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Em novo romance, escritora usa plágio como recurso literário

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Cristiane Costa discute conceitos como autenticidade e a morte do autor em livro escrito a partir de colagem de obras alheias

Em “Sujeito oculto”, escritora também incorpora elementos visuais à sua narrativa: “Trabalho com o conceito de literatura expandida”, diz ela - Ivo Gonzalez

Em “Sujeito oculto”, escritora também incorpora elementos visuais à sua narrativa: “Trabalho com o conceito de literatura expandida”, diz ela – Ivo Gonzalez

Maurício Meireles em O Globo

RIO – O livro “Sujeito oculto” é literatura de segunda mão. Quer dizer, segunda mão no bom sentido. É que o primeiro romance da jornalista Cristiane Costa, que acaba se ser lançado pelas editoras Aeroplano e E-Galáxia, é todo escrito a partir de “plágio” de outros escritores. Assim, Machado de Assis, Borges, Flaubert — e até o astrólogo Quiroga —, entre outros autores, têm suas obras apropriadas pela escritora para compor uma história… original?

A interrogação está aí porque são exatamente conceitos como autoria e autenticidade que “Sujeito oculto” bota em questão. Até que ponto toda literatura é feita de uma reescritura? Assim, o romance relaciona forma e conteúdo: o “plágio” do texto serve para contar a história de um outro plágio, este na ficção. O livro recebeu, em 2010, a Bolsa Petrobras de Criação Literária.

— Até que ponto você consegue ser autor sem falar coisas originais? Fiquei interessada na autoria com coisas que não sou suas, mas pela seleção. Vejo a autoria como uma curadoria — diz Cristiane. — A pintura e a música já fazem isso há tempos, mas a literatura é uma das artes mais conservadoras. A fronteira entre o que é literário e o que não é está sempre aí.

Não dá para entrar em detalhes sobre a história do romance sem estragar suas surpresas. Ele começa com um viúvo de uma escritora com bloqueio criativo, que começa a ler as anotações deixadas pela mulher em cadernos e livros. Ele parece o verdadeiro autor da história, mas não é — e o livro começa jogo de exposição e ocultamento, no qual o leitor fica sempre em dúvida sobre o verdadeiro criador. É um livro dentro de um livro sobre um livro — para resumir a grosso modo. Um ensaio fictício, no fim da obra, depois de um capítulo todo rasurado, explica a história do plágio.

A história se constrói, assim, em um “jogo de espelhos”, no qual narrativas e a própria estrutura do romance refletem-se, multiplicam-se e fragmentam-se ao infinito. Apesar de ser experimental, ele reúne elementos de narrativas clássicas: amor, ódio, traição e até uma morte misteriosa.

“Sujeito oculto”, lembra Cristiane, radicaliza o famoso conceito de “morte do autor”, desenvolvido pelo pensador francês Roland Barthes. Outra influência é o texto “O que é um autor?”, de Michel Foucault. Doutora em Comunicação e Cultura pela Escola de Comunicação da UFRJ, onde hoje dá aulas, a autora destaca que só veio a conhecer teorias que se relacionavam ao seu livro depois de já o estar escrevendo.

— Trabalho com o conceito também de literatura expandida. Em vez de ficar questionando o que é literário ou não, original ou não, é possível expandir a linguagem. E a narrativa digital, hoje, permite explorar isso. Nela, o leitor tem o poder de definir as direções — afirma Cristiane.

COLAGENS LITERÁRIAS

Até a ideia de colagens é colada de outros, brinca Cristiane. Entre suas inspirações, está o livro-objeto “Tree of codes”, no qual Jonathan Safran Foer cria uma história ao recortar — literalmente — as páginas de “Rua dos crocodilos”, de Bruno Schulz, umas das lendas da ficção polonesa. No mesmo caminho do livro de Safran Foer, “Sujeito oculto” também incorpora elementos visuais à sua narrativa: trechos grifados de livros e páginas de anotações aparecem aqui e ali ao longo dele.

— É experimental, mas acho que qualquer leitor entende. Embora seja construído com colagens, tem muita coisa minha nesse romance. É uma história que queria muito ser contada — diz a autora.

Títulos de livros de auto-ajuda contêm arte

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Márcia Lira, no – 1 na estante

Tem quem junte os livros e pinte, tem quem monte cenários com eles, tem quem use as capas para fazer bolsas e os artistas que fazem até bancos e cadeiras. A arte a partir de livros físicos é um mundo à parte da leitura. Inclusive, muitas dessas criações são bem questionáveis (apesar de visualmente impressionantes) porque simplesmente acabam com a função primordial de um livro, que a de é ser lido.

Nesta série fotográfica de Kent Rogowski, a matéria-prima são os títulos dos livros, especialmente os de auto-ajuda. Uma narrativa é construída a partir da colagem de títulos. O resultado é interessantíssimo, e o melhor, não deixa os livros inutilizáveis.

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‘Talento é fundamental, mas não é suficiente’, diz poeta

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Publicado por: Valor

O poeta Ferreira Gullar mora desde 1979 em um prédio de esquina da rua Duvivier, em Copacabana, onde embaixo já funcionou uma boate. Avô de oito netos e bisavô de seis, casado com a poeta Cláudia Ahimsa (nascida em 1963), o escritor de 82 anos tem uma vida tão intensa quanto a do bairro onde mora.

Neste fim de ano, a editora José Olympio leva às livrarias a primeira edição avulsa da peça “O Homem como Invenção de Si Mesmo – Monólogo em um Ato” (2006), que só fora publicado no conjunto de “Poesia Completa, Teatro e Prosa” (2008, ed. Nova Aguilar). Como se recusa a viajar de avião, o poeta enfrentou na semana passada seis horas de estrada para ir a São Paulo receber o Prêmio Jabuti de ilustração por “Bananas Podres” (Casa da Palavra), com colagens que ilustram poemas seus de outras obras.

“Meu hobby é a pintura, a colagem”, diz o crítico de arte, que no início de 2013 publicará pela José Olympio outro livro com ilustrações, “A Menina Cláudia e o Rinoceronte”, para crianças. E se os leitores não devem esperar para breve novas coletâneas de poemas inéditos, provavelmente em março próximo já será possível encontrar outra novidade nas livrarias. Toda a obra de Gullar foi revista neste ano e a editora Maria Amélia Mello, da José Olympio, promete a reedição de um título por mês do poeta, com novo projeto gráfico. O primeiro será “Poema Sujo” (1976). “A importância da sua obra cresce a cada dia”, diz a editora. Leia a seguir trechos da entrevista que Gullar concedeu ao Valor.

Valor: O senhor costuma dizer que sua poesia nasce do espanto. O teatro surge de ideias racionais?

Ferreira Gullar: Eu nunca tinha escrito uma peça com o objetivo prioritário de expor uma teoria. Fui refletindo sobre a ideia do homem como invenção de si mesmo e me convencendo de que essa teoria tinha fundamento e que valeria a pena expô-la. Mas como não sou filósofo, não ia escrever um tratado. Me ocorreu fazer esse monólogo. Mas há peças que nascem por outra razão, com outras intenções. Algumas têm a questão social, outras são mais poéticas, outras mais teatrais, como “Romance Nordestino”, em que me inspirei no cordel.

Valor: Há um limite de tempo para o ser humano se inventar e se reinventar?

Gullar: A pessoa não se inventa gratuitamente. Ninguém se inventa craque de futebol sem talento, ninguém vai se inventar cozinheiro ou poeta sem talento. A pessoa nasce com determinadas qualidades e as desenvolve. Como disse o Noel Rosa, samba não se aprende no colégio. Tenho de trabalhar o meu samba, a minha música, mas antes preciso ter vocação. A minha teoria não fala de se reinventar, mas de inventar mesmo. Se a pessoa ficar sentada na beira da calçada e não fizer nada, ela não vai ser nada na vida. Mesmo que tenha nascido com talento de romancista, se não tentar escrever, se não se dedicar e se entregar, não vai conseguir fazer um bom romance. Uma coisa é a qualidade com a qual você nasce e outra é a capacidade de transformar aquilo em realidade. Porque talento é fundamental, mas não é suficiente.

Valor: O senhor já viu muita gente se desperdiçar?

Gullar: Quando a pessoa nasce com uma qualidade e não a desenvolve é porque não sente necessidade. A vida é acaso e necessidade. Acaso nada mais é do que probabilidade, aquilo que é possível acontecer. Você de repente pode conhecer uma pessoa que vai mudar a sua vida, mas para isso aquela pessoa precisa necessitar de você e você dela. Se você não transforma o acaso em necessidade, não vai realizar as coisas. “A Divina Comédia” podia não ter sido escrita. Ela se tornou necessária porque foi escrita e inventou coisas que se tornaram necessárias. É nesse sentido que falo que a vida é inventada.

Valor: Buscar a lucidez parece fundamental para o senhor, não?

Gullar: As pessoas em geral dizem que sou lúcido. O meu saudoso amigo Dias Gomes [1922- 1999] sempre me telefonava quando enfrentava um problema pessoal complicado. “Tenho de ouvir você, porque, em matéria de lucidez, confio em você”, falava. Algumas pessoas acham que tenho essa qualidade. Quem lê minhas crônicas também. Não gosto de confusão, não gosto de fazer de conta de que sou complexo. Pelo contrário, minha preocupação é ser claro, mesmo quando as coisas são complexas.

Valor: Isso dá ao leitor um certo reconforto…

Gullar: Acho que sim, porque não há coisa mais chata do que não entender o que se lê, ou se sentir burro porque você não está entendendo. Às vezes não é complexidade, mas confusão…

Valor: Nesta sociedade pragmática, há receio em relação à subjetividade, não?

Gullar: A coisa pior é achar que tudo é muito simples. É um equívoco, o ser humano é complexo. Em sua riqueza de personalidade, o ser humano não é só razão ou só irracionalidade e loucura. Mesmo quem é doente mental têm momentos de racionalidade. Existe um dado realmente complicado da sociedade hoje que, cada vez mais pragmática, não leva em conta a complexidade do indivíduo. Muitas pessoas mais sensíveis se sentem marginalizadas nessa sociedade que não leva em conta essa face do ser humano, a subjetividade, os sonhos, o delírio, as inseguranças. Uma sociedade que se torna cada vez mais pragmática e objetiva tende a ignorar isso, trata-se de fonte de neurose para as pessoas, de marginalização.

Valor: O poeta faz as pessoas terem contato com esse mundo…

Gullar: Uma das coisas que o artista e o poeta fazem é oferecer às pessoas esse outro lado da vida. Um dos fatores mais presentes na atualidade é a mídia, que transforma tudo em notícia. Isso se sobrepõe aos demais valores. Tem muita gente com prestígio na sociedade só em função da sua presença na mídia, sem de fato nenhuma contribuição efetiva. Isso é muito grave e, em muitos casos, provoca uma inversão de valores. Pode levar a muitos equívocos e a muita injustiça.

Valor: Hoje ainda existe brecha para o espanto?

Gullar: O espanto está presente porque o mundo não é explicado. De vez em quando você se defronta com uma coisa que parecia explicada e não está. Isso é o espanto: a experiência inesperada. O mundo está aparentemente explicado. De repente você vê que não.

Valor: O senhor ainda se espanta quando lê?

Gullar: Claro, uma das coisas que a leitura possibilidade é isso. Não como na vida, mas o livro, especialmente o de poesia, contém esse espanto. Mas hoje leio menos do que no passado. Não tenho tanto tempo para ler e estou mais preocupado em refletir, pensar e escrever.

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