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Crianças deveriam receber lição de casa? Talvez não, dizem especialistas

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Em casa, Caio tem sala com computador, tablet e uma mesa à disposição para os exercícios extraclasse, única responsabilidade dele, conta a mãe, Grace Foto: Anderson Fetter / Agencia RBS

Em casa, Caio tem sala com computador, tablet e uma mesa à disposição para os exercícios extraclasse, única responsabilidade dele, conta a mãe, Grace Foto: Anderson Fetter / Agencia RBS

 

Educadores divergem no Brasil, mas tendência em outros países é considerar a tarefa de casa desestimulante para o aprendizado

Paula Minozzo, no Zero Hora

As crianças deveriam ter mais lição de casa? Não é incomum pais responderem sim a essa pergunta, afinal, fazer o dever, pelo menos para o senso comum, seria um dos caminhos para um bom desempenho escolar. Mas um movimento que já assumiu relevância nos Estados Unidos e em países da Europa contraria a ideia do tema de casa e quer até mesmo a sua extinção.

Educadores, pedagogos e pais ouvidos por Zero Hora afirmam enxergar o dever como um estímulo para a autonomia dos estudantes. Especialistas de opinião contrária sustentam que a prática desestimula os alunos e causa conflito entre as famílias. Pais que se mostram exaustos após um dia de trabalho e crianças cansadas teriam mais uma tarefa a cumprir na lista de obrigações.

O Brasil está no final do ranking quando o assunto é tempo gasto em lição de casa por adolescentes de 15 anos. A média do país é de 3,3 horas por semana, pouco menos do que o Japão, com 3,8, e muito abaixo dos Estados Unidos, com 6,1. A Finlândia, cujo sistema educacional se sobressai em avaliações internacionais, é o último da lista, com 2,8 horas por semana. A China está em primeiro, com 13,8 horas semanais, segundo os indicadores de 2012 da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Recentemente, o bilhete de uma professora de 2º ano primário no Estado americano do Texas viralizou por comunicar aos pais que os alunos não teriam mais dever. “Pesquisas não comprovam que lição de casa melhora o desempenho de estudantes… Jantem em família, leiam juntos, brinquem lá fora e levem seu filho para cama mais cedo”, escreveu a docente.

— É difícil até mesmo questionar o tema de casa. Os professores teriam de revisar suas abordagens educativas se não dessem mais lição. E os pais teriam de aprender que não podem contar com o dever de casa como se fosse uma babá — comenta, por e-mail, a autora do livro The end of homework (O fim do tema de casa, em tradução para o português), Etta Kralovec, uma das defensoras mais árduas da extinção dessa tarefa extraclasse.

Em pesquisa feita pela Universidade de Stanford em 2014, apenas 1% dos alunos de Ensino Médio consultados disseram que o tema de casa não era um fator de estresse. Em comunidades em que o desempenho acadêmico é valorizado, os alunos, em média, recebiam mais de três horas de tarefa por dia. Segundo os pesquisadores que comandaram o estudo, mais de duas horas já causariam impactos negativos no comportamento e no bem-estar.

— Minha filha tem tarefa todos os dias e mais o reforço escolar. Tive de tirá-la da ginástica. Ela fica nervosa para completar tudo, eles precisam de tempo para serem crianças — desabafa a auxiliar de saúde bucal Leticia Hartmann, 32 anos, mãe de Giovanna, nove anos, aluna de uma tradicional escola de classe média-alta da Capital.

Etta, professora da Universidade do Arizona, argumenta que estudos mostram que a lição não melhora o desempenho escolar. Para crianças no Ensino Fundamental, o trabalho de aula, se bem aproveitado, seria o suficiente para uma boa aprendizagem. Em uma temporada de estudos no Zimbábue, ela viu que a situação não se limitava às crianças americanas, cujo dia escolar é mais longo.

— Crianças pobres não têm os recursos em casa para fazer a lição, e as ricas, outras atividades depois da escola que são também enriquecedoras e que disputam o tempo com os temas — ressalta Etta.

De acordo com a professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Tânia Ramos Fortuna, a questão da lição é ampla. O dever pode ser considerado benéfico quando os alunos encontram sentido em realizar determinada tarefa:

— O tema de casa traduz essa ideia de que há uma relação da escola com a vida fora dela. Esse é um lado positivo da lição.

Além disso, as tarefas seriam como uma extensão da vida escolar, opina Claudia Marzano, orientadora educacional da Escola Municipal de Ensino Fundamental Gabriel Obino, no bairro Glória, na Capital. Segundo a educadora, também seria na hora da tarefa de casa, sozinhos, que os alunos teriam mais clareza sobre os próprios obstáculos de aprendizagem:

— Não é largar a mochila em casa e pegar só no outro dia. Em sala de aula, os colegas ajudam uns aos outros. Mas é em casa que eles vão saber onde há dificuldades e trazer para o professor no outro dia.

Pais poderiam incentivar outras práticas fora da aula

Professora da Faculdade Educação da UFRGS, Natália Gil orientou uma pesquisa sobre lição de casa em 2015 e defende que o tema não deve ser usado para suprir uma carência escolar, já que as crianças têm rotinas familiares diferentes. Para Natália, alunos mais vulneráveis não teriam o apoio dos pais nem as condições de estudo necessárias. Já as crianças com famílias mais presentes poderiam utilizar o tempo para aprender de maneiras mais individualizadas, e não repetir o que já é feito na escola.

— Uma criança que não aprendeu a ler na escola raramente vai aprender com pais que tiveram pouca escolaridade. Há famílias que têm internet, outras que não têm nem ao menos livros. Não acho que é papel da escola dizer como as famílias devem se organizar — afirma Natália.

Claudia Kober de Araujo, 43 anos, acompanha de perto a rotina dos dois filhos, Henrique, 13 anos, e Erick, 11. Na casa do bairro Cascata, em Porto Alegre, a mesa da sala de jantar da professora de anos iniciais da Escola Municipal de Ensino Fundamental Gabriel Obino é o lugar dos estudos. O primogênito não traz mais lição de casa, mas é um dos alunos de maior dedicação da turma em que estuda do 8º ano: os professores o conhecem pelas boas notas. O mais novo ainda faz os temas com a ajuda da mãe.

— Acho até que a escola poderia puxar mais, com mais tema de casa — diz Claudia.

Natália e Etta não são contrárias ao estudo fora de sala de aula, mas defendem que a didática do ambiente escolar não invada o espaço das atividades propostas pelas famílias. O ideal seria que os pais incentivassem outras práticas. A leitura por meio de maneiras diferentes das trabalhadas em aulas seria benéfico, afirmam.

— A lição de casa é quase sempre a parte menos instigante, não é uma aprendizagem nova. Não é fora da escola, de modos desiguais, sem os espaços propícios, que o aprendizado vai acontecer. Se o gosto pelo estudo se constrói na escola, em casa, ela (a criança) vai desenvolvendo as próprias práticas — acredita Natália.

Para Etta, a compreensão dos professores que levam em consideração a vida dos alunos fora do ambiente escolar para atribuir tarefas também não é suficiente.

— Uma criança pode levar 15 minutos para fazer uma lição de casa, outra pode levar 30 minutos para a mesma lição. Não é a quantidade dada, mas a presença constante daquela obrigação.

É difícil se concentrar em qualquer outra coisa se há uma lição de casa de “20 minutos” esperando para ser feita — comenta Etta.

Como o tema se relaciona à construção da autonomia

Em um grupo de nove alunos do 3º ao 6º ano da escola Província de São Pedro, instituição privada no bairro Boa Vista, todos dizem que fazem as lições sozinhos. Na hora da lição de casa, perguntas para os pais são raras. A eles, fica a tarefa de supervisionar, já que os professores estão, por meio de um aplicativo, conectados aos alunos para responder dúvidas.

O aluno Caio, 11 anos, tem em casa uma sala com computador, tablet e mesa para a lição de casa.

— Essa é a única responsabilidade dele, e ele tem tempo livre depois para fazer o que gosta — conta a mãe, Grace Correa.

Para Luciane Freitas, professora de matemática na escola, o método da lição de casa é instigante e ajuda a desenvolver a autonomia:

— O tema precisa ser para complementar e ajudar a fixar o material. São pequenos exercícios, alguns até terminam a própria tarefa em sala de aula ou vão além.

O caminho para a construção da responsabilidade e da autonomia seria o contrário, diz Natália Gil:

— Nada obrigatório gera autonomia, que se desenvolve quando há sentido e vontade de estudar porque algo instigou isso. O problema não é o conteúdo escolar, mas dar a liberdade e a autonomia para o aluno escolher e investir em outros elementos.

Brasileiros gastam menos de 4h semanais com a lição de casa

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tarefacasa

Publicado no UOL

Os estudantes brasileiros com 15 anos de idade investem uma média de 3,3 horas semanais para fazer a lição de casa ou um trabalho definido pelo professor. Os dados são de um relatório do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos) divulgado no início desde mês, com dados avaliados em 2012.

Diante da baixa dedicação, o Brasil aparece em 27º lugar no ranking das economias avaliadas pela OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Na outra ponta, Rússia (1º), Itália (2º) e Irlanda (3º) são os países onde os estudantes mais investem tempo fazendo o dever de casa. São respectivamente 9h, 8h e 7h por semana para concluir as atividades.

A média geral de tempo gasto entre os países que compõem o ranking é de 4,9 horas de lição de casa por semana. O estudo analisou relatos de estudantes de 39 países e regiões do mundo. Alguns deles, ocupam a mesma posição no ranking.

Após analisar todo o levantamento, a OCDE confirmou que o status socioeconômico dos alunos e o tipo de escola que frequentam estão diretamente relacionados com a quantidade de tempo que eles passam fazendo a lição de casa.

Estudantes com maior vantagem socioeconômica conseguem investir 5,7 horas semanais. Já os menos favorecidos gastam 4,1 horas por semana, muitas vezes porque precisam trabalhar e têm mais obrigações dentro de suas famílias, de acordo com a organização. Essa diferença acaba reforçando as disparidades socioeconômicas no desempenho dos alunos.

O que é o Pisa

O Pisa busca medir o conhecimento e a habilidade em leitura, matemática e ciências de estudantes com 15 anos de idade tanto de países membro da OCDE como de países parceiros. O exame foi aplicado a 510 mil alunos.

Figuram entre os países membros da OCDE Alemanha, Grécia, Chile, Coreia do Sul, México, Holanda e Polônia. Países como Argentina, Brasil, China, Peru, Qatar e Sérvia aparecem como parceiros e também fazem parte da avaliação.

Confira o ranking do tempo gasto com a lição de casa
  • Rússia – 9,7 horas/semana
  • Itália – 8,7 horas/semana
  • Irlanda – 7,3 horas/semana
  • Polônia – 6,6 horas/semana
  • Espanha – 6,5 horas/semana
  • Hungria – 6,2 horas/semana
  • Letônia – 6,2 horas/semana
  • Estados Unidos – 6,1 horas/semana
  • Austrália – 6 horas/semana
  • Hong Kong/China – 6 horas/semana
  • Macau/China – 5,9 horas/semana
  • 10 Holanda – 5,8 horas/semana
  • 27 Brasil – 3,3 horas/semana
Fonte: OCDE

Mia Couto aponta reinvenção do português como processo político

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Publicado por Folha de S.Paulo

Um dos mais celebrados autores de língua portuguesa na atualidade, o escritor moçambicano Mia Couto, vencedor do prêmio Camões e autor de livros como “Terra Sonâmbula”, participou de encontro no último sábado no teatro Geo, em São Paulo.

Em quase duas horas de conversa, Couto falou sobre sua maneira de reinventar a língua portuguesa ao escrever, seu envolvimento com a luta pela independência de seu país, a relação dos africanos com o Brasil e os estereótipos que rondam a África e a literatura do continente.

No evento organizado pela Folha, o Fronteiras do Pensamento, a Companhia das Letras e a Livraria da Vila, Couto foi entrevistado por Raquel Cozer, repórter e colunista da Folha, e Eliane Brum, escritora e colunista da revista “Época”.

O escritor Mia Couto durante o encontro / Zanone Fraissat/Folhapress

O escritor Mia Couto durante o encontro / Zanone Fraissat/Folhapress

Leia a seguir os principais trechos da conversa.

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Língua portuguesa

Hoje o português é a língua nacional dos moçambicanos, mas a maior parte deles tem outra língua materna. É uma língua em constante movimento, e isso para um escritor é muito sedutor. Essa reinvenção da língua ocorre como um processo social.

João Guimarães Rosa foi uma grande influência. Era como um sinal verde que na literatura se pudesse fazer esse processo de reinvenção da língua. É a reinvenção da nação como linguagem. E Guimarães dá conta desse Brasil ameaçado pelo moderno. É uma coisa que vivemos em Moçambique. A linguagem vira campo de resistência.

Força das mulheres

É como se as personagens femininas se impusessem em minha obra. Mesmo sendo de uma geração em que era preciso dar provas de ser homem, eu venci o medo de encontrar essa mulher em mim.

Eu escutava as histórias que as mulheres contavam sentado fazendo o dever de casa no chão da cozinha. Eu me fiz escritor ali. Via as suas saias passando, ondulando. As mulheres produziram em mim essas memórias.

Imagem da África

O Brasil tem uma ideia muito mistificada da África. A gente imagina que, por ser negro, um brasileiro teria mais intimidade com a África, mas isso é uma bobagem.

Essa visão reducionista e simplificada também é uma coisa que os próprios africanos adotaram. Muitos deles traduziram uma África que os próprios europeus criaram.

Não houve a África do bom selvagem, em que todos viviam em harmonia até a chegada dos colonizadores. Houve uma mão de dentro até na escravatura, cumplicidades entre africanos e europeus.

Quando [os escritores] saímos do estereótipo da África com seus bichos e feiticeiros, enfrentamos outros preconceitos. Mas a África tem de fazer esse esforço.

Prosa e poesia

Sou mais poeta quando escrevo prosa do que quando escrevo poesia. Quando vejo algo que me espanta, escrevo até num guardanapo, em notas de dinheiro, em coisas que nem posso dizer. Tem de haver uma urgência naquilo.

Teor político

Minha literatura é política porque quero dizer coisas com a intenção de produzir um mundo melhor. Fiz parte de uma geração que lutou pela independência e venceu. Tem esse sentimento épico.

Estudo mostra que dever de casa não melhora notas

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crédito Pavel Losevsky / Fotolia.com

crédito Pavel Losevsky / Fotolia.com

Publicado no Porvir

Na eleição presidencial francesa, ele esteve na pauta. Houve quem gostasse da novidade, houve quem desaprovasse a hipótese da abolição do dever de casa, levantada pelo então candidato e hoje presidente François Hollande. Nesse momento de revisão de métodos de educação que o mundo vem experimentando, não só a França, mas também a academia tem se questionado se o bom e velho dever de casa é, de fato, tão bom assim. Um estudo liderado por um pesquisador da Universidade de Indiana mostra pouca correlação entre o tempo gasto com dever de casa e notas altas na escola nas disciplinas de ciência e matemática. Por outro lado, indica uma relação estreita entre dedicação ao trabalho de casa e provas padronizadas, como vestibulares e exames do governo.

A pesquisa “Quando o trabalho de casa vale o tempo gasto com ele?” (livre tradução para “When Is Homework Worth the Time?” foi feita por Adam Maltese, professor na Universidade de Indiana, com coautoria de Robert H. Tai, da Universidade de Virgínia, e Xitao Fan, da Universidade de Macau e publicada em novembro passado. Nela, os especialistas examinaram dados de mais de 18 mil alunos de ensino médio a partir de dados de 1990 e 2002 disponíveis no National Center for Education Statistics. “Nossos resultados sugerem que o trabalho de casa não está sendo tão bem usado da forma como poderia”, disse Maltese ao jornal da Universidade de Indiana.

Os autores afirmam ainda que outros fatores, como participação em classe e presença, podem diminuir a associação do trabalho de casa a uma performance melhor nas notas. De acordo com Maltese, o trabalho de casa é mais eficiente em desenvolver as habilidades necessárias para treinar para os testes do que para reter o conteúdo da aula. “Se os estudantes estão gastando mais tempo no dever de casa, eles estão entrando em contato com os tipos de questão e os procedimentos necessários para responder a questões não muito diferentes dos testes padronizados”, afirmou.

Maltese, no entanto, deixa claro: “Nós não estamos tentando dizer que todo os deveres de casa são ruins”. A sua intenção, afirma, é chamar a atenção para o fato de que o trabalho de casa deve ser um momento de reflexão, muito mais do que de repetição. “O nosso argumento é que a preocupação deveria ser mais com a qualidade do que com a quantidade. Em matemática, em vez de fazer os mesmos tipos de problemas várias vezes, talvez fosse interessante colocar os alunos para analisar novos tipos de problemas ou dados. Em ciências, talvez os estudantes devessem fazer resumos sobre os conceitos em vez de apenas lerem um capítulo e responderem a uma questão no final.”

Colega de Maltese, Tai considera que os dados da pesquisa apontam para a necessidade de o trabalho de casa ser mais propositivo. “O objetivo deveria ser entendido tanto pelos professores quanto pelos alunos (…) No ambiente atual de educação, com atividades tomando tempo das crianças dentro e fora da escola,  cada trabalho de casa deve ser direcionado e ter seu objetivo claro”, disse Tal. “Com trabalho de casa, mais não significa ser melhor”, completou.

Nas conclusões, os autores alertam também para a necessidade de haver mais pesquisas sobre o formato e função das tarefas de casa para que as escolas públicas melhorem em ciência, tecnologia e matemática.

Com informações da Research IU Bloomington

dica do Felipe Nogs

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