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Sete dicas para ler mais (e melhor)

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Os conselhos de uma americana que leu um livro por dia, todos os dias, durante um ano

Danilo Venticinque na revista Época

Administrar o tempo de leitura é tão importante (e difícil) quanto controlar as finanças pessoais. Notamos os grandes gastos, mas é a soma dos pequenos desperdícios que nos leva à falência. De nada adianta passar uma tarde inteira lendo no fim de semana se, nos outros dias, deixamos de aproveitar preciosas horas que poderiam ser dedicadas à leitura. Para vencer as pilhas de livros não lidos, ou ao menos controlar seu crescimento, não basta ser um leitor ocasional. O hábito da leitura deve unir disciplina e prazer.

Estou longe de ser um exemplo. Minha rotina de leitura sempre foi caótica. Há semanas em que leio milhares de páginas e outras em que eu não chegou a cinquenta. Às vezes, vergonha suprema, passo um dia inteiro sem tocar num livro. Mas os deuses da leitura são piedosos, e aguardam pacientemente até que nós, envergonhados, retomemos o hábito interrompido – não sem sentir um pouco de inveja dos leitores disciplinados, que parecem nunca falhar.

A leitora mais disciplinada que conheci foi a americana Nina Sankovitch. Após a morte de sua irmã mais velha, uma apaixonada pela literatura, Nina decidiu homenageá-la lendo um livro por dia, todos os dias, durante um ano. Para compartilhar seu feito com outros leitores, ela publicava resenhas diariamente num blog. Ao final do desafio, narrou sua experiência em O ano da leitura mágica (Leya, R$ 34,90, 232 páginas, tradução de Paulo Polzonoff), lançado no Brasil em 2011. Conversei com Nina duas vezes: uma durante o desafio e outra pouco depois do lançamento de seu livro. Nas duas ocasiões, ela compartilhou alguns de seus segredos para ser uma leitora tão dedicada. Suas dicas não transformarão um leitor preguiçoso numa máquina de devorar livros, mas servem para nos lembrar de que é possível (e muitas vezes fácil) dedicar mais tempo à leitura.

1) Tenha sempre um livro ao seu alcance

Para um leitor prevenido, qualquer momento de espera pode se transformar num momento de leitura. Os entusiastas do livro digital podem usar um tablet ou até mesmo um celular. Bons aplicativos de leitura, como o Kindle e o Kobo, atualizam as marcações de página em cada dispositivo e permitem que a leitura continue sem interrupções. Quem prefere os livros de papel pode reservar um espaço na bolsa ou mochila. Somando as páginas lidas nesses minutos ociosos, é possível ler livros inteiros.

2) Aceite um desafio

Há algo em comum entre a leitura e o esporte. Um bom atleta é movido a metas, criadas para manter uma busca constante pela melhor performance possível. O mesmo deveria valer para os leitores. Depois que o hábito da leitura se estabelece, a tentação de permanecer na zona de conforto é grande. Desafiar-se é uma maneira de manter a forma. Nem todos são capazes de ler um livro por dia, como Nina. Ler um livro por semana, porém, é um bom começo. Quem já faz isso pode aumentar o número para dois ou três. Estabelecer um prazo também ajuda a criar coragem para enfrentar obras longas ou difíceis. “Quero ler A montanha mágica” é um desejo para a vida inteira, que pode ou não ser concretizado. “Quero ler A montanha mágica até o fim do mês” é uma atitude completamente diferente diante do livro – e, talvez, da vida.

3) Marque um compromisso

Ler por obrigação pode ser divertido – desde que a obrigação parta do próprio leitor. Para vencer as distrações do cotidiano e a tentação de deixar os livros para depois, reserve algum tempo todos os dias para a leitura. Alguns preferem ler na cama antes de dormir. Outros se sentem mais dispostos pela manhã, antes de ir para o trabalho. O importante é respeitar o tempo dedicado à leitura e, se possível, tentar estendê-lo. Aos poucos, ler se tornará um prazer cotidiano e o leitor se sentirá ansioso para encontrar-se novamente com os livros, como quem espera por um encontro ou um bom jantar.

4) Elimine as distrações

Durante seu desafio de um ano, Nina deixou de usar as redes sociais e de assistir à televisão. Também passou a ler menos notícias, para concentrar-se nos livros. O prazer proporcionado pela leitura, segundo ela, superou qualquer perda causada por essas mudanças de hábito. “Ler um livro por dia não me impediu de ter uma vida”, diz Nina. “Pelo contrário. Minha vida tornou-se melhor, mais rica e satisfatória.”

5) Varie para não enjoar 

Um erro comum de quem embarca numa maratona de leitura é tentar ler vários livros do mesmo autor ou do mesmo gênero, sem intervalos. O esforço provoca cansaço mental e leva, invariavelmente, à desistência. Isso vale principalmente para os clássicos da literatura. Alguns livros levam tempo para ser digeridos. Uma forma de descansar sem abandonar a leitura é intercalar obras literárias difíceis com livros mais leves, desses que podemos encontrar em qualquer supermercado. A lista de 365 livros lidos por Nina em um ano inclui clássicos da literatura universal, como Tolstói, mas também biografias de atletas, best-sellers e romances de ficção científica. “Ler livros de gêneros diferentes ajuda a manter a sanidade e amplia nossa visão de mundo”, afirma Nina.

6) Crie um diário de leituras

A memória humana é limitada. Para muitos de nós, uma maratona de leituras é uma sobrecarga cerebral. Escrever um pouco sobre cada livro que lemos torna as lembranças mais acessíveis. Gosto de anotar ao menos uma frase de cada livro que leio. Nina, com sua disciplina invejável, escrevia resenhas inteiras. A escrita serve não só para nos lembrar de nossas leituras, mas também para nos ajudar a entender melhor os livros que lemos. “Escrever sobre cada livro me ajudou a conhecê-los mais profundamente e tornou a experiência de leitura mais satisfatória”, diz Nina.

7) Compartilhe suas experiências 

Por mais fascinantes que sejam os livros, às vezes nos esquecemos deles. Felizmente, não estamos sozinhos. A leitura é um hábito solitário, mas também pode ser vista como um passatempo coletivo. Leitores atraem outros leitores, e compartilhar nossas descobertas literárias com amigos é sempre um prazer. Conversar sobre livros é uma forma de reacender, em nós e em nossos interlocutores, a paixão pelos livros – e a disciplina para nos dedicarmos a mais um dia de leituras.

Mercado de Frankfurt acorda para o Brasil

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País convidado da próxima Feira de Frankfurt, 72 obras de literatura brasileira ganharão edição alemã até o final de 2013

Publicado em O Povo

Daniel Galera: entre os escritores que terão obras traduzidas

Nada mais fácil do que achar um livro de Paulo Coelho numa livraria alemã. Difícil, nas últimas duas décadas, era encontrar outro autor brasileiro. Mas toda história tem suas reviravoltas.

Com a homenagem que a Feira do Livro de Frankfurt faz ao Brasil, em outubro próximo, e os subsídios para tradução da FBN (Fundação Biblioteca Nacional), a literatura brasileira renasce no maior mercado de livros da Europa.

De 2012 até o fim de 2013, a Alemanha ganhará 72 obras de literatura (54 inéditas), 19 antologias e 19 livros infantis. Incluindo títulos de não ficção, serão cerca de 250 livros de autores brasileiros ou que têm o Brasil como tema.

É bem mais do que os 59 títulos brasileiros que circulavam na Alemanha em 2011, sendo 39 edições de Paulo Coelho. O cálculo é de Michael Kegler, tradutor que compilou os números para a Feira de Frankfurt.

Tradicionalmente, a literatura do país convidado do principal evento editorial do mundo atrai investimento das editoras alemãs. “A atenção que o país recebe da mídia, essencial para vender livros, estimula os editores”, diz Nicole Witt, agente literária que representa 50 autores brasileiros na Alemanha.

O bom momento criado pela feira foi ajudado pelas bolsas de tradução da FBN. Criado em 2011, o programa subsidiou até agora parte dos custos de tradução para a língua alemã de 56 obras de ficção e 10 antologias.

“O momento é este”

A Suhrkamp, a S. Fischer e a Wagenbach são as editoras que mais estão publicando livros brasileiros. De nove a 10 títulos cada, elas mesclam autores clássicos, contemporâneos e antologias.

A primeira fez uma seleção que vai de Mário de Andrade a Daniel Galera. Já a S. Fischer aposta especialmente em Jorge Amado e Chico Buarque, enquanto a Wagenbach tem, entre outros, Guimarães Rosa e Paulo Scott.

A pequena Assoziation A se destaca com as obras de Luiz Ruffato e Beatriz Bracher. A DTV, de grande porte, colocou suas fichas em Francisco Azevedo. E a Schöffling & Co. optou por relançar toda a obra de Clarice Lispector, projeto para 10 anos.

Mesmo com o forte impulso, as 72 traduções que o Brasil conseguiu é menos do que outros países homenageados por Frankfurt alcançaram. A Argentina, convidada em 2010, teve cerca de 100 novas traduções, enquanto a Islândia teve 90.

Para alguns editores, a demora na criação das bolsas de tradução da FBN justifica a diferença, assim como a indecisão das editoras. “Muitas queriam o melhor romance de todos e acabaram por perder várias oportunidades”, afirma a tradutora Marianne Gareis.

“Cada país tem uma trajetória internacional”, diz Fábio Lima, coordenador do programa de traduções da FBN. “Chegar a Frankfurt com alto número de publicações é um feito, mas o principal desafio é a continuidade, ou seja, manter um número considerável de traduções nos próximos anos.”

É o mesmo desafio que o Brasil tinha em 1994, quando foi convidado de Frankfurt pela primeira vez, e que não conseguiu cumprir. Após a feira, não houve nenhum estímulo sistemático à promoção da literatura brasileira. Desta vez, há as bolsas de tradução, com orçamento total de R$ 17,5 milhões até 2020.

O que esperar para depois de 2013? “O momento para publicar é este. No ano que vem, será difícil motivar os livreiros alemães com obras do Brasil” afirma Marco Bosshard, da Wagenbach. Já Witt mostra-se otimista. “Ainda há muitos brasileiros que merecem tradução, e hoje temos condições melhores para conseguir isso”, diz. ( Roberta Campassi, da Folhapress)

Gilberto Gil elege os livros prediletos de sua biblioteca

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Gil listou os livros mais importantes de sua formação como homem e artista Fábio Seixo / Agência O Globo

 

Publicado no jornal O Globo

Todos os livros de Gilberto Gil têm vista para o mar. Na sua casa, os volumes estão reunidos em três estantes: uma ocupa uma parede inteira da sala de estar, outra fica na sala de jantar, e a terceira, na sala de TV, todas bem em frente à praia de São Conrado. São centenas deles. Os livros sobre música ficam ao lado dos que tratam de arte barroca; os de religião estão escorados por um “Dicionário gonzagueiro”. Há livros sobre o Rio de Janeiro, a Bahia, o Brasil, e há um chamado “69 lugares para amar”, uma espécie de roteiro romântico do mundo. Há uma pilha só com enciclopédias botânicas. Roberto Carlos talvez nem desconfie, mas nas estantes do Gil estão a salvo dois exemplares da biografia não autorizada “Roberto Carlos em detalhes”, de Paulo César Araújo — cuja tiragem foi incinerada em 2007. A coleção Jorge Amado fica numa prateleira alta, sobre a cabeça de quem circula entre os ambientes, junto a outros objetos sagrados da casa, como uma imagem de São Jorge. Os livros dividem prateleiras com fotos dos filhos, DVDs e instrumentos musicais. Alguns estão com a lombada desgastada pelo uso e há muitos com o cheiro fresco da livraria.

Em meio ao agitado momento político do país, o cantor, compositor e ex-ministro da Cultura Gilberto Gil abre com um show a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), o mais importante evento sobre livros e literatura no Brasil, quarta-feira. De lá, volta direto para o Rio, para o lançamento de sua biografia, “Gil bem perto” (Nova Fronteira), feita em conjunto com a jornalista Regina Zappa.

E foi nesse clima de celebração da leitura e de reflexões sobre a própria vida e o Brasil que Gil, a convite da Revista O GLOBO, listou os livros mais importantes de sua formação como homem e artista.

— Minha primeira memória com livros é da cozinha de casa, em Ituaçu (cidade natal, no interior da Bahia). Para mim, os livros eram um utensílio doméstico a mais, como as gamelas que minha avó usava. Estudar era como cozinhar. Foi assim que li Monteiro Lobato, o Tesouro da Juventude, as revistas de guerra que meu pai trazia, misturado aos perfumes da cozinha — detalha Gil, lembrando que em 1976 esta intimidade com o universo “bananada de goiaba, goiabada de marmelo” viraria a música “Sítio do Picapau Amarelo”, a trilha de abertura do seriado infantil da TV Globo. — Eu fui buscar nesta memória da infância, a maneira como eu lia Monteiro Lobato, os elementos da canção.

Da cozinha da avó, o mapa literário de Gilberto Gil segue pela biblioteca da escola, com os livros de poesia de Olavo Bilac, Gonçalves Dias e Castro Alves. Que foram influenciá-lo mais à frente, quando começou a escrever os primeiros poemas, entre 1961 e 1962 (a ultrarromântica “Triste serenata” é uma música originada de um poema dessa época).

— Descobri a poesia estudando português na escola. A poesia era uma categoria importante na vivência da língua. Lendo poesia, você percebe o que mais te atrai, o que mais te surpreende como articulação frasística, como capturação de originalidade. Meus primeiros exercícios de poesia estão impregnados de Olavo Bilac.

Aos nove anos, foi estudar em Salvador, e o mar passou a fazer parte da sua rotina. Foi quando “Capitães de areia” caiu nas suas mãos:

— Foi um magnetismo, a realidade da praia, as negras mercando acarajé, os pescadores. Havia um mundo narrativo sobre essas pessoas organizado em dramaturgias próprias… E era Jorge Amado.

Foi na universidade que os livros começaram a pesar nas costas. Gil estudou Administração de Empresas, e a formação humanística do curso o levou a descobrir o historiador Caio Prado Jr, o sociólogo Florestan Fernandes. Começou a questionar o Brasil e os brasileiros. A perceber as “assimetrias”, como diz, entre as gentes. Até que tomou emprestado na biblioteca da universidade um livro de capa alvinegra. “O capital”, de Karl Marx.

São 14h30m de uma quarta-feira, 19 de junho, aniversário de Chico Buarque, na semana em que as manifestações pelo país ganham corpo. Gil ainda não almoçou, que ver o jogo do Brasil x México, às 16h, pela Copa das Confederações. No dia seguinte viajaria cedo para a Paraíba, onde começaria uma turnê de shows juninos. Pouco antes da entrevista, finalizou uma música nova para a nora, a cantora Ana Cláudia Lomelino, mulher do filho Bem Gil. Está na sala de casa, deixa-se rabiscar para as fotos (escolhe um poema de Pablo Neruda). Usa sandálias que parecem tão confortáveis quanto um par de pantufas. E fala de “O capital”.

— Foi um livro capital — ri. — Li a maior parte do tempo sem entender nada. Lia, relia. Mesmo assim, me despertou o interesse pela crônica política e econômica. Lia nas horas de trabalho. Nessa época eu trabalhava na alfândega, minha função era fiscalizar navios, e eu ia muitas vezes de madrugada para o porto, e ficava ali, algumas vezes lendo dentro do próprio navio. Me lembro de ler “O Capital” às 3h, 4h da manhã, completamente confundido, naquela barafunda de termos e sentimentos.

Impacto parecido ao de “O capital” só sentiria mais tarde, com “Morte e vida severina”, do poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto. Já tinha ouvido falar no livro à época do seu lançamento, em 1955. Mas o épico tupiniquim só lhe revirou o estômago no teatro, na montagem com música de Chico Buarque, dez anos depois, em São Paulo.

— O mergulho foi ali. Depois li “Duas águas”, depois alguém me deu de presente a “Obra completa”. Eu fiz uma escolha: o poeta-símbolo pra mim é João Cabral. Toda minha poesia sofreu uma exigência “cabraliana” depois de conhecer a sua obra — atesta Gil, citando o próprio Tropicalismo.

Tirando a própria “Obra completa” de João Cabral, e “Capitães de Areia”, nenhum dos outros títulos lembrados por Gil está nas estantes de São Conrado. Alguns foram para a casa de Salvador, outros se perderam com o tempo. Há uma dose de desapego, mas outra de circunstância. Certo dia, conta Gil, estava em Salvador, em casa, e fuçou a estante em busca de uma leitura para a tarde. Tomou da prateleira o volume de “Distraídos venceremos”, presente do próprio autor, o poeta curitibano Paulo Leminski, em 1987. Mas qual não foi sua surpresa…

— Já estava todo comido pelas traças. Mas sabe que eu achei interessante? Achei que aquele efeito estava ligado ao tipo de poesia do Leminski… O caminho das traças era o caminho do tempo. Um acréscimo à poesia. O caminho delas foi roubando as letras, deixando palavras esburacadas, e o que é mais pós-modernista? — provoca Gil, citando outro tomo que levaria a uma ilha deserta, acaso houvesse motivo.

Levaria também o romance autobiográfico “As palavras”, de Jean-Paul Sartre, o primeiro livro apresentado a ele pelo amigo Caetano Veloso.

— Eu passo a me interessar por Sartre por causa de Caetano, ele, que até hoje se confessa um existencialista, foi quem me apresentou. Ali fui refletir sobre o que é o existencialismo, e viver o sentimento desta plenitude, da individualidade, erguendo-se em si próprio, sustentando-se em si próprio — comenta Gil, para quem a compreensão “da existência frente à essência”, se for possível resumir o existencialismo desta maneira, pôs em xeque a própria religiosidade. — Todos esses questionamentos, mesmo os anteriores, lá, com “O capital”, de descoberta dos problemas sociais, das assimetrias da sociedade, das imperfeições do indivíduo, tudo isso ia minando uma segurança minha, aquela vida no berçário da divindade (ri da própria metáfora).

A amizade com o escritor e músico suíço Walter Smetak ampliou os questionamentos. Espécie de guru esotérico e filosófico de toda uma geração da MPB, que incluía Tom Zé e Caetano, Smetak emprestou a Gil livros essenciais na sua formação, como os ensaios teosóficos da escritora russa Elena Blavatsky, a “Madame Blavatsky”.

— Houve ainda “Religião comparada”, os “Upanixades” (escrituras hindus). Foi uma época de muita leitura de livros, ao contrário de hoje, que tudo chega pra gente de maneira mais fragmentada, em estantes de links — compara Gil, tirando da prateleira imaginária, no entanto, a Bíblia. — Nunca li inteira. Dos textos que li, “O cântico dos cânticos” foi o que mais me comoveu, e que acabou, futuramente, chegando ao “quântico dos quânticos”, verso chave do álbum “Quanta” (1997).

Da discografia de Gilberto Gil, “Quanta” foi o álbum que mais exigiu estudo, comenta a mulher, Flora Gil.

— Ele mergulhou nas leituras sobre física quântica, neurociência, física, nunca o vi lendo tanto — diz ela.

Do período em que se exilou com Caetano Veloso em Londres, entre 1969 e 1971, Gil lembra-se de outro título que o deixou fascinado: “The politics of ecstasy”, do neurocientista Timothy Leary, o papa da onda hedonismo-LSD nos anos 60 e 70.

— Fiquei louco com aquilo. Fui com uma sacola numa livraria em Charing Cross e roubei dez livros, pois não tinha dinheiro para comprar. Mandei pelo correio para amigos no Brasil. As pessoas precisavam ler aquilo — diverte-se Gil, antes de comparar com o momento atual, das manifestações que levaram o Brasil todo às ruas nas últimas semanas. — Era muito parecido com o que está acontecendo agora. Havia um mundo novo eclodindo, que estimulava minha imaginação, minha criatividade.

Além das longas entrevistas que fez com o músico para a biografia “Gil bem perto” (que inclui também depoimentos de amigos de Gil), a jornalista Regina Zappa passou dias convivendo com ele, em Salvador. Assistiam à novela “Avenida Brasil”, tomavam café da manhã juntos. Aos poucos, Gil ia se lembrando de histórias, nomes, causos. Da relação com os livros, Regina observou que ele é absolutamente intuitivo, lê o que lhe cai nas mãos, o que acha por acaso.

— A formação da infância é muito presente para ele, me chamou a atenção como ele lembra os detalhes daquela época — comenta Regina, também autora de biografias de Chico Buarque, Hugo Carvana e Paulo Casé. — Ele lê muito o que indicam os amigos, Caetano Veloso foi muito importante neste sentido, e agora, Hermano Vianna, José Miguel Wisnik. É interessante como isso tudo vai virando música.

A música “A paz”, por exemplo (“invadiu o meu coração…”), que compôs com João Donato, surgiu do título do livro “Guerra e paz”, de Leon Tolstoi. Na biografia, Gil explica a história: “A letra foi sendo construída sobre essa contradição, reiterando minha insistência sobre o paradoxo”.

Escrever letras de música, sim, muito, e sempre; poesias também, bem como prefácios de outros livros e ensaios (mês passado, lançou o livro “Cultura pela palavra”, em conjunto com o também ex-ministro da Cultura Juca Ferreira, reunindo textos e discursos de ambos sobre Economia Criativa, Lei do Direito Autoral e Lei Rouanet). Mas ficção…

— Eu não me vejo, de maneira alguma. A letra de música é concentrada, econômica, pá, pá, pá. “Domingo no Parque” é uma narrativa, uma tragédia, são três personagens maravilhosos que estão ali. Mas passar dali para 200 páginas é um fôlego que nunca quis ter. Se penso em alguma história, vira música. “Foi a polícia que deu a notícia, que meu amor tinha morrido…” (cantarola “A notícia”). Diferentemente de Chico Buarque, que tem vocação para romancista — explica Gil, cujo romance preferido do amigo é “Estorvo”, fechando a lista da sua estante fundamental.

Flora ainda lembraria outros dois:

— Assim que nos conhecemos, ele me deu um livro que estava lendo, fascinado, “A autobiografia de um iogue” — observa ela. — Outro muito importante é um que ele tem na mesinha de cabeceira, “Autocontroleterapia” (do educador japonês Tomio Kikuchi), sobre técnicas de meditação. Quando ele está doente, em vez de abrir a gaveta de remédio, ele abre este livro.

Portugal Telecom anuncia semifinalistas

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Maria Fernanda Rodrigues, no Estadão

Há uma década premiando autores de língua portuguesa com livros editados no Brasil, o Portugal Telecom anunciou hoje os 63 semifinalistas da edição 2013 nas categorias romance, poesia e conto/crônica.

Na lista, nomes como o moçambicano Mia Couto (na foto de Filipe Araujo/Estadão), o mais recente Prêmio Camões; o português de origem angolana Valter Hugo Mãe, vencedor no ano passado da categoria romance; autores da nova geração, como Paloma Vidal, José Luiz Passos, Daniel Galera e Ricardo Lísias, e os veteranos Luis Fernando Verissimo, Zuenir Ventura, Affonso Romano de Sant’Anna, entre outros.

Em setembro, serão conhecidos os 12 finalitas e o resultado final será anunciado em novembro. O vencedor de cada categoria ganha R$ 50 mil e ainda concorre ao grande prêmio do ano, também no valor de R$ 50 mil.

Em 2012, foram premiados, além de Valter Hugo Mãe e seu romance A Máquina de Fazer Espanhóis, Nuno Ramos, com Junco (poesia), e Dalton Trevisan, com O Anão e a Ninfeta (contos).

FINALISTAS

Romance

A Confissão da Leoa (Companhia das Letras), de Mia Couto
A Máquina de Madeira (Companhia das Letras), de Miguel Sanches Neto
A Noite das Mulheres Cantoras (Leya), de Lídia Jorge
A Sul. O Sombreiro (Leya), de Pepetela
As Visitas que Hoje Estamos (Iluminuras), de Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira
Barba Ensopada de Sangue (Companhia das Letras), de Daniel Galera
Big Jato (Companhia das Letras), de Xico Sá
Caderno de Ruminações (Alfaguara), de Francisco J. C. Dantas
Desde que o Samba é Samba (Planeta), de Paulo Lins
Deus Foi Almoçar (Planeta), de Ferrez
Era Meu Esse Rosto (Record), de Márcia Tiburi
Estive Lá Fora (Alfaguara), de Ronaldo Correia De Brito
Mar Azul (Rocco), de Paloma Vidal
O Casarão da Rua do Rosário (Bertrand), de Menalton Braff
O Céu dos Suicidas (Alfaguara), de Ricardo Lísias
O Filho de Mil Homens (Cosac Naify), de Valter Hugo Mãe
O Mendigo Que Sabia de Cor os Adágios de Erasmo de Rotterdam (Record), de Evandro Affonso Ferreira
O Que Deu Para Fazer em Matéria de História de Amor (Companhia das Letras), de Elvira Vigna
O Sonâmbulo Amador (Alfaguara), de José Luiz Passos
Pauliceia de Mil Dentes (Prumo), de Maria José Silveira
Sôbolos Rios Que Vão (Alfaguara), de António Lobo Antunes
Solidão Continental (Record), de João Gilberto Noll

Poesia

A Casa Dos Nove Pinheiros (Dobra), de Ruy Espinheira Filho
A Cicatriz de Marilyn Monroe (Iluminuras), de Contador Borges
A Praça Azul e Tempo de Vidro (Paes), de Samarone Lima
A Voz do Ventríloquo (Edith), de Ademir Assunção
As Maçãs de Antes (Biblioteca Do Paraná), de Lila Maia
Caderno Inquieto (Dobra), de Tarso de Melo
Ciclo do Amante Substituível (7 Letras), de Ricardo Domeneck
Deste Lugar (Ateliê), de Paulo Elias Franchetti
Engano Geográfico (7 Letras), de Marília Garcia
Formas do Nada (Companhia das Letras), de Paulo Henriques Britto
Meio Seio (Língua Geral), de Nicolas Behr
Mirantes (7 Letras), de Roberval Pereyr
O Amor e Depois (Iluminuras), de Mariana Ianelli
Ouro Preto (Scriptum), de Mário Alex Rosa
Píer (34), de Sérgio Alcides
Porventura (Record), de Antonio Cicero
Quando Não Estou Por Perto (7 Letras), de Annita Costa Malufe
Sentimental (Companhia das Letras), de Eucanaã Ferraz
Totens (Iluminuras), de Sérgio Medeiros
Trato de Silêncios (7 Letras), de Luci Collin
Um Útero é do Tamanho de um Punho (Cosac Naify), de Angélica Freitas

Conto/Crônica

A Caneta e o Anzol (Geração), de Domingos Pellegrini
A Última Madrugada (Leya), de João Paulo Cuenca
A Verdadeira História do Alfabeto (Companhia das Letras), de Noemi Jaffe
Ai Meu Deus, ai Meu Jesus (Bertrand), de Fabrício Carpinejar
Aquela Água Toda (Cosac Naify), de João Anzanello Carrascoza
As Verdades Que Ela Não Diz (Foz), de Marcelo Rubens Paiva
Cheiro de Chocolate e Outras Histórias (Nova Alexandria), de Ronivalter Jatoba
Como Andar no Labirinto (L&Pm), de Affonso Romano Sant’Anna
Contos Inefáveis (Nova Alexandria), de Carlos Nejar
Copacabana Dreams (Cosac Naify), de Natércia Pontes
Crônicas Para Ler na Escola (Objetiva), de Zuenir Ventura
Diálogos Impossíveis (Objetiva), de Luis Fernando Verissimo
Essa Coisa Brilhante Que é a Chuva (Record), de Cíntia Moscovich
Jogo de Varetas (7 Letras), de Manoel Ricardo de Lima
Livro Das Horas (Record), de Nélida Piñon
Manhãs Adiadas (Dobra Editorial), de Eltania Andre
Mistura Fina (7 Letras), de Vera Casa Nova
O Tempo em Estado Sólido (Grua), de Tércia Montenegro
Páginas Sem Glória (Companhia das Letras), de Sérgio Sant’Anna
Shazam! (7 Letras), de Jorge Viveiros de Castro

Mais pop que “50 Tons de Cinza”, livro apresenta Leminski complexo à geração do Facebook

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O escritor Paulo Leminski posa para foto em bar de São Paulo, em 1984 (Foto: Avani Stein/Folhapress)

O escritor Paulo Leminski posa para foto em bar de São Paulo, em 1984 (Foto: Avani Stein/Folhapress)

Carlos Minuano, no UOL

Feito raro num país que dá pouca bola à literatura, Paulo Leminski é pop. Morto em junho de 1989, aos 44 anos, os versos do escritor e jornalista paranaense circulam há décadas em agendas e cadernos de estudantes e, hoje, encontram terreno fértil também na internet, sobretudo em redes sociais como o Facebook. Um dos poemas mais populares na rede diz o seguinte: “Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além”.

E é para além do universo de citações fáceis – e muitas vezes descontextualizadas ou incorretas – que uma série de lançamentos e projetos futuros, incluindo livros, filmes, discos e site, pretende levar a obra do autor descrito por Caetano Veloso como “concretista beatnik”, por Haroldo de Campos como “polilíngue paroquiano cósmico” ou simplesmente como “samurai malandro”, por Leyla Perrone-Moisés.

50 TONS DE LARANJA

Capa do recém-lançado "Toda Poesia", que reúne mais de 600 poemas de Paulo Leminski

Capa do recém-lançado “Toda Poesia”, que reúne mais de 600 poemas de Paulo Leminski

Recém-publicado pela Companhia das Letras, “Toda Poesia” reúne os seus mais de 600 poemas, de diferentes fases e estilos, e procura decifrar o complexo universo de Leminski, que transitou com desenvoltura pelos territórios distintos, e eventualmente opostos, do erudito e do popular.

Prova de que o poeta é mesmo pop, o livro está há semanas no topo da lista dos mais vendidos nas livrarias brasileiras na categoria ficção e já desbancou até mesmo o best-seller pornô soft “50 Tons de Cinza”.

No conjunto, a criação poética de Leminski apresentada em “Toda Poesia” mostra como ele circulava livremente por diferentes estilos. Do concretismo ao coloquialismo, em haicais ou poemas-piadas, o caboclo polaco-paranaense (descendente de negro e polonês), exibe uma linguagem, que resiste ao tempo.

Apesar de não trazer nenhum texto inédito, o lançamento republica material de livros raros, quase todos já fora de catálogos. A maior parte organizada em livros pelo próprio Leminski, segundo a poeta Alice Ruiz, viúva do autor, e responsável pela seleção dos poemas reunidos na nova publicação.

“O que ficou de fora foi porque ele assim quis, e respeito isso”, diz. “O que ele não considerou pronto não será publicado”, completa.

Múltiplo Leminski
Os holofotes que se voltam sobre Leminski nesse momento, além de recolocar em destaque um nome de relevo da poesia brasileira, também devem jogar luz sobre facetas do autor mais desconhecidas do grande público.

Por trás de tudo isso, o esforço da família, Alice e as filhas Estrela e Áurea, que há anos trabalham na organização e difusão da extensa produção de Leminski nas mais diferentes áreas. Parte desse trabalho resultou na exposição “Múltiplo Leminski”. A mostra, que fica até outubro em Curitiba e depois segue para Goiânia e Recife, além da obra poética, destaca os trabalhos do artista na música, no cinema, grafite e quadrinhos.

Áurea também está à frente da digitalização do acervo de Leminski. “Trabalho muito extenso”, desabafa. “Já são quase três anos debruçada sobre esse material”, conta. O motivo de tanta labuta é lançar em agosto deste ano o acervo digital do autor, a ser distribuído em bibliotecas e universidades.

Outra parte deve se tornar um site oficial gerido pela família. Embora familiarizada com a obra do pai, Áurea diz ter se surpreendido com a multiplicidade de suas criações. “Ele era profundamente interessado em todas as formas de conhecimento, sobretudo as ligadas às áreas humanas”. (mais…)

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