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Sebos vendem livros por metro para decoração de escritórios e residências

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Letícia Mori, na Folha de S.Paulo

O freguês entra na loja e pede um metro e meio de livros encadernados em papel-couro azul, de altura média, o mais barato que houver.

O pedido, que soaria estranho em uma livraria, é comum para Aristóteles Torres de Alencar Filho, 59, o “seu” Ari, dono do sebo O Belo Artístico, no Jardim América, região oeste.

Segundo o livreiro, o local recebe muitos clientes procurando livros para decoração. Nesses casos, o conteúdo não importa tanto e a ideia é encontrar o tipo de capa, a cor, o tamanho e a quantidade que mais combinem com a estante ou a sala.

O local normalmente vende por unidade, mas, no caso de grandes compras para ornamento, fecha o preço por coleção e até por medida.

No Sebo Liberdade, na região central, o metro é cobrado de acordo com o tipo de capa: R$ 150 para encadernados simples e R$ 250 para os mais trabalhados.

Livros por metro

Um metro de livros tem cerca de 30 volumes

Um metro de livros tem cerca de 30 volumes

A venda de livros para ver mais do que para ler não é incomum, mas nem todos os estabelecimentos têm valores fixos para o serviço. No Sebo do Messias, também no centro, coleções encadernadas vendidas em pacotes ou individualmente saem a cerca de R$ 5 o volume.

“Quem precisa traz uma fita métrica e depois fazemos a conta”, diz Messias Antônio Coelho, 72, dono da loja. Próximo do Tribunal de Justiça, o local recebe muitos advogados. “Eles querem encher o escritório de livros e impressionar a clientela”, diz.

No Sebo Liberdade, quem compra para enfeite são profissionais liberais e decoradores. Estes dizem que é comum que clientes peçam a montagem completa da sala de casa, incluindo estantes e livros.

“Quem gosta de leitura pede obras específicas”, diz a arquiteta Andrea Teixeira. “Em outros casos”, ressalva, “compramos pelo visual”.

Ela costuma visitar sebos procurando volumes antigos, bonitos e que combinem com o ambiente. “Às vezes compramos de um freguês direto para o outro, quando, por exemplo, alguém vai mudar para um apartamento menor”, ela explica.

Foi o caso da coleção de 1968 de romances e poesia que a sócia dela, Fernanda Negrelli, adquiriu para uma cliente no Alto de Pinheiros, região oeste. A dona do imóvel prefere o anonimato.

De capa branca de papel-couro que combina com a sala de visitas, o conjunto tem lugar de realce na estante. Já os livros de leitura da família, que não são encadernados, ficam em outro cômodo.

LITERATURA DE VERDADE

No Belo Artístico, o foco são livros raros e montagem de coleções. Ari -que já teve o bibliófilo José Mindlin (1914-2010) como cliente- reserva às vendas decorativas as peças mais triviais. Entram na lista romances antigos, livros de história e enciclopédias desatualizados. No local, muitos procuram livros para adorno sem ajuda de profissionais.

Ari diz saber que essa parte do público ignora o conteúdo de seu estoque, mas jura que não se importa. “Eu acho bom, porque estão levando livros. Em uma biblioteca, alguém vai acabar consultando.”

Certa vez, ele recebeu uma mulher desesperada por livros. “Mas de verdade”, lembra. A cliente havia preenchido a estante de casa com livros cenográficos. Durante uma festa, porém, uma convidada puxou um título conhecido e o bloco caiu, desencadeando um sonoro “Que horror!”. Ari conta com gravidade: “Ela não sabia qual das duas, ela ou a convidada, tinha ficado mais constrangida”.

Aristóteles Alencar, dono do sebo O Belo Artístico, é muito procurado por clientes que querem comprar livros para decoração

Aristóteles Alencar, dono do sebo O Belo Artístico, é muito procurado por clientes que querem comprar livros para decoração

O foco do sebo O Belo Artístico, nos jardins, são livros raros (foto); o dono separa para vender como decoração as obras mais triviais

O foco do sebo O Belo Artístico, nos jardins, são livros raros (foto); o dono separa para vender como decoração as obras mais triviais

Decoradores costumam preferir livros antigos, com aparência gasta

Decoradores costumam preferir livros antigos, com aparência gasta

Coleção de história moderna da Universidade de Cambridge sai por R$ 1500 no sebo O Belo Artístico

Coleção de história moderna da Universidade de Cambridge sai por R$ 1500 no sebo O Belo Artístico

Para enfeitar casas e escritórios, clientes compram livros pela capa e pagam por medida

Para enfeitar casas e escritórios, clientes compram livros pela capa e pagam por medida

Coleção de livros comprados pelo escritório Andrea Teixeira & Fernanda Negrelli para uma cliente em Alto de Pinheiros, região oeste

Coleção de livros comprados pelo escritório Andrea Teixeira & Fernanda Negrelli para uma cliente em Alto de Pinheiros, região oeste

As capas combinam com a decoração da sala; os livros de leitura da família ficam em outro cômodo

As capas combinam com a decoração da sala; os livros de leitura da família ficam em outro cômodo

dica do William Campos da Cruz

Flip divulga primeiras atrações para a 11ª edição

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Evento marcado para o começo de julho confirmou Maria Bethânia, em homenagem a Fernando Pessoa; a escritora Lydia Davis e o irlandês John Banville

Publicado no Divirta-se

Esta é a 11ª edição da feira (Reprodução/ Facebook)

Esta é a 11ª edição da feira

A Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), já começou a divulgar as atrações para a 11ª edição, que ocorre de 3 a 7 de julho. Entre os selecionados, se destaca a participação de Maria Bethânia e Cleonice Berardinelli, que se encontram para homenagear o poeta português Fernando Pessoa. Professora emérita da UFRJ e da PUC-Rio, Cleonice, 96 anos, soma mais de cinco décadas dedicada ao estudo do poeta. Bethânia, por sua vez, dispensa apresentações.

Outra participação confirmada é da escritora norte-americana Lydia Davis. Durante a Festa, será lançado o seu livro mais recente, ‘Tipos de perturbação’. Nos 57 textos que compõem a obra, Davis vale-se das mais variadas formas, abordagens e estilos para flagrar seus personagens em suas inseguranças e em seus desajustes com o cotidiano. A obra em português será lançada pela Companhia das Letras.

Outro destaque da 11ª edição fica por conta irlandês John Banville, que também aproveita para lançar sua obra mais recente, ‘Luz antiga’. O romance é o 16º publicado por John e acompanha a história de um ator cuja carreira parece decadente – assim como sua própria vida. Banville já venceu o Booker Prize e é um dos nomes cotados ao Prêmio Nobel de Literatura.

A arte literária dos indígenas

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Daniel Munduruku, autor de 43 títulos: "Sou escritor por vingança"

Daniel Munduruku, autor de 43 títulos: “Sou escritor por vingança”

Rachel Bertol, no Valor Econômico

Escritor indígena? Literatura indígena? É comum ler reportagens sobre índios no Dia do Índio e, embora os brasileiros já comecem aos poucos a se acostumar com a atuação dos novos intelectuais indígenas – militantes das próprias causas -, pouco ainda se ouve falar dos “escritores indígenas”. E muita gente também estranha: literatura indígena? “Sou escritor por vingança. Como fui obrigado a ir para o colégio, aprendi a escrever e me tornei escritor”, diz Daniel Munduruku, autor de 43 títulos (a maior parte para crianças), que terá este como um ano de comemorações.

O Encontro de Escritores e Artistas Indígenas, do qual foi um dos criadores com o apoio da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), está celebrando uma década. A edição comemorativa será realizada em junho, no Salão do Livro para Crianças e Jovens, no Rio. Dessa edição vão participar 25 indígenas e será lançada uma antologia com textos inéditos de 14 escritores para o público adulto (Munduruku vai escrever uma crônica sobre o espanto das pessoas quando veem o índio usando paletó e cocar). Além dele, participam, entre outros, Cristino Wapichana, Olívio Jekupé, Graça Graúna, Manuel Moura Tucano, Rony Wasiry, Yaguarê Yamã – este último teve títulos selecionados para o catálogo internacional da FNLIJ de 2013, apresentado no mês passado na Feira do Livro para Crianças de Bolonha (a maior parte dos autores indígenas atua no segmento de livros infantis). No encontro, também se planeja uma exposição e serão realizadas oficinas artísticas com educadores, além das atividades com crianças.

Mas nessa edição haverá outra importante comemoração para Munduruku: os dez anos do lançamento de seu livro “Meu Vô Apolinário” (Studio Nobel), que conta a dificuldade de uma criança indígena de aceitar sua condição. O livro ganhou o Prêmio de Tolerância da ONU e foi decisivo para estimular outros indígenas a escrever.

Lançamento no fim do ano de “La Poésie du Brésil” na França começa com capítulo só com narrativas míticas e cantos de vários povos indígenas

No entanto, se o movimento dos autores indígenas é novo no Brasil – um movimento do século XXI -, Munduruku diz que não são autores novos: as histórias de que tratam remetem a mitos de um tempo em que gente e bicho viviam como homem e mulher, conversavam de igual para igual. Para aceitar esse movimento como plenamente literário, torna-se necessário, portanto, aceitar que essas histórias de outros tempos – transmitidas em cantos e narrativas orais, muitas colhidas por antropólogos e viajantes ou ouvidas pelos indígenas diretamente em suas aldeias – também sejam reconhecidas, e conhecidas, como expressões literárias.

Sérgio Cohn, editor da Azougue, acaba de dar um importante passo nesse sentido, com o lançamento de “Poesia.br”, caixa com dez livros no qual faz uma coletânea de poetas brasileiros da contemporaneidade até os tempos da colônia e mais além, com uma seleta que intitulou “Cantos Ameríndios”. São cantos de diferentes povos indígenas – bororo, caxinauá, marubo, embiá-guarani, maxacali – publicados apenas em português sem notas de rodapé ou explicações acadêmicas. Para realizar o trabalho, contou com a colaboração de pesquisadores acadêmicos.

Na semana passada, no lançamento do “Poesia.br” em São Paulo, a leitura dos cantos ameríndios por uma atriz foi o momento que mais emocionou o público. “Acho que tem um interesse e eu tenho a impressão de que as pessoas estranhavam muito mais antigamente”, conta o editor, que, mesmo assim, ainda sente certa resistência. “Eu quero que esses cantos tenham validade por si, assim como um poema de Gonçalves Dias, João Cabral ou Drummond”, afirma. Por isso, a opção de não colocar explicações, que considera desnecessárias quando o objetivo é despertar o encantamento do leitor.

Outro lançamento que reforça essa tendência é “La Poésie du Brésil” (Éditions Chandeigne), publicado no fim do ano na França. Organizada pelo franco-brasileiro Max de Carvalho, a antologia é das mais completas já lançadas no exterior com a poesia brasileira e começa com o capítulo “Les Immémoriaux” (Os imemoriais), reunindo narrativas míticas, cantos de amor e cantos xamânicos de diferentes povos indígenas.

“Quem ainda recusa à poesia indígena o status de literatura deveria se perguntar o que entende por uma e outra. A poesia dos ameríndios da América do Norte, oral, dançada, xamânica, influenciou diretamente os maiores poetas americanos da segunda metade do século XX, de Bob Creeley a Charles Olson, passando por Zukowski e sobretudo Jerome Rothenberg. Introduzir os cantos imemoriais na poesia nacional é uma subversão necessária em relação a uma visão esclerosada”, defende Carvalho.

Cohn lembra na introdução de “Cantos Ameríndios” que os escritos indígenas tocam em questões importantes para a poesia contemporânea, como “o esboroamento da autoria e das fronteiras das expressões artísticas” e “a presença da performance”.

Os textos indígenas, porém, ainda provocam bastante perplexidade, haja vista a reação ao livro “Meu Destino É Ser Onça” (Record), em que o escritor Alberto Mussa reconstitui mitos tupinambás para “incorporar a epopeia tupinambá à nossa cultura literária”. O livro não é considerado antropológico, por sua liberdade criativa, mas causa desconfiança nos estudos literários. Em tese defendida neste ano sobre sua obra, na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a obra provocou controvérsia.

“O orientador disse que era um estudo da área de antropologia. Mas ele está certo, desde que tenha considerado o critério de ficção. Como não é ficção do autor, ele preferiu excluir o livro de uma dissertação sobre a obra ficcional. Eu só não concordaria se ele tivesse dito que narrativa mítica não é literatura”, diz Mussa, para quem a narrativa tupinambá, no entanto, como defende no livro, deveria “figurar em todos os cânones da literatura brasileira, fosse qual fosse a definição desse conceito”.

Banidos, proibidos e queimados na fogueira

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Publicado por Rolling Stone Brasil

1Não precisa de nenhum grau de clarividência para adivinhar que uma trilogia de apelo jovem que fala de sadomasoquismo e bate recordes de venda, no mínimo, levantaria sobrancelhas em semblantes mais conservadores. De fato, Cinquenta Tons de Cinza, da escritora britânica E L James, está dando o que falar. Os livros contam a história de um relacionamento de submissão/domínio entre uma estudante e um bilionário. Grupos de diversos lugares já se manifestaram contra a obra, e uma entidade de auxílio às mulheres que ajuda vítimas de violência doméstica anunciou uma queima de exemplares da obra no dia 5 de novembro.

Mas não são só livros de conteúdo sexual que foram banidos, proibidos, queimados e repudiados pela sociedade. Bruxaria, crítica religiosa, comportamento subversivo e outros temas (além do uso de expressões chulas, mesmo que dentro de um contexto) também já foram vítimas de censura, que armam fogueiras para os títulos, proíbem a existência deles nas bibliotecas públicas e condenam as escolas que incentivam sua leitura. Foram dezenas e dezenas de casos. Relembre alguns mais emblemáticos e que comece a caça às bruxas!

 

 

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Saga Harry Potter, de J. K. Rowling – Livros que envolvem bruxaria enfrentam preconceito e não é pouco. Os religiosos mais fervorosos, que colocam no mesmo balaio os feitiços de Hermione e rituais que sacrificam recém-nascidos, caem em cima. E a regra é, quanto mais o sucesso literário, mais intensa é a caçada a ele, de forma que a American Library Association (Associação Americana de Bibliotecas) divulgou uma lista com os livros mais banidos do século e a série de Rowling estava em primeiro lugar.

 

 

 

 

 

 

 

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Ratos e Homens, de John Steinbeck – O clássico de 1937, escrito pelo autor vencedor do Nobel John Steinbeck, conta a história trágica de George Milton e Lennie Small, dois homens simples e deslocados que migram de um lugar para o outro atrás de trabalho na área rural. A história se passa na Califórnia durante a Grande Depressão. A obra faz parte da lista de leituras obrigatórias de muitas escolas, mas desde aquela época é alvo frequente de censores, que repudiam a vulgaridade e a linguagem racial ofensiva do texto. A acusação principal é de que o livro promove a eutanásia (sem detalhes para não fazer spoiler). Foram 54 objeções ao título desde que ele foi publicado.

 

 

 

 

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As Aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain – O livro saiu no Canadá, Reino Unido e Estados Unidos em 1885. Desde então, os norte-americanos encrencam com ele. Foi banido de muitas bibliotecas, recebendo críticas a respeito de como a linguagem era chula, obscena e, em geral, muito deselegante. Fosse hoje em dia, essa crítica viraria meme. Seu “livro-irmão” As Aventuras de Tom Sawyer passou pelos mesmos apuros.

 

 

 

 

 

 

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O Apanhador no Campo de Centeio, de JD Salinger – Poucos livros trazem histórias tão curiosas em seus bastidores como esse, cujo autor se tornou notoriamente recluso posteriormente (e até o fim da vida), que nunca pôde virar filme e foi acusado até de ter tido influência no assassinato de John Lennon. Retratando a angústia juvenil de forma única, foi publicado em 1951 e sofreu críticas logo de cara. Entre 1961 e 1982, foi o livro mais censurado em escolas e bibliotecas em todos os Estados Unidos. Em 1960, uma professora foi demitida por dar o livro como leitura de classe, gerando comoção – ela foi recontratada, posteriormente. Em 1981, foi tanto o livro mais censurado, quanto o segundo título sobre o qual mais se deu aulas nas escolas públicas norte-americanas. Ele figura constatemente na lista anual da American Library Association até hoje. Os protestos dizem respeito, na maior parte, à linguagem vulgar usada pelo protagonista, Holden Caufield, referências sexuais, palavrões e o questionamento de códigos morais e valores familiares, bem como o “encorajamento da rebeldia” e o incentivo ao mundo de bebidas, cigarro, promiscuidade etc. A perseguição chegou a causar o efeito contrário – havia listas de espera para pegar o livro emprestado, em alguns momentos da história.

Um elemento que não ajudou a causa do livro foi quando Mark David Chapman, o assassino de John Lennon, foi preso logo após o crime e tinha com ele uma cópia da obra de Salinger. Robert John Bardo, que perseguiu e matou a atriz Rebecca Schaeffer, e John Hinckley, Jr., que atentou contra a vida de Ronald Reagan, também eram grandes fãs do romance.

 

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Crepúsculo, de Stephenie Meyer – Se os bruxinhos teen caíram nas garras da proibição, que chances tinham as criaturas mortas e chupadoras de sangue de escaparem ilesas? Os “problemas” com a saga, de acordo com a ALA, giram em torno dos mesmos tópicos de sempre: “explícito sexualmente” e “inapropriado para a idade do público alvo”. Os livros aparecem na lista da ALA desde que o primeiro volume chegou ao mercado mas, curiosamente, nenhuma das obras da saga está no ranking mais recente, de 2011.

 

 

 

 

 

 

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Lolita, de Vladimir Nabokov – Sexo? Sim. Incesto? Sim. Menor de idade com apelo sexual? Sim. O autor russo caprichou nos conteúdos socialmente proibidos em seu livro mais conhecido. Tanto que ele nem estava conseguindo publicar a obra na Rússia. Encontrou uma editora na França que topou o desafio, em 1955. A obra foi logo considerada pornografia pura. Ainda assim, se espalhou pela Europa e alcançou os Estados Unidos três anos depois. Em cada país que chegava, sofria algum tipo de censura.

 

 

 

 

 

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Catch-22, de Joseph Heller – O romance satírico se passa no final da Segunda Guerra Mundial. Ele começou a escrevê-lo em 1953, mas a obra só foi publicada oito anos depois. A expressão “Catch-22” entrou para a cultura pop, posteriormente, como sinônimo de uma “situação problemática para qual a única solução é negada pelas circunstâncias inerentes ao problema ou por alguma regra”. Mal traduzindo e simplificando, é um belo de um beco sem saída. A primeira grande razão para ele ter sido banido foi o uso constante da palavra “puta” para se referir às mulheres.

 

 

 

 

 

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Versos Satânicos, de Salman Rushdie – A obra literária do escritor britânico de origem indiana Salman Rushdie saiu em 1988, retrata uma versão dele do Islã e faz críticas veladas a várias religiões. O autor foi acusado de “abusar da liberdade de expressão”, foi jurado de morte em fevereiro de 1989 em uma fatwa (edito religioso) do aiatolá Khomeini, dirigente espiritual do Irã. Rushdie acabou vivendo dez anos na clandestinidade.

 

 

 

 

 

 

 

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Por favor Não Matem a Cotovia, de Harper Lee – Publicado em 1960, foi inicialmente contestado em 1977 (e temporariamente banido) por causa do uso das palavras “maldito” e “mulher puta”. Depois disso, foram mais dezenas de contestações de bibliotecas e escolas, tanto por causa de expressões específicas, quanto por causa do conteúdo. Retratando um acontecimento marcante em uma cidade sulista na década de 30, o livro de fato traz um retrato doloroso do racismo e muitas das expressões usadas não são nada politicamente corretas. Mas fazem parte do retrato que a autora pinta de uma sociedade terrivelmente imbuída de preconceito.

 

 

 

 

dica do João Marcos

Aulas sob vigilância e perseguição na ditadura militar

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Processo de demissão contra professor da rede pública obtido pelo GLOBO conta como educadores sofreram pressão para deixar escolas

Juliana Dal Piva, em O Globo

A ditadura militar proporcionou a seus apoiadores a oportunidade de promover uma caça a adversários pessoais e profissionais dos mesmos. É o que revela o processo de demissão de José Grabois, um professor de Geografia do extinto estado da Guanabara, que abrangia o território que hoje é a capital do Rio. O documento foi descoberto em meio a arquivos do governo do Rio no ano passado e faz parte do acervo do Arquivo do Estado. O GLOBO teve acesso ao processo após um pedido por meio da Lei de Acesso à Informação.

As acusações feitas em maio de 1964 partiram do diretor da Escola Visconde de Cairu, Eneias de Barros, e do professor Antonio Guerra, colega de disciplina. Os dois acusaram Grabois — que já não trabalhava mais na escola — de fugir do currículo para fazer “propaganda ideológica” para os alunos. Segundo as denúncias, ele lecionava sobre “o imperialismo americano”.

“Eram as aulas de Geografia de tal modo ligadas à linha do partido comunista que foi este diretor obrigado a intervir colocando-o sob vigilância”, afirmou Eneias à comissão. Ao folhear os cadernos dos alunos anexos ao processo, O GLOBO sequer encontrou as expressões citadas.

Aos 74 anos, José Grabois se diz nauseado ao lembrar do caso. Respira fundo e fecha os olhos por trás dos óculos. Lentamente, levanta as mãos e as desliza sobre a cabeça. O tema ainda trava na garganta.

— O ambiente, não só do colégio mas do Brasil, era de debate nacional. A sala dos professores era um palco importante de discussões. E, depois das aulas, por que excluir os alunos das discussões? — conta.

Ao fim de 1963, Grabois conta que pediu transferência para outra escola e nunca mais teve contato com Guerra ou Barros. Logo após o golpe, levou um grande número de livros para um apartamento que seu avô tinha no Leblon. Lá, destruiu as obras:

— Coloquei os livros na banheira e os derreti com água quente. Derreti a minha biblioteca. Isso é uma coisa que dói lembrar — lamenta. Para ele, o diretor pressionou o colega de disciplina a denunciá-lo:

— Tinha uma boa relação com o Guerra. Ele deve ter colaborado por medo.

Após o golpe militar, o professor diz que, de certa forma, já esperava a perseguição do regime. Ele frequentava a redação do jornal do Partido Comunista e era sobrinho de Maurício Grabois — líder do PCdoB e um dos militantes desaparecidos na Guerrilha do Araguaia. Ele, no entanto, não militou em nenhuma organização de esquerda.

O processo contra o professor foi presidido por Alcino Salazar e fez parte da “Operação Limpeza”, promovida pela ditadura após o Ato Institucional nº 1. O objetivo era retirar do governo todos aqueles contrários ao regime. No ano seguinte, Salazar se tornou procurador-geral da República.

Grabois jamais foi recebido pelos investigadores e teve que apresentar a defesa por escrito. E, mesmo com mais de 30 declarações a seu favor dadas por colegas professores e pais de alunos, nada evitou a demissão. Ele e outros quatro professores foram considerados “inconvenientes para o exercício do magistério”. No texto, outros 12 também foram listados.

Um deles foi Mauricio Silva Santos, outro professor de Geografia. Ele trabalhava na Escola Rivadávia Corrêa e fez questão de dizer que se mantinha longe da política:

— Eu era pobre e precisava estudar para ser bom. Não tinha tempo para outra coisa. Dizem que havia um núcleo comunista no colégio. Sei que eu ia almoçar com um colega da Matemática e, depois, disseram que ele era comunista. Era o Bayard Boiteux.

Boiteux é outro da lista dos demitidos. Diferentemente dos outros, ele fez parte da Guerrilha do Caparaó, desmantelada em 1967. Foi preso e condenado, mas conseguiu partir para o exílio de onde retornou em 1979. Morreu em 2004.

Mauricio Silva Santos não foi demitido, mas sofreu uma suspensão de seis meses. Ao retornar, ainda ficou outros três meses sem receber salário. Durante esse período, sua mulher estava grávida de gêmeos.

Depois da demissão, Grabois deu aulas particulares e continuou vigiado. Mais tarde, seguiu carreira acadêmica na UFPB e na UFPE. Ele só retornou ao Rio em 1990, para lecionar na UFF. No ano passado, foi anistiado pelo Ministério da Justiça.

— Para sobreviver a gente introjeta o medo. Aprende a viver colocando cadeados em vários lugares e épocas. Depois não consegue soltar — afirma ele, que não quis ser fotografado.

Eneias de Barros, Antonio Guerra e Alcino Salazar já morreram.

Durante a ditadura, o educador Paulo Freire foi preso e teve que sair do país. O ex-reitor da Universidade de Brasília (UnB) Anísio Teixeira foi demitido logo após o golpe e morreu em circunstâncias ainda não esclarecidas.

O total de educadores demitidos por razões políticas é desconhecido. De acordo com a Comissão de Anistia, cerca de 1.200 professores já foram anistiados pelo governo federal, e outros 243 processos aguardam julgamento. Entre mortos e desaparecidos políticos, estão ao menos 26 educadores.

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