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10 livros fundamentais de escritoras brasileiras

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Publicado no Boa Informação

A Bula reuniu em uma lista obras-primas de escritoras brasileiras que são leituras obrigatórias. A seleção contempla autoras de diferentes gerações e gêneros literários. Entre elas, estão Maria Firmina dos Reis, autora de “Úrsula (1859), o primeiro romance escrito por uma mulher no país; Lygia Fagundes Teles, que construiu uma narrativa surpreendente a partir de pontos de vista femininos nos contos de “A Estrutura da Bolha de Sabão” (1991); e Cecília Meireles, que narra, por meio de versos — e do ponto de vista dos derrotados —, a história da Inconfidência Mineira.

Fonte: R7.com

Como ter um diário pode ajudar a melhorar sua escrita

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Shutterstock

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Isabela Zamboni, no Resenhas à La Carte

Outro dia encontrei um texto muito interessante no blog LIVE TO WRITE – WRITE TO LIVE e resolvi postar aqui no blog. Muitos acreditam que ter um diário é coisa do passado, mas escrever à mão pode ajudar a melhorar a escrita e, por consequência, auxiliar também escritores iniciantes. Não precisa ser necessariamente um diário, mas um caderno de anotações, bloquinho ou qualquer coisa parecida. Lembrando que eu traduzi livremente o texto, então pode conter alguma diferença do original. As dicas são ótimas, olha só:

1 – Alivia a pressão de ser “ótimo”

Ter um diário liberta você para escrever com alegria, abandono e criatividade desenfreada. Escritores são com frequência dominados pelo estresse e tendem a viver em função de algum padrão fabricado. Isso paralisa e suga toda a vida da sua escrita, deixando o texto diluído, vacilante, sem cor e sem inspiração. Um diário te faz escrever sem medos, sem edição, sem nenhum “deveria”. Apenas deixa você escrever. Que bênção!

2- Elimina todo o lixo

Todos escrevemos porcarias. No livro Bird by Bird, a escritora Anne Lamott fala sobre escrever os “primeiros rascunhos lixentos“. Todos nós fazemos isso, faz parte do processo. Escrever em um diário é o jeito mais rápido e fácil de conseguir mais porcarias na página. A partir daí, você pode seguir em frente e escrever suas melhores ideias.

3- Ele oferece preciosidades

Aposto que você já releu algum trecho que escreveu e pensou: “Caramba! Eu escrevi isso? É muito bom!“. Quando você liberta sua criatividade e tem o compromisso de ser completamente honesto e sem censura, coisas boas podem surgir. Os diamantes serão enterrados junto com toneladas de pedregulhos, mas estarão lá.

4- Cria um arquivo pessoal muito vasto

Muito do que é escrito em diários não são bons para ser lidos, até mesmo por quem escreve. Ainda assim, também existem muitas ideias e fragmentos que poderiam inspirar histórias ou artigos. Você pode até incluir exercícios de escrita nos diários – pratique escrever diálogos, descrições, ações, etc.

5 – Melhora sua saúde

Existem vários estudos que demonstram como pessoas que escrevem sobre seus sentimentos (os bons e principalmente os ruins) são menos estressadas e têm sistema imunológico mais forte. Não é uma surpresa – afinal, guardar as coisas para você é o caminho para o desastre, já que descobrir mais sobre si mesmo é uma boa aposta para aumentar a autoconfiança e o bem-estar.

6 – Deixa você mais perto da perfeição

Em seu livro Outliers, Malcolm Gladwell diz que para ser um expert em alguma coisa, você deve investir pelo menos 10,000 horas praticando. As horas que você gasta escrevendo no seu diário contam. Comece a arranjar um tempinho para escrever agora mesmo!

7- Salva relacionamentos

O diário é um lugar excelente para desabafar sem o risco de dizer algo que você pode se arrepender mais tarde. Está nervoso (a) com a pessoa amada? Escreva! Odiando seu trabalho? Escreva. Tem uma crush secreta pelo vizinho? Bem…você entendeu.

8 – Clareia sua mente

Em seu trabalho The Artist’s Way, a autora Julia Cameron recomenda escrever “Páginas pela Manhã“. O método envolve escrever um pouquinho toda manhã, ao acordar. O propósito é clarear suas ideias e sua mente de qualquer problema que possa barrar seu processo criativo. Colocar seus pensamentos no papel libera espaço na sua mente e para as tarefas que você deve cumprir.

9 – Ajuda você a encontrar sua voz

Escritores são obcecados por descobrir, desenvolver e refinar sua “voz”. Quando você deixa de lado a “alta expectativa” e apenas escreve com o seu estilo e como você é, sua voz sairá naturalmente.

10 – Ajuda a desenvolver melhores hábitos de escrita

Quanto mais tempo você reserva para escrever, mais você arranjará tempo para colocar as palavras no papel. Não fique aguardando um “grande projeto”, apenas arranje uma caneta, um caderno e deixe as palavras voarem pelas páginas.

Livros para destruir fazem sucesso entre o público infanto-juvenil

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Publicações convidam o leitor a rasgar as páginas, rabiscar, pintar, manchar e até mesmo levar o livro para o banho

Foto: Giulia Pozzobon / Especial

Foto: Giulia Pozzobon / Especial

Publicado no Zero Hora

Estimular a imaginação e interagir com o leitor é a proposta de publicações como ‘Destrua Este Diário’, um dos exemplares mais vendidos de 2014 para o público infanto-juvenil. Com tarefas diferentes em cada página, os títulos do gênero provocam quem está lendo a sair da zona de conforto. A autora de ‘Destrua Este Diário’, Keri Smith, dedica o livro aos perfeccionistas de todo o mundo e propõe atividades inusitadas, como mastigar – mas não engolir – uma das páginas do livro, por exemplo. Se você obedecer todas as indicações das páginas, no final, o livro vai estar todo estragado.

Keri também criou outros dois livros com propostas parecidas: ‘Termine Este Livro’ e ‘Isto Não é um Livro’, todos da editora Intrínseca. O estímulo da autora para que os leitores construam a história junto com ela é muito evidente, tanto que ela descreve na contracapa de um de seus livros:

“Este objeto não existe sem você. É você quem determinará o conteúdo e o produto final. Tudo tomará forma a partir da sua imaginação. Para fazê-lo ganhar vida, você terá que ir à luta e completar as missões. Se Isto Não é um Livro então o que é exatamente? A resposta depende de você.”

Outros dois exemplares têm propostas semelhantes: ‘Listografia – sua vida em listas’ e ‘1 Página de Cada Vez – Um diário diferente’. O primeiro, da autora Lisa Nora, propõe ao leitor que escreva a sua autobiografia através de listas. Por isso, em cada página, há uma proposta diferente de listas, como os animais de estimação que você já teve, as pessoas engraçadas com quem trabalhou ou, ainda, os filmes e músicas que mais gosta.

O ‘1 Página de Cada Vez – Um diário diferente’ tem 365 tarefas que buscam encorajar os leitores a soltar a imaginação. Na contracapa, o autor Adam J. Kurtz conclui: “Este livro é o seu novo melhor amigo.”

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Vida de Anne Frank será retratada pela primeira vez por cinema alemão

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A adolescente judia foi morta aos 15 anos em um campo de concentração nazista. Divulgação

A adolescente judia foi morta aos 15 anos em um campo de concentração nazista. Divulgação

Seu diário conta como foram os dois anos em que a família viveu escondida com um grupo de judeus na Holanda

Publicado no Primeira Edição

A rodagem do primeiro filme alemão sobre Anne Frank, a adolescente judia vítima do Holocausto e autora do famoso diário que leva seu nome, começou nesta segunda-feira em Amsterdã, no mesmo bairro em que a jovem viveu há mais de 70 anos.

A rodagem deve se prolongar até amanhã, de acordo com emissora pública de televisão holandesa “NOS”, na praça Merwedeplein de Amsterdã, onde viveu a família Frank após sua fuga de Frankfurt em 1933.

O filme, que é produzido pela produtora Zeitsprung Pictures em parceria com a Fundação Anne Frank da Basileia, será a primeira produção alemã sobre a vida dos Frank e deve ficar pronto no começo do próximo ano. Atualmente existem oito filmes sobre o diário de Anne Frank, todos produções americanas ou britânicas.

O longa-metragem será dirigido pelo diretor Hans Steinbichler, começou a ser rodado há poucos dias em Colônia e será protagonizado por Lea Van Acken, que encarna Anne Frank e Martina Gadeck e Ulrich Noethen, que interpretam os pais Frank.

Van Acken ficou conhecida por seu papel de Maria no filme “Kreuzweg” (2014), no qual interpretava uma jovem profundamente religiosa. Esse filme, dirigido por Dietrich Brüggemann, ganhou o Urso de Prata no Festival Internacional de Cinema de Berlim de 2014.

A vida de Anne Frank foi levada ao cinema e ao teatro em várias ocasiões anteriormente, mas esta é a primeira vez que é filmada pelas mãos de uma produtora alemã, que quer narrar através dos escritos da jovem o Holocausto, assim como os fatos que rodeiam a vida dessa família.

Uma visão especial e particular da vida dos Frank ficou famosa através do diário de Anne, que conta com o reconhecimento internacional e está dentro da lista de patrimônio da literatura mundial e documentário da Unesco.

Referente documentário e símbolo do horror da Segunda Guerra Mundial, o relato de Anne Frank chegou a todo o mundo através de milhões de exemplares vendidos em 70 línguas e 100 países diferentes.

Após dois anos na clandestinidade em Amsterdã, a família foi delatada à Gestapo. Os Frank – que eram alemães e tinham mudado de Frankfurt para a Holanda em 1933 – foram capturados pelas tropas nazistas, sobrevivendo somente o pai ao Holocausto.

Anne Frank morreu em março de 1945, aos 15 anos, pouco antes da libertação do campo de concentração alemão de Bergen-Belsen, onde tinha sido presa junto com sua mãe e sua irmã, que também faleceram ali.

Quarto de despejo – Diário de uma favelada: a escrita como válvula de escape

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Carolina Maria de Jesus, moradora da antiga favela do Canindé, em São Paulo, relatou em seu diário o cotidiano miserável de uma mulher negra, pobre, mãe, escritora e favelada.

Carolina Maria de Jesus

Carolina Maria de Jesus

Estela Santos, no Homo Literatus

Introdução

Alguns escritores já escreveram sobre o cotidiano miserável das favelas, mas a grande maioria o fez de uma perspectiva de fora, isto é, sem viver, de fato em uma favela. Em Quarto de despejo temos uma perspectiva diferente: quem escreve é alguém que viveu na favela: a perspectiva é de Carolina Maria de Jesus, moradora da, agora, antiga favela do Canindé de São Paulo¹, uma catadora de papel e de outras sucatas, uma mulher negra, pobre, mãe, escritora e favelada.

O diário foi escrito na década de 1950 e conta a dura realidade dos favelados de Canindé e dos seus costumes. Trata-se de um diário relata e denuncia a violência, miséria e fome – bem como a dificuldade para se ter o que comer.

E como Carolina foi descoberta? O jornalista Audálio Dantas foi encarregado de escrever uma matéria sobre uma favela que vinha se expandindo próxima a beira do Rio Tietê, no bairro do Canindé. Em meio a todo rebuliço da favela, Dantas conheceu Carolina e percebeu que ela tinha muito a dizer, e logo desistiu de escrever a matéria.

A negra Carolina escreveu a (sua) história da favela em 20 cadernos encardidos, cadernos que ela encontrou em meio às suas andanças em busca de sustento para seus três filhos: João José, José Carlos e Vera Eunice. Como o próprio jornalista declara: “repórter nenhum, escritor nenhum poderia escrever melhor aquela história – a visão de dentro da favela”.

O livro conserva a escrita de Carolina, sua sintaxe, seu discurso. Audálio Dantas apenas alterou algumas vírgulas e palavras que seriam incompreensíveis aos leitores, também cortou excesso de repetições de certas situações, assim a leitura do diário não se torna exaustiva.

Quarto de despejo é atemporal. Os anos se passaram, mas a situação de quem ainda vive nas favelas e na miséria ainda é muito semelhante à situação de Carolina décadas atrás. Além disso, o livro foi traduzido para 13 línguas, sendo referência para os estudos sociais e culturais brasileiros.

O diário de uma favelada

Primeiramente, pensemos no diário, ou melhor, no que é um diário. Carolina escreveu um diário íntimo, que não é qualquer diário: é o diário de uma favelada, o diário de quem morou em uma das favelas assoladas pela miséria e violência na década de 1950, a Canindé.

O diário íntimo tem como característica central a escrita do eu. Essa escrita marca uma identidade, o que nos remete a pensar em: Quem é a pessoa se escreve? Quem é a pessoa que fala de si? A identidade da narradora, que é Carolina, é basicamente esta: mulher, negra, mãe – que cria seus filhos sozinha nos anos 1950 e 1960 –, escritora, pobre e favelada.

Este diário tem como característica forte a autobiografia “real”. Por que este real entre aspas? Porque não existe uma autobiografia sem elementos ficcionais. Nós não conseguimos representar o real pela escrita sem ficção, uma vez que nem mesmo temos acesso a todo real, de fato (um exemplo de autobiografia “real” é o romance São Bernardo, de Graciliano Ramos, a diferença está em não ser exatamente Paulo Honório, o personagem principal, o autor da história, sua história ganha vida pelas mãos do escritor Graciliano Ramos).

De forma resumida, o diário de Carolina é uma espécie de literatura-verdade, que relata a cruel e triste vida na favela. Sua linguagem é ao mesmo tempo simples e rebuscada: simples pela forma que escreveu algumas palavras, aproximando-se da linguagem oral (como “iducada”) e rebuscada pelas palavras altamente cultas que utiliza (como “funestas”). Seu diário comove leitores devido a sensibilidade como conta os acontecimentos durante os anos que morou em Canindé. Percebemos que tudo que é narrado, Carolina sentiu, viu, vivenciou.

Carolina Maria de Jesus escreveu o diário entre 15 de julho de 1955 à 01 de janeiro de 1960. Não escreveu todos os dias, às vezes passava cerca de três a dez dias sem escrever. Percebemos, porém, que na maioria das vezes era porque estava doente e sentia-se fraca.

A formação educacional e escolar de Carolina

Carolina se mostra uma mulher educada e que se preocupa com a educação de seus filhos; embora não tenha tido estudado muito, relata que se preocupou em formar seu caráter, ser uma pessoa de bem. Através do diário, que possui inúmeras reflexões, fica evidente que ela tem uma imensa preocupação com a sociedade e a política.

Uma autodidata: aprendeu a ler e escrever com os cadernos, revistas e jornais que encontrava pelas ruas. Conforme conta: “Tenho apenas dois anos de grupo escolar” (JESUS, 2007, p.16). Sua mãe sonhava em vê-la professora, mas o destino e a vida de miséria não permitiram.

A escritora dava muito valor à formação escolar e preocupava-se, sobretudo com a formação de seus filhos. Mesmo tendo imenso medo da violência da favela, mandava-os à escola, fazia questão de que eles estudassem.

Carolina e seu Diário

Carolina e seu Diário

A fome e a cor da fome

Como citado anteriormente, Carolina coletava papelão e sucatas nas ruas de São Paulo. Esta era a forma como sustentava seus filhos. No entanto, o dinheiro nem sempre era suficiente, muitas vezes não havia nada para comer e ela e os filhos iam dormir com fome.

A fome permeia todo o diário. Carolina mostra a preocupação que tem em alimentar bem seus filhos, todo dinheiro é utilizado para comprar alimentos (ou sapatos para as crianças, pois se preocupava muito com os filhos e sentia pena ao vê-los descalços). O diário nos mostra a escritora contando dinheiro quase todos os dias no intuído de comprar alimentos: quando conseguia comprar arroz, feijão e carne, conforme conta, era um dia de festa, via a felicidade estampada no rosto de cada filho.

Também pegava verduras e legumes, que eram descartados nas feiras, fábricas e mercados. E quando ela e os filhos não tinham nada pra comer e estavam passando fome, comiam alimentos que encontravam no lixo. Às vezes Carolina também pegava ossos em um frigorífico e com eles fazia uma sopa para as crianças.

Carolina trabalhava demais e mesmo assim ainda não dava conta de comprar comida; muitas vezes passava mal, tinha tonturas por causa da fome. Declara que a tontura da fome é pior que a do álcool: “A tontura do álcool nos impede de cantar. Mas a da fome nos faz tremer. Percebi que é horrível ter só ar dentro do estômago” (JESUS, 2007, p. 45).

Depois de pegar tudo que encontrou pelas ruas para vender, Carolina ganhou algum dinheiro e resolveu “tomar uma media e comprar um pão”, em seguida fala sobre a cor amarela da fome:

“Que efeito surpreendente faz a comida no nosso organismo! Eu que antes de comer via o céu, as árvores, as aves, tudo amarelo, depois que comi, tudo normalizou-se aos meus olhos.

… A comida no estômago é como o combustível nas maquinas. Passei a trabalhar mais depressa. O meu corpo deixou de pesar. Comecei a andar mais depressa. Eu tinha impressão que eu deslisava no espaço. Comecei a sorrir como se estivesse presenciando um lindo espetáculo. E haverá espetáculo mais lindo do que ter o que comer? Parece que eu estava comendo pela primeira vez na minha vida” (JESUS, 2007, p.45-46).

A pobre Carolina demonstra nervosismo em vários dias narrados no diário. O(s) motivo(s) era(m) o fato de não ter dinheiro para comprar um pouco de arroz sequer: o medo da fome, o medo da enfermidade e o medo de morrer. Ficava ainda mais nervosa quando o fim de semana chegava e ficaria com os filhos em casa sem ter o que comer o dia inteiro: “Deixei o leito furiosa. Com vontade de quebrar e destruir tudo. Porque eu tinha só feijão e sal. E amanhã é domingo” (JESUS, 2007, p 108).

A favela: violência e alcoolismo

A favela do Canindé, como a própria Carolina relata, é extremamente violenta: homens batem em suas mulheres que, às vezes, saem correndo nuas de seus barracos, o que, para os favelados, é um espetáculo e não um absurdo; mulheres brigam por inúmeros motivos, inclusive por coisas banais; homens brigam com vizinhos também por inúmeros motivos; homens desafiam crianças. Tudo é motivo de briga.

A violência é muitas vezes causada pelo álcool. Carolina não bebe, diz que beber é um gasto desnecessário, que o vício no álcool gera violência e que prefere gastar seu dinheiro, conseguido com tanto esforço, comprando alimentos para seus filhos. Pais e mães bebiam na favela, o que acabava por causar mal aos seus filhos diretamente e indiretamente. Veja este relato:

“Assustei quando ouvi meus filhos gritar. Conheci a voz de Vera. Vim ver o que havia. Era Joãozinho, filho da Deolinda, que estava com um chicote na mão e atirando pedra nas crianças. Corri e arrebatei-lhe o chicote das mãos. Senti o cheiro de alcool. Pensei: ele está bêbado porque ele nunca fez isto. Um menino de nove anos. O padrasto bebe, a mãe bebe e a avó bebe. E ele é quem vai comprar pinga. E vem bebendo pelo caminho.

Quando chega, a mãe pergunta admirada:

— Só isto? Como os negociantes são ladrões!” (JESUS, 2007, p.109)

Como podemos observar no trecho acima, um menino de 9 anos, já é influenciado pelo costume de seus familiares, isto é, desde cedo bebe pinga e já pratica atos de violência, algo extremamente recorrente na favela, e ninguém se dá conta (ou não se importa), a não ser ela, Carolina. Esta costumava sempre separar brigas na favela ou chamar a polícia, e por essa razão era chamada de intrometida pelos vizinhos. Ela detestava violência e não queria aquelas cenas violentas na favela, cenas que as crianças viam e aplaudiam. Contudo, a violência em Canindé era pública, uma espécie de espetáculo ao ar livre que todos paravam pra assistir.

Relacionamentos amorosos

A moradora do Canindé dizia que não queria se casar, que preferia criar seus filhos sozinha, que não precisava de homem para criá-los. Além disso, fazia uma comparação com as mulheres da favela que apanhavam de seus homens/maridos: do quê adiantava não ser sozinha e apanhar de um homem (principalmente quando bebem)?

Durante o período do diário, passam pela vida da escritora dois homens: Manoel e Raimundo. Manoel um homem distinto, trabalhador e que insiste em casar com ela. Raimundo, um cigano, belo e sedutor. Mas Carolina não fica com nenhum dos dois, tem alguns envolvimentos, nada além. Sempre quis ficar sozinha, não queria um homem na casa em que vivia com seus filhos.

Questões políticas e sociais

A escritora sempre lia revistas e jornais, procurava sempre estar a par das questões políticas e sociais do país. Lembrando que em 1950 vivia-se no governo Juscelino Kubitschek (1955-1960), época do progresso, da expansão do país, período do “50 anos em 5”. Nesta época, Brasília era construída, o símbolo do desenvolvimento do Brasil, que representava a ideologia da época. E realmente foi um período de desenvolvimento no que fiz respeito a infraestrutura do país: grandes obras foram construídas; avenidas foram alargadas; pontes foram construídas; túneis foram feitos – tudo isto aumentou ainda mais a circulação de automóveis.

Em sua narrativa, Carolina dá um tom de sensibilidade ética no que diz respeito à política. Falava das condições de vida das pessoas pobres, falava da miséria, da fome, da falta de educação e instrução, da divisão de classes, exclusão social e ideologia da época. Carolina comparava a cidade como uma espécie de sala de visitas e favela, por sua vez, era o quarto de despejo:

“… As oito e meia da noite eu ja estava na favela respirando o odor dos excrementos que mescla com o barro podre. Quando estou na cidade tenho a impressão que estou na sala de visita com seus lustres de cristais, seus tapetes de viludos, almofadas de sitim. E quando estou na favela tenha a impressão que sou um objeto fora do uso, digno de estar num quarto de despejo” (JESUS, 2007, p.38).

Se de um lado o país crescia, sobretudo a cidade de São Paulo, por outro mais pessoas iam para os quartos de despejo, repletos de miséria e violência. O motivo é: o governo e as grandes empresas, visando o progresso e o lucro, tomavam conta das terras onde havia as favelas, o que gerava ainda mais despejos, ainda mais exclusão social.

Breve conclusão (ou: por que Carolina escrevia todos quase todos os dias, afinal?)

1Como consta no título deste modesto ensaio, em Quarto de despejo a escrita é uma “válvula de escape”. Uma forma de fuga da realidade. E qual seria esta realidade? A realidade vivida por Carolina é permeada pela miséria, pela fome, pela violência, pela tristeza e por poucos momentos de felicidade.

Em entrevista, a escritora Carolina Maria de Jesus conta o que a motivava escrever:

“Quando eu não tinha nada o que comer, em vez de xingar, eu escrevia. Tem pessoas que, quando estão nervosas, xingam ou pensam na morte como solução. Eu escrevia o meu diário” (JESUS, 2007, p. 195).

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¹ Em 1960, Canindé foi extinta para a construção da Marginal do Tietê.

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Dicas musicais:

Uma música dos anos 50, época em que se passa parte do Diário: Saudosa Maloca, de Adoniram Barbosa.

Ainda sobre a fome: Ronco da Cuíca, de João Bosco.

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Referências

BENEVENUTO, Silvana José. Quarto de despejo: A escrita como arma e conforto à fome. Revista online do Grupo de Pesquisa e Estudos em Cinema e Literatura. Disponível em: <http://www2.marilia.unesp.br/revistas/index.php/baleianarede/article/viewFile/1359/1184> Acesso em: 29 de set. 2014.

JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo: Diário de uma favelada. 9ª ed. São Paulo: Editora Ática, 2007, (Sinal Aberto).

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