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Curso técnico ainda é visto no país apenas como ‘pré-vestibular’

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Clara Malafaia, na biblioteca da universidade Mackenzie em São Paulo  - Raquel Cunha/Folhapress

Clara Malafaia, na biblioteca da universidade Mackenzie em São Paulo – Raquel Cunha/Folhapress

 

Iara Biderman, na Folha de S.Paulo

Concluir o ensino técnico está longe de significar o fim da carreira estudantil.

“É uma modalidade da educação formal que pode e deve ser o caminho para o curso superior”, afirma Gustavo Leal, diretor de operações do Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial).

Entrar na faculdade tem sido o objetivo principal dos alunos destes cursos, segundo João Cardoso Palma, professor da Unesp (Universidade Estadual Paulista).

“A maior parte dos estudantes que concluem o técnico presta o vestibular, o que é uma distorção”, diz Palma.

Para o professor da Unesp, também membro do Conselho Estadual de Educação de São Paulo, o curso profissionalizante deveria ser suficiente em si. “É um desperdício de recursos manter em cursos técnicos alunos que não pretendem ir para o mercado de trabalho, mas sim prestar vestibular.”

Apesar de os cursos profissionalizantes receberem menos de 10% do total de matrículas no ensino médio, eles são considerados “mais puxados” do que os cursos regulares do ensino público.

“O estudante enxerga o técnico como uma oportunidade para vencer o funil do vestibular”, analisa Leal.

Nas escolas técnicas mais conceituadas, o funil vem antes: é preciso passar por uma seleção bastante concorrida para conseguir uma vaga.

ACADEMIA X MERCADO

O cenário é diferente em outros países. “Na Finlândia, que tem um dos melhores sistemas educacionais do mundo, a maior parte dos alunos que termina o curso técnico vai para o mercado, não para a universidade”, diz Palma.

A situação é semelhante na Alemanha. O modelo dual alemão, muito voltado para a inserção no mercado de trabalho, é uma referência mundial em ensino técnico.

É o modelo usado no Colégio Humboldt, em São Paulo, fundado por alemães. Mas no Brasil, ao contrário do que acontece na Alemanha e na Europa em geral, a maioria dos alunos não considera o curso técnico um fim em si.

“Aqui todos querem ir para a faculdade, independentemente de ter perfil acadêmico ou não”, diz Hans Wagner, vice-diretor do Humboldt.

A questão é econômica e cultural. “No Brasil todo mundo quer ser ‘doutor’, é um legado do sistema escravocrata, em que o trabalho manual ou técnico é desvalorizado”, afirma Palma.

Também é mais mal pago. “O salário de quem tem curso superior é três vezes maior do que o dos que só têm ensino médio”, afirma Simon Schwartzman, sociólogo e pesquisador do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade.

Bárbara Vias, na empresa onde trabalha, em São Paulo - Raquel Cunha/Folhapress

Bárbara Vias, na empresa onde trabalha, em São Paulo – Raquel Cunha/Folhapress

A preocupação de Schwartzman é o fato de apenas 17% dos jovens no ensino médio de todo o país conseguirem entrar na universidade. “Os que não entram e não têm formação profissional estão despreparados para o mercado de trabalho.”

“Quem faz o curso técnico e depois vai fazer faculdade já sai em vantagem”, afirma Wagner. No Colégio Humboldt, 50% dos alunos do técnico buscam formação universitária após a profissionalizante, segundo ele.

Clara Malafaia, 21, está neste grupo. Ela resolveu cursar gestão em administração após se formar no ensino médio regular. “Não sabia que faculdade fazer. Aos 17 anos é muito cedo para decidir a profissão. Entrei no técnico, e um dos módulos era marketing. Descobri ser o que eu queria.”

Hoje, ela cursa a faculdade de publicidade no Mackenzie, em São Paulo. Durante o técnico, trabalhou em uma empresa de empilhadeiras e na Câmara Brasil-Alemanha, como parte do curso. E já foi chamada para um novo emprego.

“A escola técnica dá a parte prática, que não tem na faculdade. Os dois cursos são complementares”, avalia Bárbara Vias, 19. Como Clara, ela fez gestão em administração.

Foi sua mãe que a incentivou a cursar o técnico. “Ela trabalhou 26 anos numa grande empresa, sabe que o mercado está cada vez mais competitivo e este curso pode fazer a diferença”, diz Bárbara.

Durante a formação técnica, ela afirma ter ganho experiência no dia a dia de uma empresa, passando por todos os setores, do financeiro à logística e vendas.

Em março, foi efetivada no emprego como assistente administrativa, mas não desistiu de seguir os estudos. Bárbara entrou em direito e é hoje a caçula de sua turma de faculdade, conta.

Do curso técnico para o mundo: Carioca disputa título de melhor joalheiro

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joal

Publicado em UOL

Cortar, martelar, serrar, modelar e polir um bloco de metal bruto transformando-o em uma bela jóia cheia de detalhes. Essa é a atividade desempenhada pelo estudante carioca Leonardo Fonseca. Aos 20 anos, ele é técnico em ourivesaria e pode ganhar o título de melhor joalheiro do mundo. O carioca vai participar da World Skills – competição internacional de educação profissional. A disputa será com representantes de outros 18 países, em agosto.

Antes de se tornar menor aprendiz e iniciar o curso de técnico em ourivesaria, Leonardo conta que não conhecia a atividade.

“Eu tinha 16 anos e estava querendo emprego temporário. Eu mandei um monte de currículos e a HStern me chamou. Me ligaram falando que eu havia sido selecionado, mas só tinham vagas para aprendiz de ourivesaria. Eu não fazia ideia do que era, mas topei”, lembra.

O curso teve duração de dois anos. Enquanto as aulas foram realizadas na unidade do Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) na Tijuca, zona norte do Rio, as lições práticas ficavam por conta da HStern. O que Leonardo não imaginava era que acabaria se tornando um competidor entre joalheiros do mundo inteiro. A porta de entrada foi a Olimpíada do Conhecimento – maior competição de educação profissional do país, promovida pelo Senai.

“No final do curso, o Senai me chamou para competir”, conta ele, que recebe uma bolsa de ajuda de custos no valor de um salário mínimo para se dedicar de segunda à sábado ao treinamento.

Depois de levar medalha de ouro na disputa estadual, começou a bateria de treinamento para a etapa nacional. Leonardo conseguiu se destacar mais uma vez, tornando-se o representante brasileiro no World Skills.

Para a etapa internacional, Leonardo teve que se mudar para Brasília, onde fica a Diretoria Nacional do Senai. Seu treinamento passou a ser de segunda a sábado durante pelo menos dez horas por dia. A prova está marcada para agosto e será em São Paulo.

Graduação para depois

Assim como muitos jovens, Leonardo também enfrentou o dilema de ter que escolher entre cursar uma graduação ou seguir na carreira de sua formação técnica. Logo depois que acabou o curso de aprendiz de ourivesaria, ele passou no vestibular para cursar turismo na UFF (Universidade Federal Fluminense) e iniciou o curso.

Mas, no primeiro período, se viu obrigado a escolher entre a graduação e o treinamento para as competições de ourivesaria. Foi aí que resolveu abandonar a faculdade.

“Vejo alguns amigos na faculdade, mas não sofro preconceito por ter optado por um curso técnico. Diante de tantas horas diárias de treinamento, posso dizer que é um sacrifício prazeroso. Não posso deixar a oportunidade passar e eu não agarrar. Num curto espaço de tempo estou tendo contato com excelentes profissionais e um aprendizado que nunca imaginei”, diz Fonseca, que já montou uma pequena oficina na casa da avó, para confeccionar joias e também fazer pequenos reparos.

Como venceu a Olimpíada do Conhecimento na categoria de ourivesaria, ele vai ganhar uma bolsa para estudar design de joias, na PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio).

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