Contando e Cantando (Volume 2)

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7 Contos fundamentais para conhecer a obra de Borges

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Vilto Reis, no Homo Literatus

Obras de fácil acesso que levam você a entrar no universo do escritor argentino Jorge Luis Borges

borges

Um dos mais importantes escritores do século XX, Borges preferiu escrever ensaios, poesias e contos a dedicar-se a um romance. Como diz em O Aleph “Desvario laborioso e empobrecedor o de compor vastos livros; o de explanar em quinhentas páginas uma ideia cuja exposição oral cabe em poucos minutos.” Em outra oportunidade, sendo entrevistado por Osvaldo Ferrari, quando o jornalista elogiou o uso conciso das palavras nas narrativas do escritor, Borges respondeu que àquilo que alguns chamam de concisão também pode ser entendido como preguiça.

Antes de citar os contos da lista, gostaria ainda de esboçar uma classificação dos contos produzidos pelo argentino em três categorias: 1) Regionalista: obras que apontam para uma Buenos Aires dos fins do século XIX, tempo que precede o próprio Borges, de um tempo em que o tango ainda pertencia as classes baixas, e os cuchilleros trocavam facadas em Palermo; 2) Crítico-Literária: em que o autor cria uma história na qual um crítico, fictício, analisa outro escritor também inventado, ou de livros que falam sobre outros livros; 3) Universal: procura abarcar questões de interesse filosófico, sobre o tempo, deus e o universo.

Jorge Luis Borges

Mas vamos aos contos indicados:

O Imortal¹: relata a história de um general romano que sai a procura da imortalidade; fato que o autor aprofunda em suas reflexões filosóficas, como pode ser conferido neste trecho: “Ser imortal é insignificante; com exceção do homem, todas as criaturas o são, pois ignoram a morte; o divino, o terrível, o incompreensível é saber-se imortal”. No entanto, ao deparar-se com sua busca, toda a sua vida é alterada, não bem como ele imaginava.

O jardim dos caminhos que se bifurcam²: uma das mais importantes narrativas do autor no que se refere a falar de uma de suas metáforas preferidas: o labirinto. O protagonista do conto está sendo perseguido e foge para o lugar onde viveu seu descendente, um rei que disse que se ausentaria do mundo para construir um labirinto e escrever um livro. Contudo, o que o leitor não perde por esperar é a relação dessa história com a do próprio protagonista.

A biblioteca de Babel²: o autor fala do mundo como se este fosse uma biblioteca, tendo um dos mais impressionantes começos literários da história da literatura: “O universo (que outros chamam a Biblioteca) constitui-se de um número indefinido, e quiçá infinito, de galerias hexagonais, com vastos postos de ventilação no centro, cercados por varandas baixíssimas.”

O outro³: tema de muitas histórias literárias, a representação o duplo, do personagem que se repete, não poderia se ausentar da obra do escritor argentino. Mais do que isso, ele escolheu a si mesmo para representar nessa pequena peça narrativa que impressiona. Em um banco de uma praça, o ancião Borges encontra o jovem Borges e os dois têm um diálogo que abarca a criação literária e a vida, posto que ambas não se podem entender separadas.

À memória de Shakespeare: o protagonista desse conto encontra alguém que se diz ser portador da memória do bardo inglês. Fazem um trato, de forma que a memória possa ser passada. No entanto, as coisas não saem exatamente como o personagem narrador dessa história esperava, o que acaba sendo um exercício de reflexão sobre a memória e a criatividade.
O Aleph¹: neste conto, temos novamente Borges lidando com o tema da universalidade, pois um episódio nos leva a este ponto, lugar, ou seja lá como posso ser chamado, em que se pode enxergar todo o universo. Uma história bastante enigmática.

Os Teólogos¹: dois teólogos, Aureliano e João de Panonia, digladiam-se em suas discussões religiosas, o que Borges vai tratando com um humor que pouco aparece em outros contos; por exemplo, no trecho: “Discutiu com os homens de cuja sentença dependia a sua sorte e cometeu a grosseria máxima de fazê-lo com talento e com ironia” ( pg. 32). A discussão leva um deles à fogueira, mas eles ainda se encontrarão na eternidade, culminando em um final inesperado.
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Se quiser saber mais sobre Borges: Marcos Peres indica Jorge Luis Borges


1. Este conto encontra-se no livro O Aleph.
2. Este conto encontra-se no livro Ficções.
3. Este conto encontra-se em O livro da areia.
4. Este conto encontra-se no livro Nove ensaios dantescos & a memória de Shakespeare.

Conto de Neil Gaiman escrito para ser declamado ganha edição ilustrada

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Publicado no Boa Informação [via BOL]

Imagem de “A Verdade É uma Caverna nas Montanhas Negras”, de Neil Gaiman.    Reprodução

Imagem de “A Verdade É uma Caverna nas Montanhas Negras”, de Neil Gaiman. Reprodução

“A Verdade É uma Caverna nas Montanhas Negras” (Intrínseca) é um obra curiosa de Neil Gaiman, escritor e roteirista conhecido pela HQ “Sandman” e livros como “Deuses Americanos”. Não se trata propriamente de um livro ilustrado, nem de um quadrinho, mas fica entre essas duas mídias, pendendo para um lado ou para o outro em diferentes momentos.

O “livro” também teve uma criação curiosa. Ele foi escrito para ser lido por Gaiman em uma apresentação ao vivo no Opera House de Sydney, na Austrália, em agosto de 2010. O desenhista Eddie Campbell, conhecido por sua colaboração com Alan Moore na HQ “Do Inferno”, foi chamado para criar as ilustrações que seriam projetadas ao fundo. Posteriormente narração foi lançada em CD e a versão impressa recebeu prêmios como o Locust Award e o Shirley Jackson Award. Essa versão impressa que está sendo lançada agora no Brasil.

A história acompanha um anão que convoca um ex-bandido nos Highlands escoceses para levá-lo a uma misteriosa caverna onde, dizem, um homem pode sair de lá com todo o ouro que consegue carregar. Ou talvez essa seja apenas uma das verdades dessa história críptica e há um preço a ser pago para entrar nessa gruta nas montanhas das Ilhas das Brumas: você sai de lá mais rico, mas menos capaz de apreciar a sua riqueza.

Assim como boa parte das obras de Gaiman, “A Verdade É uma Caverna nas Montanhas Negras” pode ser descrito como um conto de fadas para adultos. O autor tem uma exímia capacidade de criar histórias que são aparentemente simples, e portanto podem ser apreciadas por crianças, ao mesmo tempo em que possuem nuances mais profundos para serem de interesse também aos mais velhos.

Há um ar de magia e mistério constante na história, muitas coisas são subentendidas ao invés de reveladas. Ela tem aquela qualidade de conto de fadas “pré-Disney”, sombrio e assustador e mesmo sem a narração a história retêm uma surpreendente qualidade oral.

O traço propositalmente rústico de Campbell complementa constantemente a história, ajudando a criar uma atmosfera de memória, de imagens que vão sendo lembradas conforme a narrativa avança. Uma variedade de estilos são usados, alguns parecem quadros, outros são esboços inacabados, alguns até são colagens que misturam desenho e fotografia.

“A Verdade É uma Caverna nas Montanhas Negras” é um livro curto, que pode ser lido com atenção em cerca de uma hora. É um excelente livro de histórias infantis para ser lido por (ou para) adultos antes de dormir.

Homem encontra conto perdido de Sherlock Holmes no sótão de sua casa

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Ilustração de contos de Sherlock Holmes. - © Museum of London

Ilustração de contos de Sherlock Holmes. – © Museum of London

Arthur Conan Doyle doou texto em 1904 para um bazar em prol de cidade escocesa

Publicado em O Globo

RIO — Um novo conto de Arthur Conan Doyle veio à tona. Walter Elliot, de 80 anos, encontrou o texto estrelado pelo famoso Sherlock Holmes em seu sótão. O livro veio de um bazar para arrecandar fundos para a cidade de Selkirk, na Escócia, que teve sua ponte de madeira destruída durante uma enchente em 1902.

A história é mais complexa. Como a cidade não tinha dinheiro para reconstruir a ponte, os locais organizaram um evento de três dias, em 1904. O escritor britânico, que adorava visitar a região, deciciu contribuir com a arrecadação, doando um conto no último dia do evento.

Walter Elliot, no entanto, não se lembra de como o livro foi parar em seu sótão. “Eu tenho esse livro há 40 ou 50 anos. Devo ter ganhado de um amigo, porque eu não lembro de tê-lo comprado de ninguém”, sugere o senhor. “Ele deve ter pensado bastante na nossa cidade, para vir até aqui e contribuir com uma conto para o livro”.

Em suas 48 páginas, a compilação traz histórias da população local bem como a do famoso autor. A coleção, intitulada “The book o’ the brig” será exibida em um museu da comunidade de Selkirk, junto com uma pintura de Walter Elliot da ponte reconstruída.

Novo conto de J.K. Rowling é uma biografia de Draco Malfoy

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Novo conto de J.K. Rowling é uma biografia de Draco Malfoy

Gustavo Gusmão, na Info Online

Depois de uma semana movimentada por novos enigmas e breves histórias publicadas na rede social Pottermore, a autora J.K. Rowling finalmente divulgou um novo conto. O texto é uma breve biografia de Draco Malfoy, um dos antagonistas da série de livros do bruxo Harry Potter.

A história está disponível em inglês e, por ora, apenas para donos de contas no site – que podem ser criadas gratuitamente. Para liberá-la, no entanto, também é preciso resolver dois enigmas simples, cujas respostas são “Draco Malfoy”: no primeiro, é preciso apontá-lo com o cursor, enquanto no segundo basta escrever o nome dele e clicar no personagem.

O conto não é exatamente repleto de novidades (ainda mais para leitores vorazes da série), mas serve para aprofundar um pouco mais a história do antagonista e de sua supostamente nobre família.

Rowling explica que, apesar de aparentar ter uma mente maligna, a aventura que enfrentou fez com que Draco reconsiderasse muitas de suas ideias.

A autora também conta que o rapaz tinha mesmo muita inveja de Harry, e muito pelo herói ser visto como um rival pelos bruxos aliados de Voldermort. O filho de Lucius, por sua vez, já era encarado apenas como mais um estudante de Hogwarts – algo que ofendia (e muito) toda a nobreza puro-sangue da família Malfoy.

A biografia termina dando detalhes da vida do Draco Malfoy adulto. Mais tolerante, o mestre em oclumência (arte de ocultar os pensamentos) se casou com uma colega de Sonserina e com ela teve um filho, Scorpius. A esposa, porém, não lida muito bem com os pais do marido, já que educa a criança de forma bem diferente – para ela, os trouxas também merecem respeito.

O texto completo e as observações de J.K. Rowling, seguindo o padrão da biografia de Dolores Umbridge, podem ser lidos no Pottermore.

João Vereza resenha seu conto predileto

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João Vereza resenha seu conto predileto: ‘A Terceira Margem do Rio’, de Guimarães Rosa

Sérgio Tavares, no Homo Literatus

Foto-Vereza-PB

Conheci Guimarães Rosa numa aula da PUC, Literatura Brasileira: Prosa, uma eletiva de Letras do professor Júlio Diniz. Lemos Machado, Clarice, Graciliano, Zé Rubem (o mais fantástico do curso foi ter aprendido a chamar os grandes na intimidade) e Guimarães Rosa, com A terceira margem do rio. Pense no filme Matrix, quando colocam o Neo na cadeira, enfiam um espeto na sua cabeça e o conhecimento é injetado instantaneamente; ler Guimarães Rosa foi, e é, aquilo.

A terceira margem do rio foi publicado na coletânea Primeiras Estórias, em 1962, coleção onde o autor continua suas representações do sertão. O conto tem uma trama primária: um belo dia, um pai de família larga tudo e passa a viver numa canoa dentro de um rio, sem nunca mais atracar ou dar qualquer explicação. Narrado em primeiro pessoa pelo filho do barqueiro, o relato acompanha as consequências da atitude do pai: a decadência da família e a angústia do filho.

Guimarães Rosa tinha algo de extraterreno. Era um adorador de idiomas, conhecia e estudava dezenas, e sua literatura é esse liquidificador de gramáticas, sintaxes, sotaques e neologismos. É covardia; como um pianista ter seis mãos ou um jogador de futebol com quatro pés. Uma curiosidade: mesmo sendo um mestre em criar nomes, nenhum personagem é nomeado no conto, o que o deixa ainda mais etéreo.

Chegamos então nas questões simbólicas do conto. Num mundo, ou melhor, num universo onde a dualidade é lei (positivo/negativo, luz/escuridão, vida/morte), que terceira margem é essa? Qual é esse novo vértice? Como alguém pode encontrar esse lugar impossível e ainda passar a vida lá? E esse rio, meus deus, o que significa esse rio?

Não sei e lembro de Bob Dylan. Joan Baez desperta com o teleque-teque da máquina de escrever e encontra o namorado escrevendo alucinado em plena madrugada. Ele percebe a mulher e fala, sem desviar do papel: “Babe, isso aqui é muito louco. Todo mundo vai perguntar o quero dizer, mas eu só escrevo; não faço a mínima ideia.” E continua com o teleque-teque.

Passamos por Matrix, acrescentamos Bob Dylan e, para finalizar, sugiro Chacrinha, por favor, não esquecendo que o tema ainda é Guimarães Rosa. Pois Chacrinha veio para confundir, e não para explicar. Assim como o escritor mineiro e todos os gênios como ele. Porque boa literatura traz respostas, mas a grande literatura levanta perguntas.

Trecho do conto A Terceira Margem do Rio, de Guimarães Rosa:

“Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente — minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa.”

Trecho do conto O mistério de Barra Pequena, de João Vereza:

“Naquela manhã, Lauríssima estava tão linda que chegar perto seria como quebrar encanto. Preferi voltar pra minha vida; tudo o que tinha que acontecer ia acabar acontecendo. Sem pressa, como em pescaria. Escolhendo o anzol, medindo o fundo, preparando a isca. Não tem nada pior do que perder um peixe bom por falta de paciência. Andando para o mangue, com o pé no chão e o boné pelo caminho, ainda deu pra ouvir o sino rouco da igreja. Era a certeza de que Padre Benigno estava sempre por perto. Tinha chovido muito na noite de ontem, muita água caiu lá de cima. E muita água é muita lama, muito caranguejo. Hoje o balde ia voltar cheio de dar gosto.”
 

João Vereza, 34 anos, é carioca e mora em São Paulo desde 2006. Redator publicitário, foi vencedor do Prêmio Sesc 2012/2013, com o livro de contos Noveleletas (Record), este também finalista do Prêmio Jabuti 2014.

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