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A importância de ler para uma criança

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Acostumada com as histórias desde bebê, Catarina fica empolgada quando a mãe pega os livros para ler - Rodrigo Oliveira Santos

Acostumada com as histórias desde bebê, Catarina fica empolgada quando a mãe pega os livros para ler – Rodrigo Oliveira Santos

 

Atividade contribui para o desenvolvimento de forma integral durante a infância, apontam estudos

Publicado em O Globo

Catarina é aquele tipo de criança que não para. Corre, dança, pula, canta e está sempre ligada. É somente na hora de ouvir uma história que a menina, às vésperas de completar três anos, desacelera. É ao lado da mãe, a advogada Caroline Andriotti, que Catarina diminui o ritmo para escutar seus contos favoritos.

– Quando ela percebe que vou ler algum de seus livros, fica empolgadíssima. Nos momentos emocionantes da história, chega a pular na cama. E quer sempre que eu repita os trechos que mais gosta – relata Caroline.

Acostumada a ouvir histórias desde os três meses de idade, Catarina tem uma relação de amor e intimidade com os livros. Além de ‘brincar de ler’ para as bonecas, ela faz a seleção do que a mãe vai ler para ela mais tarde. Os títulos adultos e infantis ficam no mesmo móvel, o que leva a pequena a folhear obras variadas, como a coletânea do Tolstói.

Talvez esteja um pouco cedo para o escritor russo entrar no hall de livros de Catarina, mas todas as histórias são fundamentais para o seu desenvolvimento. A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda a leitura desde a gestação e criou até a campanha “Receite um Livro”, baseada em evidências de que o desenvolvimento cerebral é afetado positivamente por esse hábito.

Uma pesquisa recente da Academia Americana de Pediatria comprovou a estreita relação entre a leitura e o desenvolvimento pleno de habilidades como pensar, falar e aprender. O estudo testou crianças com idade de 3 a 5 anos, que ouviram uma história contada por um adulto. As crianças que já tinham o hábito da leitura em casa tiveram maior ativação de áreas do cérebro relacionadas à criação de imagens mentais e compreensão da narrativa. Em outro estudo, conduzido pela Fundação Nacional de Leitura Infantil dos Estados Unidos, comprovou-se que crianças com contato com os livros desde bebês se tornam adultos mais confiantes e preparados não apenas para os estudos, mas para a vida como um todo.

Ver o mundo

Para a consultora em educação Beatriz Gouveia, a leitura de histórias amplia a visão de mundo e afeta diretamente o comportamento da criança. Segundo Beatriz, ela pode ser realizada por professores durante o período escolar, mas tem um valor diferente quando acontece em família:

– Quando os pais escolhem um livro que liam na infância, por exemplo, compartilham também um pouco da sua experiência.

Assim, o filho tem a chance de ver o mundo pelos olhos do autor, mas também pelos olhos de seus pais. Entre os benefícios da leitura, apontados por Beatriz, está a melhora na observação e no entendimento das relações sociais vividas pela criança.

As narrativas abrem as possibilidades de dialogar com o fantástico mundo da fantasia. O livro pode ajudar, inclusive, em questões delicadas vividas na infância.

– Hoje temos livros infantis que abordam experiências mais sombrias e melancólicas. Morte, separação e até depressão estão presentes em narrativas bem construídas, que fazem sentido para os pequenos. Não são simples encomendas pedagógicas, mas boas histórias.

Ajuda na fase dos porquês

Enxergar novos mundos também influencia na construção da linguagem. Desde muito cedo, a criança já compreende a diferença na voz e expressão corporal dos pais. A voz que conta uma história tem uma entonação diferente, o rosto muda. Nessas horas, vale entrar de cabeça na experiência, que deve ser divertida para todos.

– É interessante ter uma rotina de leitura, mas precisa ser um momento em que pais e filhos estejam disponíveis para essa atividade. A gente se torna leitor aos poucos, não de um dia para o outro.

Uma vez enraizado, esse hábito rende frutos. Um deles é a expansão no vocabulário infantil, que se enriquece com novas expressões, muitas vezes características da linguagem escrita. Para Caroline Andriotti, os livros são uma ajuda e tanto na fase dos porquês, em que Catarina quer explicação para tudo:

– Outro dia estávamos lendo e surgiu a palavra “malcriada”. Ela perguntou: “mãe, o que é malcriada?”. Respondi que é uma pessoa que faz bobeira. Ela pensou um segundo e respondeu: “Então eu sou malcriada, mamãe?” – relembra.

Malcriada nada, Catarina. Sapeca, traquina, arteira e travessa são novas palavras dos livros que têm muito mais a ver com você!

Criança que começa a ir para a escola mais cedo fica mais esperta?

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Cintia Baio, no UOL

Mandar ou não os filhos ainda pequenos para a escola é uma das decisões que podem tirar o sono de muitos pais. Por lei, a criança precisa estar matriculada na escola a partir dos 4 anos.

Entre as principais argumentações favoráveis à matrícula “prematura”, está a ideia de que ir mais cedo para a escola deixa crianças mais espertas e facilitam a vida escola no futuro. Será que isso é verdade?

De acordo com os especialistas ouvidos pelo UOL, não há grandes diferenças de aprendizado entre uma criança que entra na escola com um ano de idade e outra que chega aos quatro.

Ou pelo menos, não há ganhos diretos. O que acontece, segundo eles, é um estímulo maior do ponto de vista de sociabilização e autonomia da criança — ou seja, os ganhos são nas competências socioemocionais.

Bem estimulada e segura, a criança melhora sua capacidade de entender a lógica nos processos de aprendizado futuros. No entanto, vale ressaltar que esses estímulos podem acontecer tanto em casa quanto na escola.

Não tem ‘conteúdo’ para crianças pequenas

“A relação do aprender e ensinar como estamos acostumados, é algo que deve ser priorizado muito mais no ensino fundamental”, diz Maristela Angotti, professora do curso de pedagogia da Unesp (Universidade Estadual Paulista).

“A proposta da escola nessa fase precisa priorizar a noção de sociabilização, de descentralização e de coletividade na criança. O conteúdo, como o português e a matemática, ainda é algo secundário e sempre deve ser apresentado como uma brincadeira”, explica Angotti.

As creches devem funcionar com espaço lúdico, para Márcia Malavasi, professora da Faculdade de Educação da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

“Hoje, dificilmente as crianças brincam na rua, ou seja, conseguem interagir com muitas pessoas da mesma idade que elas. Com essa recomposição histórica e com os pais trabalhando fora, a escola assume esse papel”, explica Malavas.

Se a criança tiver essas condições de desenvolvimento entre a família ou na vizinhança, a matrícula na escola pode ficar para a idade obrigatória. Malavas explica: “Uma criança que consegue começar uma brincadeira, gosta de interagir, demonstra respeito e carinho em casa, também está se desenvolvendo e ganhando repertório”.

Esses são os filhos de Roberta Berrondo, cada um entrou na escola em uma idade diferente

Esses são os filhos de Roberta Berrondo, cada um entrou na escola em uma idade diferente

Depende da criança

Mãe de cinco filhos, com idades entre 25 e dois anos, a dona de casa Roberta Berrondo decidiu colocar cada um deles com uma idade diferente na escola.

O mais velho, hoje com 25 anos, entrou na escola aos 3. Camila (21) e Hugo (10) foram matriculados com pouco mais de 1 ano de idade, mas não se adaptaram e só voltaram aos 4. Aline, hoje com 8 anos, entrou com um ano e lá permaneceu. Os planos para Maria, de 2 anos, é começar aos 4.

Com toda essa experiência, Roberta acredita que o que determina o momento ideal da criança ir para a escola é a personalidade do pequeno e a necessidade dos pais.

“Em alguns casos, não acredito que fiz uma boa escolha, como é o caso do Hugo. Acho que ele se sentiu inseguro e abandonado indo para a escola tão cedo. Já para a Aline, a escola a fez desabrochar e em poucos dias ela era mais sociável”, diz Berrondo.

Nem na escola, nem em casa

Para alguns pais, a resposta para a socialização dos filhos antes dos 4 anos não precisa passar, necessariamente, pela escola tradicional.

Quando sua primeira filha, Maryeva, completou 3 anos, a advogada Fabiana de Barros optou por, no lugar de colocá-la em uma creche, matriculá-la em cursos que chamavam a atenção da menina.

“Para ajudar na socialização, a coloquei no balé, natação e inglês”, conta Barros.

Outro ponto que pesou na escolha por diversos cursos foi a incompatibilidade de horários das escolas tradicionais. Barros explica: “Não tinha necessidade de colocá-la no integral, nem de acordá-la tão cedo para o horário matutino. O que sobrava era o período vespertino, mas não queria comprometer seu soninho da tarde”.

“A interação social é a maior habilidade que a criança pode aprender desde cedo, pois irá determinar como ele se comporta com outras pessoas para o resto de sua vida. E a interação com os outros, que lhe ajudará a ser forte para superar desafios e resolver conflitos”, diz a psicopedagoga Monica.

Ganhos pedagógicos

Embora os especialistas acreditem que o grande ganho para a criança que começa já cedo na escola é o avanço do ponto de vista emocional, alguns estudos demonstram que essa escolha também pode ter consequências positivas no aprendizado a longo prazo.

Um estudo patrocinado pelo governo americano e conduzido pelo National Institute of Health Study, por exemplo, monitorou o desempenho escolar de 1.300 crianças entre os 0 e 12 anos. Metade deles ficou em casa até os cinco anos, enquanto a outra parte frequentou a escola.

Até os 12 anos, o grupo foi submetido a provas para avaliar o desempenho escolar. De acordo com a pesquisa, as crianças que frequentaram a escola mais cedo se saíram melhor que todas as disciplinas testadas.

Outro fato que chamou a atenção dos pesquisadores é que as crianças matriculadas antes dos cinco anos eram mais agressivas em sala de aula do que outros colegas. De acordo com a avaliação, isso pode ter ocorrido porque, na escola, eles precisaram disputar a atenção mais cedo do que aquelas que ficaram sob os cuidados maternos. Mas o resultado não foi conclusivo.

O mesmo estudo, aponta que é a partir dos três anos que a criança começa a aproveitar melhor os benefícios da escola. Antes disso, o que contribui a favor do desenvolvimento é a atenção e o afeto, não importando de onde vem.

No entanto, para a psicopedagoga e psicanalista Monica Pessanha, “não há nada que estabeleça uma relação entre a idade ideal e o ingresso na escola. O que vai determinar é a necessidade dos pais”, explica.

Segundo os dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), entre 2007 e 2014, o número de crianças que frequentam creches ou “escolinhas” antes dos quatro anos —idade em que a escolarização se torna obrigatória no Brasil— aumentou 38,5% na faixa dos zero a três anos.

Crianças de 1 ano já têm contato com tablets em escolas

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Publicado no Diário de Pernambuco

Mal deram os primeiros passos e os bebês já dominam tablets e smartphones. Mas os pais ainda têm dúvidas sobre a influência dos cliques no desenvolvimento infantil. Algumas escolas, de olho nas potencialidades pedagógicas, usam os aparelhos com alunos desde 1 ano de idade.

A bancária Vanessa Brandani deu um tablet de presente para a filha Isabela, que acabou de completar 3 anos. No aparelho, a criança curte brincadeiras tradicionais em versão high-tech, como jogo da memória e quebra-cabeça. “Mesmo novinha, ela manuseia com muita facilidade. Aprendeu quase sozinha. Parece que estava conectada desde a barriga”, brinca.

Para a mãe, há vantagens. “Ela identifica o próprio nome na tela. Tem aplicativos de pintar, desenhar. Desenvolve a coordenação motora”, disse. “Sei que alguns especialistas são contra. Mas no restaurante é um santo remédio. Ela se distrai”, afirma Vanessa, de 36 anos. “Controlo tudo o que ela acessa e não deixo usar por tempo demais.”

Em classe

No Colégio Mater Dei, no Jardim Paulista, zona oeste da capital, os games e a internet entraram na rotina dos alunos pequenos. O bebê, de só 1 ano, desliza o dedo pela tela em um teclado virtual. Em outro jogo, escuta o ruído de um animal ao clicar na foto correspondente. “É tudo adaptado para cada faixa etária, com planejamento e limite de horário”, explica Lucila Cafaro, coordenadora de educação infantil.

Os aplicativos ajudam na identificação de cores e formas, para os mais novos, e na grafia de letras ou quantificação de números na fase de pré-alfabetização. “E não são apenas joguinhos: eles também veem vídeos e fazem tour virtual por museus”, exemplifica. Mas a ideia, reforça Lucila, não é substituir as atividades físicas e manuais, mas complementar.

Mesmo antes de entrar em classe, a tecnologia tem efeitos. As crianças da era digital têm perfil diferente daquelas do passado. “Têm mais conhecimento prévio. E, por causa da tecnologia, são mais criativas”, descreve Lucila. “A maior dificuldade é o contato com o próximo. São mais individualistas.” Outra demanda, disse ela, é por dinamismo: têm ainda menos paciência para ficar muito tempo na mesma atividade.

Paola Carone, de 5 anos, está entusiasmada com os tablets em sala de aula. O uso da tecnologia começou no ano passado na Escola PlayPen, no Cidade Jardim, zona oeste. “É legal porque a gente pode escolher o jogo. Só não pede o que precisa escrever porque a gente não sabe ainda”, contou ela. Cada turma tem um pacote próprio de games para evitar contato precoce com alguns conteúdos.

Em casa, Paola usa o tablet dos irmãos, mas quer um próprio. Gabriel Penalva, de 5 anos, colega de Paola, já tem um aparelho. E a intimidade com o teclado faz o menino preferir escrever o nome na tela ao papel. “Às vezes eu não lembro como faz a letra ‘e’. Na tela, já aparece e aperto.”

Segundo Glaucia Rosas, coordenadora de tecnologia da PlayPen, os equipamentos facilitam um trabalho mais personalizado. “A professora consegue ficar com o grupo de alunos que precisa de atenção individual. Enquanto isso, pode deixar um grupo mais avançado sozinho porque o iPad já dá o feedback que o aluno precisa”, afirmou.

Por que devemos ler histórias de fantasia?

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fairy tales

J. B. Alves, no Portal Overtube

Desde que a humanidade levantou os olhos para ver além do mato alto, ela se deparou com desafios maravilhosos e assustadores. No início, a falta de comida, a escuridão e os predadores eram o motivo. O medo da fome, da dor, da morte e até o medo do desconhecido, daquilo que existiria além da própria morte, foram os motivadores das primeiras histórias.

Para preparar nossas crianças, os adultos tentavam explicar oralmente, através de histórias e atividades, todas as experiências que o grupo havia presenciado. Por exemplo, um membro do grupo que caísse em um buraco poderia se tornar o exemplo de como a terra engole os traidores. E o tigre que matou dois guerreiros durante uma caçada seria alçado ao nível de entidade sobrenatural, ou mesmo o símbolo protetor, o totem de uma nova “Tribo do Tigre”.

E assim, surgiriam mitos e lendas que seriam contados e recontados por gerações. Muitas dessas histórias se tornariam parte de uma cultura mística e religiosa até se transformar naquilo que chamamos de contos de fadas.

A tendência de passar o conhecimento persiste até hoje, mas ganhou uma roupagem diferente que visa alimentar a imaginação das crianças e estimular as suas fantasias enquanto o enredo responde e resume questões importantes da sociedade.

“Não grite lobo sem motivo. Um dia pode ser verdade mas ninguém acreditará em você!”

“Cuidado com o velho do saco, ele leva crianças que não se comportam”.

“E a princesa adormecida foi salva pelo príncipe. E eles viveram felizes para sempre”.

“Para capturar um Saci você precisa de uma peneira com o formato certo, bem naquele dia madorrento em que os rodamoinhos aparecerem. Tire o capuz e ele lhe concederá desejos”.

“Aquela é A Montanha? Perguntou Bilbo numa voz solene, olhando para ela com os olhos esbugalhados. Nunca vira algo que parecera tão grande. – Claro que não! – disse Balin. – Ali é apenas o começo das Montanhas Sombrias, e nós temos que achar um meio de atravessá-las, ou passar por cima ou por baixo delas”.

E assim poderíamos continuar por toda a vida, comentando sobre histórias tradicionais ou modernas, observando os mitos e as lendas, bem como suas histórias morais, que estão intimamente relacionados com a Fantasia que apresenta conceitos e modelos para a origem de cada criança e adulto, cada situação e, até do próprio mundo.

E é assim, de uma maneira sublime e indireta que os contos de fantasia se relacionam e conversam com nossos problemas e conflitos interiores nos fornecendo percepções profundas que sustentam a humanidade nas longas vicissitudes de sua existência. E essa é a nobre tarefa, uma herança que normalmente não é revelada para as crianças porque mesmo os adultos não conseguem acessar esse conceito de forma simples e direta.

Por exemplo, uma história de fadas poderia abordar um conflito interno de forma simbólica e sugerir possibilidades de como resolvê-lo. Enquanto isso, seu tema embalaria a atenção de todos de forma majestosa, transmitindo o seu sentido através de heróis imortais, deuses ou criaturas místicas que fazem solicitações e oferecem presentes aos simples mortais.

No entanto, por mais que queiramos ser como esses heróis, sempre seremos inferiores a eles pois nos contos de fantasia os personagens e situações narradas também personificam e ilustram conflitos íntimos, mas sugerem como esses conflitos podem ser solucionados e quais os passos a serem dados rumo à uma humanidade mais elevada.

A vida real pode não funcionar dessa maneira, mas é através dos contos de fantasia que o herói, ou heroína, sempre alcançam o final feliz, criando assim um momento e um motivo para que a criança se identifique.

Tudo a sua imaginação então é protegida e alimentada por esse final feliz. Dando espaço então para que os obstáculos, sejam apenas mais um motivo para as crianças encontrarem um valor para a superação e o amadurecimento.

E é por isso que devemos ler histórias de fantasia. Por esse tipo de literatura é o que mais ajuda no desenvolvimento infantil no que se refere aos aspectos, cognitivos, psíquicos e motores, criando assim aquela fagulha necessária para a formação dos valores bem como o movimento inicial do motor que proporciona o desenvolvimento infantil.

Além disso, nada melhor do que uma velha história de fantasia, independente de que roupagem assuma, para rejuvenescer a mente e aquecer a alma de todas as idades. Não é?

Sendo assim. Pense profundamente e responda.
Qual história de fantasia você vai ler hoje?

Por que devemos ler para os nossos filhos?

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A importância dos pais lerem para os filhos

A capacidade de compreensão da palavra escrita é um processo complexo e começa com as primeiras histórias que lemos para as crianças.

Michelle Müller, no Brasil Post
A leitura para crianças entrou na lista das orientações básicas que pediatras americanos devem passar aos pais durante as consultas. A importância dessa prática tornou-se oficial recentemente, com a nova declaração da Academia Americana de Pediatria (AAP). Ao recomendar que pais leiam aos filhos diariamente desde o berço, a entidade faz seu primeiro movimento para integrar a medicina pediátrica e o desenvolvimento da linguagem.

A declaração destaca o papel dos livros infantis na aquisição do vocabulário e de outras habilidades de comunicação que devem preceder a alfabetização para garantir o bom desempenho escolar.

Com essa estratégia, os pediatras esperam reduzir as diferenças de linguagem entre crianças de famílias de alta e de baixa renda. No final do ano passado, um estudo da Universidade de Standford concluiu que já aos dois anos é possível perceber diferenças no vocabulário de acordo com escolaridade e renda da família. Filhos de pais com níveis mais altos de educação conhecem, em média, 30% mais palavras nessa idade.

Como um estímulo isolado, os 15 a 20 minutos de leitura diária em família não garantem a educação literária. Seu sucesso depende de outros recursos que se complementam no lento e trabalhoso processo de familiarização com a palavra escrita.

Juntamente com os livros, o diálogo, as canções e as rimas vão construindo no cérebro infantil o caminho que, mais tarde, vai facilitar a passagem do universo das letras. Um universo que não se limita à decodificação dos símbolos: a relação saudável com a palavra escrita envolve a interpretação dos vários tipos de textos, uma capacidade restrita à minoria da população.

A dificuldade de compreensão na leitura é hoje um dos principais desafios da educação.

Começa na infância e com frequência atravessa toda a vida escolar e adulta. No Brasil, 38% dos alunos do ensino superior não dominam habilidades básicas de leitura e escrita, de acordo com levantamento de 2012 do Indicador de Analfabetismo Funcional (Inaf), do Instituto Paulo Montenegro. Isso significa que mais de um terço dos profissionais graduados não compreendem um texto com ideias e estruturas gramaticais mais elaboradas e não têm a capacidade de utilizar a palavra escrita para se expressar de forma adequada.

O fato é que aprender a ler é um processo extremamente complexo, que começa no momento em que os pais apresentam o primeiro livro para o bebê e se estende por toda a vida escolar. O cérebro humano se desenvolveu para dominar a linguagem verbal, mas não apresenta nenhuma sequer estrutura dedicada especialmente à compreensão da escrita. Ele precisa criar um circuito para possibilitar a leitura, envolvendo e conectando diversas regiões.

Da região occipital (visual), a informação viaja rapidamente para fazer conexões no hemisfério esquerdo, passando pelo giro fusiforme – área dedicada ao reconhecimento de objetos da natureza, que é reciclada para decodificar os símbolos da escrita. O processo envolve também a área auditiva, que identifica o som e, finalmente, o lobo frontal, que dá significado à palavra de acordo com seu contexto.

O cérebro de um leitor iniciante é diferente de um leitor experiente. De acordo com o neurocientista cognitivo Stanislas Dehaene, em seu livro Os Neurônios da Leitura (Penso Editora), apenas na adolescência – e em pessoas habituadas a ler diariamente – o caminho da leitura estará bem construído no cérebro.

As mudanças provocadas pela leitura são tão profundas que afetam não apenas a atividade como a anatomia do cérebro. Segundo Dehaene, a parte de trás do corpo caloso (região que une os hemisférios cerebrais) é mais grossa em letrados, o que mostra forte aumento no fluxo de informações entre os hemisférios. Não apenas ao ler, como ao ouvir palavras, o lado esquerdo do cérebro é mais ativo nas pessoas com hábito de leitura.

Trata-se, portanto de uma transformação que não pode e nem deve acontecer de forma rápida ou precipitada. Apesar de muitos pais e escolas acreditarem que o sucesso na educação infantil está relacionado com a alfabetização precoce, ela pode ser um dos problemas da construção fraca desse novo circuito.

Estudos mostram que a maturidade para a alfabetização geralmente ocorre entre seis de sete anos, quando acontece o que Dehaene chama de “revolução mental”. É quando a criança começa a compreender que a palavra pode ser quebrada em diferentes fonemas. No entanto, nenhum cérebro é igual ao outro e pode haver variações na facilidade com que cada criança se familiariza com a linguagem escrita.

Seja qual for o tempo de cada um, a ampliação da capacidade cerebral requer muita prática. E a AAP está certa ao sugerir que ouvir histórias é o início dessa prática. O autor de livros infantis e especialista em leitura Mem Fox defende que, antes de a criança começar a ler, mil livros sejam lidos para ela. Isso não significa que devam conhecer todos os títulos infantis do mercado: repetições são válidas e importantes nessa fase da infância. Para crianças é uma grande satisfação poder prever o que vai acontecer na história, assim como estarem familiarizadas com as palavras e expressões do livro.

Segundo a diretora do Centro de Pesquisa em Leitura e Linguagem da Universidade e Tuft, Maryanne Wolf, nos primeiros cinco anos as crianças devem ser expostas às diversas formas de linguagem. Autora de Proust and The Squid, livro que explora a ciência do cérebro leitor, ela lembra que o circuito de leitura exige muito desenvolvimento das áreas que abrange. E isso não se consegue ensinando bebês a ler, mas lendo para eles, mostrando a eles, de forma incansável, toda a riqueza de significados e possibilidades que a língua oferece.

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