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Os livros longos e a promessa do autor

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Quem, nos dias de hoje, tem tempo para ler um romance de 800 páginas?

Danilo Venticinque, na Época

Na era da informação fragmentada, escrever um romance é uma atitude no mínimo questionável. Escrever um romance de 800 páginas, ainda por cima, é um evidente sintoma de megalomania. Quem hoje em dia consegue separar tempo para ler um livro desse tamanho e perder preciosas horas dedicadas à efervescência das redes sociais?

Foi a indefensável pretensão literária da neozelandesa Eleanor Catton, a mulher de 28 anos mais antiquada do planeta, que deu origem a Os luminares, um dos livros mais elogiados dos últimos anos. Trata-se de uma obra obviamente fora de moda. Paródia dos romances vitorianos, o livro conta a história de um assassinato durante a corrida do ouro na Nova Zelândia do século XIX. Foi o livro mais longo (e a autora mais jovem) a ganhar o cobiçado Man Booker Prize. Críticos o descreveram como um trabalho vivo e extraordinário, cujas páginas parecem virar sozinhas. São comentários de gente que não tinha absolutamente nada para fazer e, mergulhada no mais profundo tédio, decidiu que ler um romance de 800 páginas seria uma boa maneira de passar o tempo.

Antes que eu me junte a eles numa apaixonada defesa da leitura antiquada em tempos modernos, preciso fazer uma confissão: não li Os luminares. Como muitos outros jornalistas, diante de um prazo exíguo para escrever sobre uma obra nada enxuta, tive de recorrer a alguns truques da profissão para tornar viáveis as leituras inviáveis. Cada crítico tem suas artimanhas. Alguns leem diversas reportagens de outros jornalistas (que talvez também não tenham lido o livro) para assim descobrir tudo sobre a obra. Outros entrevistam o autor e confiam em sua capacidade de resumir centenas de páginas em poucos minutos de conversa. E há os que arriscam uma leitura apressada e incompleta, num misto de otimismo excessivo e desencargo de consciência. Ler cinquenta páginas de um livro de 800 é uma vergonha, mas é melhor do que não ler nenhuma.

Consegui terminar minha reportagem sobre Catton graças a uma mistura dessas três técnicas. Mas senti que não havia esgotado o tema. Decidi escrever mais um texto sobre Os luminares. Ainda sem ler o livro, evidentemente.

Resolvi aproveitar esta coluna para pensar um pouco nos motivos que levam um autor a escrever um livro tão longo quanto Os luminares — e, também, no que leva um leitor a enfrentá-lo.

A desculpa de Catton para escrever um romance vitoriano de 800 páginas é surpreendentemente contemporânea: distração diante do computador. Ela diz que escreveu o livro no Word, não se atentou à quantidade de páginas e só se deu conta da extensão do livro quando viu a primeira prova da versão impressa. Mesmo assim, continuou acreditando que seu livro cativaria os leitores apesar da extensão. O sucesso de crítica e público (mais de 500 mil cópias vendidas em todo o mundo) mostra que ela estava certa.

Catton descreve um livro longo como um contrato entre autor e leitor. “O autor promete ocupar mais tempo do leitor e entregar em troca uma experiência digna do tempo investido. Quanto maior o livro, maior a promessa. Levei isso muito a sério. Quis criar um livro de mistério que cumprisse essa promessa”, disse ela em entrevista na Festa Literária Internacional de Paraty.

Não duvido que muitos acreditem na promessa do autor e de fato leiam o livro até o final. A julgar pelas críticas que o livro recebeu, o esforço vale a pena. Mas para entender o sucesso do livro, sobretudo as expressivas vendas, é preciso lembrar também de outra promessa — feita não do autor para o leitor, mas sim do leitor para si mesmo.

Compramos um livro de 800 páginas na esperança de que seremos capazes de abrir mão de todos os nossos compromissos para lê-lo. Acreditamos nessa promessa. Poucas páginas depois, porém, as distrações do cotidiano reassumem o controle de nossas vidas e a leitura perde espaço. Passamos a encarar o livro longo não como um desafio a ser vencido, mas como uma lembrança do tempo em que acreditávamos que seríamos capazes de tal proeza de leitura. Um tributo ao que poderíamos ser.

Não há motivo para abandonar o otimismo, mesmo que nossos hábitos deponham contra nós. Conversei ontem mesmo com um amigo que também comprou Os luminares. Batizou-o carinhosamente de “chaproca”. Ele confidenciou que não conseguiu avançar muito na leitura nos últimos dias, mas acredita que irá retomá-la. “Estou só esperando a internet de casa sair do ar”, disse. É uma atitude admirável, que todo leitor deveria tomar como exemplo. Esqueçam o péssimo exemplo dos críticos que viram as páginas apressadamente e tentam ludibriar os autores de romances monumentais. Ler um livro de 800 páginas é uma tarefa para semanas, meses. Talvez até a vida inteira. E, se o autor cumprir sua promessa, cada hora da jornada terá válido a pena.

Agora, se me dão licença, tenho um livro para ler. Até a próxima semana.

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Atualização:

Ok: quando quase nenhum dos leitores entende a piada, a culpa obviamente é de quem escreveu.

Achei que todos os leitores perceberiam que frases como “(…) escrever um romance é uma atitude no mínimo questionável” ou “São comentários de gente que não tinha absolutamente nada para fazer e, mergulhada no mais profundo tédio, decidiu que ler um romance de 800 páginas seria uma boa maneira de passar o tempo” são irônicas. Os leitores habituais da coluna entenderam. Eles sabem que eu gosto de livros. Se eu não gostasse, não dedicaria uma coluna semanal ao tema.

Como vocês podem imaginar, uma coluna sobre livros não é exatamente um estouro de audiência. Em contrapartida, felizmente, os leitores costumam ser bastante fiéis. Estou tão acostumado a escrever para o público de sempre que fiz uma piada interna e me esqueci do óbvio: nas redes sociais, os textos às vezes se espalham. Até mesmo os textos sobre livros, vejam só. E, para muita gente, o texto desta semana foi o primeiro contato com a coluna. Acharam, justificadamente, que eu sou um tremendo ignorante que odeia a leitura.

Não tenho lá grandes provas contra a minha ignorância, mas posso provar que gosto de livros. Quem navegar pelos links que acompanham a coluna desta semana verá que escrevo sobre livros há mais de um ano, num dos poucos espaços dedicados exclusivamente ao tema em sites de notícias.

Sobre não ter lido o livro da Catton até o fim antes de escrever a reportagem sobre ele: nem sempre os prazos para publicação de um texto permitem que você leia toda a obra. Isso vale especialmente para romances extensos como o dela. Não conheço nenhum ser humano que seria capaz de lê-lo em dois dias. Li o que consegui ler, entrevistei a autora e pesquisei sobre a vida dela para fazer o melhor trabalho possível. Depois, em vez de fingir que terminei o livro, resolvi ser sincero e brincar com o fato de que um romance de 800 páginas toma muito tempo. Diante da reação negativa de tantos leitores, não dá para não reconhecer que a brincadeira foi infeliz.

Peço desculpas aos leitores que ficaram ofendidos com o texto e torço para que eles deem outra chance à coluna.

Em defesa da leitura sem vergonha

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Alguns críticos dizem que adultos deveriam se envergonhar por ler livros juvenis. Estão errados

Danilo Venticinque, na Época

O sucesso de A culpa é das estrelas nos cinemas e nas livrarias é uma notícia excelente para o mercado literário. Deveria ser comemorada por qualquer pessoa que acredite num futuro em que o hábito de ler seja mais difundido. Mas os pessimistas de sempre não perderam a chance de se manifestar. Para alguns críticos literários e leitores elitistas, qualquer notícia é má notícia. A popularidade dos livros juvenis, em vez de ser um alento, é um desastre irremediável.

Um artigo publicado há algumas semanas pela revista digital americana Slate sintetiza a opinião da turma do contra. O título já diz tudo: “Adultos que leem livros para crianças deveriam se envergonhar”. Ao longo do texto, a jornalista Ruth Graham lista motivos pelos quais adultos não deveriam perder seu tempo com A culpa é das estrelas e outras obras do gênero. Diz que os livros são inocentes demais, incentivam uma leitura acrítica e oferecem uma gratificação instantânea. Para jovens leitores em formação, seriam um mal necessário. Mas os milhões de adultos que se emocionaram com a história narrada por John Green deveriam ter vergonha disso – e procurar um livro para adultos imediatamente.

Ruth não está sozinha. Em qualquer conversa sobre literatura é possível encontrar leitores que manifestam, com ar de superioridade, opiniões semelhantes a essa. Histórias policiais, fantásticas ou romances adolescentes são vistos como subliteratura. Seus fãs, consequentemente, são subleitores. Bom mesmo é ler autores clássicos ou, na falta deles, uma meia dúzia de contemporâneos que tentam imitá-los.

Ao condenarem livros populares, esses críticos contribuem para que reforçar a imagem da literatura como um prazer sofisticado, que só pode ser aproveitado por uma elite intelectual. Mas não enxergam a importância que esses títulos têm não só para o mercado, como também para a formação de novos leitores.

Basta olhar para as listas de mais vendidos para comprovar que as livrarias e editoras estariam em apuros sem o público conquistado por esses best-sellers supostamente inferiores. Ao dizer que romances juvenis só deveriam ser lidos por adultos, os críticos se esquecem do óbvio: nem todos começam a ler na adolescência. Para muitos adultos, as histórias acessíveis e cativantes contadas em romances juvenis são uma excelente introdução à literatura. Ninguém começa lendo James Joyce. Entre ler a obra completa de John Green e parar nas primeiras páginas de Ulysses, a primeira opção me parece mais saudável e promissora para quem está descobrindo a leitura.

Mesmo que os fãs de autores juvenis não abram um só livro “adulto” em todas suas vidas, ainda assim sua experiência terá sido positiva. Ler um romance juvenil pode até ser menos enriquecedor do que ler um clássico da literatura, mas é muito melhor do que não ler livro algum. Parece bobagem, mas muitos críticos não entendem que essa escolha entre ler livros clássicos e ler livros populares não existe. Para a maioria das pessoas, a escolha é entre ler livros populares e fazer outra coisa: jogar videogame, assistir a um filme, passar a tarde no Facebook. A decisão de ler um livro, não importa o gênero, é uma vitória para a literatura.

Além de falta de visão, a crítica aos romances juvenis revela uma boa dose de hipocrisia. Não há leitor que não tenha, em sua prateleira, um daqueles livros que amamos sem respeitar. Pode ser uma história barata de detetive, uma ficção científica das mais absurdas, uma coleção de contos de terror ou, por que não, um romance adolescente. Ler um livro por prazer não deveria ser motivo de vergonha para ninguém. Vergonha é passar meses sem ler nada – ou criticar a leitura alheia em vez de olhar para a própria prateleira.

Khaled Hosseini: “Não gosto de ler ‘O caçador de pipas'”

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Dez anos depois de lançar seu romance de estreia, o escritor afegão fala sobre sua carreira literária, sua infância e o futuro de seu país

Danilo Venticinque, na Época

DUAS CASAS Khaled Hosseini em seu escritório, na Califórnia. Ele vive nos Estados Unidos desde a adolescência, mas sempre escreve sobre o Afeganistão (Foto: Steve Schofield/Contour by Getty Images)

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Khaled Hosseini em seu escritório, na Califórnia. Ele vive nos Estados Unidos desde a adolescência, mas sempre escreve sobre o Afeganistão (Foto: Steve Schofield/Contour by Getty Images)

Ao vê-lo caminhar pelas calçadas de Milão, onde circula sem ser reconhecido, poucos notariam que Khaled Hosseini, de 48 anos, é um escritor afegão. O terno azul-marinho sem gravata e os sapatos sociais o camuflam entre os executivos que visitam a cidade. Com seu inglês impecável, idioma em que escreve seus livros, poderia se passar por americano. É preciso sentar diante dele e ouvi-lo por alguns minutos para notar as inflexões de um contador de histórias do Oriente e o leve desconforto de quem está longe de casa, cercado por estrangeiros. Como o protagonista de O caçador de pipas, Hosseini deixou o Afeganistão na adolescência, mas o país define sua carreira e sua vida adulta.

ÉPOCA – Para muitos leitores, O caçador de pipas foi a primeira referência ao Afeganistão fora do noticiário sobre o terrorismo. Quanto ele mudou a imagem do país?
Khaled Hosseini –
Existe uma diferença entre o que o autor espera e a vida que o livro acaba tendo. Minha ideia era escrever uma história leve. Estava interessado na vida dos dois protagonistas. Em particular Amir, o personagem principal. Não tinha a intenção de educar o público, até porque não imaginei que o livro seria publicado. Mas era impossível contar a história dos personagens sem explicar o que aconteceu no Afeganistão. A vida dos personagens foi impactada pelo Taleban, como a de outros habitantes do país. Qualquer história ambientada no Afeganistão teria como pano de fundo a guerra, a política e a perda. A situação do país era dramática. Quando meus editores leram o livro, perceberam que havia mais que uma história de dois garotos. Era uma janela para a vida no país. Não sentei para escrever com essa intenção, mas o livro cumpriu essa missão mesmo assim. O lado humano do Afeganistão não aparece no noticiário, só há guerra e violência.

ÉPOCA – Como avalia o livro dez anos depois do lançamento?
Hosseini –
Como afegão, vejo o livro como uma janela para a sociedade do país. Algo que não existia antes. O livro serviu como ponte entre os leitores ocidentais e a vida no Afeganistão. O país se tornou mais real para os leitores. Como escritor, tenho uma relação complicada com o livro. Mudei desde que o escrevi. Estou mais velho, vejo a escrita com outra sensibilidade. Acho difícil ler O caçador de pipas, porque fico tentado a pegar uma caneta vermelha e editar todo o texto. Sou muito crítico. Passaria a leitura inteira pensando em tudo o que poderia ser diferente. Por que fiz isso? Por que fiz aquilo? Melhor deixar o livro em paz.

ÉPOCA – Assim como o protagonista de O caçador de pipas, o senhor nasceu no Afeganistão e se mudou ainda jovem para os Estados Unidos. A adaptação foi difícil?
Hosseini – Cheguei aos Estados Unidos sem dinheiro. Minha família teve de começar a vida do zero. A experiência de ser exilado, de ser um imigrante, de ser desalojado e de perder as raízes é algo que revisito sempre em meus livros. Existe uma tensão permanente entre o exilado e sua terra natal. Por muito tempo, minha família e eu sentíamos que não pertencíamos a lugar algum. Não sinto mais isso. Muitos anos se passaram. Trinta e três anos. Tenho uma casa nos Estados Unidos agora e me sinto confortável lá. E me sinto como um americano quando estou no Afeganistão. Embora tenha nascido lá, saiba ler e escrever no idioma e falar com todos, a realidade de minha vida é muito diferente. Dizer que sou um deles seria ingênuo.

ÉPOCA – Os afegãos o veem como um americano?
Hosseini –
Nunca serei visto por eles como igual. Sempre que visito o país, reconheço isso e me comporto de acordo com essa percepção. Vivo nos Estados Unidos. Não enfrentei o que outros afegãos enfrentaram. Não posso fingir que isso não importa. É parecido com o que eu sentia quando era criança. Havia uma questão de classe. Eu era filho de diplomatas e tinha consciência de que vivíamos uma vida confortável, mas havia pessoas miseráveis nas redondezas. Eu escrevia sobre isso desde a infância.

ocacadordepipas_grdÉPOCA – Qual foi sua sensação ao retornar ao Afeganistão depois de escrever o livro?
Hosseini – O país mudou muito, e mudou de maneiras boas e ruins. As pessoas parecem ser mais realistas em relação ao futuro. As expectativas estão mais baixas. Elas estão desapontadas com o governo, com a velocidade da reconstrução do país, com a pobreza e o desemprego. Estão preo­cupadas com o tráfico de drogas e a corrupção. Mas algumas coisas melhoraram. Em 2001, havia só 1 milhão de crianças na escola. Quase todos eram meninos e recebiam educação religiosa. Agora, temos mais de 7 milhões de crianças na escola, e 35% delas são meninas. A mortalidade infantil diminuiu, e a expectativa de vida cresceu. Escolas e ruas foram reconstruídas. Não é o suficiente para mudar profundamente o país, mas é significativo.

ÉPOCA – Muitos autores escrevem sobre regiões de conflito, mas não se envolvem com o assunto na vida real. O senhor poderia escrever sobre o Afeganistão e viver tranquilamente nos Estados Unidos. Por que decidiu agir de outra maneira?
Hosseini –
Eu dirigia em Cabul, em 2007, e vi comunidades em que as pessoas viviam nas ruas. A situação dos refugiados era desesperadora, e fiquei comovido. Quando entrei no avião para voltar aos Estados Unidos, percebi que me esqueceria logo daquilo. Em poucos dias, aquela memória não seria mais tão chocante. Conversei sobre isso com minha mulher quando cheguei em casa, e surgiu a ideia de fazer algo por essas pessoas, muito parecidas com os personagens de meus livros. Tive muita sorte em minha vida. Quero compartilhar essa sorte com outros afegãos. São algumas das pessoas marginalizadas do mundo. Nosso principal projeto é construir abrigos para refugiados. Também temos programas para ajudar crianças e mulheres, ainda mais marginalizadas. Fazer algo por elas é uma obrigação humana.

ÉPOCA – O senhor sente culpa por ter uma vida tão diferente dos outros afegãos de sua geração?
Hosseini –
Sim, claro. É uma emoção incômoda e inútil, mas pode ter algum efeito positivo. Ela me incentiva a fazer algo.

ÉPOCA – O senhor já escreveu que os afegãos são otimistas. É um traço irreversível da personalidade afegã ou isso pode mudar?
Hosseini –
É por isso que não gosto de ler O caçador de pipas. (Risos.) Discordo dessa frase! O oposto é verdade. Não que os americanos sejam pessimistas, mas os afegãos são extraordinariamente otimistas. Essa frase foi um erro. E isso foi provado em pesquisas. Perguntaram a pessoas de 30 províncias do Afeganistão o que esperavam para o futuro do país. Elas não são ingênuas. Entendem muito bem o tamanho dos problemas que o Afeganistão enfrenta. Mas acreditam que o país está indo na direção certa e que amanhã será melhor que hoje.

ÉPOCA – Hoje a Síria aparece no noticiário com a mesma frequência que o Afeganistão há dez anos. Aprendemos a enxergar melhor o Oriente ou cometemos os mesmos erros?
Hosseini –
O Ocidente continua noticiando as bombas e os protestos. Seria importante olhar também para o custo humano da guerra. O número de refugiados dobrou desde março. São 2 milhões. Eles vivem em países que têm seus próprios problemas. Há 250 mil morando no Líbano. O país não consegue receber essa quantidade de pessoas. O Ocidente tem visto isso como um problema de países vizinhos, mas é um problema internacional. Não vivemos mais num mundo em que o que acontece na Síria não nos diz respeito. É um dos legados do 11 de setembro.

ÉPOCA – Muitos ocidentais ainda acreditam que a democracia é incompatível com o islã…
Hosseini –
Os países do Oriente Médio têm instituições frágeis e muito jovens. São sistemas políticos falhos. Dizer que o povo muçulmano não pode viver numa democracia é uma atitude colonialista e condescendente. As pessoas querem ser ouvidas.

ÉPOCA – A história de Malala, a garota baleada pelo Taleban por tentar ir à escola, não é um exemplo de choque entre islã e democracia?
Hosseini –
Não diria que o Taleban é um representante do islã. Milhões de muçulmanos discordam disso. O Taleban é uma entidade cultural, movido primariamente por motivações étnicas. São religiosos, mas, em sua raiz, o movimento é étnico. Nada no islã diz que as mulheres não podem ser educadas. Nenhum muçulmano informado e digno de respeito acredita nisso. Dito isso, a história de Malala é um símbolo poderoso para quem acredita na democracia. É uma voz para jovens mulheres que querem ter um papel ativo, aprender e contribuir para a sociedade. Certamente, incentivará outras garotas a seguir o mesmo caminho.

ÉPOCA – O que o Afeganistão poderia aprender com a Turquia, um país próximo em que a democracia é mais madura?
Hosseini –
O passado da Turquia a preparou para a consolidação da democracia. É um caminho que o Afeganistão ainda não percorreu e está longe de percorrer. Mas isso pode acontecer. O grande mérito da Turquia foi preservar o Estado laico. Eu ficaria muito preocupado se a Suprema Corte do Afeganistão decidisse adotar a lei islâmica. A religião pode ser uma grande força construtiva e positiva, mas a Constituição não é seu lugar. Nossa Constituição atual dá margem a isso.

ÉPOCA – O escritor Salman Rushdie tornou-se conhecido no Ocidente por suas críticas ao islã. Sua visão de religião é semelhante à dele?
Hosseini – Nunca tive muito interesse em escrever sobre religião. Fui criado num lar quase secular. Meus pais me ensinaram que a religião é algo privado. Não éramos obrigados a rezar ou jejuar. Hoje sou um muçulmano cultural, mas não sou um muçulmano praticante. Acredito que é possível escrever sobre religião e até criticá-la de forma ponderada, sem provocar ou insultar. Mas invejo o fato de os ocidentais poderem discutir livremente o assunto, sem medo de represálias. O mundo islâmico ainda não atingiu esse estágio.

ÉPOCA – O senhor se tornou uma espécie de embaixador cultural do Afeganistão. Sente- se à vontade para criticar o país?
Hosseini –
O dever de um escritor é ser sincero. Se eu começar a escrever sobre o que os outros acham que devo escrever, minha relação com o leitor terá sido corrompida. Tento escrever sobre o Afeganistão da forma mais realista possível. Meus livros provocam reações divididas nos afegãos. Algumas pessoas já escreveram que faço uma apologia da vida ocidental, que sou um agente da CIA e que exploro as tragédias alheias em benefício próprio. Outras gostam de ver o país retratado em meus livros e reconhecem sua realidade. Entendo essas reações. Passei 33 anos sem viver no Afeganistão, depois resolvi escrever um livro sobre a vida no país. As pessoas que continuaram lá por todo esse tempo têm direito a suas opiniões.

ÉPOCA – Sua literatura é oriental ou ocidental?
Hosseini –
Quando cresci, meu livro favorito era O livro dos reis, um épico persa escrito há mais de 1.000 anos. É grandioso, dramático e cheio de mitologia. Esse livro me influenciou muito. Também cresci ouvindo histórias contadas por minha avó e meu pai. Essa tradição da narrativa oral é algo que me define como escritor. Tive algumas influências ocidentais, como os livros de James Bond e os filmes de John Wayne, e vivo no Ocidente. Mas, quando me sento para escrever, a voz e o ritmo são orientais.

ÉPOCA – Quais são seus escritores ocidentais favoritos?
Hosseini –
Alice Munro é uma mulher que admiro muito. É uma contista maravilhosa. Mereceu ganhar o Nobel de Literatura. Li tudo o que ela escreveu. Suas histórias são cheias de mistério. Ela não dá respostas fáceis. O leitor precisa se esforçar para compreender o sentido de suas histórias. Nada termina da maneira como você espera. Também gosto do dominicano Junot Diaz, que escreve com uma musicalidade linda. E convivo com muitos escritores na Califórnia. Alguns se tornaram meus amigos. Isabel Allende é alguém que sempre admirei e se tornou uma grande incentivadora.

ÉPOCA – Todos os seus livros têm personagens afegãos. O senhor se sente obrigado a escrever sobre sua terra natal?
Hosseini –
Sinto a obrigação de escrever livros verdadeiros. Se eu tiver uma história ótima na cabeça e ela for ambientada na Califórnia, não deixarei de escrevê-la só porque as pessoas esperam que eu escreva sobre o Afeganistão. Por acaso, me interessei muito pelo Afeganistão nos últimos dez anos. Talvez não tenha mais uma história a contar sobre o país. Talvez não tenha mais nenhuma história para contar. Toda vez que me sento para escrever, tenho a sensação de que o livro não irá a lugar algum, ninguém vai lê-lo e não tenho nada a dizer. Ter conseguido publicá-los é uma surpresa maravilhosa. Se as pessoas se lembrarem de mim no futuro, serei lembrado como alguém que trouxe o verdadeiro Afeganistão para os olhos do Ocidente. Nada que eu possa fazer em minha carreira mudará isso.

ÉPOCA – Se, daqui a dez anos, o senhor escrever um novo livro ambientado no Afeganistão, que país gostaria de descrever?
Hosseini –
Adoraria escrever um livro em que as guerras, o extremismo e a pobreza não aparecessem. Um livro que pudesse se concentrar apenas nos personagens, sem fazer uma crônica de tragédias e violência. É um caminho longo. Os próximos anos serão difíceis. Mas é disso que o Afeganistão mais precisa, de uma geração que não tenha nascido em meio a conflitos armados e que não veja a violência como algo cotidiano, cujos heróis não carreguem armas. Seria maravilhoso se o país estivesse em paz daqui a dez anos.

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