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‘Expelliarmus!’: como Harry Potter influencia a visão política dos millenials

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Harry Potter (Foto: Divulgação)

 

Resistir a tiranias e questionar autoridades são algumas das ‘lições’ que estariam sendo pescadas de livros de J. K. Rowling; nos protestos recentes contra porte de armas nos EUA, vários jovens exibiam cartazes com referências à série.

Publicado no G1 [via BBC Brasil]

Após 21 anos da publicação do primeiro livro da série Harry Potter, parece que a realidade se aproximou da ficção da escritora J.K. Rowling.

Na Marcha Pelas Nossas Vidas, um protesto contra o porte de armas que teve mais de 800 manifestações nos Estados Unidos e em outros países em março de 2018, diversos cartazes faziam referência à saga de Harry Potter.

“Quando disse que queria que o mundo real fosse mais como o de Harry Potter, eu me referia às coisas mágicas, não ao enredo inteiro do livro cinco, em que o governo se recusa a fazer qualquer coisa a respeito de uma ameaça de morte levando os adolescentes a se organizar para revidar”, dizia um cartaz em Worcester, no Estado de Massachusetts.

Revidar. Essa é a parte importante, já que o universo de Harry Potter não é mais só um refúgio – ou um mundo que oferece conforto e escapismo. Agora, esse universo está mobilizando e motivando uma legião de fãs.

Outros cartazes presentes nas manifestações diziam “Expelliarmus”. Mas o que é isso? “‘Expelliarmus’ é o feitiço de desarmamento (da saga Harry Potter), o feitiço da moda entre as crianças de Hogwarts”, tuitou Charlotte Alter, jornalista da revista Time. “O desarmamento é a estratégia da #MarchaPelasNossasVidas, tanto literária quanto retoricamente”.

E os cartazes não paravam por aí: “O exército de Dumbledore está recrutando”, “Lufa-lufas pelo controle de armas!”, “Hermione usa conhecimento, não armas”, “Se os alunos de Hogwarts podem derrotar os comensais da morte, nossos estudantes podem derrotar o NRA” – a sigla NRA refere-se ao nome em inglês da Associação Nacional do Rifle, principal grupo defensor de armas nos Estados Unidos.

“Essa não é apenas a geração que cresceu com tiroteios em escolas, é também a geração que cresceu lendo Harry Potter”, continuou Alter.

Como escreveu Neil Gaiman em 2002, “os contos de fada vão além da verdade: não porque nos dizem que dragões existem, mas porque nos dizem que dragões podem ser derrotados”. Gaiman é o criador da série de histórias em quadrinho Sandman.

É uma lembrança de que, por baixo da açucarada iconografia da série Harry Potter, a narrativa aborda temas pesados, como limpeza étnica, desigualdade, escravidão, governos corruptos e tortura.

Em sua essência, os livros Harry Potter são sobre o bem contra o mal. O centro da narrativa fala da tentativa do vilão Lorde Voldemort e seus capangas de exterminarem os “trouxas”, como são chamadas na história as pessoas sem poderes mágicos, e os “sangues-ruins”, os filhos dos trouxas nascidos com poderes mágicos.

Se isso teve ressonância quando os livros foram lançados pela primeira vez, agora tem efeito dobrado sobre a geração de estudantes que participaram dos protestos contra massacres em escolas em um mundo cada vez mais tenso.

Mas o uso dos memes de Harry Potter não é, como dizem os mais críticos, sobre uma esperança ingênua de que um assunto como o controle de armas possa ser resolvido com um passe de mágica, metaforicamente ou não.

Como os fãs de Harry Potter bem sabem, o bruxo e seus companheiros enfrentam problemas típicos do mundo real quando combatem Voldemort.

Lições do mundo real

Um exemplo: o vilão, apoiado pelos seus servos, os comensais da morte, é obcecado por pureza racial, com uma sensibilidade niilista claramente nietzschiana. “Não há bem e mal”, diz um dos seus soldados. “Há apenas poder e os que são fracos demais para buscá-lo”‘.

Ainda assim, há uma miríade de tons de cinza na série. Como o padrinho de Harry, Sirius Black, lhe diz, “o mundo não está dividido entre pessoas do bem e os comensais da morte. Todos nós temos luz e sombra dentro de nós. O que importa é com qual parte decidimos agir”.

Outra lição crucial que os livros nos ensinam é sobre complacência. O mundo da escola de Hogwarts, onde Harry estuda magia, foi construído usando escravidão, graças ao serviço dos elfos domésticos.

Quando Hermione tenta ficar ao lado deles ao fazer uma campanha pela libertação de todos os elfos domésticos, ela é ridicularizada por seus colegas. A injustiça social é facilmente normalizada, a ponto de alguns elfos ficarem ofendidos com ofertas de recompensa pelos seus serviços.

A questão sobre quem deve ser respeitado também tem suas nuances. Apesar de os estudantes de hoje marcharem sob a bandeira de Albus Dumbledore, o diretor da escola de Harry, sabe-se que até ele tem manchas em sua reputação.

Sim, há a turma do mal, como Dolores Umbridge, a professora e, depois, diretora da escola que praticava bullying. Mas, e quanto a Cornelius Fudge, o ministro da Magia, que parecia tão bem intencionado, mas depois se recusou a enfrentar o perigo mortal que ameaçava o mundo dos magos e não-magos?

Mais uma vez, a autoridade é vista como algo que não deve ser respeitada sem questionamentos. E há também a importância de uma imprensa livre e o incentivo à ação direta – pequenas atitudes sempre contam, às vezes de maneira grandiosa.

Apesar da magia ajudar e de o amor ser a arma derradeira de Harry, Voldemort é vencido principalmente pela cooperação e organização.

Essa lição específica é promovida desde 2005 pela Aliança Harry Potter, uma ONG criada para mobilizar fãs a se manifestarem contra os males do mundo real, como intolerância e mudanças climáticas.

“Nós sabemos que a fantasia não é apenas uma fuga do nosso mundo, mas um convite a ir mais fundo nele”, diz o grupo em seu site.

A própria J. K. Rowling disse que seus romances são imbuídos de mensagens de resistência a qualquer tipo de tirania. “Os livros de Potter são em geral um longo argumento em prol da tolerância, um apelo prolongado pelo fim da intolerância”, afirmou ela em 2007.

“Acho que é uma das razões pelas quais algumas pessoas não gostam dos livros, mas acho que é uma mensagem muito saudável a se passar para jovens: a de que você deve questionar a autoridade e não presumir que as instituições ou a imprensa lhe digam toda a verdade.”

Isso não é novidade. Desde as tragédias gregas, passando por Shakespeare, O Senhor dos Anéis e até mesmo Star Wars, a ficção inspira a luta por liberdade. O poder da imaginação – de uma mensagem imbuída em uma narrativa humana e fantástica ao mesmo tempo – sempre será um forte manifesto.

Mas há ainda outra dimensão do fenômeno Harry Potter. Seu mundo sempre foi sobre pertencer e estar junto, como acontece na própria história dos livros.

Os primeiros fãs da série, agora na casa dos 30 anos, faziam fila do lado de fora de livrarias toda vez que saía um novo livro da série – e viram fotos dessas filas virarem notícia.

Essa enorme legião de fãs – e a dos novos jovens leitores que os seguiram – provaram o sabor do que é fazer parte de uma história maior que a sua própria. Em uma sociedade secular e atomizada, isso é poderoso. Quão poderoso? Ainda vamos descobrir.

‘Harry Potter’: Como a saga criada por J.K. Rowling representa as dores do amadurecimento

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Gisele Hirata, no Brasil Post

Uma explicação nada mágica para o sucesso de Harry Potter: sua jornada em Hogwarts é uma representação das dores do amadurecimento.

Formação para a vida

Não por acaso, J.K. Rowling situou seu bestseller numa escola – a primeira e principal experiência social das crianças.

Hogwarts é um lugar de iniciação, pois oferece as ferramentas para que o jovem encare a crise adolescente: uma visão crítica dos adultos, uma relação ambígua com limites, a curiosidade de descobrir tudo que é segredo…

Uma família de mentira

A convocação para ir a Hogwarts explora uma fantasia comum da infância: o desejo de pertencer a outros pais ou a outra família.

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É a mesma razão pela qual meninas brincam de ser princesas, por exemplo. No caso de Harry, seus “pais adotivos”, os Dursley, são uma grande decepção. Já os pais legítimos, Tiago e Lilian, por terem morrido, são idealizados.

Você é o que quiser ser

A divisão das casas em Hogwarts simula o confronto entre vários modos de encarar a vida. Nos extremos, estão o “bem” (Grifinória) e o “mal” (Sonserina).

O Chapéu Seletor é carregado de significados: ele mostra que a escola ou a vida propõem as regras, mas, no final, tudo depende das escolhas de cada um (como fez Harry ao querer ir para Grifinória).

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O véu da morte

Testemunhar a morte de alguém próximo é considerada a experiência mais estressante e marcante na vida de uma pessoa. Quem sofre com o luto passa a enxergar o mundo com outros olhos – e essa dor pode até enlouquecer.

Nos livros, ela é representada pelos Testrálios, seres horríveis que Harry só passa a ver após a morte de Cedrico.

A herança do mal

Nas relações construídas por J.K. Rowling, Harry tem ainda outras figuras paternas. Uma delas é Voldemort. Parte dele está no bruxinho – representando a maldade que todos temos e precisamos combater.

Ele é um pai ditador, que impõe mais medo do que respeito em seus filhos, os Comensais da Morte. Já Minerva e Dumbledore criam Harry de maneira livre, permitindo que erre e aprenda.

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Luz e trevas

Os Dementadores personificam a depressão. Eles extraem de suas vítimas as lembranças felizes. Assim como a doença, eles não “causam” tristeza: apenas criam um clima ruim que nos reduz ao nosso pior estado.

Já o Patrono é a herança de carinho deixada pelos pais para que possamos cuidar de nós mesmos. É a memória de ser amado, que traz segurança

Heroísmo silencioso

O professor Snape, que começa como opositor de Harry mas (mais…)

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