Aos 78 anos, coronel Rubem de Sá Padilha, realizou o sonho de salvar os livros. (Foto: Alcides Neto)

Aos 78 anos, coronel Rubem de Sá Padilha, realizou o sonho de salvar os livros. (Foto: Alcides Neto)

 

Paula Maciulevicius, no Campo Grande News

Uma poupança praticamente intacta. Foram 30 anos de economias que transformaram um terreno no bairro Vila Bandeirantes, na Capital, em uma biblioteca aberta para a cidade. Aos 78 anos, o coronel do Exército, Rubem de Sá Padilha, viu materializado seu grande sonho: de salvar os livros. Foi ele quem comprou o terreno, construiu e inaugurou o espaço.

“Isso vem de muito tempo, começou quando eu fiz a poupança para conseguir recursos e construir, tem mais de 30 anos”, conta Padilha. À época, o militar era tenente e servia em Ponta Porã.

Nascido em Três Corações, Minas Gerais, a carreira o levou para o Rio Grande do Sul, Paraná, Rio de Janeiro, Amazonas, Ceará e o então estado de Mato Grosso, hoje, Mato Grosso do Sul. E por onde serviu, Padilha compôs o acervo pessoal. Livros de todas as temáticas, de Ecologia à Política, Literatura Nacional e Internacional até revistas.

“Minha ideia foi organizar a biblioteca para salvar os livros e deixar para instituições responsáveis”, explica o coronel. A biblioteca leva o nome do pai dele: “Centro de Estudo de Fronteira General Padilha”, teve apoio do Exército e será operacionalizada pela UEMS.

Para realizar o grande sonho, o dinheiro foi poupado mesmo. Padilha diz que durante todos esses anos, só fez dois saques, um para o parto de um filho e outro para a compra de um carro semi-novo. O propósito se manteve firme três décadas. “Juntei o suficiente para comprar o terreno, não me lembro se foi R$ 110 ou R$ 140 mil e para construir o prédio, R$ 240 mil, o acervo não entra na conta, porque foi adquirido todo mês e eu também recebia livros de associações”, descreve.

Para ele, a leitura é tudo e na memória, está guardada a imagem do Padilha ainda menino, que ouvia do pai todas as noites trechos do mesmo livro.

“O livro que pode ter mudado a minha vida tem o título de ‘Coração’, de um escritor italiano e que tinha todas as histórias de fundo moral. Meu pai lia para os filhos toda noite antes da gente dormir e nós sempre queríamos mais uma e ele: ‘não, amanhã. Pode todo mundo escovar os dentes e cair na cama para dormir'”, recorda.

Quem sabia do sonho, desacreditava ou chamava o coronel de maluco. “Muita gente não acreditou e depois que eu comecei a realizar, me chamava de maluco”, confirma. O terreno foi comprado em 2010 e durante seis anos foram feitas obra e catalogação de todo acervo pela bibliotecária do Colégio Militar.

“No começo eu não pensei nos detalhes, não tinha nem noção de como se fazia ou se deixava de fazer”, comenta o militar. Ainda durante a construção, foram deixados dois bilhetinhos na caixa dos Correios do imóvel, com nome e telefone. “Eu retornei e eram estudantes universitários querendo saber se poderiam usar o espaço para estudar e é esse ambiente que uma biblioteca facilita”, argumenta.

No total, são cerca de 3 mil exemplares. A biblioteca funcionará das 7h30 às 12h.

“O que é a leitura? Para mim é algo fundamental. Eu sempre li por prazer e filas de banco ou consultório nunca me preocuparam, porque eu sempre estava com um livro, lendo e a coisa mais importante que você pode deixar para alguém é uma biblioteca. Não tem nada mais importante do que os livros”, afirma o coronel.

E a sensação de folheá-los, qual é? “É de uma satisfação muito grande, você sentir as folhas correndo na mão. E quando o livro acaba? Se for bom, a gente guarda com satisfação, se for ruim, guarda também, o que é ruim para mim, pode ser bom para outros”, opina.

A biblioteca funciona na Rua Hermenegildo Pereira, 206, na Vila Bandeirantes e é aberta ao público.