Contando e Cantando (Volume 2)

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Maikel de Abreu resenha seu conto predileto

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Maikel de Abreu resenha seu conto predileto: ‘O herege’, de Jack London

Sérgio Tavares, no Homo Literatus

Foto-Maikel-PB

Eu era operador de injetora plástica numa notória (e já falida) fábrica de eletrodomésticos. Costumava ler livros e revistas musicais entre os ciclos da minha máquina. 60 segundos até a peça de plástico ser moldada equivalia a uns dois ou três parágrafos lidos. Havia comprado De Vagões a Vagabundos numa banquinha de revistas na rodoviária de Porto Alegre. O subtítulo já era preciso sobre o que eu já esperava: “memórias do submundo”, pra quem não sabe, todos os contos têm forte caráter autobiográfico, inclusive revelam as inclinações políticas de Jack London (ler Como me tornei socialista).

Quando retornei para Caxias do Sul esqueci o livro numa caixa, embaixo da minha bancada de trabalho. Ficou lá, soterrado sob peças deformadas e ferramentas, por semanas. Só fui lembrar dele num dia em que minha máquina estava em manutenção. Só que, quando comecei a leitura, minha máquina já estava pronta pra funcionar. Mesmo assim avancei, me aferrei logo às primeiras páginas. Depois de ler a prestações metade do livro, em horário de trabalho, senti necessidade de ler O herege novamente. Fiz uma segunda leitura no ônibus da empresa. Não satisfeito, porque no ônibus minha atenção se diluía nas conversas dos colegas, fui para uma terceira leitura durante o cursinho noturno, com aquele volume nanico devidamente inserido dentro de outro livro, só que esse, era de física. Foi nocaute.

O conto narra em terceira pessoa o cotidiano de Johnny. Um pré-adolescente que é um dos esteios de uma família numerosa, sem pai, beirando a miséria. Para ajudar no sustento da mãe e dos irmãos mais novos, Johnny enfrenta uma rotina extenuante de trabalho numa insalubre tecelagem de juta, onde cumpre 10 horas por dia e recebe a ninharia de 10 cents a hora. Nascido dentro de uma fábrica, filho de mãe já explorada pelo regime de trabalho absurdo que caracteriza o pós revolução industrial no fim do século 19, Johnny encontra uma saída inusitada para se libertar de sua rotina degenerativa.

Curiosa é a história da concepção do conto. Em 1906, Jack London foi convidado por um editor de uma revista da Costa Oeste para visitar o sul dos EUA, no intuito de escrever uma reportagem sobre o trabalho infantil nas tecelagens de algodão. Por falta de tempo, se viu forçado a recusar o convite. Talvez, por senso de dever, ou mais provavelmente acerto de contas com o passado, London escreveu O herege. Publicado naquele mesmo ano no Woman’s Home Companion, o curto texto se tornou uma arma de ponta na luta pela abolição do trabalho infantil nos Estados Unidos.

Confesso que, quando jovem, eu tinha uma tendência a procurar por histórias pungentes, que me desestruturavam por alguns minutos ou algumas horas. Hoje não tenho mais essa preferência, essa espécie de vício. Ao revisitar O herege, obviamente não senti o mesmo baque e nem esperei sentir. A gente cresce, mas mesmo assim bateu um saudosismo besta quando reencontrei o livro, agora com uma capa redesenhada, que peguei emprestado de um amigo, porque o meu sabe lá onde foi parar.

Trecho do conto ‘O herege’, de Jack London

“Jamais houvera um tempo em que não tivesse vivido em íntimas relações com as máquinas. As máquinas quase tinham sido criadas dentro dele; de qualquer modo, ele tinha sido criado junto delas. Doze anos antes, houvera um pequeno alvoroço na sala dos teares dessa mesma tecelagem. A mãe de Johnny desmaiara. Esticaram-na no chão em meio às máquinas barulhentas. Duas mulheres mais velhas foram chamadas. O supervisor as assistiu. E em poucos minutos havia na sala dos teares uma alma a mais de quantas tinham entrado pelas portas. Era Johnny, nascido com o som e o peso dos teares em seus ouvidos, sorvendo, no seu primeiro respirar, a atmosfera úmida, abafada e impregnada de tantos fiapos de fibras suspensas. Naquele primeiro dia ele tossiu para livrar seus pulmões daquelas fibras, e pelo mesmo motivo começou a tossir desde então.”
 

Trecho do conto ‘Finados’, de Maikel de Abreu

“Chegou com fome, acendeu três velas sobre a mesa, preparou uma massa com molho branco. Abriu uma garrafa de vinho tinto. Recebeu três chamadas no celular, desligou, não queria ser incomodada durante seu rito de luto. Sentou-se na sacada, onde seus três gatos apanhavam sol no fim da tarde. Embebedou-se, deixou a massa queimar. Sua imaginação combinada ao vinho tornava sólido tudo o que pensava. Pegou seu bloco de notas e começou a escrever três histórias sobre a vida de três mulheres diferentes. Riu e chorou à medida que sua caneta deslizava sobre o papel áspero construindo suas falsas biografias. Não parou de escrever por seis horas. Acabou com a garrafa de vinho, jogou a massa no lixo, comeu mais bolachas, não lavou a louça. Largou o bloco de notas sobre a mesa de centro. Saberia que seu novo romance seria um sucesso. ‘Sou três vidas falsas’ – pensou no título.”
 

Maikel de Abreu nasceu em Caxias do Sul, em 1981. Escreveu, em parceria com César Mateus, Couro ilegítimo e outros contos (2012, Modelo de nuvem), participou da coleção Formas Breves com o conto Às noites de distância (2014, e-galáxia), e atualmente se dedica a uma novela. É técnico em enfermagem há mais de oito anos, mas já foi operário, músico, assessor de imprensa …em suma, um biscateiro.
 

Whisner Fraga resenha seu conto predileto

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Whisner Fraga resenha seu conto predileto: “Tarde da noite”, de Luiz Vilela

Sérgio Tavares, no Homo Literatus

Foto-Whisner-PB

O conto se inicia com um casal em uma cama e com um telefone que toca em um criado no quarto escuro. O homem atende e aos poucos é levado para um mundo estranho e ao mesmo tempo instigante. Luiz Vilela sempre trabalha com paradoxos e diálogos. Ficamos sabendo que, do outro lado da linha, uma moça afirma que vai se matar e que ela deseja que alguém a convença a não fazer isso. Evidentemente, ele pensa que é tudo brincadeira, mas a dúvida o leva a conversar seriamente. Há tempos não sentia o coração pulsar tão rapidamente, aquele frio na barriga, aquela emoção da juventude e, de repente, é ele que não deseja que aquela conversa não acabe mais.

Então, o homem repensa sua própria vida de decisões pretensamente equivocadas enquanto tenta convencer a moça de que tem um futuro à frente e que não é sensato colocar fim à vida dessa maneira. O problema é que vai ficando claro que acredita cada vez menos nisso. Assim, a conversa segue pela madrugada, enquanto a esposa, cansada e rabugenta, não se interessa por dramas alheios e insiste para o marido desligar, que não se acorda alguém assim de madrugada. Vamos percebendo que o homem se envolve com a moça e pensa até, quem sabe, que está tendo um caso.

Não há grandes argumentos, as falas são simples, corriqueiras e o papo prossegue até que, em determinado momento, a garota desliga e não se pode saber mais nada.

Vilela usa, desde seu primeiro livro, o recurso do diálogo. Para mim, o diálogo é uma forma complicada de representar a realidade e a menos verossímil, mas tenho no escritor mineiro um expert nessa arte. Opta pela norma culta para reproduzir uma oralidade que em nada se parece com a língua escrita. Funciona, mas é bom que o leitor tenha em mente que, por mais que se esforce para se aproximar da fala, é apenas uma tentativa frustrada. É uma fantasia dentro de um mundo de ficção. As conversas são lineares, um interlocutor não interrompe o outro, como se fossem um algoritmo, que obedece a uma ordem preestabelecida. Os diálogos na vida real nunca são assim. Mesmo com todas essas ressalvas, não há dúvidas de que o grande mestre neste quesito, na literatura brasileira e até em termos mundiais, é Luiz Vilela.

Trecho do conto Tarde da noite, de Luiz Vilela

“Olha, senhorita, sabe que estou quase desligando o telefone?
Pode desligar. A responsabilidade é sua.
Responsabilidade porque?”, falou irritado.
Porque minha vida está em suas mãos.
Ah é né?
Sério. Não estou brincando. O senhor não percebeu ainda? Que minha vida está em suas mãos?”

Trecho do conto x, de Whisner Fraga

“[…]ao ríspido guincho do fusca, que empregávamos para as aulas de volante, quando os trâmites da embreagem desafiavam a coordenação dos seus pés encolhidos nas havaianas, afif, quando um galho amputado se interpunha na promiscuidade entre o pneu e o asfalto e os pelos de duas meninas se ouriçavam com o zurro descautelado do ramo partido e estacionávamos para analisar aqueles seios ressabiados nos coldres do poliéster e da lycra, as convocávamos para um sorvete e também para um cinema, onde aproveitaríamos uma que outra cena umbrosa na insignificância da fita para atacar o crepe daquelas coxas juvenis e quem sabe conquistar a mercê de um beijo. entretanto, afif, o mocinho da película acalcava a inquietação do negrume de um quarto sem janelas ou lâmpadas ou mesmo lampiões ou velas e nesta hora eu interpelava a arrelia dos flashes na mansidão da tela, os olhos escapando da agilidade da palma, que investigava a angustiante morfologia do joelho, daquele pontifício joelho representando a aflitiva transição para o âmbito das responsabilidades. contudo, afif, a ansiedade bordejava pelos subterrâneos da garganta, preparando o sobressalto de um grito e a glutinosa serenidade de um toque a ponderar os estratagemas do zíper de minha bermuda, era a sua audácia, garota, rompendo os entraves até ao termo do que julgava sua obrigação, quando você recolheu o fantoche da glande embrulhado com a casca daquela novidade ondulante e eu já comprovava a vantagem dos filmes em preto e branco para o encobrimento de peripécias. a rebeldia tentacular bamboleando a carenagem do sexo até à catastrófica descarga escalando as suas mãos, menina, e você a emborcar os dedos na língua, extirpando as evidências daquele incidente, para em seguida me oferecer o lenço, para depois hastear a saia e afastar com o desatino do polegar as rendas da lingerie e com o indicador encorajar uma morosa confidência com o prazer.”

Whisner Fraga é professor, engenheiro e escritor. Autor dos livros Coreografia de danados, A cidade devolvida, As espirais de outubro, Abismo poente, O livro da carne e Sol entre noites. Site: www.whisnerfraga.com.br.

Henrique Rodrigues resenha seu conto predileto

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Henrique Rodrigues resenha seu conto predileto: ‘Pierre Menard, autor do Quixote’, de Jorge Luis Borges

Sérgio Tavares, no Homo Literatus

Foto-Henrique-PB

Pierre Menard, autor do Quixote é um dos contos presentes no livro Ficções, de 1944. Trata-se de um texto, a meu ver, extremamente humorístico e, por isso mesmo, relevante pacas.

Nele, um narrador comenta sobre um escriba, chamado Pierre Menard, que teria deixado, além da obra conhecida, outra mais interessante e “subterrânea”, escondida e inconclusa. Dentre esses textos, ele seria o autor de partes do Dom Quixote. Pierre Mendard teria vivido entre o final do século XIX e início do XX. Pera lá!

Segundo os relatos, o propósito do autor não seria copiar ou escrever um novo Quixote, mas o original, palavra por palavra. Para isso, Menard deveria se transformar em Cervantes, deixando para lá os 300 anos de diferença.

É interessantíssima a comparação de dois trechos – o Quixote de Cervantes e o de Menard – feita pelo narrador. Ainda que sejam idênticos, o narrador o cita duas vezes, a fim de ressaltar as diferenças:

“… a verdade, cuja mãe é a história, êmula do tempo, depósito das ações, testemunha do passado, exemplo e aviso do presente, advertência do futuro.”

Enquanto Cervantes teria feito apenas um elogio retórico da história, Menard teria escrito o mesmo texto com outro sentido mais crítico, resultado de novas conceituações de verdade e de história – e aí os 300 anos começam a aparecer novamente, indissociáveis da primeira camada literária.

Nesse conto, como em outros do mesmo livro, Borges faz o diabo com as ideias de espaço e tempo, repensando o fazer literário e a própria ideia de leitura. É por isso que ler esse conto provoca um tipo de viagem embaralhada no conceito racional de sincronia e de verossimilhança narrativa. Borges escreveu Pierre Menard como se colocasse uma ampulheta sobre um espelho, e logo depois outro espelho por cima, elevando a anacronia literária a possibilidades infinitas.

O Quixote, que já foi em si uma lupa crítica em torno das novelas de cavalaria, ganha aqui uma nova lente dimensional. Como disse o próprio Menard numa carta ao narrador do conto: “Todo homem deve ser capaz de todas as ideias e suponho que no futuro o será”.

Trecho do conto ‘Pierre Menard, autor do Quixote’, de Jorge Luis Borges

Por que precisamente o Quixote? – dirá nosso leitor. Essa preferência, num espanhol, não seria inexplicável; mas o é, sem dúvida, num simbolista de Nime, essencialmente devoto de Poe, que gerou Baudelaire, que gerou Mallarmé, que gerou Valéry, que gerou Edmond Teste. A carta acima mencionada elucida a questão. ‘O Quixote’, esclarece Menard, ‘interessa-me profundamente, mas não me parece – como direi? – inevitável’. Não posso imaginar o universo sem a interjeição de Poe: Ah, bear in mind this garden was enchanted!

Trecho do conto ‘Hey Jude’, de Henrique Rodrigues

Ao sair da estrada principal e entrar na rua esburacada, a lembrança do desenho a que gostava de assistir na infância veio junto com aquele cheiro da terra molhada. Embora tivesse passado tanto tempo, as vias permaneciam sem calçamento, e o barro tinha a mesma tonalidade entre marrom e cinza: só ali a terra era daquele jeito estranho. Ainda passavam bois? Olhando para a chuva de verão que caía, Renato começou a concluir que, naquele lugar, somente o chão e o céu nunca mudavam. Mas entre ambos não havia dúvida: tudo era diferente. A ideia da infância rupestre – como a mulher ironizava –, até há pouco tempo bem-vinda, ficava apertada, e se espremia ainda mais por ter de voltar às pressas para o local que, nos últimos trinta anos, acumulou poeira num canto abandonado da memória.
 

Henrique Rodrigues é doutor em Letras pela PUC-Rio. Publicou o livro de poemas A musa diluída, além de vários infantis e juvenis, como Versos para um Rio Antigo e O tesouro na sombra da árvore. É organizador e coautor das antologias de contos Como se não houvesse amanhã e O livro branco (de onde o conto Hey Jude foi extraído), inspiradas nas músicas da Legião Urbana e Beatles. Costuma visitar escolas e eventos literários, e trabalha com projetos voltados para a promoção de leitura.

Wesley Peres resenha seu conto predileto

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Wesley Peres resenha seu conto predileto: ‘A menor mulher do mundo’, de Clarice Lispector

Sérgio Tavares, no Homo Literatus

Foto-Wesley-PB

A menor mulher do mundo, lido com certa pressa, parece ser somente um conto sobre a descoberta na África, por um explorador, da menor mulher do mundo, consistida de poucos e inespecíficos centímetros. No entanto — parafraseando um certo Proust — as coisas só parecem ser elas mesmas e não outras pela imobilidade do nosso pensamento. Mobilizando-o, ele, o pensamento, faremos uma grande descoberta: todos os grandes textos literários são palimpestos móveis, padecem de várias camadas que se movem em níveis, podendo uma camada ser a mais superficial, num instante ou sob um certo olhar, sendo a mais profunda e rasurada, num outro instante ou sob um incerto certo olhar. Então que, numa das camadas móveis, dessa peculiar matéria geológica, encontramos A menor mulher do mundo como um pequeno e denso tratado acerca do amor — e o seu horror, que se perdoe a rima, mas, no caso, não há palavra mais precisa.

No Congo Central, o explorador Marcel Petre descobre os menores pigmeus do mundo e, “como uma caixa dentre de uma caixa, dentro de uma caixa”, ele se depara com o menor do menor, a menor mulher do mundo, resultado da “necessidade [que] a Natureza tem de exceder a si própria”.

Veremos, conforme percorremos a textura do conto, que o excesso atribuído à Natureza é apresentado como equivalente à potência violenta do amor: a Natureza, no universo do conto, é criadora de matérias que violentam pela estranheza, enquanto o amor se confunde com fenômenos humanos também estranhos a certa concepção unidimensional do amor (sempre do lado do bem); o amor, aqui, está num espaço intermediário entre a ternura e a posse que, se impossível, é substituída pela destruição. Posse e destruição estão no registro de uma crueldade amorosa, impulsionada pela ternura. Veremos ainda que, a mínima mulher, inédita matéria aos olhos humanos (pelo menos àqueles exteriores à floresta do Congo), será o “objeto-causa” do despertar da multidimensionalidade do amor.

O explorador, diante de “uma mulher que a gulodice do mais fino sonho jamais pudera imaginar”, diante da “coisa humana menor que existe”, diante do inominável, diante disso o explorador é compelido à inventar uma definição, menos do que isso, um nome: “Você é a pequena flor”. A violência do amor começa a se delinear pela nomeação, nomear já é um tanto devorar o outro, e amor já se desenha como impacto de algo inominável que habita o outro — Deleuze afirma que amamos o ponto de loucura do outro. Diante de tal impacto, a reação do nomear, a reação violenta de conferir margens a algo que se configura fora delas.

A narrativa sofre um corte, e passamos a acompanhar o impacto da contingência Pequena Flor sobre os espectadores de noticiários ao se haverem com a notícia da menor mulher do mundo.

Num apartamento, “uma senhora teve tal perversa ternura pela pequenez da mulher africana que — sendo melhor prevenir do que remediar — jamais se deveria deixar Pequena Flor sozinha com a ternura da senhora. Quem sabe a que escuridão de amor pode chegar o carinho. A senhora passou o dia perturbada, dir-se-ia tomada pela saudade”, saudade do que nunca possuiu. Assim, notamos que, no amor segundo C.L., nucleado pela perversa ternura, o ser amado corre o risco de se converter em objeto apequenado e devorado.

O ponto mais fundamental dessa teoria do amor como horror, está no parágrafo em que uma certa mãe, recorda uma história que ouviu da cozinheira sobre o tempo do orfanato. Uma das órfãs falece, as outras guardam o cadáver no armário até a freira sair. Então, elas “brincaram com a menina morta, deram-lhe banhos e comidinhas, puseram-na de castigo somente para depois poder beijá-la, consolando-a”, tudo isso porque “a maternidade já [estava] pulsando no coração das órfãs”. Devemos sublinhar que, a modalidade de amor tida como a mais intensa (ao menos no senso comum, que não abrange poucos), a do amor materno, justo por ser o amor na sua mais alta voltagem, apresenta-se no conto como o mais cruel dos amores.

A partir dessa história contada pela cozinheira, a mãe “considerou a cruel necessidade de amar. Considerou a malignidade do nosso desejo de ser feliz […] E o número de vezes que mataremos por amor”. A seguir, ela olha para o filho como se ele fosse um perigoso estranho, pois ela havia engendrado um ser que, como ela, como todos os humanos, é um ser apto à felicidade do amor, que se confunde com a crueldade e com malignos desejos endereçados ao outro, a quem mataremos sabe-se lá quantas vezes, por amor.

Até aqui, temos uma investigação do amor como crueldade sempre do ponto de vista daquele que ama — do amador, digamos. Mais ao final do conto, encontramos dentro de uma cápsula de linguagem, a condensação do que se passa do lado da Pequena Flor, metáfora de quem está na posição de ser amado: “Não ser devorada é o sentimento mais perfeito”.

Não ser devorado, eis o amor em sua perfeição, em seu ideal — e ideal se trata do inalcançável — abraçado pelo senso comum (que não inclui poucas gentes), eis o melhor que se pode esperar (não alcançar) do amor segundo C.L., apresentado nesse pequeno e denso tratado sobre o amor, disfarçado sob a máscara da história de um explorador no coração da África, que descobre menor mulher do mundo.

 

Trecho do conto ‘A menor mulher do mundo’, de Clarice Lispector

Há um velho equívoco sobre a palavra amor, e, se muitos filhos nascem desse equívoco, tantos outros perderam o único instante de nascer apenas por causa de uma susceptibilidade que exige que seja de mim, de mim!, que se goste e não do meu dinheiro. Mas na umidade da floresta não há desses refinamentos cruéis, e amor é não ser comido, amor é achar bonita uma bota, amor é gostar da cor rara de um homem que não é negro, amor é rir de amor a um anel que brilha. Pequena Flor piscava de amor, e riu quente, pequena, grávida, quente.

 

Trecho do conto ‘Monte Castelo’, de Wesley Peres.

Quando se tem uma história trágica. Bem, então se tem uma história. Quanto ao valor de se ter ou não uma história, isso é outra coisa. H. se ocupa desses pensamentos que o ocupam, que ocupam seu tempo (ele mesmo transcorrendo, pulsando, aproximando-se da morte). H. se ocupa desses pensamentos enquanto faz uma coisa tão prenhe de enquanto: almoçar. Com uma delicadeza que não possui, maneja os talheres a fim de produzir distância entre o osso e a carne de frango.

 

Wesley Peres é autor dos romances As pequenas mortes (Rocco, 2013) e Casa entre vértebras (Record, 2007), vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2006, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2008 e indicado ao Portugal Telecom 2008. Publicou ainda os seguintes livros de poesia: Palimpsestos (Editora da UFG, 2007) e Rio revoando (USP\Com-Arte 2003). O conto ‘Monte Castelo’ integra a coletânea Como se não houvesse amanhã.

Renato Tardivo resenha seu conto predileto

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Renato Tardivo resenha seu conto predileto: ‘O conto da ilha desconhecida’, de José Saramago

Sérgio Tavares, no Homo Literatus

Foto-Tardivo-PB

As livrarias mega store eram novidade nos shoppings da cidade. Antes, as livrarias eram bem menores. Perguntava-se pelo título do livro. Tem, tem; não tem, encomenda. E os vendedores faziam cara feia se você folheasse livros ou revistas. Mas nas mega stores havia poltronas confortáveis, tocava-se música agradável, vendia-se café. E havia um enorme acervo de livros a ser saboreado. Isso mesmo: era permitido manusear o produto, folhear, experimentar… e não comprar.

O menino que pouco tempo antes ia ao shopping para jogar boliche com os amigos, tomar um lanche ou comprar roupa, às vezes um CD, agora tinha outra motivação: os livros. E essa transformação coincidiu com a mudança no conceito de livraria. Então o menino olhava as vitrinas, corria os olhos pelas estantes, de vez em quando saía com algum livro. Desde então adquirira o hábito de estar sempre lendo alguma coisa. A vida sem leitura ficava esvaziada.

Mas não fora sempre assim. Nos tempos de colégio, anos antes, salvo uma ou outra exceção, lia mais por obrigação que por prazer. Mas lia, mesmo quando tinha a impressão de ter perdido o tempo sofrido da adolescência lendo livros que não entendia nada. Nessa época, ouviu falar em um escritor português, ainda em atividade, chamado José Saramago. De vez em quando, cismavam de incluir Memorial do Convento, romance de sua autoria, na lista de leituras obrigatórias para o vestibular. Saramago era dono de uma escrita peculiar, assegurava a professora, as frases eram retorcidas, os parágrafos intermináveis, nos diálogos não havia travessões nem aspas, a ortografia era a vigente em Portugal. Uma tortura.

O menino soube depois que esse escritor estava em alta. Escrevera um livro ousado, O Evangelho segundo Jesus Cristo, que, por conta da repercussão em Portugal, país fortemente católico, levou o escritor a fixar moradia na Ilha de Lanzarote, na Espanha. Com Ensaio sobre a Cegueira Saramago se firmaria como um dos nomes cotados para o Nobel de Literatura, prêmio que de fato receberia.

Já na faculdade, nessa época da invasão das mega stores, uma professora recomendou o romance recém-lançado A Caverna, primeira obra de Saramago que ele leu. E gostou muito. Ainda naquele ano o menino leria ao menos outros dois romances do autor. Esse era o contexto quando deu com uma edição caprichada, recheada de aquarelas de Arthur Luiz Piza no miolo (e não apenas na capa, como nos demais livros), intitulada O Conto da Ilha Desconhecida. Com o livro em mãos, o menino encontrou uma poltrona disponível. Sentou-se para ler um trecho.

No conto, um homem vai ao palácio pedir ao rei um barco. Quer ir à procura da ilha desconhecida:

Que ilha desconhecida, perguntou o rei disfarçando o riso, como se tivesse na sua frente um louco varrido, dos que têm a mania das navegações, a quem não seria bom contrariar logo de entrada, A ilha desconhecida, repetiu o homem, Disparate, já não há ilhas desconhecidas, Quem foi que te disse, rei, que já não há ilhas desconhecidas, Estão todas nos mapas, Nos mapas só estão as ilhas conhecidas, E que ilha desconhecida é essa de que queres ir à procura, Se eu te pudesse dizer, então não seria desconhecida.

O rei lhe dá o barco. A mulher da limpeza do palácio sai pela “porta das decisões” e decide unir-se ao homem. Que sai em busca de tripulantes para a jornada, mas volta (sem homens) com um naco de queijo e uma garrafa de vinho para jantar com a mulher no barco, atracado ao porto. Os dois apenas. Pousam lá.

Na livraria o menino, que em princípio leria um trecho do livrinho de 64 páginas, se deu conta de que em mais alguns minutos concluiria a leitura. Será que pode?, ele se perguntou. Que era permitido ler trechos, isso ele já sabia. Mas um livro todo… Como se vigiassem o seu olhar, o menino prosseguia também ele atrás da sua ilha desconhecida, vencendo o medo, encarando as câmaras de segurança, o olhar de esguelha da pessoa ao lado. Todos saberiam que ele lera um livro inteiro e não o comprara. Que lera que “Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar”, e que, quem sabe por isso, não compraria o livro. Não naquela hora. Não aquele exemplar. Gostar bastava.

Seu conto preferido? O homem não sabe. Certamente leu inúmeros contos tão bons quanto, talvez alguns melhores. Mas jamais se esquecerá de, comovido, fechar o livro, levantar-se da poltrona, esquecê-lo em um canto qualquer e deixar a livraria. O menino de então vivia algo desconhecido, e não sabia que aquela busca estava apenas começando.

Trecho do conto ‘O conto da ilha desconhecida’, de José Saramago

A mulher da limpeza pousou o balde, meteu as chaves no seio, firmou bem os pés na prancha, e, redemoinhando a vassoura como se fosse um espadão dos tempos antigos, fez debandar o bando assassino. Foi só quando entrou no barco que compreendeu a ira das gaivotas, havia ninhos por toda a parte, muitos deles abandonados, outros ainda com ovos, e uns poucos com gaivotinhos de bico aberto, à espera da comida, Pois sim, mas o melhor é mudarem-se daqui, um barco que vai procurar a ilha desconhecida não pode ter este aspecto, como se fosse um galinheiro, disse.
 

Trecho do conto ‘Silente’, de Renato Tardivo

A primeira vez que vi a morte de perto foi quando o meu avô faleceu. Lembro que, no momento de fechar o caixão, alguns parentes cuidaram para me afastar. Em vão. Apenas mais distante que os demais, vi meu pai, debruçado sobre o corpo do pai dele, sopra-lhe alguma coisa no pé do ouvido. Jamais esqueci essa cena.
No dia seguinte ao enterro, eu e meu pai sozinhos no carro, tomei coragem e perguntei:
Pai, o que você disse pro vovô aquela hora?

Renato Tardivo nasceu em São Paulo, onde vive. Escritor e psicanalista, é autor dos livros de contos Do avesso (Com-Arte/USP) e Silente (7Letras), e do ensaio Porvir que vem antes de tudo – literatura e cinema em Lavoura arcaica (Ateliê/Fapesp). É colunista do site da revista Cult.

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