Mesmo que alguém não possa terminar toda a grande literatura, tem-se que começar em algum lugar.

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Maik Barbara, no Homo Literatus

Pouco depois de seu quinquagésimo aniversário, Liev Nicolaevitch, conde de Tolstói, ou mais comumente chamado apenas de Liev Tolstói, sucumbiu a uma profunda crise espiritual e decidiu retrair-se com o objetivo de encontrar o sentido da vida. Ele começou tal façanha lendo vorazmente as principais tradições filosóficas e religiosas espalhadas por todo o mundo, descobrindo grandes similaridades na forma como cada linha de pensamento se posicionava contra a verdade do espírito humano.

Ele também foi, como qualquer grande escritor, um leitor insaciável de literatura em geral, o que teceu junto a seus estudos o seu Um Calendário de Sabedoria (A Calendar of Wisdow), o qual passou as últimas décadas de sua vida desenvolvendo.

Mas, apesar de sua ampla e prolífica leitura, Tolstói considerava alguns livros em específico como especialmente importantes e influentes em seu desenvolvimento.

Já sob a idade de sessenta e três anos, em uma carta enviada a um amigo ele compilou uma lista dos livros que ao longo de sua vida mais tinha-o impressionado. Em 25 de outubro de 1891, então é encontrada em Cartas de Tolstoi (Tolstoi’s Letters), a máxima prefaciada sob responsabilidade do autor:

“Estou enviando a lista que comecei, mas não terminei, para sua consideração, mas não para publicação, uma vez que ela está longe de ser terminada”- (leitura, é claro, é inerentemente incompleta, haja vista que nunca se pode esperar “terminar” toda a literatura, ou sequer deve-se desejar tal coisa).

Sob o título As Obras que Deixaram uma Boa Impressão (Works Which Made an Impression), Tolstói divide sua lista de leitura em cinco estágios distintos da vida, começando com a infância e terminando em sua idade, na época – ele as classifica cada qual sob títulos variando entre sua excelência e qualidade, indo de “Grande” a “M. Grande” ou “Enorme”.

Curiosamente, Tolstói considera a literatura relativa da adolescência como um dos momentos mais formativos, prescrevendo a essa faixa etária livros maiores em qualidade e quantidade, enquanto que para a faixa dos vinte a meados dos trinta anos de idade a lista é mais escassa em ambas as qualidades, e sendo mais ocupada em parte pela poesia – talvez por poucas pessoas na época terem o luxo do lazer pela leitura durante seus mais vividos e vitais anos de desenvolvimento econômico, social e de vida em geral, ou talvez por Tolstói simplesmente acreditar que um adulto deve estar mais ocupado com outras coisas do que com a leitura nessa fase mais produtiva e ativa da vida.

Há apenas duas figuras femininas conhecidas na lista de Tolstoi, e pode-se imaginar que seja devido a preconceito, tanto particular quando em detrimento da época e de cultura – embora este último certamente molde o primeiro.

ESTÁGIO, IDADE, CLASSIFICAÇÃO, LISTA EM SI

INFÂNCIA | Até a idade dos 14 anos

GRANDE

Tales from The Thousand and One Nights (Bibliotecas Públicas): The 40 Thieves, Prince Qam-al-Zaman
Pushkin’s Poems (Bibliotecas Públicas): “Napoleon”

M. GRANDE

The Little Black Hen (Bibliotecas Públicas) de Pogorelsky

ENORME

The story of Joseph from The Bible (Bibliotecas Públicas)
The Byliny (Bibliotecas Públicas) folk tales: Dobrynya Nikitich, Ilya Muromets, Alyosha Popovich

IDADE: dos 14 aos 20 anos

GRANDE

The Conquest of Mexico (Bibliotecas Públicas) por William Prescott
Tales of Good and Evil (Bibliotecas Públicas) por Nikolai Gogol: “Overcoat”, “The Two Ivans”, “Nevsky Prospect”

M. GRANDE

A Sentimental Journey (Bibliotecas Públicas) por Laurence Sterne
A Hero for Our Time (Bibliotecas Públicas) por Mikhail Lermontov
The Hapless Anton por Dmitry Grigorovich
Polinka Saks (Bibliotecas Públicas) por Aleksandr Druzhinin
A Sportsman’s Notebook (Bibliotecas Públicas) por Ivan Turgenev
Dead Souls (Bibliotecas Públicas) por Nikolai Gogol
Die Räuber (Bibliotecas Públicas) por Friedrich Schiller
Yevgeny Onegin (Bibliotecas Públicas) por Alexander Pushkin
Julie, or the New Heloise (Bibliotecas Públicas) por Jean-Jacques Rousseau

ENORME

The Gospel of Matthew (Bibliotecas Públicas): “Sermon on the Mount”
The Confessions (Bibliotecas Públicas) por Jean Jacques-Rousseau
Emile: Or on Education (Bibliotecas Públicas) por Jean Jacques-Rousseau
“Viy” de The Collected Tales of Nikolai Gogol (Bibliotecas Públicas)
David Copperfield (Bibliotecas Públicas) por Charles Dickens

ADULTO | IDADE: dos 20 aos 35 anos

GRANDE

Poemas (Bibliotecas Públicas) por F.T. Tyutchev
Poemas (Bibliotecas Públicas) por Koltsov
The Iliad / The Odyssey (Bibliotecas Públicas) por Homer*
Poemas (Bibliotecas Públicas) por Afanasy Fet
The Symposium and The Phaedo (Bibliotecas Públicas) por Plato

M. GRANDE

Hermann and Dorothea (Bibliotecas Públicas) por Johann Wolfgang von Goethe
Notre-Dame de Paris (Bibliotecas Públicas) por Victor Hugo

IDADE: dos 35 aos 50 anos

GRANDE

Os romances da Sra. Henry Wood
Os romances de George Eliot
Os romances de Anthony Trollope

M. GRANDE

The Iliad / The Odyssey (Bibliotecas Públicas) por Homero
The Byliny (Bibliotecas Públicas)
Xenophon’s Anabasis (Bibliotecas Públicas)

ENORME

Les Misérables (Bibliotecas Públicas) por Victor Hugo

IDADE: dos 50 aos 63 anos

GRANDE

Discourse on Religious Subject (Bibliotecas Públicas) por Theodore Parker
Robertson’s Sermons (Bibliotecas Públicas)

M. GRANDE

The Book of Genesis (Bibliotecas Públicas)
Progress and Poverty (Bibliotecas Públicas) por Henry George
The Essence of Christianity (Bibliotecas Públicas) por Ludwig Feuerbach

ENORME

The Complete Gospels* (Bibliotecas Públicas)
Pensées (Bibliotecas Públicas) por Blaise Pascal
Epictetus
Confucius e Mencius
The Lalita-Vistara: Or Memoirs Of The Early Life Of Sakya Sinha (Bibliotecas Públicas) por Rajendralala Mitra
Lao-Tzu

As competências e complementos aos estudos sobre Tolstói podem ser acrescidos de estudos a parte, tais como: a meditação intemporal de Tolstói sobre a arte, suas crônicas sobre o despertar espiritual, e seu compêndio sobre a maior das sabedorias da humanidade.

Quanto ao leitor que deseja apreciar na integra a carta de Tolstói, ele mesmo recomenda que seja lida durante o segundo estágio de amadurecimento literário do saber humano segundo sua lista, ou seja, entre os 20 a 35 anos. Todavia para reflexão sobre a verdadeira educação clássica que propõe, pode ser lida mais próxima aos 35 anos de idade.