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Aos 86 anos, estudante do DF termina 2ª graduação e faz planos: ‘Já estou na pós’

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Amélia Diniz, aos 86 anos, concluiu, esta semana, a segunda graduação (Foto: Marília Marques/G1)

Amélia Diniz é formada em filosofia e concluiu curso superior de teologia. ‘Quero aproveitar a vida da melhor maneira que eu puder’, diz.

Marília Marques, no G1

Aos 86 anos, a aposentada Amélia Diniz exibe com orgulho a pilha de livros e cadernos preenchidos com o capricho típico de uma aluna aplicada. A estudante está prestes a se formar em teologia, a segunda faculdade concluída após um intervalo de mais de 60 anos. A formatura será nesta quarta-feira (21) em Brasília.

Antes mesmo de pegar o diploma, a idosa já decidiu os próximos passos. Amélia, que também exerce os papéis de mãe, avó e bisavó, se matriculou em uma pós-graduação noturna e agora pretende voltar às salas de aula pelo menos duas vezes na semana.

Um dia antes da tão sonhada formatura, Amélia recebeu o G1 em sua casa. À reportagem, ela contou que sempre se dedicou aos estudos e foi aprovada com a nota 9,5 no Trabalho de Conclusão do Curso, o “temido TCC”, brinca. O tema escolhido para o artigo foi a relação entre o Papa Francisco e a Igreja Católica.

Amélia conta ainda que no início do TCC escreveu grande parte do texto à mão, em folhas de papel. Mas mesmo sem dominar o uso do computador acabou optando por trocar o meio analógico pela tecnologia.

64 anos depois…

A decisão de prestar vestibular, depois de 64 anos sem estudar, veio após a morte do marido. Amélia já era formada em filosofia, curso que fez no Rio de Janeiro em 1950. Naquela época, a primeira opção, segundo a bisavó, era estudar matemática, mas por decisão do pai, teve que abrir mão da área de exatas.

Antes de escolher voltar a estudar, Amélia diz que a rotina em casa era dividida entre desafios de lógica – sudoku – e jogo de buraco no tablet. “Não rendia nada.” A inscrição no vestibular – há quatro anos – foi feita sem o conhecimento de nenhum dos sete filhos. “Só contei para minha irmã.”

“Quando meus filhos chegavam para me visitar, eu jogava os livros embaixo da mesa.”

Amélia diz que estudou “o suficiente” para conquistar a aprovação. “Tinha medo de não ser aprovada, mas no dia do vestibular, minhas filhas chegaram em casa e tive que pedir que me levassem para fazer a prova”, conta.

Aos 86 anos, Amélia concluiu curso de graduação em teologia (Foto: Marília Marques/G1)

O vestibular

Sorrindo, a teóloga recém-formada conta que fez a prova do vestibular confiante. “Esperava que poderia passar”. Amélia também contou com uma forcinha dos céus. A aposentada confessa que ao saber da aprovação, fez uma novena à Nossa Senhora e, na promessa, pediu saúde e disposição para concluir os quatro anos de estudo.

“Talvez Ela [Nossa Senhora] tenha vacilado um pouco com a minha saúde”, brinca ao dizer que convive com tonturas frequentes. “Mas os professores foram 100% comigo. Meus colegas eram atenciosíssimos e sempre chegavam com um cafezinho e copo d’água”, diz.

“Passei muito tempo dedicada à faculdade, não fazia outra coisa de tarde. Só interrompia quando meus filhos chegavam, porque nunca deixei que o estudo prejudicasse meu relacionamento com eles”, conta orgulhosa.

Inspiração

Na família, Amélia é vista com uma inspiração. Renata Diniz, uma das 14 netas da aposentada, diz que a avó é “muito aplicada” e foi uma excelente aluna na graduação. “Sei que ela era muito elogiada.”

Ao G1, a servidora pública afirma, no entanto, que apesar da extrema de dedicação da avó, Amélia nunca deixou de receber a família no tradicional almoço de domingo.”Em época de prova ela vivia cansada, do tanto que estudava, mas sempre encontrava tempo”, relata.

Já formada, Amélia agora diz que aconselha às amigas a dar continuidade aos estudos.

Mais leitura: passageiros do metrô no DF podem levar livros para casa

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Livreiros já estão disponíveis em 14 estações. Campanha solidária foi feita para que a população doe e retire livros antes das viagens.

Publicado no G1

A ação ‘Compartilhe Cultura’ surgiu para incentivar o hábito da leitura na população do Distrito Federal. Segundo estudo da Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan) – utilizado pelo Metrô DF para realizar a campanha – 63,5% dos moradores não têm o costume de ler no dia a dia.

Para reverter essa situação, o programa ‘Metrô Solidário’ colocou 22 livreiros em diferentes estações. A ideia é fazer com que os passageiros doem e peguem livros emprestados.

Segundo o Metrô, o objetivo da ação é “estimular esse costume durante a locomoção e fazer com que os usuários compartilhem cultura uns com os outros”.

A campanha conta com o apoio da Secretaria de Cultura que irá fornecer o acervo de livros durante a campanha. Toda semana, o metrô ficará responsável pela reposição dos livros. Nas estações, foram fixados cartazes para orientar as pessoas e estimular a doação.

Você pode ter acesso aos livreiros nas estações: Central, Galeria, 112 Sul, Shopping, Guará, Arniqueiras, Águas Claras, Praça do Relógio, Centro Metropolitano, Ceilândia Sul, Guariroba, Ceilândia Centro, Terminal Ceilândia e Terminal Samambaia.

Nunca desisti de estudar, diz ex-morador de rua que se formará em direito

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Jéssica Nascimento, no UOL

Jovem trocou as ruas pelas bibliotecas

Jovem trocou as ruas pelas bibliotecas

Um ex-morador de rua do Distrito Federal trocou o chão frio da Rodoviária do Plano Piloto, no centro de Brasília, pelo calor das bibliotecas da cidade. Com o sonho de fazer faculdade, Walisson dos Reis Pereira, 30, voltou a estudar, abandonou as ruas, fez o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio e passou no curso de direito de uma universidade particular. Hoje, no oitavo semestre da graduação, ele trabalha como estagiário da Casa Civil, no Governo do Distrito Federal.

Nascido no interior de Minas Gerais, o estudante foi criado pelos avós até os 18 anos e não chegou a completar o ensino médio na época. Como almejava um diploma de ensino superior, decidiu se mudar para Brasília e passou a morar com o pai. Infelizmente, a aproximação com o familiar não foi o que esperava.

“Meu pai me batia sem motivo, era muito violento. Sofri muito durante esse tempo. Até hoje, não nos damos bem. Preferia passar frio, preconceito, pedir esmolas e até passar fome do que morar com ele”, lembra o rapaz que, cansado da violência, fugiu de casa e passou a morar na rodoviária da cidade.

Entre as amizades com comerciantes e passageiros da rodoviária, certo dia Walisson conheceu um idoso que havia decidido pagar um lanche para ele. Foi aí que conversaram sobre o futuro e o ex-morador de rua confessou o desejo de voltar a estudar.

“Eu sempre quis terminar o ensino médio, ficava folheando as revistas e livros de uma banca de jornais que fica por lá [Rodoviária do Plano Piloto]. Então, contei para o senhor que havia procurado uma colégio para concluir os estudos, mas como não tinha residência fixa, não conseguia ser matriculado. Ele então me deu uma conta de luz. Foi o dia mais feliz da minha vida”, conta.

No mesmo dia, o Walisson pegou um ônibus, com dinheiro obtido por esmolas, e foi até o Centro de Educação de Jovens e Adultos na Asa Sul se matricular.

Era o ano de 2012 e o jovem iniciou uma rotina árdua de estudos. Acordava às 5h, ia para a escola e depois passava à tarde toda na biblioteca. Já à noite, por volta de 22h, voltava para dormir na rodoviária.

“Eu nunca desisti de estudar, mesmo nas dificuldades. Queria me esforçar cada dia mais, para sair daquela situação, entende? Tanto que no mesmo ano conclui o ensino médio. Depois, consegui um emprego como entregador de panfleto. Ganhava R$ 20 e aluguei um quarto em Samambaia. Isso foi em 2012”, relembra.

Da rua para a faculdade

Após conseguir sair das ruas e ter o próprio espaço, o estudante decidiu que persistiria no sonho de infância: entrar em uma faculdade. Durante um ano, ele frequentou bibliotecas públicas e se preparou para o Enem.

“Eu sabia das minhas dificuldades. Mas sempre pensava: ‘os outros candidatos têm internet em casa, mais estudo. Não posso ter preguiça, né? Tenho que estudar todos os dias'”, lembra.

Com o esforço, veio o resultado. Walisson garantiu uma vaga numa universidade particular da região. A pontuação no Enem também assegurou o financiamento do curso de direito por meio do Fies (Fundo de Financiamento Estudantil).

Apesar da história de superação, o estudante confessa que não gosta de contá-la para professores e colegas. “Muitos nem sabem o que eu passei. Vão saber agora com a reportagem”, brinca. “Eu sei que tem muita gente metida em faculdades particulares. Fiquei com medo de me acharem coitadinho e ficarem com dó. Eu estou onde estou porque me esforcei.”

Vaquinha para a formatura

Para fechar com chave de ouro a conquista da graduação, Walisson sonha com a festa de formatura, que será realizada no ano que vem. O problema é o gasto que ele terá com a festa.

Financeiramente, a vida do jovem continua com altos e baixos. Ele ganha R$ 760 no estágio. Desse valor, R$ 500 são usados para pagar o aluguel da quitinete onde vive. “O que sobra [quando sobra] eu uso para comer, andar de ônibus e tirar cópia das apostilas”, conta.

Por isso, o rapaz resolveu fazer uma vaquinha virtual para tentar arrecadar R$ 6 mil que precisa para pagar o baile, fotos, roupas e a colação de grau.

Depois que se formar, o estudante espera passar em um concurso público para o cargo de defensor público. O motivo? Ajudar pessoas de baixa renda. “Muita gente não sabe os direitos que têm. Por isso, quero ajudá-los.”

Vendendo churros a R$ 1 por 7 anos, mulher conclui faculdade de direito

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A vendedora de churros Maria Odete Silva, que pagou a faculdade de direito e escola dos filhos comercializando doces a R$ 1 em Brasília (Foto: Raquel Morais/G1)

A vendedora de churros Maria Odete Silva, que pagou a faculdade de direito e escola dos filhos comercializando doces a R$ 1 em Brasília (Foto: Raquel Morais/G1)

 

Moradora do DF também usa dinheiro para bancar escola dos dois filhos.
Homenageada por professor, Maria Odete diz sonhar se tornar promotora.

Publicado no G1

Depois de sete anos vendendo churros a R$ 1, uma moradora de Brasília realizou nesta terça-feira (13) o sonho de se tornar bacharel em direito. Maria Odete Silva, de 46 anos, trabalha 12 horas por dia na Rodoviária do Plano Piloto para garantir o dinheiro, que também banca a escola dos dois filhos adolescentes e mantém a casa da família. Em meio a outros 80 formandos, ela foi homenageada por um professor e ganhou um anel de formatura de uma amiga.

A mulher, que chegou a passar por imprevistos ao longo do curso por dificuldades financeiras, já traçou novas metas. “Ainda tenho o sonho de conquistar a OAB e ir para promotoria. Assim que Deus me permitir, [vou] estudar mais três anos e chegar à tão sonhada promotoria”, diz.

Para ela, o sucesso só foi possível por ter acrescentado amor e carinho à receita tradicional do doce – que leva farinha de trigo, sal, margarina, açúcar e baunilha. O produto é vendido nos sabores goiaba, chocolate, doce de leite e misto.

O início não foi fácil. Maria Odete chegava a ir para a faculdade só para assinar chamada e então ir para a rodoviária para começar a vender os churros, para não deixar de ganhar dinheiro. Por vezes, funcionários da loja de calçados do irmão precisaram socorrê-la enquanto ela corria para fazer provas. Os estudos e exercícios eram feitos em um banco atrás do carrinho. Os livros eram todos da biblioteca. A mulher passou a contar com a ajuda do marido na venda dos 10 kg de churros fabricados por dia.

“Tive medo de não conseguir. Entre o sétimo e o oitavo semestre, eu quase desisti. Eu achava que não dava conta, porque as matérias estavam cada vez mais difíceis e eu pensava ‘eu não vou dar conta, não vou dar conta’. Teve um semestre que fiquei todinho sem pagar, que tive dificuldade financeira”, lembra. “Minha professora me viu falando isso, entrou e disse: ‘se você chegou até aqui, você consegue muito mais’. Ela dizia que seria uma honra entregar minha carteirinha da OAB e que ainda iríamos advogar juntas. Isso me incentivou ainda mais.”

Maria Odete conta que sempre teve o apoio dos colegas, que emprestavam anotações e a lembravam das datas de prova e trabalhos. O filho caçula, que sonha em seguir a mesma carreira, e a filha mais velha, que pretende fazer medicina, também estimulavam a mulher nos momentos de dificuldade. Ela diz que a única pessoa que a questionou sobre a necessidade do estudo foi o marido, durante uma discussão.

“Ele falou em um momento estressado, disse que não sabia o porquê desse curso que faço, não sabia o porquê, desculpa pela expressão, essa ‘merda’ de faculdade. Mas nunca fui por ele, sempre quis crer que eu era capaz. Não sei se ele achava que eu não tinha capacidade ou que era fogo de palha. Mas eu sei para quê eu faço. Eu sei, quero provar não só para ele mas para mim mesma que sou capaz”, disse a vendedora de churros.

A mulher afirma que outra razão para insistir no curso foi a crença de que estudar liberta. “Você aprende muito, você cresce muito, você aprende a ver as coisas de outro jeito, abre sua mente. Sempre pensei isso, mas não tinha oportunidade. Pelo cansaço, sabe. Aí um dia pus na minha mente e pensei: ‘não, vou estudar agora’. Se eu não arranjasse esse agora logo, ele nunca viria. Fiz o EJA e pensei que era a minha hora de vencer.”

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Na plateia durante a formatura, a família estava orgulhosa. “Ela merece, é uma guerreira e estamos aí junto com ela”, disse o gerente comercial Marcos Dias. “Muito importante para ela. Ela conseguiu tantas coisas. Conquistou e foi muita luta, então foi bem legal isso aí para ela”, afirma a filha, Mayara Cristina da Silva. “É muito legal ver isso tudo que ela passou, que vem passando, e [ela] estar aí agora”, completou o filho, Marcos Dias Júnior.

Entre os sonhos de Maria Odete junto à carreira de direito estão conseguir levar os filhos à Disney, viajar pelo Brasil e trocar o carro da família. “Eu também queria ter uma casa. Eu pensava, quando trabalhava nas casas de família, via aquelas salas bonitas, pensava ‘um dia vou ter uma sala dessas, uma casa desse jeito’. A casa do meus sonhos é com uma sala bonita, confortável, que eu me sinta bem. Nunca tive privacidade. Meus filhos também querem ter o canto deles. Eu queria uma casa com um quarto para cada, em Vicente Pires mesmo. E uma casa com piscina, já imaginou? Aí é sonho demais, é bom nem pensar, porque o tombo é alto.”.

Trajetória difícil
Maria Odete passou os quatro primeiros anos de vida com a avó em Araçuaí, no interior de Minas Gerais. A mãe era doméstica em São Paulo e mandava dinheiro todo mês para os gastos com ela e os dois irmãos. Depois, as crianças foram morar com a mulher, na casa de uma tia.

Quando Maria Odete tinha 7 anos, a mãe decidiu voltar para MG com os dois meninos. A despedida foi também a última vez que ela viu a mulher, que morreu quatro anos depois ao cair e ser atropelada por um caminhão de boias-frias. Aos 12, ela abandonou a escola e passou a trabalhar como doméstica.

“A vida foi boa não, mas o mundo nos criou. Agradeço a Deus que, tínhamos tudo para ir para o lado errado, mas Deus nos orientou e nos criou certinho”, diz.

Aos 17 anos, Maria Odete decidiu fazer o supletivo até a 8ª série. Dois anos depois ela se casou e se mudou para o interior, onde passou a trabalhar na colheita de algodão e amendoim. O relacionamento acabou três anos e meio depois, por causa de ciúmes, e a mulher voltou para São Paulo para voltar a ser empregada.

Anos depois ela conheceu o atual marido e teve os filhos – Mayara, com atualmente 17 anos, e Júnior, com 15. Uma enchente destruiu tudo o que eles tinham em casa, e a então patroa os ajudou emprestando um apartamento e dinheiro para a reforma.

“Ela pagava as contas, não precisei me preocupar com nada. Ela foi uma mãezona, a mãe que eu não tive. Ela pegou minha roupa toda cheia de lama, lavou tudo para mim, me ajudou a lavar a enchente. Eu trabalhava para pagar. Ela ia descontando o valor”, lembra.

Já de volta à casa da família, Maria Odete se viu incomodada. “Um dia eu acordei de manhã, meu filho queria pão. Eu não tinha dinheiro para comprar pão. Minha tia [com quem morou na infância] me deu R$ 10. Eu pensei bem e decidi comprar bala, pirulito e chiclete. Peguei um caixote, de uma tampa de guarda-roupa que eu perdi na enchente, forrei e comecei a vender meus docinhos. Fazia isso à tarde, na porta de casa, depois de chegar do trabalho.”

A mulher viu que a ideia funcionava e passou também a vender espetinhos. O dinheiro continuava no limite da necessidade. A vendedora de churros conta que um dia conseguiu juntar uma quantia para comprar pastel, mas acabou desistindo ao ser abordada por uma criança com fome.

“Ele era mais carinho e bem gostoso. Eu estava toda animada, peguei o dinheirinho pensando ‘hoje vou levar meu pastelzinho, uma delícia’. Mas aí um menino me abordou porque queria comida, uma bolacha recheada. Aí dei o dinheiro para ele. Fui com ele comprar uma bolacha para ele no mercado. Fiquei sem meu dinheiro, mas achei melhor dar para ele do que para mim. Pensei: ‘depois eu como’. Mas não comi até hoje”, ri.

Maria Odete diz não se lembrar de passar fome, mas afirma que a tia costuma contar algo diferente. “Ela fala que, quando eu era pequenininha, não tinha comida para me dar. Aí ela fazia uma chupetas com açúcar ou rapadura e farinha e punha na minha boca, para eu parar de chorar.”

A vendedora de churros, que já precisou esperar dois meses para juntar dinheiro suficiente para comprar um livro de menos de R$ 100 para a faculdade, afirma ter orgulho da própria trajetória.

“Acho que a gente trabalhando a gente vence. E é o que quero deixar para os meus filhos, que você só vence com luta. Sempre falo para eles que a mãe não pode deixar nada para eles, só o conhecimento, o estudo. Isso ninguém pode roubar deles. Não quero que eles passem o que eu passei. Estudo é a única herança que consigo deixar para eles, nem se alguém puser uma arma na cabeça deles consegue roubar isso”, conclui.

Vinda para Brasília e escolha do curso
Maria Odete morava com o marido e os filhos em São Paulo, mas decidiu se mudar para a capital federal em busca de tratamento médico para o caçula, que tinha problemas para respirar e precisava viver em um lugar com menos poluição. A mulher viu na mudança uma oportunidade de romper com a rotina de empregada doméstica e deixar para trás todas as limitações da vida “sem nada além de arroz e feijão” que a família levava.

Ela passou então a viver com a família na casa do irmão mais novo, em Vicente Pires – a 20 quilômetros do local onde trabalha. O único quarto, que a obriga a dividir a cama com a filha mais velha enquanto o marido e o filho dormem no chão, virou sinônimo de conquista e estímulo. Maria Odete passou a vender calçados na loja do irmão na rodoviária. Uma colega deu então a ideia de aprender a fazer os doces, que ela abraçou sem ressalvas.

“Ela [a colega] me levou, me ensinou a fazer a massa. Foi assim”, lembra sorrindo. “Desde então eu acordo às 5h40 para preparar as coisas e trabalho de domingo a domingo, de 8h às 20h. Sou cheia de calos e queimaduras, aqui não tem espaço para mão lisinha. E sou muito feliz. Aos poucos, dentro do que alcanço com meus passos, tenho conseguido alcançar tudo.”
No contato com os clientes, Maria Odete imaginou como seria se tivesse curso superior.

epois de conciliar o trabalho com as aulas do Ensino para Jovens e Adultos (EJA), ela entrou para uma faculdade particular de direito na Asa Sul aos 41 anos. As atividades aconteciam pela manhã. A mulher já apresentou o TCC, sobre as dificuldades do governo em lidar com invasões de áreas de proteção permanente, e atualmente refaz quatro matérias.

“Eu escolhi esse curso pela minha idade, já estava em uma idade avançada, e o campo de direito é amplo. Para trabalho, quero passar em concurso público. Penso em ser promotora de Justiça. Quero fiscalizar leis. Quero ser uma fiscal das leis. Quero ajudar um pouco as outras pessoas”, explica.

Deputada tenta proibir debate sobre homofobia e ‘poliamor’ em escola do DF

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Publicado no UOL

Professor sugeriu a alunos temas como homofobia, integração entre gêneros e pansexualidade

Professor sugeriu a alunos temas como homofobia, integração entre gêneros e pansexualidade

Um debate em sala de aula sobre questões ligadas a gênero e a sexualidade com alunos do 2º ano do ensino médio causou polêmica no Distrito Federal. Uma deputada distrital encaminhou ofício a um centro de educação pública em que pediu informações e cobrou providências contra o que ela chama de “violação dos valores da família tradicional”. O motivo: um professor pediu um trabalho em grupo e ofereceu aos alunos, como possibilidades de tema, homofobia, integração entre gêneros, pansexualidade, relações poliamorosas e transsexualidade.

A autora do ofício, encaminhado no último dia 21 à escola e à secretaria distrital de educação, é a deputada distrital Sandra Faraj, do Solidariedade. Presidente da Frente Parlamentar pela Família na Câmara Legislativa do DF, ela disse ter recebido com “estranheza” denúncia de uma mãe que não teria concordado com a discussão desses temas na escola.

No documento, a parlamentar defendeu que o conteúdo afronta o Plano Nacional de Educação e o Plano Distrital de Educação, uma vez que ambos “suprimiram todas as alusões e termos da redação às expressões ‘identidade de gênero’ e ‘orientação sexual’ da proposta original encaminhada pelos poderes executivos”.

Nas redes sociais, nas quais se apresenta como “cristã e militante das causas sociais”, a deputada escreveu que a iniciativa a teria feito alvo da “resistência de uma minoria com interesses para lá de escusos, que desrespeitam a vontade dos pais e que querem impor sua ideologia”.

Em entrevista ao UOL, ela não nominou quem seriam essas pessoas – mas afirmou que estaria sofrendo ataques, também nas redes, de pessoas ligadas ao movimento LGBT. “Nem convoquei ninguém ainda para falar sobre esse caso da escola, apenas mandei ofício”, afirmou.

“O artigo 79 do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) impõe a necessidade de se respeitarem os valores éticos e morais da família, e abordar temas como os colocados pelo professor não é respeito. Defendo diálogo e tolerância, não estou definindo o tipo de família – mas o Brasil é um País que respeita a poligamia. Discutir pansexualidade e relações poliamorosas vai na contramão disso”, argumentou.

Na opinião da parlamentar, que já foi filiada ao PRB, partido ligado à Igreja Universal, os temas “não são para alunos de 5 a 12 anos”. Informada que o colégio atende alunos de 15 a 18 anos, de ensino médio, ela insistiu: “Isso tem que ser debatido é no ensino superior”, encerrou.

“Falta de informação gera preconceito e violência”, diz vice-diretor

O vice-diretor do centro de ensino, Ricardo Medeiros, afirmou que a iniciativa da deputada surpreendeu alunos e professores. “Como a deputada se reportou diretamente à escola, isso nos representou uma interferência; além do mais, os temas transversais trabalhados em sala não são aleatórios, mas abordados a partir de discussões entre os professores, a coordenação e a própria secretaria”, definiu. Sobre os cinco temas, Medeiros foi taxativo: “A escola precisa promover o debate e informar, já que a falta de informação gera preconceito, violência e uma série de outros transtornos”, afirmou.

Secretaria cita PNE e Conselho Nacional de Educação

Por nota, a secretaria de educação do DF informou que recebeu o ofício da deputada, mas não o considerou “uma via adequada para se questionar a legalidade e legitimidade da lei n° 5.499/2015, que aprovou o Plano Distrital de Educação”. Conforme a pasta, o plano “contempla o respeito às diversidades ética, cultural, sexual e de gênero”.

“Desta forma, trabalhos de cunho pedagógico desenvolvidos por professores em sala de aula, que contemplem temáticas sociais, estão em conformidade com o Plano Nacional de Educação (PNE), previstos, inclusive, na discussão sobre Cidadania em e para os Direitos Humanos”, diz a nota, que cita ainda trecho de resolução do CNE (Conselho Nacional de Educação) que menciona questões de gênero. “A missão da unidade escolar, o papel socioeducativo, artístico, cultural, ambiental, as questões de gênero, etnia e diversidade cultural que compõem as ações educativas, a organização e a gestão curricular são componentes integrantes do projeto político-pedagógico, devendo ser previstas as prioridades institucionais que a identificam, definindo o conjunto das ações educativas próprias das etapas da Educação Básica assumidas, de acordo com as especificidades que lhes correspondam, preservando a sua articulação sistêmica”.

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