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A ‘virada’ das mulheres em uma enquete sobre os melhores escritores britânicos

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Mary Ann Evans escreveu com pseudônimo masculino no século 19

Mary Ann Evans escreveu com pseudônimo masculino no século 19

 

No início de dezembro, uma enquete promovida pela BBC com críticos literários para escolher os 100 mais importantes livros de ficção do Reino Unido de todos os tempos teve um resultado surpreendente.

Hephzibah Anderson, na BBC Brasil

Não pela escolha de A Vida é Assim em Middlemarch, da escritora Mary Ann Evans, embora escrito com o pseudônimo masculino George Eliot – um expediente aparentemente usado para que seus livros fossem levados a sério na conservadora sociedade britânica do século 19. A lista surpreendeu, na verdade, pelo predomínio assustador do sexo feminino entre os chamados top 10.

Dos sete autores representados (mais de um livro poderia contar), nada menos que cinco eram do sexo feminino, com Charles Dickens e William Thackeray como exceções. Entre os 20 mais importantes livros, dez foram escritos por mulheres.

E mesmo a proporção majoritária masculina na lista completa (60%) não pode ser interpretada como domínio puro e simples, já que durante séculos mulheres enfrentaram muito mais barreiras legais, culturais e sociais do que homens para terem trabalhados publicados.

Desequilíbrio

Em condições iguais, mulheres têm vantagem: dos 13 livros da lista publicados no século 21, a maioria era de autoras, incluindo nomes como Jeanette Winterson e Zadie Smith.

Os nomes com mais trabalhos na lista também são femininos: Virginia Woolf e Jane Austen, com quatro títulos cada.

Esses resultados também chamam a atenção pelo contraste com a maioria das enquetes realizadas na década passada. Em 2003, quando a BBC promoveu o projeto Big Read para que o público britânico escolhesse seu livro preferido, apenas quatro livros de mulheres britânicas apareceram no top 10. Cinco anos mais tarde, o jornal The Times fez a enquete “Os 50 maiores autores do pós-guerra”. O veredicto? Apenas um quarto de autoras.

Jeanette Winterson foi apenas um de três autores vivos com mais de um livro na lista da BBC

Jeanette Winterson foi apenas um de três autores vivos com mais de um livro na lista da BBC

 

Em 2014, um votação para os 20 melhores trabalhos de britânicos e irlandeses, promovido pelo Daily Telegraph, teve placar 12 a 8 para os homens. Meses mais tarde, o mesmo jornal publicou uma lista de 100 livros que todo mundo deveria ler. Apenas 19 títulos eram de autoras.

Por que os resultados da BBC são tão diferentes? Para começar, ele foca especificamente em autores britânicos, em vez de anglófonos. Outra diferença é que não se prende a um período particular, mas engloba desde Robinson Crusoé, publicado em 1719 e considerado o primeiro romance em língua inglesa, a trabalhos publicados na atual década.

Mas essas diferenças ainda não explicam tudo. Afinal, desde 1945, ficou mais fácil para mulheres entrarem no mercado editorial. Em lista pan-anglófilas, mulheres americanas poderiam ter aparecido mais. A grande diferença da medição da BBC é que ela ouviu apenas críticos literários não-britânicos. Divididos mais ou menos igualmente em termos de gênero, os especialistas são de países como EUA, Canadá, Austrália e Índia.

Doris Lessing é a única britânica a ganhar o Nobel de Literatura

Doris Lessing é a única britânica a ganhar o Nobel de Literatura

 

Esse colégio eleitoral pareceu reparar muito mais nas autoras britânicas que os próprios britânicos. E a lista faz mais do que generalizar: há clássicos feministas como O Carnê Dourado, de Doris Lessing, a livros de época como Excellent Women, de Barbara Pym, por exemplo.

O fato é que, enquanto revistas literárias internacionais como a Paris Review e a New York Times Book Review tentam equilibrar tanto o gênero de autores analisados quando de críticos, o mesmo não acontece em títulos britânicos como o London Review of Books.

Em 2014, 82% dos artigos escritos por esta última publicação eram de autores masculinos. Para qualquer um imerso no mundo literário britânico, pode parecer que nomes como Salman Rushdie, Ian McEwan e Kazuo Ishiguro dominam a cena, mas estes emplacaram apenas um título na enquete da BBC. E o celebrado Martin Amis sequer aparece.

Listas são traiçoeiras tanto quanto irresistíveis, especialmente em assuntos tão subjetivos como livros. Mas essa enquete parece confirmar algo que Virginia Woolf tentou nos dizer há 80 anos em Um Teto Todo Seu. O problema nunca foi a produtividade das autoras britânicas, mas sim a aceitação do establishment literário.

Entre as falsas e verdadeiras citações clariceanas

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Todos sabem o quanto citações de Clarice Lispector circulam nas redes sociais, sobretudo no Facebook. Mas essas citações são, de fato, da escritora ou são apenas atribuídas a ela? E se são verdadeiras, por que os usuários levam as citações às redes sociais?

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Estela Santos, no Homo Literatus

Na maioria das vezes o que percebemos em boa parte das citações ditas “clariceanas”, que circulam as redes sócias, é que linguagem não condiz com a linguagem de Clarice e que a temática também não condiz com os temas recorrentes em sua literatura – o que leitores dela percebem rapidamente –, isto é, trata-se de citações atribuídas erroneamente a escritora. A literatura de Clarice Lispector tem um estilo único, ela desnuda a alma humana ao abordar questões voltadas para o “eu”, com sua escrita de cunho altamente intimista e sua linguagem corrosiva. E quando a citação é verdadeira, parece-nos que contribui para o que podemos chamar de “cultura nas redes sociais”, uma vez que Clarice é uma escritora e intelectual notavelmente conhecida, inclusive admirada por um dos maiores críticos literários do Brasil, Antônio Cândido; além disso, citações verdadeiras, com a fonte de referência parecem ter o poder de conquistar novos leitores.

O problema é que Clarice passou a ser vista nas redes sociais como escritora de textos de autoajuda, muitas vezes aparece, ainda, como uma conselheira amorosa, ou até como uma grande poeta – ela que apenas escreveu prosa poética. Como o poema Alta Tensão, de Bruna Lombardi, a ela atribuída recorrentemente no Facebook: “eu gosto dos venenos mais lentos / dos cafés mais amargos / das bebidas mais fortes / e tenho / apetites vorazes / uns rapazes / que vejo / passar / eu sonho / os delírios mais soltos / e os gestos mais loucos / que há / e sinto / uns desejos vulgares / navegar por uns mares / de lá / você pode me empurrar pro precipício / não me importo com isso / eu adoro voar”. O que pensaria ou diria Clarice ao ver isto? O que ela comentaria sobre essas “difamações literárias”, por assim dizer?

Mas se a grande maioria esmagadora das citações não é de Lispector, isto nos leva ao embate: a grande escritora é popular ou impopular? Por tantos trechos falsos a ela atribuídos pela grande massa das redes sociais, podemos pensar que, na verdade, a escritora é impopular, uma vez que seus verdadeiros escritos são menos divulgados que os falsos. O que não quer dizer que ela não tenha leitores (muitos que estão lendo esta matéria são leitores de Clarice) e que estes não divulguem citações reais.

Em defesa de Clarice e para legitimá-la aqui deixamos excertos de algumas de suas obras, com as devidas referências:

“Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher […]. Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem a felicidade se vivia: abolindo-a, encontrara uma legião de pessoas, antes invisíveis, que viviam como quem trabalha – com persistência, continuidade, alegria. O que sucedera a Ana antes de ter o lar estava para sempre fora de seu alcance: uma exaltação perturbada que tantas vezes se confundira com felicidade insuportável. Criara em troca algo enfim compreensível, uma vida de adulto. Assim ela o quisera e escolhera.” (LISPECTOR, Clarice. In: Amor)

“Acho com alegria que ainda não chegou a hora de estrela de cinema de Macabéa morrer. Pelo menos ainda não consigo adivinhar se lhe acontece o homem louro e estrangeiro. Rezem por ela e que todos interrompam o que estão fazendo para soprar-lhe vida, pois Macabéa está por enquanto solta no acaso como a porta balançando ao vento no infinito. Eu poderia resolver pelo caminho mais fácil, matar a menina-infante, mas quero o pior: a vida. Os que me lerem, assim, levem um soco no estômago para ver se é bom. A vida é um soco no estômago.” (LISPECTOR, Clarice. In: A hora da Estrela)

“A palavra é o meu domínio sobre o mundo.” (LISPECTOR, Clarice. In: Perto do coração selvagem)

“E eis que percebo que quero para mim o substrato vibrante da palavra repetida em canto gregoriano. Estou consciente de que tudo o que sei não posso dizer, só sei pintando ou pronunciando, sílabas cegas de sentido. E se tenho aqui que usar-te palavras, elas têm que fazer um sentido quase que só corpóreo, estou em luta com a vibração última.” (LISPECTOR, Clarice. In: Água viva)

“– Você tem ‘descortinado’ muito ultimamente, meu filho? – Tenho pai, disse contrafeito com a intrusão de intimidade, toda vez que o pai quisera ‘compreendê-lo’, deixara-o constrangido. – Como vão suas relações sexuais, meu filho? – Muito bem, respondeu com vontade de mandar o pai para o inferno de onde tirara.” (LISPECTOR, Clarice. In: A maçã no escuro)

“Era uma maçã vermelha, de casca lisa e resistente. Pegou a maçã com as duas mãos: era fresca e pesada. Colocou-a de novo sobre a mesa para vê-la como antes. E era como se visse a fotografia de uma maçã no espaço vazio. Depois de examiná-la, de revirá-la, de ver como nunca vira a sua redondez e sua cor escarlate – então devagar, deu-lhe uma mordida. E, oh Deus, como se fosse a maçã proibida do paraíso, mas que ela agora já conhecesse o bem, e não só o mal como antes. Ao contrário de Eva, ao morder a maçã entrava no paraíso. Só deu uma mordida e depositou a maçã na mesa. Porque alguma coisa desconhecida estava suavemente acontecendo. Era o começo – de um estado de graça. Só quem já tivesse estado em graça, poderia reconhecer o que ela sentia. Não se tratava de uma inspiração, que era uma graça especial que tantas vezes acontecia aos que lidavam com arte. O estado de graça em que estava não era usado para nada.” (LISPECTOR, Clarice. In: Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres)

“No entanto, fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei. Como se contassem comigo nas trincheiras de uma guerra e eu tivesse desertado. Sei que meus pais me perdoaram eu ter nascido em vão e tê-los traído na grande esperança. Mas eu, eu não me perdoo. Quereria que simplesmente se tivesse feito um milagre: eu nascer e curar minha mãe. Então, sim: eu teria pertencido a meu pai e a minha mãe. Eu nem podia confiar a alguém essa espécie de solidão de não pertencer porque, como desertor, eu tinha o segredo da fuga que, por vergonha, não podia ter conhecido. A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver. Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego os últimos goles de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho.” (LISPECTOR, Clarice. In: A descoberta do mundo)

“[…] estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda. Não confio no que me aconteceu. Aconteceu-me alguma coisa que eu, pelo fato de não a saber como viver, vivi uma outra? A isso quereria chamar desorganização, e teria a segurança de me aventurar, porque saberia depois para onde voltar: para a organização anterior. A isso prefiro chamar desorganização pois não quero me confirmar no que vivi – na confirmação de mim eu perderia o mundo como eu o tinha, e sei que não tenho capacidade para outro.” (LISPECTOR, Clarice. In: A paixão segundo G. H.)

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