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Contra ódio, ‘Diário de Anne Frank’ foi lido antes de partidas de futebol

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O diário de Anne Frank (Foto: Domínio Público)

O diário de Anne Frank (Foto: Domínio Público)

Publicado na Galileu

tradicional minuto de silêncio que antecede algumas partidas de futebol foi diferente na rodada do meio da semana do Campeonato Italiano. Enquanto todos os jogadores e a arbitragem perfilavam, uma criança logo começava a leitura: “Eu vejo o mundo lentamente se transformando em selvageria; eu escuto o aproximar de um trovão que, um dia, vai nos destruir também. Eu sinto o sofrimento de milhões. E ainda, quando eu olho para o alto no céu, de alguma forma eu sinto que tudo vai mudar para melhor, que essa crueldade também vai acabar, que a paz e a tranquilidade vai retornar mais uma vez”.

O texto é um trecho do Diário de Anne Frank, escrito entre 12 de junho de 1942 e 1º de agosto de 1944, enquanto a jovem, então com 14 anos, quando se escondia com sua família e outros judeus perseguidos pelo exército alemão em um compartimento secreto junto aos escritório de seu pai, em Amsterdã. Menos de um ano depois, Anne foi encontrada pelos nazistas e morreu em um campo de concentração, mas suas palavras sobreviveram e viraram livro símbolo do extermínio judeu.

No último domingo (22) membros de uma torcida organizada da Lazio, clube da capital italiana, espalhou fotos de Anne Frank vestida com a camisa da rival Roma pelo setor sul do Estádio Olímpico, após a partida contra o Cagliari. Conhecidos como Irriducibili, os fascistas travestidos de torcedores normalmente ocupam o setor norte do estádio, mas o local estava interditado justamente devido a manifestações racistas três semanas antes, em uma partida contra o Sassuolo.

A ligação da torcida da Lazio com a extrema-direita não é nova. Começou ainda na primeira metade do século passado, graças a um famigerado torcedor, o ditador fascista Benito Mussolini. Na temporada de 1998/1999, em um clássico contra a Roma, os Irriducibili estenderam uma faixa na arquibancada com a frase “Auschwitz vossa Pátria, os fornos vossas casas”, em referência ao campo de concentração na Polônia que matou milhares de judeus em fornos e câmaras de gás. Uma das vítimas foi Anne Frank. Também não é difícil encontrar bandeiras nazistas pela arquibancada.

Os jogadores da Lazio até tentaram fazer com que a torcida tome um jeito. Na noite de quarta-feira (25 de outubro), eles entraram em campo para a partida contra o Bologna, no estádio local Renato Dall’Ara, com camisetas que estampavam a foto de Anne Frank e trazia uma mensagem contra o anti-semitismo. Mas não deu muito resultado. A maioria da torcida da Lazio boicotou a partida, enquanto alguns poucos que entraram ficaram cantando “Ne me frego”, ou “Eu não ligo”, enquanto o trecho do livro era lido.

O presidente do clube, Claudio Lotito, também tentou fazer sua parte. Ou mais ou menos isso. Ainda na segunda-feira visitou uma sinagoga em Roma e anunciou planos de levar alguns torcedores para conhecer Auschiwitz. Mas não demorou muito para ser desmascarado. Em um áudio vazado na quarta-feira aparecia afirmando que suas atitudes eram “um teatro que tinha que fazer”.

Na maioria dos estádios do país, da primeira à terceira divisão, a leitura do trecho do livro deu certo. Com aplausos da torcida e respeito. Em Turim, no entanto, quando a Juventus se preparava para enfrentar o SPAL, parte da torcida virou as costas para o campo e cantou o hino italiano durante a leitura. Torcedores da própria Roma também ignoraram as palavras de Anne Frank e não cantando em apoio a seu time.

Menos trigonometria, mais pensamento crítico: Especialista do MIT sugere estratégias contra ‘passividade’ de alunos

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Jennifer Groff defende ensino mais baseado em habilidades e competências do que em disciplinas tradicionais (Foto: Arquivo pessoal)

Jennifer Groff defende ensino mais baseado em habilidades e competências do que em disciplinas tradicionais (Foto: Arquivo pessoal)

Jennifer Groff, pesquisadora-assistente do Laboratório de Mídias da universidade americana, defende mais flxibilidade em sala de aula para incorporar jogos, projetos e se livrar de antigas disciplinas desconectadas da realidade dos estudantes.

Publicado no G1 [via BBC Brasil]

Disciplinas de pouca aplicação prática e ensino de conteúdo distante do contexto real são prejudiciais aos alunos por ensiná-los a pensar de um modo linear, que não os prepara para o mundo. É o que diz a especialista americana em educação Jennifer Groff, pesquisadora-assistente do Laboratório de Mídias (Media Lab) do MIT (sigla em inglês para o Instituto de Tecnologia de Massachusetts). Groff é autora de estudos sobre ensino personalizado, inovações em sistemas de aprendizagem e uso de jogos e tecnologias em sala de aula.

Em entrevista à BBC Brasil em São Paulo, onde atuará como diretora pedagógica da escola Lumiar, Groff faz coro ao crescente número de especialistas internacionais que defendem um ensino mais baseado em habilidades e competências do que em disciplinas tradicionais.

Ela também defende que a mudança na base curricular brasileira (documento do Ministério da Educação atualmente em fase de consulta pública) é uma oportunidade para dar flexibilidade para que professores possam adotar jogos, brincadeiras e projetos em sala de aula.

A seguir, os principais trechos da entrevista:

BBC Brasil – Uma das áreas que você estuda é aprendizagem por jogos. O que, na sua experiência, tem funcionado ou não em termos de jogos em sala de aula?

Jennifer Groff – Em nosso laboratório, buscamos jogos que envolvam (o aluno) em experiências e permitam a imersão em um conceito – em vez de um jogo que simplesmente o instrua a fazer uma tarefa.

Por exemplo, para ensinar a tabuada, brincadeiras com blocos permitem às crianças perceber que “dois blocos mais dois formam quatro”.

Não gostamos de jogos em que o aluno completa quatro perguntas de matemática para ganhar o direito de atirar em alienígenas e em seguida, “ok, a brincadeira acabou, é hora de resolver mais uns problemas de matemática”.

Tentamos ajudar os professores a verem o valor de um aprendizado mais voltado à brincadeira, explorando um tópico em vez de “encher” a cabeça dos alunos com ideias.

Videogames comerciais também podem ser usados de modo eficiente. Civilization e Diplomacy já foram usados por bons professores como ferramenta para engajar os alunos em temas como negociação, por exemplo. (…) E (é importante) deixar as crianças liderarem (o processo), deixar que elas sejam professores também.

BBC Brasil – Muito tem sido dito sobre o aprendizado não mais centrado no professor, e sim nos alunos. É a isso que você se refere?

Groff – Exatamente. Muitos dos jogos que desenvolvemos no nosso laboratório são criados para serem jogados socialmente, em grupos – somos seres sociais e não construímos conhecimento em isolamento.

Fazemos com que essa experiência individual e coletiva seja o centro (do aprendizado), e o professor (tem de) criar um ambiente dessas experiências para as crianças e, talvez depois, avaliar essas experiências – mais do que comandar um plano de aula.

BBC Brasil – O que tem sido mais eficiente nas transformações dos ambientes de aprendizagem nas escolas?

Groff – Sabemos por pesquisas e por escolas (bem-sucedidas) que o bom aprendizado é centrado no estudante, que constrói seu próprio conhecimento socialmente.

Em muitos currículos, temos aquela aula de 45 minutos de matemática, por exemplo, e (os estudantes) nem sequer sabem por que estão aprendendo matemática. Os estudantes não a recebem (o conteúdo) em contexto.

E contexto é algo poderoso – projetos, problemas, conceitos do mundo real. As escolas em que vejo um aprendizado mais robusto são as que trabalham nesses parâmetros (…) baseados em competências.

A questão é que (historicamente) não sabíamos como medir o desempenho dos alunos em grande escala, então os dividimos em séries com base em suas idades, todos aprendendo a mesma coisa ao mesmo tempo.

Hoje vemos que isso não ajuda muito. Entendemos hoje que o aprendizado é orgânico, individualizado, diversificado, e no entanto o jeito como gerenciamos nossas escolas não reflete isso.

Por isso que tem ganhado muita atenção o modelo de aprendizado baseado em competências – por exemplo, pensamento crítico e outras habilidades, em vez de dividir (as aulas) artificialmente em matérias.

BBC Brasil – E como conciliar isso com um modelo tradicional de provas e avaliações?

Groff – Esse é o problema. As avaliações são apontadas há muito tempo como o maior problema na educação, e com razão. Como muitos modelos são atados a elas, acaba sendo o rabo que balança o cão. (O ideal), em um futuro próximo, é a avaliação estar inserida no sistema de modo que as crianças nem sequer percebam (que estão sendo avaliadas).

Avaliações são essencialmente feedback, e todos precisamos de feedback.

Uma das razões pelas quais me interessei pelo aprendizado por jogos é que (…) um bom jogo consegue (via algoritmos) coletar o tempo todo dados dos usuários e se adaptar com base nisso (ou seja, compreender o que o aluno já aprendeu e sugerir-lhe conteúdo que complemente suas deficiências de ensino).

BBC Brasil – Nesse modelo, como saber o que cada criança precisa aprender até determinado estágio?

Groff – Não deveríamos colocar tais expectativas sobre as crianças, do tipo “até esta idade elas precisam saber isto”.

Provavelmente deve haver zonas de alerta – devemos nos preocupar se até determinada idade a criança não souber ler ou escrever, por exemplo.

Mas um dos problemas da educação é a expectativa de que todos os alunos (aprendam uniformemente), e não é assim que funciona.

Queremos que eles sigam seus interesses, que é de onde virá sua motivação, e temos de coletar dados para saber em que ponto eles estão em termos de competências.

Há um mapa de competências ainda em desenvolvimento (pelo MIT Media Lab). (…) São grandes áreas de domínio, como pensamento crítico, pensamento sistemático (levar em conta múltiplas opções, prever consequências e efeitos), pensamento ético, ou outras habilidades. Até mesmo matemática, línguas.

É possível medir esse desenvolvimento em crianças, assim como é possível acompanhar um bebê aprender a se mexer até ser capaz de correr.

Com essas medições, professores não precisariam (aplicar) provas, e sim permitir que os alunos tenham uma experiência de aprendizado poderosa e depois simplesmente monitorá-la.

BBC Brasil – Como avaliar matemática nesse contexto?

Groff – Passei meu ensino médio aprendendo álgebra, geometria, trigonometria, pré-cálculo e cálculo. E e não uso a maioria dessas coisas hoje. É algo totalmente inútil para a maioria dos estudantes, que acabam deixando de aprender coisas como finanças, estatística, análise de dados – e vemos dados diariamente, mas não sabemos tirar sentido deles.

A matemática é um grande exemplo de disciplina que precisamos olhar sob uma perspectiva de competência. Não precisamos de uma sociedade repleta de matemáticos, mas sim de pessoas com competência de equilibrar seu orçamento pessoal, calcular seus impostos.

BBC Brasil – Você mencionou pensamento ético. Como habilidades sociais como essa podem ser ensinadas?

Groff – De forma geral, é (levar em conta) múltiplas perspectivas sociais. Quanto mais você conseguir olhar (algo) da perspectiva de muitas pessoas e tomar decisões com base nisso, mais éticas serão suas decisões.

O MIT tem um jogo chamado Quandary (dilema, em tradução livre), que coloca as crianças em um mundo fictício com vários cenários em que não há uma resposta certa ou errada, mas sim decisões a tomar e consequências. É um exemplo desse aprendizado mais divertido e contextual.

Se entrarmos em uma escola tradicional e pedirmos ao professor que ensine pensamento ético, ele provavelmente não vai ter nem ideia de como fazer. E um jogo é perfeito para isso – brincando em cenários fictícios em vez de tendo uma aula. (…) A maioria das inovações ocorre justamente em escolas onde há liberdade para brincar.

BBC Brasil – É possível implementar esse ensino por competências em um país tão grande quanto o Brasil?

Groff – Com certeza. (…) A Finlândia, por exemplo, jogou fora seu currículo inteiro, porque quer que suas escolas sigam essa direção e viu que uma das maiores barreiras são essas estruturas rígidas do currículo.

BBC Brasil – O Brasil também está mudando sua base curricular. Quais os principais desafios e oportunidades disso?

Groff – O maior desafio é ter mais do mesmo, com uma roupagem diferente. Mas para qualquer país que reforme seu currículo há uma grande oportunidade: o documento pode moldar o dia a dia do aprendizado nas escolas. (…) Eu daria (esse documento) a professores de escolas públicas e perguntaria a eles se o modelo os convida a ensinar de um modo diferente.

As pessoas subestimam o impacto dessas estruturas, que são uma grande oportunidade de mudança. Por exemplo, em uma visita ao Reino Unido, vi que escolas da Escócia estavam adotando o ensino baseado em projetos (em que alunos realizam projetos multidisciplinares, em vez de aula tradicionais) e me disseram que isso só foi possível porque o novo currículo permitiu.

BBC Brasil – Você se aprofundou nas dificuldades do ensino brasileiro? O que vê como maiores desafios?

Groff – Não sei muito ainda, então não posso falar em termos específicos. Mas, globalmente, todos os sistemas educacionais estão tentando fazer que suas escolas sejam transformadoras – e uso essa palavra intencionalmente porque (a busca) é por um formato totalmente diferente.

No Centro para a Redefinição de Currículos (organização internacional cofundada por Groff), um dos trabalhos é ajudar os países a fazerem grandes mudanças nos documentos oficiais: tire (do currículo) aquele ano de trigonometria, você não precisa dele.

A maioria dos países tem medo de se livrar dessas antigas disciplinas e não percebe o impacto negativo que isso tem em seus alunos. Precisam pensar com mais coragem sobre a questão de habilidades e competências.

Tantas crianças nas escolas são tão passivas, absolutamente desengajadas, desmotivadas, e isso faz mal a elas. Estamos treinando-as a pensar de um modo linear e achatado, que não as prepara para o mundo. É mais crucial do que nunca pensar em como romper esse ciclo.

BBC Brasil – Vivemos em uma época em que ideias podem ser reforçadas por “fake news” e por algoritmos que conseguem expor usuários de redes sociais a conteúdos selecionados. Como ensinar pensamento crítico nesse ambiente?

Groff – É um ótimo exemplo de como, se colocamos as crianças em ambientes de aprendizado em que elas não são desafiadas a controlar suas próprias decisões, elas nunca vão refletir sobre essas questões.

Você quer que as crianças vão à escola para simplesmente obedecer e entrar na fila, ou quer um ambiente fértil em que elas floresçam como agentes no mundo?

Você não pode esperar que, em um ambiente em que as crianças têm de apenas obedecer, aprendam a ser cidadãos engajados e conscientes.

Um perfil de Diva Guimarães, a professora de 77 anos que roubou os holofotes na Flip

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Encontro de Diva Guimarães e Conceição Evaristo na Flip 2017 - Ana Branco / Agência O Globo

Encontro de Diva Guimarães e Conceição Evaristo na Flip 2017 – Ana Branco / Agência O Globo

 

Da plateia, paranaense falou sobre racismo em mesa com Lázaro Ramos e Joana Gorjão Henriques

Liv Brandão, em O Globo

PARATY – Diva Guimarães virou celebridade em Paraty, ofuscando até os escritores convidados da Flip. Após dar um emocionante depoimento sobre racismo na mesa que uniu o ator Lázaro Ramos e a jornalista Joana Gorjão Henriques para discutir o tema, a paranaense não consegue dar mais que dez passos pelas ruas do Centro Histórico sem ser abordada. Pessoas pedem fotos, abraços e até autógrafos. Na internet, o vídeo com o registro de sua participação foi visto mais de cinco milhões de vezes. E isso porque ela diz que coisa boa não dá ibope.

— Estou assustada! — confessa ela, admitindo estar também empolgada com a repercussão de sua fala. — Não me preparei para isso, se tivesse pensado, não teria levantado da cadeira, sou muito tímida. Naquela hora quis representar quem não pôde estar aqui. Falei ali pela minha mãe, pelos meus antepassados. Foi um renascimento, uma libertação.

A história que a fez vencer a timidez para narrar “com a alma” um episódio de racismo sofrido num internato católico de São Paulo (e que a levou para o espiritismo, por “pavor” do catolicismo), poderia ter sido tristemente substituída por outra, que viveu dias antes, em Paraty.

— Eu estava passeando pela rua, quando uma mulher me chamou de forma agressiva e disse: “aposto que esse cachorro que vem aqui e faz cocô em tudo é seu!”. Por que aquele cachorro tinha que ser meu? Ele poderia ser de qualquer outra pessoa. Eu apenas disse: “eu sei porque você está dizendo que esse cachorro é meu”. É racismo. Às vezes eu ignoro, às vezes eu respondo de forma cínica, dessa vez falei no mesmo tom — explica. — Isso aconteceu aqui, na Flip, quando estão homenageando quem? Lima Barreto, que é negro. Nem todo mundo tem essa capacidade de compreensão — completa ela, dona de uma ironia fina, no melhor estilo do homenageado da festa.

Alfabetizadora e professora de educação física aposentada após 40 anos de trabalho, ex-velocista e ex-jogadora de basquete, esporte que ainda acompanha com paixão, Diva é neta de escrava com português, filha de uma lavadeira, que trabalhava em troca de material escolar para que a filha pudesse estudar. Adora ir ao cinema e ao teatro (“quando o preço do ingresso permite”) em Curitiba, onde mora, mas principalmente gosta de ler. Também se diverte contando suas histórias. Diva é muitas, mas não é vítima. E nem “dona” Diva. Só Diva. “Sou também uma sobrevivente”, enfatiza.

— Eu descontava a raiva pelo que acontecia comigo no esporte. Acho a melhor coisa para educar. O esporte disciplina, e ensina até mesmo a lidar com as frustrações e as injustiças. Educação física não é festinha – conta ela, que foi treinada por Almir Nelson de Almeida, “basquetebolista” que representou o Brasil nas olimpíadas de 1952, e considera Pelé o maior atleta de todos os tempos – Mas como pessoa influente, que poderia ter nos ajudado, ele falhou. Ele diz que não existe preconceito, é uma decepção.

Fã de Jorge Amado, escritor que “as pessoas leem como historinha, mas não captam as denúncias que ele faz”, veio para ver as participações de Lázaro Ramos e de Edimilson Pereira de Almeida, negros como ela (“me reconheço em todos”). Sempre quis vir à Flip e não reclama do chão de pedras “que contam seu passado”. Ela, que ajuda familiares, só conseguiu juntar dinheiro para participar da festa este ano, por insistência da sobrinha, Maitê, que veio na edição passada. Ao lado de Maitê e das amigas Elizabete e Maria Alice, a quem chama de “irmã”, pegou um avião que fez escala em São Paulo, parou no Rio e encarou as 5 horas de estrada feliz e contente.

Diva queria também conhecer Conceição Evaristo, escritora carioca que, no ano passado, levantou a voz contra a falta de negros na programação oficial da Flip. Avessa à tecnologia (“Google é nada, meu negócio é dicionário”), não acompanhou a polêmica que originou mudanças profundas no evento, que pela primeira vez em 15 edições traz mais convidadas que convidados e aumentou a participação de negros em 30%. Chorou copiosamente ao abraçar a nova amiga (“são lágrimas de resistência”, disse Conceição).

Conta en passant que passou frio e passou fome, mas hoje vive bem e já não se deixa abater pelo racismo. Quando percebe que está sendo seguida por um vendedor em uma loja, gosta de “dar nele uma canseira”, andando de um lado para o outro. Levanta a voz contra a hipersexualização da mulher negra e, com segurança, conta que não quis ter filhos para que eles não passassem pelo sofrimento que ela passou. Fica ofendida quando perguntam se ela tem uma cuidadora (“a cuidadora de mim sou eu mesma”). Diz que, se ganhasse R$ 1 a cada visualização de seu vídeo, construiria casas populares. No fim das contas, apesar do susto, admite se divertir com o carinho recebido dos novos fãs.

— As pessoas estão falando que eu virei verbo! Eu divei, tu divaste, ele divou. Mas eu divei mesmo — ri, envergonhada.

* Colaborou Jan Niklas

Câmara aprova cobrança em pós-graduações públicas

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Medida vale para cursos de extensão, especialização e mestrado profissional

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Publicado em O Globo

A Câmara dos Deputados Federais aprovou em primeiro turno o projeto de emenda constitucional 395/14 que permite que as universidades públicas possam cobrar pelo ensino oferecido na pós-graduação. A medida valeria para cursos de extensão, aperfeiçoamento, especialização e mestrado profissional. Já os cursos de graduação, mestrado acadêmico e doutorado permanecem gratuitos. A votação contou com 318 deputados a favor do projeto, 129 contra e 4 abstenções. Para uma emenda constitucional ser aprovada é necessário que 3/4 dos votantes aprovem a alteração.

— O que me fez apresentar esta emenda é aquilo que a universidade pública precisa. E mais do que isso: é aquilo que ela já faz. O que está acontecendo? Alunos entram na Justiça falando que a universidade não pode cobrar. Se não aprovarmos essa matéria, as universidades vão deixar de ofertar cursos porque não vão poder cobrar —afirmou o deputado Alex Canziani.

Porém, a questão da gratuidade no mestrado profissional pode ser revista. Uma outra votação foi requerida para dar destaque a este curso e votar a sua gratuidade. A discussão no plenário foi dividida até mesmo dentro dos próprios partidos. Deputados do Partido dos Trabalhadores, por exemplo, se expressaram de maneira diferente durante a sessão. Ao final, Sibá Machado, o líder do partido na Câmara, fez um apelo.

— Para fazer inovação temos que colocar as universidades em contato com as empresas.

O texto do projeto afirma que, para abrir espaço para a entrada de parcerias entre empresas e universidades na pós-graduação, é necessário “esclarecer a questão no próprio texto constitucional” para que se possa cobrar pelos cursos de pós-graduação.

Aprovado, o projeto passará para o Senado para votação. A discussão, entretanto, já chegou nas instituições de ensino superior. O reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Roberto Leher, se posicionou, em nota, contra a aprovação.

“A aprovação da PEC enterra o princípio republicano da igualdade de todos na rede pública, visto que, com sua aprovação, terão prioridade no acesso à educação pública os clientes que podem pagar pelo que deveria ser um direito universal. A PEC transformará a educação em um serviço, deixando de ser um dever do Estado”, afirmou o reitor.

A educação para a ética: sem a desculpa do “não fui só eu”

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Publicado em UOL

Precisamos parar para pensar no valor de nossas ações. Distinguir melhor o que é certo do que é errado. E nos esforçar para conseguir agir de acordo com esse entendimento. Falo de ética.

São precárias as possibilidades do nosso tempo, já disse o advogado e poeta Paulo de Tarso. E, no cenário profundamente antiético, um disparate tem chamado a atenção. Para aquele momento em que, descoberto em roubalheiras, não dá mais para negar o óbvio, o submundo da política nacional tem utilizado uma péssima desculpa. Para abrandar a pena, quem sabe, se livrar dela, com cara coitado, inocente injustiçado, diz por aí, para quem quiser ouvir: “…mas não fui só eu”.

O argumento não é novo. Ouvimos de crianças em formação. Na escola onde estudei, a resposta, por si só, sempre mereceu a censura não raro maior do que a falta praticada. A novidade é o uso oficial, descarado, pela politicagem.

A desculpa esfarrapada não vale para o Direito. De acordo com Código Penal, não ter sido o único a agir errado, não exclui a ilicitude do fato, como o “estado de necessidade” ou a “legítima defesa”. Não retira seu caráter censurável, como acontece quando uma criança, incapaz de entender que o que fez é errado, “furta” um brinquedo do coleguinha (o Juiz não vai mandar prendê-la por isso!). Também não é algo que atenue a punição, como o é um “motivo de relevante valor social ou moral”.

Roubar e falar, depois, que “não fui só eu” é sem-vergonhice, safadeza mesmo. Mais um sintoma muito sério do estado terminal ético que estamos vivendo.

Revela que o problema maior não é ser corrupto, sacanear os outros, desviar dinheiro público, embolsando verbas destinadas à saúde, educação, moradia, etc. O que provoca profunda indignação é se foder sozinho. Isso, sim, é muito injusto.

A prática cotidiana de desvios, dos pequenos aos graúdos – o que está às mãos, quando ninguém está olhando – se tornou nosso testemunho de Brasil. Não há dúvida, não foi o governo petralha que inventou a corrupção. A história mostra que coxinhas e militares ditadores são igualmente competentes nesse ofício. Um aprende com o outro. No fim, nos tornamos lenientes com a podridão. Não a descartamos quando nos convém. Somos, sim, contra o roubo que nos vitima. Somos contra os desvios praticados pelo PT ou pelo PSDB, a depender do lado que estamos. Mas, definitivamente, não somos contra a corrupção em si.

A pobreza ética atual, contudo, não significa que estamos incapacitados para uma experiência melhor. Não é um dado antropológico do brasileiro, feito uma segunda natureza irreversível.

O que nos faltam são boas lições de ética, o debate e aprendizado profundo sobre o que isso quer dizer. Se o mundo adulto está quase perdido, foquemos – os que não se perderam ainda – na geração que vem. A formação ética, aliás, constitui elemento central da educação básica, conforme as Diretrizes Curriculares Nacionais.

A ética não é um catálogo abstrato de bons comportamentos, aprendido numa aula de “educação moral e cívica” e, na prática, ignorado sistematicamente. Não se trata, também, de um conjunto de regras que cumprimos, sem saber muito bem o porquê, só porque Deus, o pai, o professor ou o líder espiritual ou político mandou. Ética tem a ver com deveres que cumprimos porque, para nós, isso é o certo, é o justo, ainda que o mundo insista em descumpri-los. São deveres que fazem parte de nós.

Isso é a autonomia, que define a vida democrática: a autodeterminação por normas que nos demos, que aprendemos, criticamos, melhoramos e concordamos. Por isso, seguimos, independentemente de que (e quem) estejam nos olhando. É a consciência do andar “direito”, livre e responsável. Nos alerta, permanentemente, que a falta de respeito, a corrupção alheia não justifica que andemos errado também.

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