Repetir frases como: “É só no Brasil” ou “Só podia ser no Brasil” apenas rebaixa o que temos como visão de mundo; não é só aqui que temos problemas. Somos humanos, e nossa capacidade intelectual de criar é compatível com a nossa dificuldade em resolver.

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Luísa G. Ferreira, no Homo Literatus

O termo complexo de vira-latas foi criado por Nelson Rodrigues diante da visão brasileira sobre o futebol, que segundo ele vacilava entre o pessimismo obtuso e a esperança mais frenética. A própria relação brasileira em defender com unhas e dentes a seleção, sempre com o ápice das vitórias, esvai-se diante de uma pequena derrapada, que não vinha a acontecer há muito tempo. Há sempre uma grande preparação para a copa; e o Brasil, sendo o “país do futebol”, permanece (pelo menos a maior parte da população) com a certeza de vencer o campeonato. Talvez, o único e mais sólido campo em que nós brasileiros sentimos orgulho, muitas vezes por simplesmente não abrimos os olhos para enxergar o que acontece ao nosso redor.

Repetir frases como: “É só no Brasil” ou “Só podia ser no Brasil” apenas rebaixa o que temos como visão de mundo; não é só aqui que temos problemas. Somos humanos, e nossa capacidade intelectual de criar é compatível com a nossa dificuldade em resolver. Ainda transformamos pequenos e simples atos, em grandes e complexos problemas. Diante das grandes diferenças de pensamento cultural, nos resta estudar, analisar para que possamos, com embasamento, discutir nossas relações, sejam regionais ou mundiais.

Por “complexo de vira-latas” entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. (Nelson Rodrigues)

Como exposto, o pessimismo brasileiro corrompe o nosso desenvolvimento. Impedindo-nos de revelar nossas conquistas e abraçar o que lutamos para conseguir. Quando será possível, ler matérias positivas, sem ter que considerar como sendo comum em outros países e tão raras no Brasil? Para que isto seja possível, é preciso considerar o trabalho conjunto. Afinal, somos uma nação.

E você pode estar se perguntando: Qual é a relação disso com a literatura?

Muitas pessoas desprezam a produção literária nacional: pelo simples fato de ser nacional. Posso considerar como uma das raízes do problema os livros exigidos nas escolas. Para muitos jovens alunos (não todos), a falta de interesse surge da falta de identificação do que foi proposto durante as aulas sobre clássicos nacionais. O que acontece também, em filmes e séries; por não conseguirem situar o momento em que vivem, dentro de um contexto político e social, concluem e consequentemente generalizam: “Todos são ruins e nada disso faz sentido”. Com este pensamento em relação aos clássicos, já conhecidos pelo público, imaginem a literatura contemporânea, pouco conhecida.

Nelson diverte crianças de colégio com uma encarnação da “cabra vadia”, personagem que testemunhava entrevistas imaginárias que ele conduzia num terreno baldio (Foto: Arquivo / Agência O Globo)

Nelson diverte crianças de colégio com uma encarnação da “cabra vadia”, personagem que testemunhava entrevistas imaginárias que ele conduzia num terreno baldio (Foto: Arquivo / Agência O Globo)

De acordo com Nelson, o brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-lata. Uma vez que nos convençamos, seremos capazes de libertar a capacidade de mudar o que precisa ser mudado; e reconhecer o que já construímos diante de tantos empecilhos.

Ainda diante do problema, Nelson Rodrigues finaliza sua crônica:

Insisto: — para o escrete, ser ou não ser vira-latas, eis a questão.

Para concluir, recomendo os vídeos abaixo, o primeiro baseado no texto de Ernest Cline sobre a visão egoísta dos seres humanos que se acham superiores, negando sua real natureza como primatas (resumindo: Somos macacos). A ideia do vídeo exprime bem a discriminação criada em cima de coisas comuns, que fazem parte de nossas vidas. E o segundo, um pequeno documentário sobre a crônica de Nelson Rodrigues. Sinceramente, considero o complexo de vira-latas na literatura como mais uma das pedras que nós mesmos colocamos em nosso caminho, pedras estas formadas pela ignorância e falta de conhecimento. Por isso, além de entender estes erros é preciso que vejamos de uma vez por todas, que o real problema não é o Brasil, e sim, os brasileiros; porque a mudança depende de nós.

Existem bilhões de galáxias no Universo observável.

Em cada uma delas contém centenas de bilhões de estrelas… Em uma dessas galáxias, orbitando em uma dessas estrelas se encontra um pequeno planeta azul… E este planeta é governado por um bando de macacos.

Documentário:

Até quando esta visão pessimista definirá a produção e dispersão da literatura brasileira?