Carmello, Cristina Charão, Guilherme Zocchio, José Chrispiniano, Igor Ojeda, Ivan Paganotti, Lúcia Ramos Monteiro, Maurício Hashizume, Maurício Monteiro Filho, Pablo Uchôa, Renato Godinho, Ricardo Mendonça e Spensy Pimentel as contribuições enviadas.

Evitei manuais e afins mais técnicos nessa lista, mas nada impede que apareçam em uma segunda. Incluso estão livros de fotos e graphic novels – afinal, reduzir uma boa história a um texto é besteira.

Mas vale lembrar: isso é para ajudar a inspirar. Jornalismo não se aprende nos livros, o que passa necessariamente pela vivência diária, conhecendo o outro, o diferente. É legal ter bons livros na bagagem, mas eles não substituem bagagem de vida. Que, por mais crucial que seja para um bom jornalismo é o que mais falta na profissão. Seja por falta de oportunidade ou de vontade.

Inspiração, que é boa quando nos carrega para longe. E é excelente quando nos faz mergulhar lá dentro. No início de “O jornalista e o assassino”, Janet Malcolm, sintetiza:

“Qualquer jornalista que não seja demasiado obtuso ou cheio de si para perceber o que está acontecendo sabe que o que ele faz é moralmente indefensável. Ele é uma espécie de confidente, que se nutre da vaidade, da ignorância ou da solidão das pessoas. Tal como a viúva confiante, que acorda um belo dia e descobre que aquele rapaz encantador e todas as suas economias sumiram, o indivíduo que consente em ser tema de um escrito não ficcional aprende — quando o artigo ou livro aparece — a sua própria dura lição. Os jornalistas justificam a própria traição de várias maneiras, de acordo com o temperamento de cada um. Os mais pomposos falam de liberdade de expressão e do ‘direito do público a saber’; os menos talentosos falam sobre a Arte; os mais decentes murmuram algo sobre ganhar a vida.”

Boa leitura!

PS: Sei que deveria explicar cada um deles e ainda farei isso um dia. Procratinadores do mundo, uni-vos. Por ora, basta a lista.

1)  1984, de George Orwell

2)  A Alma Encantadora das Ruas, de João do Rio

3)  A Ascensão e Queda do Terceiro Reich, de William L. Shirer

4)  A Jangada de Pedra, de José Saramago

5)  A Luta, de Norman Mailer

6)  A Mulher do Próximo, de Gay Talese

7)  A Noite dos Proletários, de Jacques Rancière

8)  A Primeira Vítima, de Phillip Knightley

9)  A Rosa do Povo, de Carlos Drummond de Andrade

10)  A Sangue Frio, de Truman Capote

11)  Abusado: o Dono do Morro Santa Marta, de Caco Barcellos

12)  Abutre, de Gil Scott-Heron

13)  Aí pelas Três da Tarde, conto de Raduan Nassar no livro Menina a Caminho

14)  Ao Vivo do Corredor da Morte, de Mumia Abu-Jamal

15)  As Ilusões Perdidas, de Balzac

16)  As Origens do Totalitarismo, de Hannah Arendt

17)  Bombaim, Cidade Máxima, de Suketu Mehta

18)  Cabeça de Turco, de Günter Wallraff

19)  Caixa Preta, de Ivan Sant’anna

20)  Capão Pecado, de Ferréz

21)  Clarice na Cabeceira, de Clarice Lispector (org. Aparecida Maria Nunes)

22)  Coração das Trevas, Joseph Conrad

23)  Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski

24)  De Pernas pro Ar, Eduardo Galeano

25)  Dedo-Duro, de João Antonio

26)  Devassos no Paraíso, de João Silvério Trevisan

27)  Dez dias que abalaram o mundo, de John Reed

28)  Dom Casmurro, de Machado de Assis

29)  Ébano: minha vida na África, de Ryszard Kapuscinski

30)  Elogiemos os homens ilustres, de James Agee e Walker Evans

31)  Entre os vândalos, de Bill Bufford

32)  Entrevista: o diálogo possível, de Cremilda Medina

33)  Fábrica de mentiras, de Günter Walraff

34)  Fama e Anonimato, de Gay Talese

35)  Gomorra, de Roberto Saviano

36)  Gostaríamos de informá-lo de que amanhã seremos mortos com nossas famílias: Histórias de Ruanda, de Philip Gourevitch

37)  Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa

38)  Hiroshima, de John Hersey

39)  Jornalistas e Revolucionários, de Bernardo Kucinski

40)  K., de Bernardo Kucinski

41)  Ligeiramente Fora de Foco, de Robert Capa

42)  Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa

43)  Malagueta, Perus e Bacanaço & Malhação do Judas Carioca, de João Antônio

44)  Maus, de Art Spiegelman

45)  Medo e Delírio em Las Vegas, de Hunter S. Thompson

46)  Minha razão de viver, de Samuel Wainer

47)  Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto

48)  Muito longe de casa, de Ishmael Beah

49)  Na natureza selvagem, de Jon Krakauer

50)  Na Pior em Paris e Londres, George Orwell

51)  Nada de novo no front, de Erich Maria Remarque

52)  No Logo, de Naomi Klein

53)  Notícias de um Sequestro, de Gabriel García Marquez

54)  Notícias do Planalto, de Mário Sérgio Conti

55)  O Ano I da Revolução Russa, de Victor Serge

56)  O Brasil Privatizado, de Aloysio Biondi

57)  O Estado de Exceção, de Giorgio Agamben

58)  O Guia dos Curiosos, de Marcelo Duarte

59)  O Inverno da Guerra, de Joel Silveira

60)  O jornalista e o assassino, de Janet Malcolm

61)  O livro das vidas: obituários do New York Times, de Matinas Sukuzi Jr. (org.)

62)  O Mundo Assombrado pelos Demônios, de Carl Sagan

63)  O Processo, de Franz Kafka

64)   O Quinze, de Rachel de Queiroz

65)  O Reino e o Poder, de Gay Talese

66)  O Segredo de Joe Gould, de Joseph Mitchell

67)  O Tesouro de Sierra Madre, de B. Traven

68)  O teste do ácido do refresco elétrico, de Tom Wolfe

69)  Olga, de Fernando Morais

70)  On the Road, de Jack Kerouac

71)  Operação Massacre, de Rodolfo Walsh

72)  Os mandarins, de Simone de Beauvoir

73)  Os novos cães de guarda, de Serge Halimi

74)  Os Sertões, de Euclides da Cunha

75)  Os Testamentos Traídos, de Milan Kundera

76)  Os últimos soldados da guerra fria, de Fernando Morais

77)  Pela bandeira do paraíso, de Jon Krakauer

78)  Perdoa-me por me traíres, de Nelson Rodrigues

79)  Planeta Favela, de Mike Davis

80)  Por quem os sinos dobram, de Ernest Hemingway

81)  Procedimento Operacional Padrão, de Errol Morris e Philip Gurevitch

82)  Radical Chic e o novo jornalismo, de Tom Wolf

83)  Rota 66, de Caco Barcellos

84)  Sagarana, de Guimarães Rosa

85)  Sapato Florido, de Mario Quintana

86)  Shaking the Foundations: 200 Years of Investigative Journalism in America, de Bruce Shapiro

87)  Showrnalismo: a notícia como espetáculo, de José Arbex Jr.

88)  Sidarta, de Hermann Hesse

89)  Sobre a televisão, de Pierre Bourdieu

90)  Sobre Ética e Imprensa, de Eugênio Bucci

91)  Terra Sonâmbula, de Mia Couto

92)  The Black Hole of Empire, de Partha Chatterjee

93)  The Onion Field, de Joseph Wambaugh

94)  Toda Mafalda, de Quino

95)  Todos os Homens do Presidente, de Carl Bernstein e Bob Woodward

96)  Tudo o que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade, de Marshall Berman

97)  Uma história de Sarajevo, de Joe Sacco

98)  Vidas Secas, de Graciliano Ramos

99)  Vigiar e Punir, de Michel Foucault

100) Viver para Contar, de Gabriel García Marquez

Paixão pela leitura

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Arnaldo Niskier, no Observatório da Imprensa

Um fato em educação não admite sofisma: os alunos que, desafiando as dificuldades, escrevem melhor são os que mais leem. Não se conhece uma pesquisa nacional confiável sobre essa verdade, mas se considerarmos os resultados das maratonas escolares, promovidas por secretarias de Educação, isso pode ser revelado com uma indisfarçável ponta de otimismo. Quanto mais, melhor. É o começo da paixão pela leitura.

No Rio de Janeiro, a Secretaria municipal de Educação realiza pela quinta vez consecutiva a sua maratona escolar. Depois de Euclides da Cunha, Rachel de Queiroz, Erico Verissimo e Ariano Suassuna, chegou a vez de trabalhar a vida e a obra de Guimarães Rosa. A secretária Claudia Costin, na Academia Brasileira de Letras (parceira do empreendimento), recordou que, ao dirigir o Círculo de Leitores em São Paulo, trouxe jovens alunos de favelas de São Bernardo do Campo para a capital, para que pudessem melhor se inteirar da obra do autor de Grande Sertão: Veredas. Concluiu que os resultados, em termos de motivação para a leitura, foram verdadeiramente excepcionais. Confia na repetição desse êxito, agora em outra capital.

Essa preocupação oficial, em termos culturais, integra o programa “Uma Cidade de Leitores”, voltado para alunos de oitavo e nono anos do ensino fundamental e da educação de jovens e adultos (EJA). Os estudantes ouvem palestras de acadêmicos sobre Guimarães Rosa, podendo com eles tirar dúvidas porventura existentes. Depois, farão redações sobre qualquer obra do escritor de Cordisburgo (MG), nascido em 1908 e que viveu uma dramática experiência com a Academia Brasileira de Letras.

Uma lembrança acertada

Não queria se candidatar. Temia pela emoção que isso poderia representar. Vencido pela insistência de amigos, entre os quais se incluía Pedro Bloch, cedeu e aceitou o pleito. Venceu, mas adiou a posse por quatro anos, fato inédito, até que em 1967 resolveu assumir a sua cadeira. Fez um bonito discurso, muito aplaudido. Morreu quatro dias depois, confirmando a sua premonição.

Os contos e romances de Rosa, como era conhecido, ambientaram-se quase todos no sertão brasileiro, que ele conhecia pessoalmente de diversas visitas, empunhando o seu caderninho de notas. Registrava expressões próprias, que se tornaram o hit das suas obras. Elas ultrapassaram o regionalismo tradicional, para se tornar universais. Daí a existência de inúmeras traduções para diversos idiomas, tarefa que aparentemente parecia impossível de ser executada. As suas veredas ganharam o mundo.

Guimarães Rosa foi também médico e um diplomata aplicado. Em companhia de sua mulher, Aracy, na Segunda Guerra Mundial, ajudou a salvar a vida de inúmeros judeus perseguidos pelo nazismo. Era cônsul-adjunto em Hamburgo. Teve uma vida e uma obra muito ricas, daí o acerto da lembrança nas bem-sucedidas maratonas escolares.

Bonecas são para menino? Em algumas escolas, sim

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Colégios incentivam crianças a brincar com o que quiserem, sem distinguir gênero

Ocimara Balmant, no Estadão

No salão de cabeleireiro de mentirinha, João Pontes, de 4 anos, penteia a professora, usa o secador no cabelo de uma coleguinha e maquia a outra, concentradíssimo na função. Menos de cinco minutos depois, João está do outro lado da sala, em um round de luta com o colega Artur Bomfim, de 5 anos, que há pouco brincava de casinha.

Epitacio Pessoa/Estadão João, de 4 anos, em seu salão de cabeleireiro

Epitacio Pessoa/Estadão
João, de 4 anos, em seu salão de cabeleireiro

Nos cantos da brincadeira do Colégio Equipe, na zona oeste de São Paulo, não há brinquedo de menino ou de menina. Todos os alunos da educação infantil – com idade entre 3 e 5 anos – transitam da boneca ao carrinho sem nenhuma cerimônia.

“O objetivo é deixar todas as opções à disposição e não estimular nenhum tipo de escolha sexista. Acreditamos que, ao não fazer essa distinção de gênero, ajudamos a derrubar essa dicotomia entre o que é tarefa de mulher e o que é atividade de homem”, explica a coordenadora pedagógica de Educação Infantil do Equipe, Luciana Gamero.

Trata-se de um “jogo simbólico”, atividade curricular da educação infantil adotado por um grupo de escolas que acredita que ali é o espaço apropriado para quebrar alguns paradigmas. A livre forma de brincar visa a promover uma infância sem os estereótipos de gênero – masculino e feminino -, um dos desafios para construir uma sociedade menos machista.

“Temos uma civilização ainda muito firmada na questão do gênero e isso se manifesta de forma sutil. Quando uma mulher está grávida, se ela não sabe o sexo da criança, compra tudo amarelinho ou verde”, afirma Claudia Cristina Siqueira Silva, diretora pedagógica do Colégio Sidarta. “Nesse contexto, a tendência é de que a criança, desde pequena, reproduza a visão de que menino não usa cor-de-rosa e menina não gosta de azul.”

Por isso, no colégio em que dirige, na Granja Viana, o foco são as chamadas brincadeiras não estruturadas, em que objetos se transformam em qualquer coisa, a depender da criatividade da criança. Um toco de madeira, por exemplo, pode ser uma boneca, um cavalo ou um carrinho. “Quanto menos referência ao literal o brinquedo tiver, menos espaço haverá para o reforço social”, diz Claudia.

A reprodução dos estereótipos acontece até nas famílias que se enxergam mais liberais. Ela conta que recentemente, em uma brincadeira sobre hábitos indígenas, um menino passou batom nos lábios. Quando a mãe chegou para buscá-lo, falou de pronto: “Não quero nem ver quando seu pai vir isso”.

“Podia ser o fim da experimentação sem preconceitos, que não tem qualquer relação com orientação sexual. Os adultos, ao não entenderem, tolhem essa liberdade de brincar por uma ‘precaução’ sem fundamento”, afirma Claudia.

Visão de gênero. Se durante a primeira infância esses estímulos são introjetados sem que a criança se dê conta, ao crescerem um pouquinho – a partir dos 5 anos -, elas já expressam conscientemente a visão estereotipada que têm de gênero.

No Colégio Santa Maria, no momento de jogar futebol, os meninos tentavam brincar apenas entre eles, não permitindo que as meninas participassem. Foi a hora de intervir. “Explicamos que não deveria ser assim e começamos a propor, por exemplo, que os meninos fossem os cozinheiros de uma das brincadeiras”, diz Cássia Aparecida José Oliveira, orientadora da pré-escola da instituição.

Na oficina de pintura, todos foram convidados a usar só lápis cor-de-rosa – convite recusado por alguns. “Muitos falam ‘eu não vou brincar disso porque meu pai diz que não é coisa de menino’. Nesses casos, a gente conversa com a família. Entre os convocados, os pais de meninos são a maioria. “Um menino gostar de balé é sempre pior do que uma menina querer jogar futebol. E, se não combatemos isso, criamos uma sociedade machista e homofóbica.”

O embate é árduo e é preciso perseverança. Mesmo no Colégio Equipe, aquele em que as crianças se alternam entre o cabeleireiro e o escritório, alguns comentários demonstram que a simulação da casinha é um primeiro passo na construção de um mundo menos machista. O pequeno Artur, de 5 anos, se anima ao participar da brincadeira. Mas, em um dado momento do faz de conta, olha bem para a coleguinha e avisa: “Eu sou o marido. Vou sair para trabalhar. Você fica em casa”.

Brasil será homenageado na feira de livros de Bolonha em 2014

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Publicado no Jornal do Brasil

Escritores brasileiros estão na “Feira de Livros para Crianças de Bolonha”, na Itália, que vai até o dia 28 deste mês, para representar o país e fazer o anúncio oficial sobre a próxima edição do evento. Ana Maria Machado, Anielizabeth Cruz, Maurício de Sousa, Anna Claudia Ramos, Roger Mello e Sandra Pina representam o país durante a divulgação da homenagem que será feita em 2014, quando 30 escritores daqui irão ao evento e o Brasil assumirá a condição de convidado de honra.

Na homenagem, o Brasil apresentará toda a diversidade da sua produção editorial e a riqueza de sua cultura. Sob o slogan “Um país cheio de vozes”, adotado para as próximas homenagens até 2020, serão lançadas  luzes sobre as marcas da produção editorial brasileira para os temas: multiplicidade cultural, capacidade de ressignificar influências externas e intertextualidade.

Brasil será homenageado na próxima edição da "Feira do Livro para Crianças de Bolonha", em 2014
                   Brasil será homenageado na próxima edição da “Feira do Livro para Crianças de Bolonha”, em 2014
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