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O ornitorrinco e a agente literária

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João Paulo Cuenca no Paiol Literário. Foto: Matheus Dias

João Paulo Cuenca no Paiol Literário. Foto: Matheus Dias

João Paulo Cuenca, na Folha de S.Paulo

Resumo: O escritor J.P. Cuenca responde a texto de Luciana Villas-Boas publicado na “Ilustríssima” de 23/2, no qual a agente apontava a obsessão do autor nacional em obter projeção no exterior, antes de consolidar-se no Brasil. Para Cuenca, dimensionar a pretensão artística pela demanda do leitor médio é mediocrizar a literatura.

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Foi numa sala de embarque que li “A Tradução, essa Faminta Quimera – Para Quem Escreve o Autor Local?, artigo de Luciana Villas-Boas publicado nesta “Ilustríssima” há dois domingos. Estava nos Estados Unidos para divulgar a tradução de um romance, convidado pelas universidades de Stanford, UCLA, Princeton, Yale, Brown, Illinois, Indiana e NYU. Apesar da lista elegante, foram leituras de alcance restrito, para turmas de pós-graduação. Ainda não cheguei ao sofá da Oprah ou à lista de mais vendidos do “New York Times”.

Foram necessários três anos e meio para que se esgotasse a primeira fornada, de 3.000 exemplares, de meu livro mais recente, que agora terá nova edição. Embora não seja um estrondo comercial, “O Único Final Feliz para uma História de Amor É um Acidente” (Companhia das Letras, 2010) já chegou às livrarias de Portugal, Espanha, Alemanha, Argentina, França e EUA, ainda que em distribuição restrita. Até junho, será editado na Finlândia e na Romênia.

O mérito é de cada um dos tradutores que se apaixonou pelo livro, normalmente propondo a tradução e antecipando-se a acordos editoriais. É da agência e dos editores estrangeiros que acreditaram nas excentricidades deste escritor. Mas nada disso seria possível sem o programa de traduções da Fundação Biblioteca Nacional. Sua retomada foi fundamental para a difusão da nossa literatura no exterior nos últimos anos. (Importante lembrar que não se trata de invenção brasileira. Muitas das traduções que consumimos no Brasil são fruto de iniciativas similares, já bastante tradicionais em mercados como a Europa.)

Diferentemente de Villas-Boas e de Raquel Cozer, que também publicou texto na penúltima edição deste caderno, não sou grande conhecedor dos números de exemplares vendidos meus ou dos meus colegas de geração -numa mesa de literatos brasileiros dos anos 10, falar disso é tabu maior do que teorizar sobre a própria produção (ou do que confessar a inveja que temos dos escritores gaúchos).

Por isso não tenho o número total de vendas do meu livro fora do Brasil, mas desconfio que seja maior que o doméstico. Se contarmos pelas tiragens, ele foi impresso três ou quatro vezes mais no exterior. Também foi mais resenhado fora. Agora a imprensa argentina e francesa começam a falar dele, apontando aspectos que a crítica brasileira, portuguesa ou alemã não tinham levantado. E o romance começa a ser lido com atenção por alguns estudantes estrangeiros. Essas novas camadas de leitura jogam luzes diferentes à obra e oxigenam o seu autor.

Em termos absolutos, são números ainda pequenos. É um começo e uma aposta. Deixo, no entanto, ao departamento comercial das editoras e agências o papel de julgar produção literária e sua repercussão ao longo da história por desempenho das vendas.

ESTOURO

Ao contrário do que alguns colegas e editores sugerem, não acredito que um escritor deva moldar sua literatura com o objetivo de ser acessível e virar um “estouro de mercado”. Num país que transformou autores como Guimarães Rosa e Clarice Lispector em cânone, dimensionar pretensão artística sob a demanda do leitor médio seria fruto de uma inversão lógica que, no limite, nos levaria ao grunhido.

Continuo a escrever exatamente o que quero, mas sempre me disponho ao embate. Nos últimos anos tive a sorte de vender livros em vilarejos ao norte da Alemanha, em balneários caribenhos, em Macau e no Meio-Oeste americano. Também o fiz em dezenas de cidades do meu país, de Foz do Iguaçu ao interior do Maranhão.

O trabalho de arregimentar novos leitores -para mim e para a literatura brasileira- é um corpo a corpo ao qual tenho dedicado boa parte do meu tempo na última década, dentro e fora do Brasil. É o foco do meu trabalho? Não. Escrevo para isso? Não. Ganho dinheiro com isso? Aqui, pouco. No exterior, nenhum. Mas esses encontros ajudam a entender o que faço. E, ainda que entre a espetacularização da figura do escritor e uma difusão efetiva do hábito da leitura exista um abismo por trás de uma cortina de fumaça de boas intenções, com sorte ganho um ou outro leitor ao final dessas performances. Por isso, continuo.

Cada leitor é tão importante quanto o próximo. “20 leitores locais são mais preciosos que uma edição na Bulgária”? Não. A não ser que a edição búlgara tenha menos de 20 exemplares vendidos. O “autor local”, como Luciana Villas-Boas gosta de chamar, escreve para o mundo, onde buscará seus leitores. Nem mesmo o seu país irá reconhecê-lo se ele não tiver essa pretensão.

OBSESSÃO

Luciana Villas-Boas começa seu artigo com uma assertiva meio grosseira: “O autor brasileiro é vidrado numa tradução”. Depois, ao traçar com detalhe os motivos do divórcio entre literatura e sociedade nas últimas décadas, dá a dica que poderia explicar nossa estranha obsessão, mas deixa a ponta meio solta.

O autor brasileiro não é vidrado numa tradução por “cultivar o sonho colonizado e aprisionador do ‘sucesso no Primeiro Mundo'”, como o texto diz. Ele é vidrado numa tradução porque quer ser lido. E porque nasceu num país que tem lido muito pouco literatura contemporânea.

A tiragem inicial média de um romance em Portugal é a mesma que aqui, ainda que nossa população seja quase 20 vezes a de lá. Nossos números podem ser ainda mais vergonhosos: em 2011, quase quatro em cada dez universitários não podiam ser considerados plenamente alfabetizados -os dados são do Instituto Paulo Montenegro (IPM). Não há ação editorial que resolva tal problema.

Talvez seja por isso que escritores brasileiros precisem repetir como um mantra: escrevo exatamente o livro que posso e desejo escrever. Se a obra pronta se transformará numa “aposta ousada” ou convidará novos brasileiros ao hábito da leitura é algo que está totalmente fora da minha lista de prioridades quando escrevo. Para a ira de alguns, não apenas escrevemos o que queremos, mas também queremos ser lidos sem nenhum tipo de concessão às necessidades do mercado editorial ou à última onda anglo-saxônica. A lógica por trás do artigo de Villas-Boas sucumbe ao provincianismo que ela credita ao autor brasileiro.

A mesmice não está na produção literária dos contemporâneos. É só ler seus livros com os olhos abertos, o que alguns “scouts” de agência e críticos literários com pedigree não costumam fazer, sempre procurando neles outros que já foram escritos.

O “mais do mesmo” está nesse tom acusatório, vindo de certos editores, acadêmicos e escritores que tentam corresponsabilizar a produção contemporânea por um problema estrutural de educação no país. O desprestígio da ficção brasileira no mercado local é fruto do desprestígio da leitura como um todo no Brasil. Creditá-lo aos livros publicados ou aos interesses dos seus autores é um erro que ajuda a intoxicar ainda mais um ambiente não muito conhecido pela sua lisura.

O editor e escritor Paulo Roberto Pires, num seminário em que estivemos juntos na Universidade Brown no ano passado, terminou seu panorama sobre a literatura brasileira contemporânea com uma imagem arrasadora:

“O crítico marxista Francisco de Oliveira certa vez definiu o capitalismo brasileiro como um ornitorrinco, aquele estranho animal que é ao mesmo tempo da terra e da água, mamífero e ovíparo, uma exceção eterna no conceito da evolução das espécies. Eu acho que é uma boa metáfora para pensar a literatura brasileira hoje. Nós somos ornitorrincos literários: temos público, mas não temos leitores, nós viajamos ao redor do mundo, mas não temos reconhecimento no nosso país, nós somos ‘the next big thing’, mas não ganhamos dinheiro com isso, nós ganhamos a vida falando para muita gente sobre livros lidos por apenas alguns deles. Nós somos, mesmo contra a nossa vontade, um espelho do nosso país.”

O ornitorrinco não tem culpa de ser ornitorrinco, Luciana. Libertemos o escritor brasileiro de mais essa.

J. P. CUENCA, 35, é escritor e colunista da Folha, autor de “O Único Final Feliz para uma História de Amor É um Acidente” (Companhia das Letras) e “O Dia Mastroianni” (Agir).

 

dica da Judith de Almeida

Bienal do Livro da Bahia contará com mais de cem autores

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Publicado em Bahia Notícias

Bienal do Livro da Bahia contará com mais de cem autores

Poeta José Inácio é um dos curadores do evento

Prevista para acontecer entre os dias 8 e 17 de novembro, A 11ª Bienal do Livro da Bahia terá 385 expositores e mais de cem autores nacionais e internacionais. Já estão confirmados nomes como o romancista João Paulo Cuenca; o jornalista, poeta e produtor cultural José Inácio Vieira de Melo; e a poeta, ensaísta e professora de literatura Suzana Vargas. Um dos espaços mais valorizados do evento é o Café Literário, que promete conversas descontraídas entre escritores e público. Em outro espaço, no Território Jovem, vão ocorrer debates em torno do tema tecnologia e cultura digital. Na Praça Cordel e Poesia, voltada para a cultura popular, irão acontecer oficinas, exposições e declamação de poesias. Já no Mundo dos Livros, as crianças vão ser apresentadas à literatura de maneira interativa, além de ouvir contos e fábulas. A Bienal oferece ainda o Fórum de Debates, espaço reservado para realização de encontros de profissionais e palestras voltadas a temas literários, como livros eletrônicos, didáticos e design do livro. O evento ocorrerá mais uma vez no Centro de Convenções da Bahia.

Escritores e tradutores estão entre os que mais tentam se manter off-line

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Software bloqueia o acesso à rede
Freedom é utilizado por mais de meio milhão de pessoas no mundo

A americana Meg Cabot tem um computador apenas para trabalhar (FOTO: André Coelho)

A americana Meg Cabot tem um computador apenas para trabalhar (FOTO: André Coelho)

Título original: Profissionais buscam forma de não cair na tentação da internet

Clarice Spitz e Sérgio Matsuura. em O Globo

Rio — Retornar ao modo off-line pode ser mais difícil do que se imagina. Para gente que trabalha com a palavra então, como escritores e tradutores, a busca por um uso mais produtivo do computador tem levado a soluções inusitadas. Se por um lado, a internet é uma aliada para quem escreve e precisa checar nomes e informações, por outro, não há dúvidas de que pode ser um grande “desprogramador” de tarefas. As redes sociais e o e-mail estão entre os principais vilões.

Regras não existem, mas cada um procura sua maneira de sobreviver ao vício de ficar horas conectado. A escritora americana de literatura infantojuvenil Meg Cabot, que lança em setembro o “The Bride Wore Size 12”, partiu para uma decisão radical: usa um computador apenas para escrever e outro exclusivamente para acessar as redes sociais.

Programa que tem feito a cabeça de escritores como Nick Hornby, de “Alta Fidelidade”, e da iraniana Lila Azam Zanganeh, que foi um dos sucessos da 11ª edição da Flip, o Freedom, software que bloqueia a internet, já está conquistando adeptos entre os brasileiros. O programa, que custa US$ 10, funciona de maneira bem simples: o usuário decide quantos minutos de liberdade quer ter. Ou seja, quanto tempo está disposto a ficar sem internet, com o acesso à rede bloqueado.

O escritor João Paulo Cuenca é um fã de carteirinha. Durante as seis semanas que passou num castelo na Umbria, no centro da Itália, escrevendo o seu próximo livro, mesmo isolado, tinha internet e problemas para se concentrar. Cuenca adotou o método: a cada 45 minutos free, tinha 15 de acesso irrestrito.

— É a coisa mais idiota e simples, mas se faço quatro picos assim por dia, rendo muito.

Ele diz que os benefícios não significam que nunca trapaceou. Cancelou o programa apenas para checar um e-mail de trabalho, que nem era tão importante. Para destravar o programa, basta religar o computador.

— Somos muito viciados mesmo. Às vezes, deixo o telefone sem bateria perto do computador para não ter jeito de olhar os e-mails. É ridículo pagar quando é só desligar o cabo — admite.

Ferramenta simples

O Freedom foi lançado em 2008 pelo pesquisador Fred Stutzman, que viu a necessidade de desenvolver uma ferramenta simples que pudesse ajudar as pessoas a focar em atividades produtivas. Desde então, o software já foi baixado por mais de meio milhão de pessoas, entre elas o próprio desenvolvedor.

— Eu mesmo usei o Freedom quando estava escrevendo a minha dissertação — conta Stutzman. — O programa ajuda as pessoas a reconquistar o controle sobre o computador, para que ele sirva para trabalhar, em vez de distrair.

A ferramenta é útil até para os que se consideram disciplinados. A escritora Carol Bensimon, autora de “Pó de parede” e “Sinuca embaixo d’água”, diz não ser “procrastinadora”, mas admite que a internet atrapalha a concentração no trabalho. Sempre que possível, vai para uma área comum no prédio onde vive para se desconectar, mas quando está em casa o Freedom está acionado.

— O Freedom me salvou — brinca, com um misto de seriedade, a tradutora Melissa Lyra, brasileira de 36 anos que mora em Lisboa. — Já tinha tentado bloqueadores sociais, mas acabava sempre por me distrair.

Ela usa junto do Freedom o Pomodoro Technique, técnica de gestão de concentração. Assim, conseguiu dobrar a produção.

— Hoje em quatro horas sem internet produzo o mesmo que em oito com ela — diz.

(Colaborou Michele Miranda)

Revista ‘Granta’ une prestígio e simplicidade

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O editor da Granta, John Freeman, na Redação da revista literária, em Londres

Fabio Victor, na Folha de S. Paulo

“Você tem certeza de que Vanessa Barbara existe mesmo? Nós aqui estamos achando que ela é uma invenção do Antonio Prata.”

O chiste do editor da revista britânica “Granta”, o americano John Freeman, indica o clima que dominou nos últimos meses a Redação da publicação, em Londres.

A dificuldade em contatar alguns autores –num dado período, Vanessa de repente sumiu– foi parte de um processo que começou em julho, quando foi lançada no Brasil a “Granta – Os Melhores Jovens Escritores Brasileiros”, e é concluído agora, com o lançamento da versão do volume em inglês.

Quando Freeman fez a brincadeira, numa visita da Folha à Redação da revista, em Londres, em setembro passado, a edição traduzida para o inglês acabara de ser finalizada.

A “Granta” incumbiu 15 tradutores de verterem para o inglês os textos dos 20 brasileiros selecionados. Prata e Vanessa, ambos colunistas da Folha, estão entre eles.

A partir do dia 12, outros noves autores participam de eventos de lançamento nos EUA e no Reino Unido.

São eles: Carola Saavedra, Chico Mattoso, Cristhiano Aguiar, Daniel Galera, João Paulo Cuenca, Michel Laub, Miguel Del Castillo, Tatiana Salem Levy e Vinicius Jatobá. A programação está na página www.granta.com.

Em março, deve sair a tradução para o espanhol e para o mandarim. A “Granta” dedicada ao Brasil teve apoio do governo federal. Por meio do seu Programa de Apoio à Tradução, a Fundação Biblioteca Nacional repassou US$ 8.000 (R$ 16,2 mil) à publicação.

SIMPLES

O prestígio internacional da “Granta” não altera a simplicidade do ambiente em que a revista é produzida.

A Redação funciona no primeiro andar de um casarão branco com fachada neoclássica no bairro nobre de Holland Park, na zona oeste de Londres.

Em torno de uma pequena sala de estar com poltronas e mesa de centro estão dispostos os escritórios da equipe editorial –oito pessoas que cuidam da revista e da editora Granta Books– e uma copa aberta.

Freeman ofereceu café, que descansava numa velha cafeteira elétrica. A caneca foi colhida da pia, o repórter passou uma água e pediu açúcar, que o editor não sabia se tinha -por fim, foi achado num armário.

Fundada em 1889 por estudantes da Universidade de Cambridge, a “Granta” hoje tem, além da edição em inglês (trimestral, tiragem de 50 mil exemplares), versões em cinco países: Espanha, Itália, Bulgária, Brasil e China. Para o ano que vem, serão pelo menos mais três (Noruega, Suécia e Portugal).

Segundo Freeman, a edição brasileira, que acaba de chegar ao volume dez, é a mais bem-sucedida entre as estrangeiras.

A Objetiva/Alfaguara, que publica a revista, diz que a vendagem média é de 2.500 exemplares por volume (a dos “Melhores Jovens” vendeu até agora cerca de 4.300).

Indagado se a ideia de espalhar a marca pelo mundo não seria incompatível com a excelência literária da “Granta”, Freeman diz que não, pelo contrário.

“É algo novo, outras revistas literárias não possuem edições em outras línguas, embora os bons leitores sempre queiram ler livros de outros países. E a internacionalização do mercado editorial tornou isso possível.”

“Para uma revista focada em nova literatura, como a ‘Granta’, é muito importante descobrir novos escritores fora da língua inglesa”, completa.

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