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Após voltar pra casa, ‘poeta das ruas’ continua a escrever histórias

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Carla Guimarães, na Folha de S.Paulo

O “poeta das ruas” de São Paulo, Raimundo Sobrinho, 74, passou 20 anos no canteiro central da avenida Pedroso Morais, zona oeste. Em dezembro de 2005, a Folha contou sua história.

Há um ano, ele foi encontrado pelo irmão –graças a ajuda de uma publicitária que se sensibilizou com sua história– e levado para morar em Goiânia com a família. Entre lacunas e imprecisões, o poeta conta sua trajetória.

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Os documentos dizem Raimundo Arruda Sobrinho, nascido em 1º de agosto de 1938, na fazenda Sol Ferino, em Porto do Sítio [atual Goiatins, norte do TO].

Meu pai era vaqueiro. Nascido e criado na zona rural, fui levado aos 16 anos para a cidade, me entregaram para o prefeito, para educar.

De agosto de 1954 a janeiro de 1961 morei com o prefeito. Ia no período das aulas e passava férias em casa.

Em 1960 fui reprovado na segunda série ginasial, me desgostei e fui para São Paulo –cheguei em 10 de janeiro de 1961. Um conhecido me arranjou a passagem.

Fui procurá-lo [o conhecido] na Vila Madalena, num cortiço de madeira. Amanheceu e já fui trabalhar de jardineiro.

Em 1974 houve um desgosto qualquer, abandonei o jardim e fui vender livro velho pelas calçadas. Passava semana sem vender um. Não ganhei nem mais para alimentação.

Dois anos depois estive internado na psiquiatria do Hospital das Clínicas. Muita gente diz: “Tu não sabe o que é um hospital psiquiátrico”.

Em dezembro de 2005, no canteiro central da avenida Pedroso de Morais, Raimundo Sobrinho, hoje com 74 anos, escreve em seus cadernos poemas abstratos que dava para as pessoas

Em dezembro de 2005, no canteiro central da avenida Pedroso de Morais, Raimundo Sobrinho, hoje com 74 anos, escreve em seus cadernos poemas abstratos que dava para as pessoas

Memórias do canteiro central

Tive 14 endereços até 1978. Morei num quarto e cozinha sem luxo, mas asseado, onde ficou tudo que é meu.

Quando me fizeram abandonar a casa em que eu morava, em 29 de abril de 1978, comecei a dormir pelas ruas.

Ali me reconheci vítima de violação de direitos humanos. Procurei consulados, ninguém prestou atenção.

Sem dinheiro para nada, decidi em 1980 tentar ir para a Argentina. Fui até onde disseram que era Uruguaiana (RS). Cheguei em julho de 1980. Alegaram falta de documento…

Em outubro tentei o Paraguai. Cheguei num dia, no outro fui preso. Passei três dias na cadeia. O cônsul brasileiro me retirou. Deixaram-me onde disseram ser Foz do Iguaçu. Ali fui servente de pedreiro.

No Uruguai. entrei mas não pude ficar. As autoridades e eu nos desentendemos.

Voltei a São Paulo em 1983. Estive no Morumbi, Jardim Paulista, Ibirapuera. Em 1985 fui para a av. Amarílis, onde vivi até junho de 1989.

Numa madrugada chegou um carro cheio de rapazes, acordaram-me e ameaçaram-me. Na rua das Amoreiras fui apedrejado. Não mataram porque não quiseram.

Ficava num local enquanto podia. Havia demonstração de desapreço, me afastava.

Ali [canteiro central da Pedroso de Morais] cheguei era 27 de outubro de 1993. Vivia debaixo de plástico, noite e dia cercado por assaltantes.

Em 1986, em novembro, nasceu o atual diário –diário de uma vítima de violação de direitos humanos.

As mínipáginas não me lembro bem, mas nasceram nesse período. Tudo que escrevo assino, dato e localizo. O público dava os papéis.

A produção é reduzida. Se a pessoa chegasse e eu tivesse minipágina, dava. Se não tivesse, prometia, fazia e guardava à espera da pessoa.

Além delas tem os caderninhos. A capa é feita de papel de embrulho. Fiz centenas.

O barulho dos automóveis não alterava para escrever, só a má iluminação. Qualquer hora escrevia, até debaixo de chuva. Arranjava um plástico, sentava numa lata de 18 litros e continuava trabalhando.

Tem coisas nos meus escritos que considero de valor científico. Chegou um ponto que deixei de assinar meu nome, para assinar o pseudônimo “O Condicionado”. Não me lembro a partir de quando. Comecei a ouvir “o condicionado”. Descobri que era eu.

Em 1986 veio um pessoal que disse ser do programa Flávio Cavalcanti [então transmitido pelo SBT], me entrevistaram e perguntaram se poderia ir ao programa. Trouxeram a mulher do Antônio Souza Porto [ex-prefeito de Goiatins] e o filho dela.

Do programa me levaram para um hotel. No outro dia me arrastaram até Goiânia. Eu não queria vir. Passei um mês e voltei para o mesmo local que vivia, no Morumbi.

ADAPTAÇÃO

Desta vez disseram que foi com essa instituição dos celulares que me localizaram. Envolveu uma jovem que começou a frequentar o local que eu vivia [a publicitária Shalla Monteiro].

Disseram que ela se comunicou com o Francisco [Arruda, irmão dele]. Ele foi lá duas, três ou quatro vezes, e terminou arrastando-me para cá. Eu não queria.

Não teve problema de adaptação. Preferia continuar lá, porque aqui estou dando trabalho, ocupo espaço, consumo, como, bebo.

Aqui a ordem foi que não preciso trabalhar. O que posso ajudar, faço. Limpar, varrer embaixo dessas mangueiras.

Amanheceu o dia faço o que é possível, depois pego os papéis. O fundamental é o diário. As minipáginas faço o que posso. Aqui não tem muita necessidade delas. Lá precisava para dar a quem me desse alguma coisa, tenho a necessidade moral de retribuir com qualquer coisinha.

Não me considero escritor, mas uma pessoa que sabe gastar papel. Não ganhei um centavo à custa do que escrevi. Tentei. O mundo editorial não pôde pagar coisa nenhuma. Publicar não quero.

Não sei coisa nenhuma o que fazer da vida. Escrever, enquanto eu puder, vou escrever.

Diretora transexual de colégio público diz ter de “matar um leão por segundo”

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A transexual Laysa Machado, que dirige colégio desde 2009 (foto: Arquivo pessoal)

A transexual Laysa Machado, que dirige colégio desde 2009 (foto: Arquivo pessoal)

Publicado na Folha de S.Paulo

Não há estatística oficial, mas a professora Laysa Machado, 41, gosta de dizer que é uma das únicas –senão a única– diretora transexual eleita democraticamente no ensino público no país.

Há três anos, ela é diretora-adjunta de um colégio estadual de São José dos Pinhais (região metropolitana de Curitiba), e foi reeleita em 2011, mesmo diante da “resistência de uma minoria”, segundo ela.

“Você tem que matar um leão por segundo. Se o hetero precisa ser o melhor, a diversidade tem que ser bilhões de vezes melhor”, diz Laysa.

Formada em história e letras, a professora concursada da rede estadual relutou antes de assumir a identidade. “Eu sublimava toda a minha angústia com os estudos.”

Na cidade natal, no interior do Paraná, enfrentou rejeição da família e foi demitida do colégio católico em que lecionava sob acusação de “subversão” após sair em público com seu primeiro vestido, aos 27 anos.

Mudou-se para Curitiba, iniciou o tratamento hormonal e, quatro anos depois, fez a cirurgia de readequação genital. Hoje, é mulher inclusive em seus documentos.

No Colégio Estadual Chico Mendes, onde está desde 2004, diz que enfrentou preconceito até dos colegas de trabalho, o que, segundo ela, venceu aos poucos, às custas de trabalho.

“Ela sofreu, mas sempre mostrou que, em primeiro lugar, era uma educadora”, conta a colega Gisele Dalagnol.

Mães de jovens com dislexia lutam por educação adequada ao transtorno

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Dislexia é um transtorno de aprendizagem de causa neurológica.
Alexandra e Augusta promovem eventos e batalham por aprovação de lei.

Maria Augusta e Ricardo (lado esquerdo) e Alexandra e Anna Lia (direito) (Foto: Vanessa Fajardo/ G1)

Maria Augusta e Ricardo (lado esquerdo) e Alexandra e Anna Lia (direito) (Foto: Vanessa Fajardo/ G1)

Vanessa Fajardo, no G1

A economista Maria Augusta Pacheco Ranhada Gil, de 50 anos, e a psicopedagoga Alexandra Amadio Belli, de 45 anos, diagnosticaram a dislexia nos filhos adolescentes ainda quando eles eram crianças. Foram anos de estudo até entender – e aceitar – como este transtorno de aprendizado de origem neurológica iria afetar a vida de seus filhos. Os disléxicos têm mais dificuldade para ler, interpretar e escrever pois não conseguem ligar os sons às palavras. Geralmente a dislexia é identificada durante a alfabetização e pode ser confundida com déficit de atenção (TDAH).

O distúrbio é diagnosticado por uma equipe multidisciplinar (fonoaudiólogo, neurologista, psicólogo e psicopedagogo) e tem relação com a herança genética. O problema sensibilizou tanto Maria Augusta e Alexandra que mais do que mães de Ricardo Augusto Gil, de 16 anos, e Anna Lia Bellli, de 15, elas se engajaram à causa, mesmo sem estar afiliadas a qualquer associação, e se tornaram defensoras dos disléxicos.

Alexandra foi professora do filho de Maria Augusta. Por conta da dislexia dos filhos as duas se aproximaram e se tornaram amigas. Juntas, elas costumam organizar eventos e palestras e criar espaços para falar sobre o tema. Paralelamente, encabeçam a batalha de conseguir aprovar um projeto de lei no estado de São Paulo que garante direitos aos estudantes disléxicos da rede pública. O projeto está sendo redigido por uma equipe multidisciplinar e ainda precisa seguir para votação.

Quem tem dislexia fica à margem, é discriminado, mas a pessoa não tem problemas cognitivos. São personagens brilhantes que perdem a oportunidade de se desenvolver”
Alexandra Belli,
psicopedagoga e mãe de Anna Lia

Enquanto o projeto de lei não é aprovado, as duas não se cansam de reivindicar direitos dos filhos nas escolas onde estudam. Os pedidos nunca são isolados, e quando concedidos, beneficiam todos os estudantes com problemas de déficit de atenção da escola. Elas costumam ‘brigar’ para que a escola seja mais flexível na correção de determinada avaliação, dê mais tempo para os filhos fazerem as provas ou, ainda, forneça as fórmulas em uma folha anexa para um exame de física, por exemplo.

“Queremos contagiar e fazer com que as pessoas percebam a dislexia. Quem tem dislexia fica à margem, é discriminado, mas a pessoa não tem problemas cognitivos. São personagens brilhantes que perdem a oportunidade de se desenvolver”, diz Alexandra, que também se diz disléxica, apesar de não ter o diagnóstico.

Anna Lia e Alexandra estudam juntas (Foto: Vanessa Fajardo/ G1)

Anna Lia e Alexandra estudam juntas
(Foto: Vanessa Fajardo/ G1)

O apoio das mães

A filha de Alexandra, Anna Lia também tem transtorno de déficit de atenção (TDHA) que foi diagnosticado antes da dislexia. Alexandra conta que percebeu que a filha poderia ser disléxica quando lia com ela percebeu que a garota não conseguia ler uma determinada palavra (ela não se lembra qual é) durante todo o livro. Por dois anos, Anna Lia teve acompanhamento de professores particulares de português e matemática. Está no 2º ano do ensino médio, nunca repetiu um ano, mas às vezes pega uma recuperação. Sempre tem o respaldo da mãe.

“Eu vou estar por trás dela por pior que seja seu fracasso. O que me importa é o seu esforço, cobro para que faça o melhor, sabemos o sacrifício, exigir nota alta é absurdo”, afirma Alexandra. Anna Lia reconhece o apoio da mãe. “Se não fosse minha mãe, eu já teria repetido algum ano. Ela me ajuda a estudar, a decorar a matéria, fazer resumo e sempre procurou ajuda.”

Alexandra acompanha de perto o desenvolvimento da filha porque é psicopedagoga e tem conhecimento técnico sobre o distúrbio. Escreveu sobre TDHA na teste do mestrado e depois a transformou em livro. No entanto, segundo ela, nos demais casos o ideal é que os pais apenas administrem a evolução dos filhos de longe, contratem professores particulares quando necessário, entre outros ações, mas não se envolvam diretamente em sua vida escolar.

Ele é muito responsável e dedicado. Falo sempre que tenho muito orgulho de ele ser disléxico, porque eu me tornei uma pessoa mais sensível e solidária”
Maria Augusta Gil,
economista e mãe de Ricardo

Ricardo não costuma falar sobre dislexia na escola, mas diz que tem o respeito dos colegas, e admira o interesse da mãe pela causa. “Acho muito bom, conheço mães com filhos disléxicos que não fazem nem um terço do que ela faz. O problema é a falta de informação. Minha mãe busca assistência para que eu possa ir bem no colégio. Se não fosse por ela, teria repetido e talvez nem soubesse que tenho dislexia.”

Cursando o 2º ano do ensino médio, Ricardo diz que sua maior dificuldade é em ciências exatas, apesar de a maioria dos disléxicos ter mais problemas com humanas por conta da dificuldade de leitura e interpretação. “Eu me cobro muito porque cada um tem de buscar o melhor naquilo que faz. É muito frustrante quando você estuda, não consegue interpretar a prova e acaba errando o exercício”, diz o jovem.

Maria Augusta e Ricardo que cursa o 2° ano do ensino médio (Foto: Vanessa Fajardo/ G1)

Maria Augusta e Ricardo que cursa o 2° ano do
ensino médio (Foto: Vanessa Fajardo/ G1)

Maria Augusta se emociona ao falar do esforço do filho, a quem considera “herói” “Ele é muito responsável e dedicado. Falo sempre que tenho muito orgulho de ele ser disléxico, porque eu me tornei uma pessoa mais sensível e solidária. É necessário se despir de preconceitos, há uma dificuldade de assumir a dislexia porque a sociedade é muito competitiva.”

Outro resultado do esforço de Alexandra e Maria Augusta tem data marcada: dia 8 de junho, das 13h às 17h30, no Centro Cultural da Índia (Alameda Sarutaiá, 380, Jardim Paulista, São Paulo). Haverá a exibição do filme indiano “Como Estrelas na Terra”, que retrata a história de uma família cujo filho é um garoto disléxico. Após o filme, haverá um debate. A entrada é gratuita, mas é necessário se inscrever pelo telefone (11) 3258-7568 ou e-mail [email protected]

Uma neuropsicóloga a favor da educação

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Vagner de Alencar, no Porvir

Aos 16 anos, ela quase repetiu de ano por conta das disciplinas vilãs: matemática e física. Isso só não aconteceu por conta das metodologias próprias criadas por ela, nas quais atrelava os conteúdos escolares sempre a coisas cotidianas. O recurso deu tão certo, que, no ano seguinte, a própria escola passou a indicá-la como professora particular para estudantes do ensino fundamental. A experiência, na adolescência, foi o combustível que despertou em Adriana o interesse em entender quais eram os estímulos necessários para aumentar a capacidade de aprendizagem nas pessoas. Hoje, mais de duas décadas depois, Adriana Fóz carrega um currículo extenso e a superação de um AVC, que a fez adentrar na neurociência. Entre seus ofícios, dedica-se aos avanços da neurociência na educação, já escreveu livros sobre o funcionamento do cérebro, inclusive, para crianças, além de coordenar um projeto voltado à prevenção e saúde mental, em que capacita professores sobre como lidar com a raiva e a ansiedade no convívio escolar.

Aos vinte e poucos anos, Adriana já acumulava uma graduação em educação e o título de pós-graduada em psicopedagogia. Na época, ela estava determinada a descobrir como mobilizar a emoção dos alunos para alcançar a chamada aprendizagem significativa, termo cunhado pelo psicólogo norte-americano David Ausubel ao afirmar que aquilo que é aprendido sempre precisa fazer algum sentido para o aluno.

Giovanni Cancemi / Fotolia.com

Giovanni Cancemi / Fotolia.com

Mergulhada na teoria de Ausubel, ela começou a formar grupos de estudos com a presença de especialistas renomados, como o neurocientista Nelson Annunciato, PhD em programas de reabilitação neurológica da Universidade de Munique, na Alemanha, e o neurologista José Salomão Schwartzman, especialista em neurologia infantil. “Eu era bem mais jovem que eles. O que era uma honra para mim. Era como se eu fosse um peixe fora d’água nadando no imenso oceano”, afirma ela, que então vivia o auge de sua vida profissional. Nessa época, inclusive, abriu uma clínica multidisciplinar formada por diferentes profissionais, como fonoaudiólogos, psicólogos e terapeutas familiares. “Era algo muito inovador.”

Aos 32 anos, Adriana teve sua vida virada ao avesso: sofreu um AVC hemorrágico. Passou quatro meses internada e quatro anos em reabilitação.

No entanto, aos 32 anos, sua vida deu uma reviravolta quando sofreu um AVC (Acidente Vascular Cerebral) hemorrágico. Passou quatro meses internada e quatro anos em reabilitação. Perdeu os movimentos do lado direito do corpo e não reconhecia nem mesmo seu próprio marido, com quem estava casada havia dez anos. “Eu, que era especialista em leitura e escrita, não sabia mais ler nem escrever”, conta. “Foi como se tivesse dado um reset no meu HD interno, no qual eu precisava colocar tudo novamente.”

Com depressão patológica e limitações físicas e cognitivas, Adriana parou de clinicar e começou a buscar outras atividades à medida que sua recuperação progredia. Fez aulas de samba, para reaprender cognitivamente a andar, e curso de palhaço, para rir de si mesma. “Fui desenvolvendo habilidades que até então eu não precisava, já que antes eram automáticas, como andar ou segurar uma escova de dentes.”

Esses “novos” hábitos foram fundamentais para que ela adentrasse mais a fundo no campo da neurociência. “Eu precisava entender por que, apesar de eu não ter tido um derrame no cerebelo (parte do cérebro responsável pela ação motora), eu não podia andar direito. Por que a minha visão havia ficado comprometida, se minha região occipital (parte do cérebro que comanda a visão) não havia sofrido nenhum dano? Por que não sabia mais ler nem escrever, se a região parietal (responsável pela leitura e escrita) estava sem nenhuma lesão?”

“A neurociência chega a ser vital. Na educação, ela tem a função de dar aos professores mais instrumentos e ferramentas para que eles sejam capazes de otimizar suas funções.”

As investigações prosseguiram e acabaram dando origem ao livro A Cura do Cérebro, em que Adriana desvenda, a partir de sua batalha e recuperação do AVC, outras indagações como: por que ela precisava raciocinar para que então pudesse andar ou por que a recuperação da memória era gradual. A viagem pelo cérebro avançou também rumo à academia. Anos depois, já reabilitada, a educadora especializou-se em neuropsicologia na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Neurociência, uma questão vital

“Hoje, para mim, a neurociência chega a ser vital. O professor tem como tarefa, durante o processo de aprendizagem dos alunos, trabalhar a leitura, a matemática, mas imagina se ele também conseguir entender o funcionamento do cérebro. É essa a principal função da neurociência na educação: dar aos professores mais instrumentos e ferramentas para que eles sejam capazes de otimizar suas funções”, afirma.

De acordo com ela, isso é fundamental para minimizar um dos principais problemas que envolvem os professores: o desgaste profissional. Em muitos casos, afirma, o educador não percebe que cada aluno possui um ritmo diferente de aprendizado e que naturalmente ele também precisará de orientações durante esse processo. “O único momento da vida do ser humano onde a região do prazer tem menos neurotransmissores passando pelo cérebro é na adolescência. Por isso os jovens, normalmente, têm aquela inércia, preguiça, crise. Se o professor entende que isso acontece por conta do funcionamento cerebral e não porque o aluno está sendo folgado, ele consegue ajudar muito mais e otimizar a tarefa de educar”, afirma Adriana, que também coordena o projeto Cuca Legal, iniciativa realizada pela Unifesp, que trabalha a prevenção e saúde mental com educadores.

Divulgação

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Bye, bye, tristeza!

Desde o ano passado, a neuropsicóloga usa elementos da neurociência para ajudar professores de escolas públicas de Paraisópolis – a maior favela de São Paulo, na zona sul da capital – a terem melhores condições de preparar suas aulas. “Para dar aula, o educador precisa, primeiro, aprender a se respeitar enquanto ser humano, que fica estressado, com raiva. Essa compressão é fundamental para que ele também entenda essas características em seus alunos e consiga lidar melhor com eles, tanto do ponto de vista comportamental, quanto pedagógico”, assegura.

“Os professores dessa escola especialmente queriam um trabalho que pudesse ajudá-los a lidar com a raiva. Ensinamos como é o ciclo da raiva, como ela é desenvolvida no cérebro, como acontece no cotidiano.”

Segundo ela, a partir do momento que o professor compreende que um determinado aluno de ensino fundamental tem certa aptidão para aprender linguagem até os dez anos de idade, por exemplo, o professor passa a se tornar mais responsável por interferir diretamente nesse aprendizado e se ajudar a ajudar o aluno.

O projeto está sendo realizado em duas escolas da região. Na escola estadual Maria Zilda Gamba Natel, desde 2012, os professores estão participando das oficinas periódicas, que incluem rodas de discussão sobre como agir e trabalhar aspectos voltados a raiva, ansiedade, tristeza, entre outros. “Os professores dessa escola queriam um trabalho que pudesse ajudá-los a lidar especialmente com a raiva. Ensinamos como é o ciclo da raiva, como ela é desenvolvida no cérebro, como acontece no cotidiano e como eles podem ajudar esses alunos a identificá-la para poder dar espaço ao que é prioridade. Acabamos não só ajudando os professores, mas também o aluno, já que ele passa a perceber a mudança de atitude do educador e melhorar a relação cotidiana”, diz.

A partir deste ano, outra instituição de ensino – a escola estadual Etelvina Góis de Marcucci – também contará com a capacitação dos professores. O projeto pretende, no primeiro ano, trabalhar o comportamento dos professores para, no ano seguinte, promover um avanço pedagógico na escola.

Dentro do cérebro infantil

Mas o cardápio de iniciativas de Adriana parece não ter fim. Além da formação dos professores em Paraisópolis, ela também está à frente de um projeto no Departamento de Instituto do Cérebro, do Hospital Albert Einstein. Lá, ela desenvolve uma coleção de livros para crianças, de cinco a dez anos, sobre o funcionamento do cérebro. “Trazemos exemplos da realidade da criança. Explicamos que andar de skate, por exemplo, estimula o sistema límbico – responsável por comandar as emoções. É a limbilândia, uma mistura de límbico e Disneylândia.” A primeira obra, afirma, já foi produzida e será lançada em setembro deste ano.

Do ponto de vista prático, Adriana afirma que, há dois anos, realizou esta experiência, piloto, em escolas públicas de São Paulo e de Paraty, no Rio de Janeiro. De acordo com ela, foi possível observar uma melhoria na atitude das crianças quanto ao aprendizado em sala de aula. “Ao entender como funciona seu cérebro, elas passam a mudar seu comportamento e atitude, sentem-se mais estimuladas a aprender outras coisas”, afirma.

Padres querem banir “O Diário de Anne Frank” de escolas de Michigan por ter trechos “pornográficos”

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Gustavo Magnani, no Literatortura

Depois de Justin Bieber ter dito acreditar que Anne Frank seria sua fã se fosse adolescente nos dias de hoje, agora é a vez do livro de estampar os noticiários. Isso porque padres de Michigan querem banir a obra das escolas do respectivo estado, isso porque, supostamente, ela contém trechos inadequados para as crianças de 13 anos. Pior: eles alegam que o conteúdo é pornográfico.

No livro, Anne conta sobre a descoberta de sua própria sexualidade e esses trechos, segundo os padres, são ruins para as crianças. Afinal, com 13 anos ninguém sabe nada sobre sexo. Ainda acreditam que os filhos são entregues por cegonhas e mamãe e papai vivem brincando de apertar um ao outro. Aliás, outro ponto curioso é aquela velha máxima das “tisoradas” escolares: os padres poderiam ter dormido sem essa. A Igreja Católica questionar algo tão pequeno acerca da sexualidade, dá margem para seus críticos relembrarem os casos de pedofilia e até fazer uma comparação: quem será que foi mais prejudicial para a formação sexual das crianças?

Veja bem, eu detesto jogar com essas cartas, mas é um paralelo impossível de não vir à mente.

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Outro lamento é o fato da obra ser icônica e representar um momento histórico e trágico da humanidade. Anne Frank tornou-se um dos principais rosto do holocausto, que assassinou cerca de 6 milhões de judeus. Ou seja, não é uma questão apenas sexual ou de “gostar da obra”, mas também um marco histórico.

O pai de Anne, Otto Frank, que reuniu as memórias da filha, havia deixado as partes sexuais de fora do lançamento original em 1947. Os trechos foram adicionados ao livro há mais ou menos 10 anos e reacenderam a leitura da obra. Além do que já escrevi, fica a eterna decepção por ver pessoas que geralmente não entendem nada – ou muito pouco – sobre educação escolar, querendo meter o bedelho onde não deveriam.

dica do Sidnei Carvalho de Souza

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