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Posts tagged Colapso

Treze livros que podem fazer o cérebro entrar em colapso

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Treze livros que podem fazer o cérebro entrar em colapso

Ademir Luiz, na Revista Bula

O escritor gaúcho Luis Fernando Verissimo, na crônica “Fobia”, publicada no divertidíssimo livro “Banquete Com os Deuses”, admitiu que lê obsessivamente qualquer coisa, de manuais de tricô até etiquetas de lençóis, passando pelo mais pueril best-seller, movido pela pura e simples “dependência patológica na palavra impressa”. Eu, extrapolando a tese do filho do Erico, acredito que com algum treino, masoquismo, espírito vadio e senso de humor, esse vício pode se transformar num divertido teste de resistência intelectual. Pode ser tanto na categoria de provas rápidas, lendo frases sem pai nem mãe na internet, ou maratonista, dispondo-se a percorrer inteiras obras obradas e assinadas. De fato, seguir pelas páginas de certos livros pode ser considerado um esporte radial, uma corrida de obstáculos cognitiva. O cérebro treme, pula, ameaça entrar em colapso, mas o verdadeiro atleta não desiste. Exemplos? Apontar livros de Paulo Coelho, “50 Tons de Cinza” ou da série “Crepúsculo” é para amadores. A verdade é que alguns clássicos e semi-clássicos, assinados sem rubor por escritores de prestígio, bem poderiam estar na lista, ao lado de certas pérolas do improvável. O verdadeiro fundista “dependente patológico” mergulha bem mais fundo no submundo da “palavra impressa”.

Condenado a Falar, de Jorge Kajuru

O livro é uma coletânea da vida e da obra do jornalista esportivo. Mais obra do que vida, diga-se. Entre outras pérolas imperdíveis, Kajuru compôs poemas em homenagem a Hebe Camargo e Adriane Galisteu. Mais curioso do que Jorge transmudar-se em poeta é Jorge homenageando as homenageadas. Salve, Jorge! Não, não salve, delete.

Caminho das Borboletas, de Adriane Galisteu (depoimento a Nirlando Beirão)

Falando nela, por amor ao automobilismo li essa tentativa da modelo atriz apresentadora se estabelecer no inconsciente coletivo como viúva de Ayrton Senna. Diz a lenda que não há palavras com X no livro. Será?

Relógio Belisário, de J. J. Veiga

Sim, J. J. Veiga é um grande escritor. Sim, a “Máquina Extraviada” é um dos melhores contos brasileiros de todos os tempos. Sim, J. J. merece respeito. Tudo isso é verdade, assim como é verdade que esse livro é uma ofensa a inteligência do leitor e ao talento do autor.

Zélia, Uma Paixão, de Fernando Sabino

O que poderia ser mais surreal do que uma ministra da economia collorida transformada em princesa Disney? Esse encontro marcado é de fazer o grande mentecapto Geraldo Viramundo morrer de vergonha.

Do Outro Lado do Muro, de Alexandre Frota (depoimento a João Henrique Schiller)

Mais até do que sua recém-lançada biografia, essa é a verdadeira obra-prima bibliográfica do homem, do mito, da lenda, do imortal Alexandre Frota. Trata-se do relato sobre sua participação no pioneiro programa Casa dos Artistas, onde ele se transformou no “namoradinho bad boy da filha do Brasil”, antes de virar o “amante de membro dégradé da esposa do Brasil” em seus filmes adultos. Frota é um gênio incompreendido. O Forrest Gump Brasileiro. O homem que já foi tudo, de galã da novela das oito e marido da Cláudia Raia até jogador de futebol americano do Corinthians e comediante da “Praça é Nossa”. Nessa obra, digna do Prêmio (Ig) Nobel, Frota conta como sobreviveu à música do cantor Supra, ao choro diluviano de Mari Alexandre e como ousou desafiar Deus (mais conhecido como Silvio Santos). Um clássico! E aí, qual que é o negócio?

O próximo Romance de Umberto Eco, que será escrito por Umberto Eco

Não me entendam mal, “O Nome da Rosa” é inegavelmente um clássico contemporâneo. O subestimado “O Pêndulo de Foucault” é um de meus livros preferidos, desses que estou sempre relendo. Porém, depois do mediano “O Dia da Ilha Anterior”, o fraco “Baudolino”, o desperdiçado “A Misteriosa Chama da Rainha Loana” e a imitação barata de si mesmo “O Cemitério de Praga”, cansei de ter que ler 500 páginas para, finalmente, concluir: “Eco, ele errou de novo!”.

Qualquer Imitação de “O Senhor dos Anéis”

As sagas da Terra Média criadas pelo venerável catedrático J. R. R. Tolkien estão na raiz da cultura pop, influenciando de Beatles até Star Wars. O problema é que nos últimos anos, em grande parte por culpa da trilogia de filmes de Peter Jackson, a influência sutil virou moda e uma infinidade de “autores” começaram a criar mundos povoados por seres fantásticos clichês, inventar línguas desconjuntadas, encher seus livros de mapas desenhados no joelho. Muitas vezes em narrativas desnecessariamente gigantescas, divididas em vários volumes. Quase sempre mais do mesmo, de “Eragon” até “Mago”, passando pelas “Crônicas dos Senhores de Castelo” e outros, muitos outros.

Certamente, o gênero possui seus méritos, mas noto que nos últimos tempos estão afastando os jovens leitores de obras mais maduras, fazendo-os imaginar que essa roda vida de fantasia nerd escapista é o supra-sumo da criação literária pelo simples fato de apresentar violência, algum sexo e nacos de intriga política. Fechando o tópico com polêmica sob encomenda, destaco que dependendo do dia, da temperatura e da pressão, os intocáveis “Guerra dos Tronos” e “Harry Potter” entram na lista sim.

O Tronco do Ipê, de José de Alencar

Está na moda criticar o mimoso José de Alencar. Desqualificar seu mimoso estilo tornou-se bater em mimosos cãezinhos mortos (essa foi uma piada mimosamente politicamente incorreta, considerando que o mimoso autor está mesmo morto?). Sei que o mimoso senador Alencar tem muitos e mimosos méritos! Ele ensinou esse mimoso país chamado Brasil a escrever mimosos romances. Mas, infelizmente, “O Tronco do Ipê”, em sua doçura e mimo, tornou-se um trauma de adolescência, em função da mimosa mania do autor de repetir continuamente, de maneira monotonamente mimosa, o uso da palavra “mimosa”. É muito mimo para uma criatura cínica, embora de algum mimo, como eu.

Zero, de Ignácio de Loyola Brandão

Li esse livro na época em que era jovem e paciente. Agora que sou velho e impaciente, porém mais consciencioso, penso que talvez não estivesse preparado para tamanho experimentalismo. Só pode ser isso. Afinal, se o livro foi censurado pela ditadura, só pode ser bom. Não existe outra possibilidade. Nota zero para mim.

Ripley Debaixo D’água, de Patricia Highsmith

Os três primeiros livros da tetralogia estrelada pelo sofisticado falsário Tom Ripley, “O Talentoso Ripley”, “Ripley Under Ground” e “O Jogo de Ripley”, são tensos, empolgantes e movimentados. Nesse quarto volume inesperadamente aconteceu que não acontece nada. É isso. Nada. Deu n’água.

Deuses Americanos, Neil Gaiman

Neil Gaiman é um grande artista dos quadrinhos. Está no panteão máximo do gênero “super-heróis atormentados”, ao lado de gênios como Frank Miller, Allan Moore e John Byrne. Infelizmente, não possui o mesmo talento para a literatura. Seu romance “Deuses Americanos” possui uma premissa engenhosa, mas foi escrito com estilo frouxo, diálogos maçantes e salpicado de clichês narrativos. O que mais me intriga é ver os fãs do quadrinista se esforçando para encontrar qualidades estilísticas em seus escritos, talvez num esforço corporativo para não se sentirem traidores do movimento.

Cinzas do Norte, de Milton Hatoum

Esse livro costuma figurar em listas dos mais importantes romances da literatura brasileira contemporânea. A impressão que tive quando li foi que o honorável autor (sem ironia) usou todo seu considerável talento para desenvolver uma sinopse recusada de novela das seis da Globo… ou pior, do SBT.

Estorvo, de Chico Buarque

O título condiz.

Um século para ler um livro integral

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Ignácio de Loyola Brandão no Estadão

“Uma relação homossexual não é apenas pecaminosa, mas acima de tudo ilegal… Um homossexual, que se dedica a um vício impuro, é um indivíduo repulsivo e aberrante… O homossexualismo é uma enfermidade, uma insanidade, uma impureza, e um caso de interesse médico-legal… A lei criminaliza a “flagrante indecência” entre homens… A sodomia (o termo antigo, derivado da Bíblia, que descrevia o sexo “anormal”) era um crime previsto na Lei de Delitos contra a pessoa…”

Estou reproduzindo os discursos do pastor Feliciano à frente da Comissão de Direitos Humanos? Reproduzo os argumentos daquele deputado João Campos que pretendia a cura gay? Estou transcrevendo os pensamentos do Silas Malafaia (é isto mesmo? Ou errei?), mais um zero à esquerda perigoso na Câmara. Estou traduzindo fielmente o pensamento desses homófobos que vivem por aí?

Não. Por mais atuais que pareçam as palavras, a ideologia, a filosofia neste ano de 2013, tudo o que copiei acima, copiei da apresentação do romance O Retrato de Dorian Gray, obra-prima de Oscar Wilde, de 1891. São definições, afirmações, preconceitos, imprecações que vêm do século 19. Leram século 19? Pois é isso. Essas aberrações têm mais de cem anos, vêm de 1895, quando o escritor Oscar Wilde foi processado por homossexualismo e encerrado numa prisão por dois anos e meio.

Nesse meio tempo, o mundo mudou, a humanidade se transformou, o homem foi à Lua, os satélites desceram em Marte, um negro foi eleito presidente dos Estados Unidos, uma mulher foi eleita presidente do Brasil (mas não está adiantando nada), um papa renunciou, o Muro de Berlim caiu, o comunismo sumiu, as esquerdas entraram em colapso, o PT se encalacrou, o Lula fugiu quietinho, o Eike fracassou como empresário, a Rússia afundou, mulher nua todo mundo está cansado de ver em revista, pornografia circula pela tevê aberta, fechada, os traficantes mandam no mundo, o terrorismo está por aí aterrorizando, claro, o povo está nas ruas do Brasil, clamando contra a corrupção que vai do alto de Brasília aos porões do Brasil. E João Campos, Malafaia e Feliciano, evangélicos, bradam contra os gays e o homossexualismo, não perceberam que a Terra se move, continua a se mover… E pur si muove, disse Galileu!

Ah, que momento decifrado pela Editora Globo para lançar esse livro. Um volume chique, oscarwildiano. Acho que ele, refinado, dândi, elegante, culto, esnobe, gostaria de ver essa edição tão caprichada. Quanto a mim, confesso que venho respirando com alívio, nem tudo está perdido, as coisas mudam às vezes para melhor. Essa Biblioteca Azul da Editora Globo está me trazendo de volta a mim mesmo, uma coisa que eu necessitava para não perder o pé inteiramente.

Há uma nostalgia, admito, mas fazer o quê? Quando vi A Comédia Humana, quando abri a nova edição de As Relações Perigosas, de Choderlos de Laclos, quando coloquei as mãos no Retrato de Dorian Gray, me vi sentado na sala em penumbra da biblioteca Mário de Andrade de Araraquara, entre os meus 15 e 20 anos. Aquelas estantes saturadas de livros encadernados em vermelho, aquelas lâmpadas baças, aquela mesa imensa, pesada, fizeram parte de um período muito feliz, o de leituras constantes, ininterruptas, contínuas, vorazes. Por que a sala não era clara, iluminada intensamente? As lâmpadas opacas faziam parte de um ritual de recolhimento?

(mais…)

Livro ‘O Último Copo’ levanta o debate sobre a relação entre embriaguez e atividade literária

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alcool

Iara Biderman e Raquel Cozer, na Folha de S.Paulo

Entre a época em que F. Scott Fitzgerald via graça em ser “um dos mais notórios bêbados” de sua geração e o pungente relato pessoal que publicou na “Esquire”, em 1936, com o autoexplicativo título “The Crack-Up” (o colapso), não foram nem dez anos.

No primeiro momento, o autor surfava na fama com obras como “O Grande Gatsby” (1925), cuja quinta adaptação para as telas estreou no Brasil neste mês. No segundo, já nem podia concluir um livro, vencido pelo alcoolismo.

A fama de bêbado grudou nele como praga. Fitzgerald figura em qualquer lista de autores alcoólatras, de obras leves, como o “Guia de Drinques” (Zahar, 2009), que dá a receita do gim com limão de que era adepto, a estudos alentados, caso do recente “O Último Copo” (Civilização Brasileira), de Daniel Lins.

Lins, brasileiro que passou boa parte da vida na França, conviveu por dez anos com o filósofo Gilles Deleuze (1925-1995), de quem foi aluno. Herdou do mestre, alcoólatra recuperado, o interesse por uma “teoria do álcool”.

“Queria saber o que o autor que bebe pensa sobre a constituição do pensamento.” Bebedor moderado, segundo diz, dedicou cinco anos a obras etílicas, como a de Fitzgerald e a da francesa Marguerite Duras (1914-1996).

A fama de bêbado grudou nele como praga. Fitzgerald figura em qualquer lista de autores alcoólatras, de obras leves, como o “Guia de Drinques” (Zahar, 2009), que dá a receita do gim com limão de que era adepto, a estudos alentados, caso do recente “O Último Copo” (Civilização Brasileira), de Daniel Lins.

Lins, brasileiro que passou boa parte da vida na França, conviveu por dez anos com o filósofo Gilles Deleuze (1925-1995), de quem foi aluno. Herdou do mestre, alcoólatra recuperado, o interesse por uma “teoria do álcool”.

“Queria saber o que o autor que bebe pensa sobre a constituição do pensamento.” Bebedor moderado, segundo diz, dedicou cinco anos a obras etílicas, como a de Fitzgerald e a da francesa Marguerite Duras (1914-1996).

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