Canal Pavablog no Youtube

Posts tagged coleção

Entrevista com Ziraldo

0

Em entrevista à CRESCER, ele conta como surgiu sua paixão pela literatura infantil e uma passagem emocionante que passou com ‘O Menino Maluquinho’

ziraldo_foto_ana_colla_2

Publicado em Crescer

Em 1932, na cidade de Caratinga, no interior de Minas Gerais, nascia Ziraldo Alves Pinto. Mais velho entre sete irmãos, o menino que vivia desenhando nas paredes de casa, nas calçadas e salas de aula, tornou-se cartunista, escritor, pintor, teatrólogo e jornalista. Mais que isso, tornou-se um dos maiores nomes da literatura infantil brasileira.

Ziraldo ingressou na literatura em 1960 com a revista em quadrinhos Turma do Pererê. Em 1969, foi a vez de publicar Flicts, seu primeiro livro infantil. De lá para cá, lançou mais de 150 títulos para crianças, incluindo O Menino Maluquinho, considerado um dos maiores fenômenos editoriais da literatura infantil brasileira.

Prestes a comemorar seu 83º aniversário, o mineiro de Caratinga segue produzindo a todo vapor. Está lançando Nino, O menino de Saturno, que é o sétimo título da coleção Meninos dos Planetas, e relançando, em edição revista e repaginada, a coleção ABZ, que reúne 26 livros, cada um dedicado a uma letra do alfabeto. Segundo depoimento de sua filha Daniela Thomaz, registrado nos livros da coleção ABZ, Ziraldo cria “cantando, assoviando, batendo o pé no chão”. “Ele é a orquestra inteira”, afirma Daniela, que resume: “meu pai não cria, ele contagia”.

Esbanjando simpatia, disposição, entusiasmo, informalidade e senso de humor, Ziraldo conversou com a CRESCER sobre sua história na literatura e sobre o momento profissional que está vivendo…

CRESCER: Como foi sua relação com o desenho, a leitura e a escrita durante a infância?
Ziraldo:
Desde pequeno, sempre tive uma relação muito forte com o desenho. Em minhas lembranças mais antigas, eu me vejo sempre desenhando. E ainda criança imaginava que na vida adulta iria desenhar, pintar, trabalhar com algo nessa linha. Na medida em que fui crescendo, conheci as histórias em quadrinhos e me apaixonei pelo gênero. Isso fez com que meu desenho passasse a ser narrativo, revelando-se em quadrinhos, charges e cartoons. Essas linguagens sempre me encantaram.

CRESCER: Antes de ingressar na literatura infantil, você trilhou uma boa estrada como cartunista e jornalista, teve ampla atuação em jornais e revistas. Como foi o ingresso na literatura infantil?
Ziraldo:
Conforme fui trabalhando em meus cartoons e charges, comecei a gostar muito de escrever, um gosto que não aparecia com tanto destaque na minha infância. Fiz histórias em quadrinhos e criei a revista em quadrinhos Turma do Pererê, que era mensal e durou cinco anos (até ser extinta pela ditadura). Com essas experiências, percebi que poderia usar essa capacidade de escrever e de desenhar para fazer livros para crianças. Foi em 1969, então, que escrevi Flicts, meu primeiro livro para crianças. O livro teve o aval de Carlos Drummond de Andrade (na ocasião do lançamento, ele inclusive publicou uma crônica sobre a obra no jornal Correio da Manhã, do Rio de Janeiro), foi muito bem recebido por adultos e crianças e fez muito sucesso.

CRESCER: Onze anos depois de Flicts, você lançou O Menino Maluquinho. Com cerca de 100 edições já publicadas, o livro teve mais de 3,5 milhões de exemplares vendidos e foi traduzido para diversos idiomas. Na sua opinião, o que torna O Menino Maluquinho tão fascinante?
Ziraldo:
Quando lancei O Menino Maluquinho, eu não tinha a menor ideia de que o livro teria tamanha repercussão, que um dia teria toda essa história que construiu. Acredito que o Maluquinho teve tamanho alcance nesses anos todos por despertar identificação nos leitores. As crianças leem a história e se identificam com o personagem, sentindo algo como: “Opa, isso é comigo!”, “Eu sei o que ele está sentindo”, “É isso que eu sinto!”. Certa vez, visitando uma escola na cidade de Betim, perto de Belo Horizonte, tive esse cenário bem ilustrado. Havia um rapaz muito simples, que participava de um jornalzinho literário. Ele virou para mim dizendo que queria me contar sua experiência com o Menino Maluquinho. Emocionado, relatou: “Quando eu era menino, eu achava que eu era o cão, que dava muita tristeza para os meus pais e muitas vezes me sentia muito culpado por isso. Eu achava que não tinha futuro, que era um menino mau. Até que um dia, O Menino Maluquinho caiu na minha mão. Li o livro e pensei: ‘Meu Deus, esse sou eu, estou salvo! Vou virar um cara legal!’”. Esse menino me surpreendeu, nunca tinha imaginado O Menino Maluquinho ajudando crianças que se sentiam mal por ter alguns daqueles traços. Essa passagem me emocionou demais.

CRESCER: Foi por essas e outras que, ao longo da vida, você foi dedicando cada vez mais tempo para a literatura infantil?
Ziraldo:
Sem dúvida! De tudo o que fiz na vida, o que me deu a melhor resposta foram os livros infantis. Já visitei escolas do Brasil inteiro por conta dos meus livros. Não há estado para o qual eu não tenha ido. Interior de Pernambuco, de Porto Alegre, de Minas Gerais… Onde quer que eu vá, milhares de pessoas se reúnem para me ver, contar algo, pedir autógrafo… Chego nas escolas e as crianças vêm correndo me abraçar, falar comigo… Tudo isso é muito recompensador. Fico impossível! (risos)

CRESCER: É interessante notar que sua produção não encanta somente as crianças de hoje, mas também tantos adultos que, na infância, se emocionaram com seus livros. Como você enxerga o reencontro de muitos adultos com a criança que já foram por meio da sua obra?
Ziraldo:
Isso é fantástico. Já vi realmente muita gente interessante que, quando encontra o autor do livro da infância, se emociona, se comove. Percebo que quando um autor conquista uma geração, ele vive enternamente no coração dessas pessoas. É impressionante. A pessoa te abraça, fica tocada com o encontro. Neste ano, inclusive, estive diante do primeiro avô que leu O menino Maluquinho e veio falar comigo acompanhado do neto. Ele trazia o livro de sua infância para eu autografar para o neto. É maravilhoso participar dessas histórias.

CRESCER: Além de relançar a coleção ABZ, você está lançando Nino, O menino de Saturno. Nesse livro, você deixa muito clara a importância da criatividade e da fantasia na vida de uma criança…
Ziraldo:
Nino, o menino de Saturno, é o sétimo livro da coleção dos Meninos dos Planetas. A coleção terá ao todo dez livros, que tem como protagonistas meninos de Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Netuno, Plutão e ainda o menino da Lua, do nosso satélite, que sonha em ser tão importante quanto um menino de planeta. Na coleção toda há muita fantasia, mas nesse volume, num momento importante, inseri uma fala de Einstein, na qual ele afirma que a imaginação é mais importante do que o conhecimento. Acredito muito nessa colocação.

CRESCER: Você está relançando uma coleção de 26 livros, acaba de concluir o sétimo volume de outra coleção e tem um programa de TV semanal de literatura infantil (o ABZ do Ziraldo). Fora isso, em Salvador há uma exposição sua em cartaz – Pererê do Brasil – e, no Rio de Janeiro, está em cartaz a peça Quero ser Ziraldo. Tudo isso às vésperas do seu aniversário de 83 anos de idade. De onde vem tanto fôlego?
Ziraldo: Pois é, estou fazendo 83 anos, mas o que gosto mesmo de dizer é que estou a 7 anos de fazer 90. É mais bacana e impactante estar com quase 90, você não acha? Muita gente chega aos 80, mas poucos conseguem comemorar os 90. Pode ver em qualquer cemitério: a cada 100 túmulos, deve ter um único de um sujeito que morreu com mais de 90 (risos). O fato é que estou chegando aos 90 menos 7 produzindo muito mesmo. A vida não teria graça sem produzir. Considero a aposentadoria o maior inimigo do homem. Quem não gosta da profissão deve procurar algo que o agrade. O que ninguém pode é parar, isso não dá.

Maior colecionador de peças do ‘Harry Potter’ abre museu

1
 Maior colecionador sobre Harry Potter abre museu Foto: Reprodução Facebook

Maior colecionador sobre Harry Potter abre museu Foto: Reprodução Facebook

Local será aberto na Cidade do México. Jovem tem quase quatro mil peças da saga do bruxo

Publicado em O Dia

México – O bruxo mais famoso do mundo, o jovem e corajoso Harry Potter, acaba de ganhar mais um museu em sua homenagem. Aberto recentemente na Cidade do México, o local pertence a Menahem Asher Silva Vargas, conhecido como o maior colecionador de objetos da série de livros e filmes do mundo.

Em uma propriedade da família do “maior fã” da escritora britânica J. K. Rowling, estão expostos quase 4 mil itens do universo de Harry Potter, que vão de varinhas, vassouras e livros de feitiços a bonecos, esculturas de personagens e estátuas de mandrágoras e dragões.

Com cerca de 300 metros quadrados, a “Casa de Asher Potter” também recria cenários dos filmes, principalmente dos dois primeiros, “Harry Potter e a Pedra Filosofial” e “Harry Potter e a Câmara Secreta” e conta com uma cafeteria temática e uma pequena loja de lembrancinhas.

Menahem Asher Silva Vargas ficou conhecido por bater o recorde de maior coleção sobre o mundo do bruxo britânico e aparecer no Guinness Book em 2014, desbancando o norte-americano Jayne Gradel, que tinha “apenas” 807 peças.

O brasileiro gosta de ler, mas falta estímulo

0

jovens-lendo

Laé de Souza, em O TREM Itabirano [via Observatório da Imprensa]

Aqueles que são leitores verdadeiros sabem exatamente a riqueza que podemos encontrar em incontáveis páginas de livros. Desde muito cedo, tornei-me leitor convicto. Daqueles que viajam pelo universo literário.

Por muitos anos, mantive meus livros como objeto de adoração, expostos numa glamorosa estante em minha biblioteca particular.

Confesso: tinha ciúmes da minha vasta coleção, vez ou outra empoeirada, protegida pelo meu ameaçador “não tire do lugar”. Livros conservados como tesouro intocável.

Num determinado momento, comecei a refletir sobre o motivo do desinteresse das pessoas pela leitura, em especial os jovens. Foi, então, que libertei meu tesouro literário da prisão de minha estante. Passei a emprestar meus livros a um, a outro, fiz marketing das obras que li e assim fui disseminando a cultura do prazer da leitura.

Hoje, alegra-me quando morre o proprietário de uma vasta biblioteca particular e a viúva detesta livros, pois eles serão distribuídos de qualquer jeito e sairão a circular com grande chance de cumprir o papel para o qual nasceram: serem lidos. Quantas vezes leremos um livro que está em nossa estante? Por que deixá-los ali empoeirados, tristonhos, lidos apenas uma vez? Temos um instinto de posse para tudo. Até para os livros.

Grande parceria

Sempre fui inconformado com o estigma de que o brasileiro não gosta de ler. Acho pura invencionice. Não se pode opinar sobre o gosto do que nunca se experimentou. Imaginava que era preciso criar facilidades e buscar estímulos para a primeira leitura. Longe, bem longe da obrigatoriedade e controles burocráticos para aquele que quer ler. Entristece-me quando, nas minhas visitas às escolas, vejo bibliotecas ou salas de leitura trancadas a sete chaves. Quantos leitores perdidos pelo excesso de zelo.

Assim, em 1998 nasceu o meu projeto Encontro com o Escritor. Sempre tive a certeza de que a leitura não é só na escola, é para todos os lugares. Assim, em 2004, nasceu o projeto Leitura no Parque, que visa abarcar outro tipo de público.

Ao longo desses anos de aplicação de projetos de leitura, tenho constatado que é grande equívoco o pensamento de que “o brasileiro não gosta de ler”. Falta, isso sim, criar facilidades e formas de incentivo.

Trabalho que tenho feito sempre nas minhas palestras, alertando professores para a grande responsabilidade que lhes cabe, principalmente nos dias de hoje, em que as mães ausentam-se para o trabalho e não têm o tempo tão necessário para ler histórias para os filhos e estimular a imaginação e o prazer da literatura.

Num tempo de alunos arredios, cercados pelo bombardeio de inovações visuais e lúdicas, é preciso escolher com carinho a obra que se coloca pela primeira vez nas mãos de um futuro leitor. Corre-se sempre o risco de criar ojeriza e afastá-lo definitivamente do mundo da leitura. Portanto, muito cuidado!!!

Vários alunos que se recusavam a ler e que leram a primeira crônica de um livro meu manifestaram que leram, para surpresa deles próprios, até o final e começaram a ler outras obras a partir dessa experiência.

A grande parceria com professores, instituições e a adesão de patrocinadores e incentivadores pessoa física me levam a acreditar que é possível realizar o sonho de fazer do Brasil um país de leitores.

Menina de nove anos publica 1º livro com histórias de uma adolescente

0

Beatriz já está com o segundo livro pronto e escreve o terceiro da coleção.
Lançamento foi feito dentro da sala de aula, em Cascavel, no Paraná.

9anos

Publicado no G1

Com apenas nove anos, Beatriz Kusdra, de Cascavel, no oeste do Paraná, publicou o primeiro livro. “Diário de Fabiana, uma garota não muito normal” conta histórias e dúvidas do cotidiano de uma adolescente, com ilustrações feitas pela própria escritora.

Filha de professores e dedicada em sala de aula, Beatriz afirma que a ideia de escrever surgiu durante uma conversa com uma colega. “Eu falei que gostava muito de ler e pensei em escrever um livro. Minha amiga achou uma ótima ideia”, conta. O livro demorou um ano para ser escrito.

Beatriz Kusdra demorou um ano para escrever e ilustrar seu primeiro livro (Foto: Reprodução/RPCTV)

Beatriz Kusdra demorou um ano para escrever e ilustrar seu
primeiro livro (Foto: Reprodução/RPCTV)

A publicação do livro foi feita no fim do mês de outubro, dentro da sala de aula e com autógrafos e dedicatórias para os colegas. Beatriz tornou-se exemplo e inspiração para os colegas, que aprovaram a iniciativa. “Um dia ela chegou e contou que ela tinha escrito um livro. Eu pedi para ela trazer e quando ela trouxe eu fiz a leitura do livro em sala de aula. Todos os colegas gostaram e queriam uma cópia do livro”, afirma a professora Adriana Fontana.

A mãe, Débora Kusdra, disse que a menina aprendeu a ler aos cinco anos e não parou mais. Ela afirma ainda, que aos dois anos a filha trocou a chupeta por dois gibis. Hoje, Beatriz tem mais de 500 em sua coleção.

Para os pais da menina fica o orgulho.“Eu não sei mensurar o quanto eu estou orgulhosa dela”, afirma Débora. Além do livro que lançou, Beatriz já está com o segundo pronto e ainda escreve o terceiro. Seu objetivo é escrever uma coleção de nove livros.

A grande literatura brasileira numa colecção de referência

0

Livros de Machado de Assis, Euclides da Cunha, João Cabral de Melo Neto e Alfredo Bosi abrem colecção lançada pela editora Glaciar e pela Academia Brasileira de Letras.

Machado de Assis aos 57 anos / DR

Machado de Assis aos 57 anos / DR

Luís Miguel Queirós, no Público

A editora portuguesa Glaciar e a Academia Brasileira de Letras (ABL) lançaram esta segunda-feira na Fundação Gulbenkian os primeiros quatro volumes da colecção Biblioteca de Academia, um projecto editorial que se propõe lançar em Portugal, ao longo dos próximos anos, 25 obras fundamentais da literatura e cultura brasileiras.

Os quatro títulos já lançados – aos quais se juntará ainda este ano O Ateneu, de Raul Pompeia, uma notável singularidade impressionista na ficção brasileira do final do século XIX – mostram bem as ambições desta colecção, que aposta em edições de referência, volumosas, muito cuidadas e bastante caras.

O primeiro volume é uma monumental compilação dos dez romances de Machado de Assis, precedidos de uma extensa apresentação do ensaísta e professor de literatura brasileira Luís Augusto Fischer, igualmente responsável pela fixação do texto. Se os romances da chamada trilogia realista de Machado de Assis – o genial Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borbas (1891) e Dom Casmurro (1899) – foram sendo regularmente publicados em Portugal, já os seus primeiros livros, como Ressurreição (1872), A Mão e a Luva (1874) ou Helena (1876), dificilmente se encontram nas livrarias, e ainda menos em edições fiáveis.

O editor da Glaciar, Jorge Reis-Sá / PAULO PIMENTA

O editor da Glaciar, Jorge Reis-Sá / PAULO PIMENTA

Com mais de 1500 páginas e capa dura, o livro custa quase 80 euros. Os restantes volumes já lançados são mais pequenos e mais baratos, com preços que andam entre 30 e os 50 euros. “Os livros são caros, não vou dizer que são baratos”, reconhece o editor da Glaciar, Jorge Reis-Sá, mas afirma que preferiu “editar obras que podem durar 20 anos”, e não pensadas para a cada vez mais vertiginosa rotação das novidades nas livrarias. “Em 15 anos como editor [co-fundou a Quasi e esteve depois no grupo Babel], nunca fiz uma coisa tão interessante”, diz.

E a verdade é que quem não tiver condições económicas para comprar estes livros tem pelo menos a garantia de que os poderá ler sem ter de se afastar demasiado de casa, já que a Academia Brasileira de Letras encarregou a Glaciar de distribuir exemplares não apenas às poucas bibliotecas que beneficiam de depósito legal, mas a todas as bibliotecas municipais do país.

O ensaísta e poeta Antônio Carlos Secchin, membro da ABL desde 2004 e coordenador da colecção, explicou ao PÚBLICO que “no acordo feito com a Glaciar, a Academia quis ter a certeza de que todas as bibliotecas públicas portuguesas receberiam um exemplar”. Secchin, que esteve esta segunda-feira na Gulbenkian a apresentar a colecção, recorda que o projecto nasceu de uma proposta da Glaciar que a ABL adoptou. “A Academia é uma instituição privada, com recursos próprios, e assume nos seus estatutos o compromisso de difundir a língua e a literatura nacional, e é isso que está fazendo com esta colecção”, diz ainda Secchin.

Cinco títulos por ano
Embora não sejam ainda conhecidos os volumes que sairão a partir de 2015 – a ideia é publicar cinco títulos por ano até 2018 –, o académico brasileiro adianta que “a colecção vai incidir em grandes nomes já falecidos da literatura brasileira”, em “livros clássicos, como os romances de Machado de Assis, ou Os Sertões, de Euclides da Cunha, que passaram pela prova do tempo, mas que nunca tiveram em Portugal a repercussão que justificariam”.

A única e “grata excepção” à regra de não incluir autores vivos, acrescenta Secchin, é justamente o segundo volume da colecção, a Dialética da Colonização, do historiador e crítico Alfredo Bosi, que esteve também na sessão da Gulbenkian, a falar deste seu livro originalmente publicado em 1992. A edição tem prefácio da ensaísta portuguesa Graça Capinha, autora que já desde meados dos anos 90 vem chamando a atenção para a importância das abordagens interdisciplinares de Bosi ao discurso literário. Num conjunto que será dominado pela criação literária em sentido mais estrito, a escolha de Dialética da Colonização é também um modo de mostrar que a colecção pretende ter um âmbito mais latamente cultural e não exclui o ensaísmo.

Um dos quatro volumes já lançados é, de resto, uma das mais inclassificáveis obras da literatura de língua portuguesa de todos os tempos: o extraordinário Os Sertões (1902), de Euclides da Cunha, que é uma emocionante história da Guerra de Canudos e uma epopeia da vida sertaneja no final do século XIX, mas que também pertence de pleno direito à literatura científica, com a sua detalhada informação geográfica, histórica e sociológica.

Todos os livros da colecção têm prefácio de um especialista na obra e no autor – no caso de Os Sertões, Leopoldo M. Bernucci – e uma breve nota biográfica no final. Esta edição da obra-prima de Euclides da Cunha inclui ainda fotografias e, tal como o livro de Bosi, um índice onomástico.

Queremos dar “chaves de acesso aos leitores”, justifica Secchin, e foi justamente isso o que fez no volume que ele próprio organizou, a edição da obra poética completa de João Cabral de Melo Neto (1920-1999), igualmente lançada na sessão da Gulbenkian.

Partindo da edição que ele próprio organizara em 2008 para a Nova Aguilar, Secchin acrescentou-lhe o livro póstumo Ilustrações para Fotografias de Dandara, com poemas que João Cabral de Melo Neto (que foi cônsul-geral do Brasil no Porto na década de 80) escreveu quando estava colocado, como diplomata, no Senegal.

“Fiz também questão de incluir notas explicativas”, diz, porque o cosmopolita poeta pernambucano era, ao mesmo tempo, alguém “muito vinculado à cultura do Nordeste”, cujos textos incluem “referências geográficas e linguísticas que são difíceis mesmo para leitores brasileiros”. Jorge Reis-Sá acrescenta que decidiram acrescentar a esta edição da obra poética dois ensaios do autor, nos quais este “fala da sua poesia e da dos outros”: Poesia e Composição e Sobre a Função Moderna da Poesia. Com perto de mil páginas, o livro inclui ainda uma cronologia do autor redigida por Antônio Carlos Secchin e reproduz uma entrevista que este fez nos anos 80 ao autor de Morte e Vida Severina (1955) ou Educação pela Pedra (1966). Secchin resume: “É a melhor edição disponível, em Portugal ou no Brasil, da obra poética de João Cabral de Melo Neto.”

Não se sabe quem serão os próximos autores a publicar, mas há alguns autores brasileiros já desaparecidos e de qualidade mais do que reconhecida que ficam excluídos à partida: aqueles que, por vontade própria ou alheia, nunca chegaram a entrar na Academia Brasileira de Letras, como Carlos Drummond de Andrade.

Go to Top