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Cinco livros para entender (ou relembrar) a ditadura

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Rio de Janeiro, dia do golpe (31/3/64): tanque para em frente à casa do presidente deposto João Goulart. Fotos: Arquivo/Estadão Conteúdo

 

Ao final, o apanhado funciona como um argumento substancioso contra as ideias de quem, hoje, pede a intervenção militar no Brasil

Angieli Maros, na Gazeta do Povo

As memoráveis passeatas que eclodiram pelo país em junho de 2013, a reeleição de Dilma Rousseff e seu posterior impeachment para a entrada do vice, Michel Temer, não acalmaram os ânimos dos brasileiros. A violência continua assombrando a população, assim como o desemprego. Existem várias categorias profissionais descontentes. A mais estridente nos últimos tempos tem sido a dos caminhoneiros, que paralisaram o país. Uma vasta parcela dos manifestantes continua pedindo a volta da intervenção militar no país, que eles enxergam como a solução.

Todos têm sua opinião – e democracia é exatamente isso. Eis, então, algumas indicações de leitura sobre a ditadura militar. Ao final, o apanhado funciona como um argumento substancioso contra as ideias de quem, hoje, pede a intervenção militar no Brasil.

O Governo João Goulart – As Lutas Sociais no Brasil

Luiz Alberto Muniz Bandeira. Editora Unesp, 483 páginas. R$ 58.

Escrito pelo historiador, cientista político e professor Moniz Bandeira, “O Governo João Goulart – As Lutas Sociais no Brasil” aborda os fatos políticos e sociais que culminaram no golpe de Estado. Uma grande aula sobre o cenário pré-ditadura, quando o país era governado por João Goulart. Não trata dos fatos ocorridos pós- 64, mas é essencial para entender o desenrolar deste período da história do país. Nova edição lançada em 2010 traz apêndice dedicado exclusivamente às teses sobre a morte de Jango.

Trilogia Ditadura

A Ditadura Envergonhada, A Ditadura Escancarada, A Ditadura Derrotada e A Ditadura Encurralada

Elio Gaspari. Editora Intrínseca. 464, 560, 580 e 560 páginas, respectivamente. R$ 39,90 cada livro.

Publicada entre 2002 e 2004, a série foi escrita com base em pesquisas em um acervo com mais de 15 mil itens, que vão desde notas manuscritas até áudios inéditos e relatórios governamentais. Cada um dos volumes trata de momentos específicos do regime. “Ditadura Envergonhada”, por exemplo, fala dos momentos iniciais do período. Lançada em nova edição pela Intrínseca, a obra também está disponível em e-book.

Marighella

Mário Magalhães. Companhia das Letras, 784 páginas. R$ 60.

Carlos Marighella foi um dos militantes mais expressivos dos “anos de chumbo”. Fundador do maior grupo armado de oposição ao regime, a Ação Libertadora Nacional, ele participou de espionagens, operações de combate e passou pela prisão e tortura. Não há como reconstituir passos da ditadura sem citá-lo. Por isso, foi biografado pelo jornalista Mário Magalhães, que reconstituiu a vida deste mulato baiano por meio de pesquisas que demoraram nove anos. A obra ganhou o Prêmio Jabuti em 2013.

1968: O Ano Que Não Terminou

Zuenir Ventura. Editora Objetiva, 312 páginas. R$ 49,90.

Escrito pelo jornalista Zuenir Ventura, que também esteve à frente de movimentos de resistência, o livro faz um recorte da história e expõe o que foi o ano de 1968 no país. Estão na obra fatos importantes como a Passeata dos Cem Mil, a implantação do AI-5, além de aspectos e personagens culturais que marcaram a época: contracultura hippie, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Glauber Rocha, Fernando Henrique Cardoso, José Dirceu, Nelson Rodrigues, entre outros.

Os Carbonários

Alfredo Sirkis. Editora Record, 504 páginas. R$ 22

Autobiografia do jornalista e político brasileiro Alfredo Sirkis, o livro não trata do regime com todas as suas nuances históricas, mas confere à obra uma abordagem mais pessoal, sobre como era enfrentar a repressão. O testemunho é um mergulho no movimento estudantil e da guerrilha urbana. Um dos pontos altos da obra é o relato do sequestro dos embaixadores da Alemanha e da Suíça, que levou à libertação de mais de cem presos políticos. Ganhou o Prêmio Jabuti de 1981.

Como ‘O Senhor dos Anéis’ virou um ícone da contracultura

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Frodo um dia já foi ícone de uma geração que queria revoluções

Frodo um dia já foi ícone de uma geração que queria revoluções

, na BBC Brasil

Em um tempo de sexo, drogas e rock’n roll – sem falar em protestos contra a Guerra do Vietnã e marchas por direitos civis e das mulheres – quem diria que um grande papel de influência foi desempenhado por um filólogo cristão de Oxford?

Mas nos anos 1960, em um tempo de mudanças sociais aceleradas nos Estados Unidos, os livros “O Hobbit” e “O Senhor dos Anéis”, de JRR Tolkien, se tornaram leitura obrigatória para a contracultura que nascia na época. As obras eram devoradas por estudantes, artistas, escritores, roqueiros e outros intelectuais mentores da mudança cultural. Slogans como “Frodo vive” e “Gandalf para Presidente” eram pichados nas estações de metrô de diversas partes do mundo.

A Terra Média – o universo mítico meticulosamente criado por JRR Tolkien – começou a nascer entre as duas grandes guerras mundiais. Professor de línguas em Oxford, Tolkien lecionava anglo-saxão, islandês arcaico e galês medieval.

Sua visão fantasiosa, com a ideia de que o mau está a espreita, ameaçando o bem, surgiu de sua experiência como católico devoto, e também como alguém que perdeu muitos amigos e familiares na Primeira Guerra Mundial.

“Os Pântanos Mortos e a região de Morannon se assemelham ao norte da França, que foi palco da Batalha de Somme”, escreveu Tolkien em uma carta nos anos 1960.

A saga de Frodo e Sam para chegar a Mordor é inspirada nos tormentos dos jovens soldados que combateram no front ocidental durante a guerra.

Os livros sempre tiveram uma certa popularidade desde seu surgimento – “O Hobbit” em 1937 e “O Senhor dos Anéis” em 1954 (primeiro volume). Mas eles explodiram em um fenômeno cultural de massa de verdade apenas nos anos 1960.

Hoje em dia, os mágicos, anões e orcs do imaginário de Tolkien parecem coisa de “nerds” aficcionados por histórias em quadrinhos. Mas o primeiro público a realmente cultuar esse universo foi o “hippie”. Como isso aconteceu?
Viagem

O consumo de drogas nos livros de Tolkien pode ajudar a explicar a sua popularidade nos anos 1960. Muitos dos personagens da Terra Média usam plantas alucinógenas.

'Frodo vive' foi um slogan da contracultura dos anos 1960

‘Frodo vive’ foi um slogan da contracultura dos anos 1960

As “pequenas pessoas do Shire” usavam uma erva alucinógena em seus cachimbos. Saruman, o mago perverso, também fica “viciado” em uma folha específica do Shire. Havia até mesmo um boato de que Tolkien escrevera grande parte do livro sob influência de drogas.

Outro fator que sempre teve grande apelo junto a esse público foi uma forma mais simples e medieval de vida, muito diferente do caos urbano e da modernidade. Tolkien exaltava os elementos mais comuns da natureza, como as pedras, a madeira, o ferro, as árvores e o fogo. Esse estilo de vida com menos modernidade e contra a poluição era defendido por muitos vegetarianos que construíam suas próprias casas e roupas e viviam em comunidades.

Um fator muito importante para quem combatia guerras e lutava por direitos civis e das mulheres era o contexto político dos livros. Os heróis de Tolkien eram os hobbits, as pessoas pequenas, que lideravam uma revolução.

O complexo militar industrial da época era parecido com Mordor e sua visão mecanizada de guerra. Ao saber de sua missão para levar o anel para sua destruição em Mordor, Frodo sente uma “vontade irresistível de descansar e ficar em paz em Rivendell”. Mas aqueles que lutavam ao seu lado viam o conflito como a chance de travar “a guerra que vai acabar com todas as guerras”.

Algumas passagens refletem particularmente o sentimento de (mais…)

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