Contando e Cantando (Volume 2)

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Manuscritos medievais descobertos em encadernações de livros

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publicado no PT

Uma revolucionária técnica de raios X desenvolvida por uma equipa de cientistas na universidade holandesa de Leiden levou já à descoberta e decifração de vários fragmentos de manuscritos com mais de mil anos que tinham sido usados para reforçar as encadernações de outras obras.

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“É como uma caça ao tesouro, uma coisa realmente emociante”, disse ao jornal britânico The Observer o especialista em literatura medieval Erik Kwakkel, um dos investigadores envolvidos neste projecto, que utiliza uma nova tecnologia, a Ma-xrf (sigla de macro x-ray fluorescence spectrometry), para ler as páginas ocultas sem destruir as encadernações.

Desenvolvida por uma equipa liderada por Joris Dik, da Universidade de Teconologia de Delft, a Ma-xrf começou por ser utilizada para revelar camadas ocultas em telas de Rembrandt e de outros grandes pintores. Foi esta tecnologia que permitiu a descoberta, em 2011, de um até então desconhecido auto-retrato de Rembrandt, que apareceu, incompleto e já um tanto desvanecido, sob a superfície de outra pintura.

Mas as potencialidades desta técnica para a descoberta de manuscritos embutidos em encadernações são particularmente interessantes, porque o revolucionário scanner inventado por Dik permite não apenas detectar a sua existência, mas também lê-los, e isto sem danificar as lombadas dos livros.

A partir do século XV, e até ao século XVIII, era frequente os encadernadores cortarem e reciclarem livros medievais, escritos à mão, que a invenção da imprensa viera tornar obsoletos, para reforçar as lombadas. E alguns desses materiais eram já então antiquíssimos, como se demonstra pelos primeiros resultados do projecto da Universidade de Leiden, que encontrou numa das encadernações já radiografadas o fragmento de um manuscrito do século XII, que cita excertos de uma obra de Bede: um monge inglês e doutor da Igreja (é até hoje o único natural da Grã-Bretanha a quem foi concedido esse título) que viveu entre os séculos VII e VIII e redigiu uma célebre História Eclesiástica do Povo Inglês.

A equipa da universidade holandesa tem mesmo conseguido separar virtualmente páginas que foram coladas umas às outras, tornando legível o texto de cada uma delas.

Erik Kwakkel calcula que uma em cada cinco encadernações dos primeiros tempos da imprensa contenha fragmentos de manuscritos medievais, que em alguns casos poderão ser mesmo o único vestígio que ocultamente sobreviveu de obras há muito dadas como irremediavelmente perdidas.

“Seria óptimo encontrarmos, por exemplo, um fragmento de alguma cópia muito antiga da Bíblia, que foi o texto mais importante durante a Idade Média”, diz Kwakkel, observando que as grandes bibliotecas públicas, como a British Library ou a biblioteca da Universidade de Oxford, “têm milhares de obras com encadernações deste tipo”.

Para detectar os manuscritos ocultos, a tecnologia Ma-xrf recorre a um feixe de raios X que regista a presença e a abundância de elementos como o ferro, o cobre e o zinco – principais constituintes das tintas medievais – soba as camadas de papel ou pergaminho, um material particularmente denso, fabricado a partir de peles de animais.

O principal senão da nova tecnologia é, por enquanto, a sua lentidão. Radiografar uma lombada pode levar 24 horas, reconhece Dik, cuja equipa está a tentar encontrar métodos mais expeditos. “Para já, provámos que isto funciona”, diz o cientista.

Aluna da UFSCar encontra poemas ‘inéditos’ de Drummond

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Estudante encontrou poemas inéditos de Carlos Drummond de Andrade (Foto: Wilson Aiello/EPTV)

Estudante encontrou poemas inéditos de Carlos Drummond de Andrade (Foto: Wilson Aiello/EPTV)

 

Obras foram publicadas em edição da revista Raça, em São Carlos, SP.
Trechos podem ajudar na compreensão do processo criativo do escritor.

Publicado no G1

A estudante Mayra Fontebasso, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), descobriu três peças importantes no mundo literário: poemas ‘inéditos’ de Carlos Drummond de Andrade. Publicados em uma revista de São Carlos (SP) em 1929, os trechos nunca foram estudados e pertencem à fase jovem do escritor. “São inéditos pelo fato de não terem sido catalogados. Eles foram publicados em revista, mas nunca foram recolhidos em livros e nem estudados”, explicou o professor de literatura Wilton Marques, que coordena a pesquisa. (Veja as obras no fim do texto).

Os “poemas perdidos”, como são intitulados, foram encontrados em um exemplar da revista Raça doado pela família Damiano. Na época, o jornalista Carlos Damiano era o editor responsável pelas publicações. Agora, o acervo pertence à Fundação Pró-Memória.

Segundo Marques, as características dos textos correspondem a uma época desconhecida da vida de Drummond, de quando ele tinha cerca de 20 anos, e por isso eles se tornaram relíquias. “Ainda é um Drummond jovem e excitante literariamente, mas que já apresenta um tipo de poema que vai caminhar para a modernidade depois”.

Até então desconhecidos, os achados são considerados ‘inéditos’ porque não fazem parte do conjunto principal de sua obra e mostram um modo diferente do acostumado modernismo de Drummond.

“A gente percebeu que não só é inédito em livros, como nenhum estudioso nunca se debruçou sobre eles porque, provavelmente, por ser uma revista local, nunca foi alvo de estudos da área de literatura, são pedras preciosíssimas”, afirmou a universitária, aluna do último ano do curso de graduação em letras.

História
Drummond nasceu em Minas Gerais em 1902 e é considerado um dos poetas mais influentes do século 20. Seus primeiros poemas são marcados pela individualidade do autor, que, ao longo o tempo, começa a jornada pelo modernismo, onde deixa sua marca registrada.

Mas as descobertas podem alterar essa linha. “Primeiro eu desconfiei muito desses poemas porque não tinham a assinatura completa do autor, ele assinava só como Carlos Drummond. Esses são poemas que não são parecidos com o Drummond que a gente conhece, o Drummond famoso e modernista”, disse Mayra.

Os achados serão estudados pelos pesquisadores para a melhor compreensão do processo criativo do escritor e também farão parte de uma antologia da Revista Raça, editada na cidade entre 1927 e 1934, com circulação tanto na região quanto na capital paulista.

“Agora eu espero encontrar outras pedras no meio do meu caminho, no meio dessa minha pesquisa, e provavelmente há textos inéditos de outros escritores, não só do Drummond”, finalizou Mayra. Veja abaixo os poemas encontrados.

O poema das mãos soluçantes, que se erguem num desejo e numa súplica
Como são belas as tuas mãos, como são belas as tuas mãos pálidas como uma canção em surdina…
As tuas mãos dançam a dança incerta do desejo, e afagam, e beijam e apertam…
As tuas mãos procuram no alto a lâmpada invisível, a lâmpada que nunca será tocada…
As tuas mãos procuram no alto a flor silenciosa, a flor que nunca será colhida…
Como é bela a volúpia inútil de teus dedos…

O poema das mãos que não terão outras mãos numa tarde fria de Junho
Pobres das mãos viúvas, mãos compridas e desoladas, que procuram em vão, desejam em vão…
Há em torno a elas a tristeza infinita de qualquer coisa que se perdeu para sempre…
E as mãos viúvas se encarquilham, trêmulas, cheias de rugas, vazias de outras mãos…
E as mãos viúvas tateiam, insones, as friorentas mãos viúvas…

O poema dos olhos que adormeceram vendo a beleza da terra
Tudo eles viram, viram as águas quietas e suaves, as águas inquietas e sombrias…
E viram a alma das paisagens sob o outono, o voo dos pássaros vadios, e os crepúsculos sanguejantes…
E viram toda a beleza da terra, esparsa nas flores e nas nuvens, nos recantos de sombra e no dorso voluptuoso das colinas…
E a beleza da terra se fechou sobre eles e adormeceram vendo a beleza da terra…

CARLOS DRUMMOND.

Cientistas encontram na Inglaterra fragmentos de Alcorão mais antigo do mundo

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 Reprodução/BBC Os fragmentos do Alcorão estão legíveis e a escrita, apesar de antiga, é clara


Reprodução/BBC
Os fragmentos do Alcorão estão legíveis e a escrita, apesar de antiga, é clara

Usando datação por carbono, os pesquisadores descobriram que esse manuscrito tem pelo menos 1.370 anos de idade

Publicado no Último Segundo [via BBC Brasil]

Pesquisadores da Universidade de Birmingham, na Inglaterra, encontraram fragmentos que podem ser do Alcorão mais antigo do mundo. Usando datação por carbono, os cientistas descobriram que o manuscrito tem pelo menos 1.370 anos de idade.

As páginas do texto sagrado muçulmano ficaram esquecidas na biblioteca da universidade por quase um século. O manuscrito era mantido junto com uma coleção de outros livros e documentos do Oriente Médio, sem ser identificado como um dos mais antigos fragmentos do Alcorão já encontrados no mundo.

Um especialistas em manuscritos antigos da Biblioteca Britânica, Muhammad Isa Waley, afirmou que a descoberta vai trazer “alegria” aos muçulmanos.

Textos antigos

Quando a pesquisadora Alba Fedeli trabalhava em seu doutorado ela decidiu examinar mais atentamente todas as páginas que encontrou e resolveu fazer testes de datação por carbono. Os resultados, segundo ela, foram “surpreendentes”.

A diretora de coleções especiais da universidade, Susan Worrall, disse que os pesquisadores não esperavam “nem nos sonhos mais loucos” que estes fragmentos seriam tão antigos.

“Descobrir que tínhamos um dos mais antigos fragmentos do Alcorão no mundo todo foi animador, fantástico”, afirmou.

Os testes para descobrir a idade do manuscritos tiveram que ser feitos na Unidade Aceleradora de Radiocarbono da Universidade de Oxford e mostraram que os fragmentos, escritos em couro de ovelha ou cabra, estavam entre os mais antigos já encontrados.

Estas análises deram aos pesquisadores uma série de datas mostrando com uma probabilidade de mais de 95% que o pergaminho é de uma data entre os anos de 568 e 645.

“Eles (os fragmentos) podem nos levar de volta a alguns anos depois da verdadeira fundação do Islã”, disse David Thomas, professor da universidade.

“Segundo a tradição muçulmana, o profeta Maomé recebeu as revelações que formam o Alcorão, a escritura do Islã, entre os anos de 610 e 632, o ano da morte dele.”

De acordo com Thomas, a datação dos manuscritos de Birmingham significa que é possível que a pessoa que os escreveu era viva na mesma época em que viveu o profeta Maomé.

“A pessoa que o escreveu pode, na verdade, ter conhecido o profeta Maomé. Ele provavelmente o viu, provavelmente ouviu suas pregações. Ele pode ter conhecido o profeta pessoalmente”, disse.

Testemunha ocular

Thomas afirma que algumas passagens do Alcorão foram escritas em pergaminhos, pedras, folhas de palmeiras e ossos de camelos. E uma versão final, que juntou tudo isto em um livro, foi completada por volta do ano de 650.

Para Thomas “as partes do Alcorão que estão escritas neste pergaminho podem, com um certo grau de confiança, ser datadas de menos de duas décadas depois da morte de Maomé”.

“Estas partes devem ser em um formato que está muito próximo do formato que o Alcorão é lido hoje, dando base para a teoria de que (o texto sagrado) sofreu pouca ou nenhuma alteração e que pode ser datado até um ponto muito próximo do tempo em que acredita-se que foi revelado”. O manuscrito está na “escrita hijazi”, uma forma antiga de árabe escrito.

Pelo fato de a datação por carbono fornecer uma série de datas possíveis, existem outros manuscritos em coleções públicas e particulares que são da mesma época. Isto torna impossível dizer que qualquer um deles é definitivamente o mais antigo.

Mas, a última data possível, 645, coloca o manuscrito de Birmingham entre os mais antigos do mundo.

‘Sobrevivente precioso’

Muhammad Isa Waley, curador deste tipo de manuscrito para a Biblioteca Britânica, afirmou que estes “documentos, em uma bela e surpreendentemente legível escrita hijazi, quase certamente datam do tempo dos primeiros três califas”.

Os primeiros três califas foram líderes da comunidade muçulmana entre cerca de 632 e 656. Waley afirma que, sob o terceiro califa, Uthman ibn Affan, cópias da “edição definitiva” foram distribuídas.

“A comunidade muçulmana não era rica o bastante para estocar peles de animais por décadas e produzir uma mushaf, ou cópia, completa do Alcorão Sagrado, que requeria muitas delas.”

Waley sugere que o manuscrito encontrado em Birmingham é um “sobrevivente precioso” de uma cópia daquele tempo ou ainda mais antiga.

“De qualquer forma, esta, junto com beleza do conteúdo e da escrita hijazi surpreendentemente clara, é uma notícia para trazer alegria aos corações muçulmanos”, disse.

O manuscrito é parte da Coleção Mingana, de mais de 3 mil documentos do Oriente Médio reunidos na década de 1920 por Alphonse Mingana, um padre nascido perto de Mosul, cidade que hoje fica no Iraque.

Edward Cadbury, parte da dinastia de fabricantes de chocolates, foi o patrocinador das viagens do padre ao Oriente Médio para coletar estes documentos. A comunidade muçulmana de Birmingham já se manifestou a respeito do manuscrito.

“Quando vi estas páginas fiquei muito comovido. Havia lágrimas de alegria e emoção em meus olhos. Tenho certeza de que pessoas de toda a Grã-Bretanha virão a Birmingham para olhar estas páginas”, afirmou Muhammad Afzal, presidente da Mesquita Central de Birmingham.

A universidade informou que os fragmentos do Alcorão serão exibidos ao público na cidade a partir de outubro.

Professor da UFSCar encontra poema esquecido do autor Machado de Assis

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poema machado

Obra foi encontrada em uma edição do jornal Correio Mercantil na internet.
Escrita possui quase 160 anos e passou despercebida por pesquisadores.

Publicado no G1

Um professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) encontrou um poema desconhecido do escritor Machado de Assis publicado no jornal Correio Mercantil quando o autor tinha 17 anos. A obra passou quase 160 anos despercebida pelos pesquisadores e surgiu por meio de uma pesquisa feita pela internet sobre as influências de Machado de Assis.

A assinatura revela o nome que o autor usava na época: Joaquim Maria Machado de Assis. ‘O Grito do Ipiranga’ foi publicado na edição de 9 de setembro de 1956, mas ficou esquecido. Este é o primeiro texto publicado pelo autor em um grande jornal. O achado é do professor de literatura brasileira da UFSCar Wilton Marques que teve uma surpresa enquanto acessava o acervo da biblioteca nacional na internet.

“Fui conferir os poemas associados ao Correio Mercantil, que segundo a crítica Machado só teria publicado algo a partir de 1858. Na pesquisa com o jornal eu ampliei a abrangência para os anos 50 e apareceu”, explicou o professor.

O texto não chama atenção pela qualidade literária, mas por mostrar um Machado adolescente e em fase de amadurecimento intelectual. Os 76 versos são uma forma de homenagem ao dia da independência, uma forma nacionalista que o escritor logo abandonou.

Texto foi encontrado por professor da UFSCar em jornal antigo (Foto: Reprodução/EPTV)

Texto foi encontrado por professor da UFSCar em
jornal antigo (Foto: Reprodução/EPTV)

O texto se espalhou e trouxe agitação para os bastidores literários. O professor de teorias literárias da Universidade Estadual Paulista (Unesp) explica a importância da descoberta. “Tem que ser comemorado o seu achado, porque acima de tudo temos que conhecer todo o texto do Machado de Assis, assim como qualquer escritor que queiramos ter uma ideia acerca do trabalho”, comentou.

A nova descoberta, ao invés de trazer explicações, levanta ainda mais dúvidas sobre uma época pouco conhecida: a adolescência de Machado de Assis. “A grande questão para os machadianos é que não se sabe bem como um jovem intelectual negro, em uma sociedade escravocrata como a brasileira, conseguiu se inserir na intelectualidade brasileira”, apontou Wilton Marques.

Outra questão levantada pelo poema é de se haveriam, no arquivo digital com mais de cinco milhões de textos, outras obras perdidas do autor. “É possível que apareça outras coisas, como dizem os futebolistas, o Machado é uma caixinha de surpresas, ele sempre acaba surpreendendo. Como ele produziu grande parte da obra dele para jornal, então é muito provável que algum outro texto tenha escapado”, explicou Marques.

10 livros que vão te dar vontade de fazer as malas e desbravar o mundo – Parte 2

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Publicado por Nômades Digitais

“O mundo é um imenso livro do qual aqueles que nunca saem de casa lêem apenas uma página”. A frase é de Agostinho de Hipona e é um bom ponto de partida para o que aqui queremos mostrar. Ainda que ela nos lembre que não basta ler – é preciso ir -, porque não existem duas viagens iguais (como não existem dois seres humanos ou dois lugares desse imenso livro exatamente iguais), ela faz uma analogia que nos lembra que ler é uma forma de viajar. Pelo menos na nossa mente. E essa já é uma viagem imperdível.

Há uns meses, reunimos 10 livros que dão vontade de desbravar o mundo, mas qualquer leitor e/ou viajante atento deve saber que não existem apenas 10. Aliás, se tentássemos reunir todas as obras que tocam aquela parte da mente onde guardamos planos de viagens, a sensação da descoberta, acompanhada da brisa do mar, do calor de uma tarde de verão ou das pessoas que nunca tínhamos visto antes, mas que nos abrem um sorriso fácil no primeiro contato, precisaríamos criar um novo site só para isso.

Confira as nossas novas sugestões para você viajar sem necessariamente sair de casa:

1. “A arte da viagem”, de Paul Theroux
Vem em primeiro porque é mais do que um livro de viagens: é a própria literatura de viagens condensada em uma só obra. Paul Theroux é, possivelmente, o mais consensual escritor vivo deste gênero literário e oferece desta vez uma viagem dentro da viagem, um roteiro de histórias, autores, citações e situações singulares sobre a arte de botar o pé na estrada. Aqui o medo e a adrenalina dão lugar ao espírito curioso do leitor, que ao invés de entrar nos cenários de um determinado lugar, transita entre o que há de mais importante em sair do lugar a que chamamos casa. Um conjunto de histórias, lançados para celebrar os 50 anos de viajante do autor, e em que ele nos dá a lição dos 10 mandamentos da viagem: “1. Sair de casa; 2. Ir sozinho; 3. Viajar leve; 4. Levar um mapa; 5. Ir por terra; 6. Atravessar a pé uma fronteira nacional; 7. Fazer um diário; 8. Ler um romance que não esteja relacionado com o local onde se está; 9. Se tiver de levar um celular, evitar usá-lo; 10. Fazer um amigo”.

Foto 1 © DR/William Furniss; Foto 2 © Quetzal

Foto 1 © DR/William Furniss; Foto 2 © Quetzal

2. “Na Natureza Selvagem”, de John Krakauer
Quando fizemos a primeira lista e não incluímos uma das obras maiores de Krakauer, o mundo (ou a caixa de comentários) ficou indignada com a gente. A explicação: havíamos feito dias antes uma lista de filmes onde a adaptação ao cinema deste livro, feita por Sean Penn, era atração principal. Mas admitimos – não dá pra fazer uma lista de livros de viagens sem incluir um dos que mais inspirou os novos viajantes, muitos dispostos a seguir a filosofia de Christopher McCandless, deixando pra trás empregos, bens e ideias pré-concebidas sobre sociedade, sem destino e com a natureza como fim.

McCandless tinha 22 anos quando se entregou ao único desafio que realmente o interessava, mas hoje, passados precisamente 22 anos sobre esse abril de coragem mil, são muitos e de todas as idades os que não resistem ao apelo de uma viagem sozinho.

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3. “As Mulheres do Meu Pai”, de José Eduardo Agualusa
Escritor angolano, Agualusa tem a capacidade de fugir aos lugares comuns quando falamos de África, da selva à pobreza. Elas estão lá, existem, mas a África de Agualusa é mais do que isso. O poder das mulheres e a musicalidade do povo e das ruas, mesmo em meio ao caos, são destaque numa obra guiada por uma filha em busca dos lugares (e das mulheres!) pisados pelo pai. Faustino Manso é um famoso compositor angolano falecido e um homem com uma relação peculiar com o sexo oposto. Pai de 18 filhos, deixou sete mulheres viúvas. A mais nova das filhas, Laurentina, é quem nos leva da capital angolana, Luanda, até ao outro extremo, em Maputo, Moçambique, atravessando a África Austral com paragens na Namíbia e África do Sul. Pelo meio, um enredo de personagens complexo e cenários que prometem dançar na sua mente durante muito tempo.

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4. “Noturno Indiano”, de Antonio Tabucchi
Não é fácil visitar a Índia e sair ileso. Por isso, caro leitor, se prepare para um choque de realidade com a narrativa do italiano Tabucchi. Ele, narrador e personagem, em busca de um amigo perdido, que não vê há anos, pode facilmente passar de um hotel de luxo para um quarto na beira da estrada (ou para a própria beira da estrada) e ainda assim não estar preparado para a “moldura” de miséria humana que vai encontrar. Em Bombaim ou em qualquer outra parte desse país de excessos, o narrador descreve 12 noites, 12 pontos diferentes da Índia, cada um com seus infinitos recantos, e nos oferece uma carga de suspense que achavamos só ser possível em policiais.

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5. “De vagões e vagabundos – Memórias do submundo”, de Jack London
O autor norte-americano Jack London é outro clássico da literatura que parece levar a adrenalina colada a cada página. Nesta obra, que foi entretanto reeditada no Brasil com o título de “A Paixão pelo Socialismo”, em que se juntam outros textos, London vagueia pela própria juventude, marcada pela pobreza e pela ideia de sobrevivência. O texto tem muito de autobiográfico e percorre o submundo americano, os pobres e sem-teto que usavam a rede ferroviária em expansão no país como abrigo itinerante.

London era um dos que subia em trens de carga, em imagens que percorrem a mente de vários viajantes de hoje, ainda que em muito melhores condições do que aquelas que o autor nos descreve. “Deixando de lado os possíveis imprevistos, um bom vagabundo, jovem e ágil, pode resistir até o fim num trem, apesar de todos os esforços da tripulação a bordo para “despejá-lo” – tendo é claro, a noite como condição essencial”.

Nota: se o tema te interessa, a reedição “A Paixão do Socialismo” junta outras histórias à experiência nos trens. O livro reúne reflexões sobre o capitalismo, a injustiça social e a pobreza de que London foi testemunha ao longo de seus 40 anos de vida.

Retrato do autor via

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6. “Nápoles 1944”, de Norman Lewis
Uma das melhores sugestões para quem quer entender o maior conflito do século XX, a Segunda Guerra Mundial, além de viajar por entre as descrições de quem a viveu. Norman Lewis serviu no Corpo de Inteligência Britânico na Itália entre o final do ano de 1943 e 1945 e, 30 anos mais tarde, lança uma obra onde relata suas experiências no sul de Itália. Em Nápoles, Lewis toma contato com a devastação da guerra, a vulnerabilidade da condição humana, mas também a solidariedade que pode unir os homens, independente dos conflitos ou da cor dos uniformes. Para juntar aos problemas da pobreza, a erupção do vulcão Vesúvio, em março de 1944, cobriu de lava uma aldeia próxima e exigiu ainda mais esforços da população.

Mas, por ser nestas situações que a essência de uma cidade e das suas pessoas mais se revela, é inevitável citar uma das mais famosas frases do autor britânico: “eu admirei tanto a cultura e a humanidade dos italianos no ano que lá passei, que me dei conta de que se me dessem a oportunidade de nascer de novo e escolher um país onde o fazer, escolheria Itália”.

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7. “Viajante Solitário”, de Jack Kerouac
Sim, era possível fazer uma lista só com Kerouac (na primeira, incluímos o grande clássico “On the Road”). Autobiográfico, intenso e de tirar o fôlego, como são quase todos os livros do autor, “Viajante Solitário” está dividido em oito textos por diferentes destinos, da França ao México, de Marrocos aos Estados Unidos, com um personagem que atravessa mares, estradas e caminhos de ferro com a mesma inventividade na escrita, que o levou a ser considerado um dos principais autores do Movimento, ou Geração, Beat.

Se ainda precisar de um pretexto pra ler o livro, aqui vai um trecho em forma de conselho: “Poupei cada centavo e então torrei tudo subitamente em uma grande e gloriosa viagem à Europa ou a outro lugar qualquer e me senti leve e feliz também”.

Foto 1 via; Foto 2 via

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8. “Na Patagônia”, de Bruce Chatwin
Bruce Chatwin faz parte do grupo de inquietos que não cede ao receio de deixar uma carreira e uma vida tranquilas em busca de um desconhecido. A descendência de marinheiros pode explicar o espírito aventureiro do autor, mas o que Chatwin nos conta de seus seis meses de viagem por lugares remotos é mais do que isso – são histórias intensas, umas verdadeiras, outras talvez não, que traçam um perfil intrigante e poético das pessoas com que o autor cruzou na Patagônia.

Motivado pela busca das origens de uma relíquia de família há muito guardada na sala da casa da avó, um “pedaço de brontossauro”, Chatwin acabou criando um clássico da literatura de viagens e elevando o seu nome à categoria de imprescindíveis da biblioteca de qualquer viajante.

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9. “Recalculando a Rota”, de Alana Trauczynski
Uma odisseia pelas peripécias da vida, em que a autora (e nossa colunista aqui no Nômades Dititais) se coloca perante infinitos dilemas, com um único objetivo: encontrar um propósito na vida. Por entre cinco países, Trauczynski experimentou diversas profissões, em uma busca interior que muitas vezes a obrigou, qual GPS da mente humana, a “recalcular a rota”. A história tem emoção, aventura, tragédia e o combate por um dos valores que melhor define a espécie humana: liberdade.

10. “Nosso homem em Havana”, de Graham Greene
O cenário da Cuba pré-revolução castrista junto com o humor satírico de Greene tornam a leitura deste livro um duplo prazer. Greene foi agente do Serviço Secreto Britânico e, por isso, é capaz de nos dar uma ideia precisa do que é ser espião em uma terra estrangeira. O personagem principal do livro, desesperado por dinheiro que garanta sua sobrevivência, aproveita o clima de desconfiança exagerada para enviar para a Europa informações inventadas por ele (e ganhar mais com isso). De forma quase surreal, algumas dessas mentiras vão se tornando reais, colocando o homem em situações, no mínimo, delicadas.

O clima de Guerra Fria é descrito na perfeição, mas não é de estranhar que os viajantes de plantão foquem os sentidos na paisagem e na vida cubanas, com Havana no papel de destaque. Para isso, depois do livro, vale a pena ver a adaptação ao cinema, onde as imagens que preencherão sua mente podem, também elas, se tornar mais reais.

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Nota final: “Diários de Motocicleta”, de Che Guevara, é mais um exemplo de clássicos livros de viagem que incluímos na lista de filmes, pela excelente adaptação ao cinema e pela interpretação de Gabriel García Bernal na pele de Che, mas que poderia, como mais do que um leitor sugeriu, figurar nesta lista.

Clique aqui para ver a Parte 1 dos livros que dão vontade de arrumar as malas e, simplesmente, ir.

E aí, que outras sugestões, que não estejam nem nesta nem na primeira lista, você daria pra gente? E desta lista, quais livros ainda não leu? Qual o surpreendeu mais? Queremos ler sua opinião nos comentários!

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