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“Atlas de Nuvens”, principal obra de David Mitchell, narra seis histórias interligadas por fio de esperança

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David Mitchell e a capa da versão brasileira de "Atlas de nuvens" Foto: Basso Cannarsa e Companhia da Letras / Divulgação / Divulgação

David Mitchell e a capa da versão brasileira de “Atlas de nuvens” Foto: Basso Cannarsa e Companhia da Letras / Divulgação / Divulgação

 

Livro lançado originalmente em 2004 finalmente chega ao Brasil

Carlos André Moreira, no Zero Hora

É fácil confundir Atlas de nuvens, lançado em 2004 e considerado a obra-prima do inglês David Mitchell, com um romance espírita – foi o que fizeram as irmãs Wachowski, ao adaptá-lo no filme ambicioso mas anódino A viagem, dirigido em parceria com o alemão Tom Tykwer em 2012. Afinal, Atlas de nuvens, que está sendo lançado agora no Brasil pela Companhia das Letras, encadeia seis histórias interligadas, entre outros fatores, pela recorrência de uma tatuagem em forma de cometa que assinala possíveis reencarnações de alguns personagens.

“As alma travessa os tempo que nem as nuvens atravessam o céu, e por mais que mude a forma e a cor e tamanho da nuvem ela continua seno nuvem, e as alma também”, diz Zachry, o protagonista da sexta narrativa, ambientada num futuro pós-apocalíptico em que a civilização e a linguagem humanas se deterioraram.

Mas Atlas de nuvens, escrito por um dos grandes autores ingleses contemporâneos, não é um romance espírita, porque seus seis episódios encadeados numa sofisticada estrutura de matrioshka não são sobre almas reencarnadas, e sim sobre ideias e conceitos reencarnados, deixando marcas na trajetória do ser humano.

O romance se inicia com o diário do viajante Adan Ewing, de passagem pelas ilhas do Pacífico em 1850, testemunhando o perverso sistema escravista no qual se assenta não só a colonização inglesa no local, mas a própria história dos nativos. Daí, pula-se para Robert Frobisher, jovem músico que se emprega em 1931 como assistente de um compositor renomado em fim de carreira e narra os percalços de sua estadia em cartas a um antigo amante, Sixmith. Sixmith este que, décadas mais tarde, aparecerá na terceira história, de tons policiais, em que a jornalista Luisa Rey tenta desmascarar os riscos representados na Califórnia dos anos 1970 por uma usina nuclear. História que, transformada em um thriller literário, vai parar nas mãos de um editor inglês, Timothy Cavendish, nos anos 2000, internado por engano em asilo de velhos. Um salto no futuro acompanha a tomada de consciência de Somni-451, uma clone engendrada para o trabalho em um futuro dominado pelo totalitarismo corporativista na Ásia. E, finalmente, alcança-se a história de Zachry, que vive nas ilhas do Pacífico mas séculos depois do início do livro, assistindo ao ocaso da civilização humana após um holocausto nuclear.

A engenhosidade com que o autor orquestra a coisa toda é digna de admiração. Cada seção apresenta um tom diferente, flertando com gêneros consagrados: a novela de viagem, o romance clássico europeu, o policial, a sátira inglesa, a distopia tecnológica, a distopia pós-apocalípitica. Como cinco dos protagonistas narram em primeira pessoa, também a linguagem se transforma (e o tradutor cumpre com louvor o desafio de aliar variedade e inventividade na transposição).

Mas a beleza do conjunto está em seu nível mais básico. Como cada história se transforma em uma narrativa acompanhada de algum modo pelo personagem da seguinte, Atlas de nuvens é um jogo literário em que uma certa chama, talvez a própria arte, persiste e se modifica à medida que o homem chafurda em suas pulsões de violência e dominação. Mesmo com o aceno de que o fim será triste para todos nós, uma “pulguinha de esperança” persiste. E, como Zachry ouve em um momento crucial de sua história: “num é fácil acabar com as pulga não”.

David Mitchell, o romancista do vilarejo

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David Mitchell

Foto: Eoin O’Conaill / NYTNS

Escritor inglês não gosta de multidões

Alexandra Alter, no Zero Hora

Se você viajasse para uma pequena paróquia nos arredores da cidade costeira de Clonakilty, na Irlanda, e pedisse para um dos moradores apresentá-lo ao escritor local, ele certamente o levaria a David Mitchell.

— Sou o romancista do vilarejo — afirmou Mitchell, em uma entrevista recente, por telefone. — Eu sou o único por aqui. Tenho certa aversão às pessoas que vêm atrás de mim — afirmou. Sua paranoia pode ser justificada. Na última década, Mitchell deixou de ser um autor cult com um grupo pequeno mas fiel de fãs, e se tornou uma grande figura literária cuja obra é comparada à de Nabokov, Pynchon e Dostoievsky.

Cinco dos seus romances foram nomeados ao Man Booker Prize, incluindo o mais recente, “The Bone Clocks”. Seu livro inovador de 2004, “Cloud Atlas”, vendeu um milhão de cópias na América do Norte e foi transformado em filme. Especialistas acadêmicos e superfãs leem suas obras com a intensidade de um estudante do talmude, e se reúnem em conferências com David Mitchell, incluindo mesas redondas sobre assuntos como “A Narratologia e o Multiverso de Mitchell”. “Multiverso” pode parecer um termo grandioso e metafísico demais para um romancista, mas fãs e especialistas dizem que esse é um bom termo para definir os livros de Mitchell, que discorrem sobre séculos, continentes e gêneros completamente diferentes, muitas vezes na mesma obra.

— ‘Universo’ não é um termo abrangente o bastante, já que cada livro mostra como o mundo dele é maior, expandindo os limites do que acreditamos serem suas histórias —afirmou David Ebershoff, editor de Mitchell na Random House. — Seu novo trabalho representa a primeira vez em que muitos de seus leitores poderão juntar as peças dos outros livros —

“The Bone Clocks”, lançado em setembro, é a obra mais ambiciosa de Mitchell, e fornece uma chave para desvendar o quebra-cabeças narrativo — uma espécie de macronovela que tem sido construída ao longo dos outros romances. Personagens dos livros anteriores aparecem em papeis centrais que iluminam de forma reveladora suas encarnações anteriores. Temas e motivos que ecoam em seus livros — sobrevivência, mortalidade, os perigos do poder e a possibilidade do renascimento — são amplificados e refinados.

— Da mesma forma que meus romances são construídos como novelas hiperligadas, estou produzindo o que chamo de um ‘uberlivro’ com todas elas, porque sou um megalomaníaco e gosto da ideia de fazer coisas enormes — afirmou Mitchell. “The Bone Clocks” começa em 1984, na Inglaterra, onde uma adolescente rebelde, Holly Sykes, foge de casa e acaba dentro de uma guerra oculta que vem acontecendo há séculos. À moda clássica de Mitchell, a narrativa transgride o tempo, o espaço e o gênero literário, pulando da Inglaterra dos anos 1980 para o Iraque contemporâneo, os Alpes Suíços medievais, as planícies da Austrália no século XIX, uma casa em Manhattan que funciona como um portal metafísico, e finalmente um vilarejo irlandês em 2043, onde o idoso Holly luta para proteger seus netos de uma catástrofe ambiental.

À medida que a história progride, Holly descobre que não passa de um peão em uma batalha entre dois grupos de imortais, os Horologistas, que reencarnam ao se apossarem de novos corpos, e os Ancoritas, que permanecem eternamente jovens, alimentando-se dos vivos. Mitchell, de 45 anos, afirma que “The Bone Clocks” surgiu de sua preocupação com a mortalidade.

— A origem da história foi minha crise de meia idade e a exploração de tudo que eu estaria disposto a fazer para enganar a morte — afirmou Mitchell, que é inglês e vive na Irlanda com a esposa e os dois filhos. Quando começou a escrever o romance há quatro anos, Mitchell imaginava uma estrutura ainda mais complexa. Ele tentou escrevê-lo na forma de 70 contos que se passassem em anos diferentes da vida de Holly, de 1969 a 2039. Depois de escrever 13 deles, ele travou.

— Essa é uma das ideias que parecem boas, mas quando você começa a colocar tudo no papel, acaba encontrando os problemas: ‘Puxa vida, é por isso que ninguém fez isso antes’ — afirmou Mitchell. Mas quando retomou o trabalho, já tinha boa parte do romance mapeado. — As versões erradas se transformam nos andaimes que você usa para construir o romance”, afirmou. No início, “The Bone Clocks” parece ter um roteiro mais linear que o dos outros livros mais experimentais escritos por Mitchell. “The Bone Clocks” se desdobra cronologicamente, e a protagonista, Holly, serve de fio condutor. Porém, o leitor logo percebe que “The Bone Clocks” é a última peça de um quebra-cabeças muito maior, um tapete feio dos fios deixados soltos pelos outros livros, provavelmente servindo de base para futuros romances.

Mitchell sempre gostou de reciclar personagens e temas, e “The Bone Clocks” é sua obra que mais tira proveito dessa técnica. Hugo Lamb, o adolescente difícil de “Black Swan Green”, o romance semiautobiográfico de Mitchell a respeito de um menino britânico que sofre com a gagueira, reaparece como o jovem que faz um pacto mefistofélico com uma obscura associação secreta. Existem várias outras, mas a reaparição mais importante é a de Marinus, o médico holandês de “The Thousand Autumns of Jacob de Zoet”, com um papel fundamental na guerra oculta de “The Bone Clocks”.

— Ele está criando seu próprio universo, por isso suas obras são tão viciantes — afirmou Sarah Dillon, professora de literatura e cinema da Universidade de Cambridge, e editora de um livro de ensaios acadêmicos sobre a obra de Mitchell. Mitchell não foi um sucesso instantâneo. Filho de uma família britânica de classe média, cresceu lendo romances de aventura e ficção. Começou a escrever a sério aos 20 e poucos anos, quando vivia no Japão e dava aulas de inglês.

Depois que seus dois primeiros livros venderam poucas cópias, a Random House, em uma iniciativa para aumentar o público, relançou o terceiro, “Cloud Atlas”, como livro de bolso. A obra recebeu inúmeras críticas positivas e vendeu muito bem. Desde então, ele passou a experimentar com os mais diversos gêneros literários. Mitchell e a esposa, KA Yoshida, que têm um filho autista, traduziram “The Reason I Jump”, um livro de memórias de um adolescente autista japonês, e estão trabalhando em outro livro com o autor, Naoki Higashida.

Em meados deste ano, Mitchell publicou o conto “The Right Sort”, a respeito de um jovem que toma Valium, em uma série de 280 tuítes (ele culpa seu editor por forçá-lo a entrar no Twitter para promover seu novo livro). Para Mitchell, a macronovela é uma empreitada tão emocional, quanto intelectual. Ele já está pensando em novas histórias para os Horologistas, os netos de Holly e Marinus, cujos destinos podem cruzar com a tribo futurista de “Cloud Atlas”, afirmou.

Mitchell finalizou: — É ótimo nunca ter que dar adeus. Eles já são personagens reais e plenamente formados, e gosto de pensar que trazem sempre uma bagagem e um elemento de credibilidade e concretude, fazendo a história parecer um ou dois graus mais real —

Premiado escritor britânico vai escrever seu próximo livro no Twitter

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Autor de “Cloud Atlas”, David Mitchell vai publicar o conto “The Right Sort” na rede social

Publicado por Último Segundo

O escritor britânico David Mitchell, autor de “Cloud Atlas”, vai publicar sua próxima obra no site de microblogs Twitter. Trata-se do conto “The Right Sort”, escrito em segmentos com 140 caracteres cada um.

Os segmentos serão publicados em grupos com 20 tweets de cada vez, ao longo dos próximos sete dias. Ao todo, serão 280 Tweets.

Stuart Wilson/Getty Images O autor David Mitchell, em foto de 2013

Stuart Wilson/Getty Images
O autor David Mitchell, em foto de 2013

Mitchell é autor de cinco livros, já ganhou vários prêmios importantes e é tido como um dos mais talentosos escritores britânicos de sua geração. Ele nasceu em 1969.

Apenas um de seus livros – “Menino de Lugar Nenhum”, cujo título original é “Black Swan Green” – foi traduzido no Brasil, publicado pela Companhia das Letras.

Já “Cloud Atlas”, transposto para as telas de cinema pelos diretores Andy Wachowski e Lana Wachowski (que também dirigiram a trilogia The Matrix), foi visto no Brasil com o título “A Viagem”.

Recurso Promocional

Falando à BBC, Mitchell disse que aprecia o potencial artístico das mídias sociais, mas confessou que não é um tuiteiro e que teve de abrir uma conta no Twitter especificamente para esse projeto.

“Não sou um adepto da mídia social”, disse. “Gosto da minha privacidade, não quero tornar públicas as ante-salas da minha mente. Não quero contribuir para esse oceano de trivialidades e irrelevâncias, já é vasto e profundo o bastante”.

Mas Mitchell tem um novo romance para promover: “The Bone Clocks” está chegando em setembro. Então, foi persuadido por seu editor a abrir uma conta – @david_mitchell – para auxiliar na divulgação do livro e de eventos programados em torno do lançamento. A editora envia os tweets em nome do escritor.

Divulgação Cena de "A Viagem", baseado em livro de David Mitchell

Divulgação
Cena de “A Viagem”, baseado em livro de David Mitchell

Ele admitiu que a publicação do conto no Twitter não deixa de ser um truque esperto de marketing para ajudar a promover seu novo livro. Mas enfatizou que publicar uma história no Twitter foi a forma que encontrou de usar a tecnologia e ao mesmo tempo “preservar alguma integridade”.

Situado em 1978, o conto “The Right Sort” é narrado por um adolescente que descobre o remédio Valium. Enquanto o personagem narrador “viaja” na droga, conta a história em uma sequência de “pulsos”, ou sentenças curtas. “Ele está pensando em tweets por causa do Valium”, explicou o escritor.

Mitchell – que em 2003 foi incluído pela influente revista literária Granta num ranking com os melhores jovens romancistas britânicos – disse que não tem a menor intenção de virar tuiteiro, mas não exclui a possibilidade de escrever mais uma história para essa plataforma caso “The Right Sort” seja um sucesso.

“Foi realmente difícil, não foi fácil. Mas gosto dessas camisas de força”, contou. “Talvez você realmente precise do limite imposto por esses ridículos 140 caracteres para inventar algo novo”.

Mitchell é um dos mais importantes escritores da atualidade a publicar uma história no Twitter. Em 2012, a escritora americana Jennifer Egan, ganhadora de um prêmio Pulitzer, publicou o conto Black Box no site de microblogs.

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