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Thais Bilenky,na Folha de S.Paulo

“A gente pensa que vai melhorar, mas não muda nada”, afirma Patrícia Conde, 39, depois de mais um dia de trabalho em uma agência bancária na avenida Paulista.

Auxiliar de limpeza, ela leva duas horas para ir ao trabalho e mais duas para voltar para casa, na região do Capão Redondo (zona sul), uma das mais violentas da cidade.

Mãe de Paulo, 2, ela deixa o caçula aos cuidados do primogênito, de 18, e da babá.

Desde que Paulo nasceu, Patrícia espera uma vaga na creche próximo a sua casa. Mas a fila não anda.

Patrícia ganha R$ 820 por mês. Cerca de um terço (R$ 250) vai para a babá.

“Se chamassem [para a creche], aliviava as contas”, desabafa a auxiliar de limpeza, que perdeu o marido há um ano numa “briga de rua”.

A filha de 17 anos já é mãe. Todos moram juntos, mas só Patrícia trabalha.

A falta de creche é problema recorrente na região. O centro de educação infantil Paulo Cochrane Suplicy não consegue abrir vagas, porque as crianças não têm para onde ir ao completar quatro anos. Resultado: ficam lá.

Os vizinhos, quando não têm condição de pagar uma pessoa para olhar os filhos, acabam deixando com os irmãos. “A situação é difícil.”

Na última eleição, Patrícia votou em Aécio Neves (PSDB) para presidente. Para a prefeitura, em 2012, ela escolheu Fernando Haddad (PT).

“Achei que ele [Haddad] ia fazer mais pela educação, pela saúde, pelas propostas. Vi que ele tinha feito bastante coisa em outros lugares. Fiquei sabendo [que ele foi ministro da Educação], mas não está fazendo nada”, critica.

SATISFAÇÃO

Já a frentista Rizoneide Teixeira acha que “não tem do que reclamar”. Ela conseguiu uma vaga para sua filha Júlia, 2, na creche Coração de Maria, em Santa Cecília (região central), poucos meses após Haddad tomar posse na prefeitura, no início de 2013.

Desde então, a criança se “desenvolveu bastante”, observa. “Todo dia, ela chega em casa com uma historinha que a tia contou na creche, já conhece as cores”, conta.

Há poucos dias, Rizoneide perdeu o emprego em um posto de gasolina perto da creche. Ela procura um novo trabalho na região para não precisar tirar Júlia de lá. “A creche é maravilhosa”, diz.

Casada há 19 anos e moradora de Cachoeirinha, na zona norte, Rizoneide colocou os filhos mais velhos em escolas dessa região.

Felipe, 14, estuda no colégio municipal Pedro Américo. Igor, 18, no estadual Olinda Leite Sinisgalli.

Ela conta que, há cerca de um ano, Felipe, que nunca levava lição para casa, passou a fazer tarefas diariamente.

“Estão cobrando mais. Antes, jogavam ele de sala em sala, porque a professora vivia doente”, afirma.

As gestões anteriores da prefeitura, em sua opinião, “não fizeram nada”.

“Inscrevi o meu outro filho na creche quando ele era menor. Não foi chamado até hoje. Tanto tempo que perdi, porque não podia trabalhar”, lamenta ela.