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Posts tagged diários

Para escrever melhor, é preciso ler melhor. O que isso significa?

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Estudo identificou que textos considerados “melhores” eram sempre produzidos pelos alunos que liam diários e publicações acadêmicas, ficção literária ou não-ficção - Foto: Caleb Roenigk/Creative Commons

Estudo identificou que textos considerados “melhores” eram sempre produzidos pelos alunos que liam diários e publicações acadêmicas, ficção literária ou não-ficção – Foto: Caleb Roenigk/Creative Commons

 

Pesquisadores descobrem que leituras mais complexas produzem escritores melhores. Mas ‘escrever bem’ é um conceito subjetivo

Ana Freitas, no Nexo

“Leia e escreva mais” costuma ser o conselho base para aqueles que questionam qual a melhor estratégia para aperfeiçoar a habilidade de escrever. O senso comum diz até que não importa o que um jovem estudante leia, contanto que ele esteja lendo, já que isso seria fundamental para consolidar o hábito de leitura.

Em maio de 2016, pesquisadores da área de negócios e administração de várias universidades norte-americanas resolveram investigar os hábitos de leitura de estudantes universitários e compará-los à qualidade dos textos desses estudantes.

O estudo foi publicado pelo “International Journal of Business Administration” e identificou que a leitura é um fator mais importante na determinação de uma escrita de melhor qualidade do que os exercícios de redação, por exemplo: os materiais considerados “melhores” eram sempre produzidos pelos alunos que liam diários e publicações acadêmicas, ficção literária ou não-ficção.

Depois deles, vinham os estudantes que liam ficção, fantasia e mistério. Por último, o estudo concluiu, ficaram os jovens alunos cujos hábitos de leitura se limitavam a conteúdo leve, produzido para a web, como o de sites como Buzzfeed, Reddit e Tumblr.

As descobertas ecoam as recomendações da escritora Susan Reynolds, autora do livro “Fire Up Your Writing Brain: How to Use Proven Neuroscience to Become a More Creative, Productive, and Successful Writer” (“Acenda seu cérebro de escrita: como usar neurosciência comprovada para se tornar um escritor mais criativo, bem-sucedido e produtivo”), lançado em 2015.

Em seus artigos e no livro, ela costuma recomendar o que chama de “deep reading”, “leitura profunda”, para quem deseja escrever “melhor”. Reynolds se refere, segundo ela, a textos que exijam leitura lenta, imersiva, que sejam ricos em detalhes sensoriais, complexidade emocional e moral.

O que é escrever melhor?

O estudo atribuiu classificações mais altas de qualidade para textos de acordo com a complexidade da frases. Frases com sintática mais sofisticadas foram observadas entre os leitores de textos acadêmicos, não-ficção e ficção literária, e portanto, esses foram considerados os melhores escritores.

Essa definição, no entanto, não dá conta da subjetividade contida em avaliar uma boa escrita. Talvez se aplique a textos destinados à produção acadêmica; mas a definição de ‘escrever bem’, geralmente, varia de acordo com o público alvo do texto e o propósito dele.

Professores de língua portuguesa do ensino fundamental defenderiam que “escrever bem” é conseguir compôr textos usando todos os elementos da norma culta; mas esse critério tiraria da lista de bons escritores José Saramago, por exemplo. O mais proeminente escritor contemporâneo em língua portuguesa tem livros inteiros sem vírgula ou ponto final, por exemplo.

“A qualidade do que é ‘bom’ em literatura, como em qualquer arte, jamais pode ser colocada em termos absolutos. Agora, sobre ‘escrever bem’, é possível avaliar objetivamente se um texto não tem erros de gramática, ortografia e estilo. Ainda assim, um livro pode ser bem escrito e ser uma obra absolutamente irrelevante”, reflete o escritor João Paulo Cuenca, que tem cinco livros publicados e é colunista do jornal “Folha de S. Paulo”.

Na técnica jornalística, costuma-se avaliar que “escrever bem” está relacionado com a habilidade de redigir frases curtas, diretas, claras, com vocabulário preciso, mas nunca desnecessariamente sofisticado.

O escritor norte-americano Mark Twain, autor de “As Aventuras de Tom Sawyer”, é considerado um dos maiores escritores de língua inglesa de todos os tempos. Ele é conhecido pelos inúmeros conselhos e dicas sobre escrita, compilados a partir de cartas em resposta a admiradores, fãs e leitores.

As orientações são levadas em conta até hoje por entusiastas da escrita em língua inglesa. Mark geralmente destacava que, para escrever bem, era necessário “matar os adjetivos”. “Escreva ‘pra caralho’ todas as vezes que você estiver inclinado a escrever ‘muito’; assim, seu editor vai deletar o termo e sua escrita vai ficar ótima”, diz uma famosa recomendação bem humorada creditada a ele.

“Eu notei que você usa linguagem simples e direta, palavras curtas e frases breves. É assim que se deve escrever em inglês – é a maneira moderna e a melhor maneira. Continue assim; não deixe as firulas, enfeites e verborragia se aproximarem. Quando der de cara com um adjetivo, mate-o. Não, não quero dizer completamente, mas mate a maioria deles – e aí os que sobrarem serão valiosos. Eles se enfraquecem quando estão próximos. Ganham força quando estão distantes. Quando o hábito de usar adjetivos, ou de ser ‘palavroso’, difuso, cheio de firulas, domina a pessoa, é difícil de abandonar como qualquer outro vício.”

Mark Twain, em carta a um estudante em 1880

A conclusão: não há dúvidas de que ler mais e melhor contribua para fazer um leitor se tornar um escritor mais completo. Escolher a ‘melhor’ leitura para um aspirante a escritor, no entanto, é uma tarefa mais subjetiva. Depende do tipo de escritor no qual ele quer transformar-se.

Diários de Bordo do Aqueronte

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Douglas, no Cafeína Literária

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O PROJETO

Desde que o site foi fundado, em 2013 a equipe do Cafeína tem ensaiado, lapidado, preparado o lançamento de algum título próprio. Se você nos acompanha há algum tempo, vai perceber certos indícios deste “passo a passo” em nossos posts. Eis que após todos estes meses de preparo, vêm à tona o fruto, a magnum opus, incorporando todo conhecimento que pelo portal Cafeína Literária temos divulgado.
Diários de Bordo do Aqueronte é uma coletânea de contos escritos por Doug Pereira – membro fundador do Cafeína. São histórias perturbadoras, onde seus personagens são postos em situações extremas de tensão com uma semiótica toda voltada para induzir o leitor ao medo. Um prato cheio para aqueles que adoram literatura de suspense e terror.

OS CONTOS

O Bom Filho à Casa Torna narra um história dupla, alternando os pontos de vista entre dois personagens: o primeiro é um escravo do Brasil colonial que recebe a missão de encontrar o filho do Marquês de Villaça, desaparecido durante a guerra do Paraguai. O segundo, o próprio filho do Marquês, preso e torturado por um desconhecido psicopata meticuloso.

Em O Templo de Gomorra é explorada a linha tênue entre a paixão e a obsessão. A elasticidade que tem nossa dignidade, brincando com os limites de até onde pode ir um homem em prol de uma mulher tão fascinante e lasciva que lembra o demônio em pessoa. Este conto foi publicado originalmente na coletânea Mentes Inquietas, pela Editora Andross e foi vencedor do prêmio Sesc Amazonas em 2012, publicado no livro A Rocha em que Vivemos e Outras Histórias.

Cada um de nós tem sua idealização do instante da morte e, talvez, do julgamento final de nossas ações em vida. O Guia é uma representação desse momento, construindo, porém, um anti-herói que inverte as velhas expectativas pitorescas de um anjo celestial para uma criatura sarcástica e cruel que vem dar a sentença final.

O mundo visto pelos olhos de uma criança pode ser tão fantástico quanto tenebroso. As crianças têm mais dificuldade que os adultos para distinguir a realidade. A história em Uma Noite de Desventuras é narrada da perspectiva de um menino cuja distinção errônea entre realidade e imaginação pode lhe custar a vida.

No conto No Átrio do Paraíso é abordado o improvável encontro de dois icônicos personagens da história real. A batalha dialética aborda a filosofia da política e da guerra, áreas em que ambos foram considerados mestres.

O arauto da morte está sempre às voltas com mais uma visita a ser feita. Em O Guia II ele retorna com toda sua impaciência e ironia para reclamar mais uma alma.

Uma bela pincelada de sensualidade dá o tom para Rua dos Timbiras, 216. Os devaneios de uma profissional bastante peculiar ao cumprir seu papel na sociedade.

A vida nem sempre se curva aos nossos desejos, por mais que nos achemos merecedores. A paixão muitas vezes pode ser mais amarga que doce. Em Escreva Para Ela estes sentimentos são retratados em seus diversos prismas. Mesmo aquele menos provável.

As lembranças são bens valiosos que temos. Mesmo aquelas que não são agradáveis são peças que compõem nossa experiência de vida e conhecimento. Mexer com elas, entretanto, pode ser perigoso. No conto Apenas Uma Memória, é abordado o reflexo das lembranças em nosso ego e porque algumas vezes o melhor é que certas memórias permaneçam no passado.

E se você descobrisse que está mentalmente doente? Que sofre de alucinações e que tudo que você entende como realidade pode ser falso? E se… Você descobrisse que você é a alucinação na cabeça de alguém? Pelos Bigodes do Coelho traz à baila essas questões e a tensão de suas respostas.

Bullying é um assunto antigo com nome recente. Uns acreditam que é exagero condenar. Outros nem tanto. O certo é que só quem esteve sob a pele de alguém que sofreu. Riu por Último é um breve relato, narrado de forma indireta livre, de uma criança que poderia ter sido qualquer um de nós.

PREPARAÇÃO E REVISÃO

Nossa expert em preparação e revisão, discípula de grandes nomes do mercado editorial como Jiro Takahashi, Ibraíma Dafonte Tavares e André Conti, Cristine Tellier fez um trabalho minucioso de preparação e revisão. Ela possivelmente leu estes textos muito mais do que o próprio autor.
Não obstante, recrutou mais um time de pessoas de conhecimento abastado na Língua Portuguesa para que polissem até a última letra de cada texto. O Cafeína Literária tem uma dívida de gratidão para com esses profissionais.
O resultado é um texto certeiro e belissimamente estruturado, sem desvios, entretanto, no lirismo da prosa e nos objetivos do autor.

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ARTE GRÁFICA

Doug Pereira assumiu a produção de capa e diagramação. A temática do livro é suspense e terror. No que diz respeito à diagramação, foi utilizada a ferramenta InDesign. O formato de página escolhido foi de 15×22. Pensamos que seria mais prático ao leitor um livro menor, prático de carregar no metrô/ônibus.
A fonte no miolo é a padrão: Times New Roman, espaçamento simples. As caveirinhas utilizadas na abertura de contos ou como separadores de cenas são caracteres na fonte Old Skull Hellron. Já a fonte para as letras capitulares (aquelas letras grandes no início de cada texto) é a Christensen Caps.
Já para a capa, a encantadora pintura do espanhol José Benlliure Gil, La Barca De Caronte caiu como uma luva tanto em relação às suas cores mórbidas quanto ao título que remete ao mito do rio Aqueronte, onde navega o barqueiro de Hades. Com um plano de fundo destes, bastou adicionar um trabalho de tipografia para o título e alguns detalhes. A fonte da capa e da folha de rosto é a refinada Rothenburg Decorative.

FERRAMENTAL

Para a produção deste volume, o processo envolveu algumas ferramentas – aplicativos de computador – que são comuns no dia a dia da maioria, mas que, sem elas, o trabalho seria inviável.

Microsoft Word: diga o que disserem sobre a Microsoft, mas algo precisa ser admitido: o Word é a melhor ferramenta de edição de texto disparadamente. Atualmente todo trabalho de escrita de originais é feita no MSWord, bem como são utilizados os recursos de revisão que ele provê para o trabalho de preparação, revisão e forma de registro da comunicação entre autor e revisor.

Adobe InDesign: esta aplicação possibilita moldar o texto em livro de uma maneira simples, bem como realizar o trabalho artístico da macha de texto. É ótima para alinhar imagens e oferece uma série de recursos.

Adobe Photoshop: ao falarmos em capa, inevitavelmente falamos de imagens. Por melhor que seja o trabalho com InDesign, o foco daquele é o texto e deste as imagens. O trabalho de tipografia, criação de logo, criação de detalhes nas imagens, sobreamento e etc foi feito por aqui.

Renato Russo: diários inéditos virarão livros

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Marii Franco, no Whiplash

Em mais uma revirada no fundo do baú da família Manfredini, desta vez diários pessoais de Renato Russo virão a público.

Em julho sairá pela editora Companhia das Letras “Só Por Hoje e Para Sempre”, o primeiro de cinco volumes de diários do cantor que serão lançados.

O livro é o diário escrito por Renato Russo em 1993, durante o período em que ficou internado numa clínica carioca voltada para dependentes químicos.

O texto é um relato sobre sua luta contra a dependência: “(…) Juntos não precisaremos ter medo. Você é a minha luz, eu sou sua consciência (…) Vamos ser felizes de novo”, escreveu Renato, numa “carta” escrita para si mesmo.

Em outros trechos, intitulado “Fax especial de Renato para Junior, em mãos”, o cantor põe no papel o sentimento de ter se reencontrado. “Que bom que você está comigo novamente! (…) Aprendi muitas coisas novas que sei que você vai adorar – é tudo aquilo que você me dizia antes que me deixasse perder no mundo (…) espero que você me perdoe, meu pequeno grande amigo! (…)”.

Num último parágrafo, Renato cita a frase que dará título ao livro:

“Depois eu explico essa história de ‘só por hoje’. É tão maravilhoso isso, você vai adorar, é a sua cara. Só por hoje e pra sempre”.

Por fim, assina “Sempre seu, Renato Manfredini Junior”.

renato russo

Os rituais diários de escritores famosos

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Walter Alfredo Voigt Bach, no Homo Literatus

Manhãs: é quando você mal emerge de seu estado de olhos semi-abertos, apanhando do botão soneca enquanto sai da poça de saliva no travesseiro. Depois de saborear o primeiro café do dia, vai escrever o capítulo final de um dos mais vendidos romances já escritos.

Tá, quem sabe você apenas jogue Angry Birds. Independente da sua razão para não escrever a obra-prima, você pode ter certeza de que seus hábitos diários não diferem tanto daqueles dos autores famosos – passado e presente – para puxar o gatilho da criatividade.

No livro How Great Minds Make Time, Find Inspiration, And Get To Work (ainda sem tradução aqui no Brasil), Mason Curry, de Nova Iorque, listou 161 nomes famosos e suas diferentes maneiras para trabalhar. Você pode se surpreender com alguns.

Olhe aos 10 exemplos da literatura que separamos e se maravilhe como alguns grandes livros foram forjados…

Jane Austen

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Austen despertava cedo, antes de outros se levantarem, e tocava piano. As 9h ela organizava o café da manhã da família, a grande ação de seu trabalho doméstico. Então ela se instalava na sala de estar, em geral com a mãe e a irmã costurando quietas por perto. Se alguma visita aparecia, ela escondia os papési e se juntava a costura. Havia um banquete, a principal refeição do dia, servida entre 15 e 16h. Após ela havia um tempo para conversas, jogos de cartas e chá. A tardinha servia para leitura em voz alta de romances, e durante este tempo Austen leria seu trabalho em andamento para a família.

Victor Hugo

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Hugo escrevia toda manhã, sentado diante de uma pequena mesa em frente a um espelho.

Ele se levantava pela madrugada, acordado pelo tiro de arma diário de uma fortaleza próxima, e recebia um café recém passado e uma carta matutina de Juliette Drouet, sua amante, a quem ele acomodou em Guernsey a apenas nove casas abaixo. Após ler as apaixonadas palavras de “Juju” a seu “amado Cristo”, Hugo comia dois ovos crus, se enclausurava em sua sala e escrevia até as onze da manhã.

Mark Twain

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A rotina dele era simples: ele saía de casa para estudar de manhã após um reforçado desjejum e ficava lá até uma refeição servida perto das 17h. Como ele pulava o almoço, pois sua família não se aproximava durante o estudo – tocariam uma corneta se precisassem dele – ele podia trabalhar sem interrupções por horas a fio. “Em dias quentes”, ele escreveu a um amigo, “Eu espalhava os papéis com meus estudos, os segurava com pedras e escrevia no meio do furacão, vestido com o mesmo linho do qual fabricávamos camisas”.

Stephen King

Author Stephen King at a press event to unveil the Kindle 2

King escreve todos os dias do ano, inclusive no aniversário e em feriados, e quase nunca se permite terminar antes de alcançar sua cota diária de 2000 palavras. Ele trabalha pela manhã, começando entre 8h e 8h30. Alguns dias ele acaba antes das 11h30, mas com frequência se ocupa até 13h30 para atingir sua meta. Então ele fica com as tardes e noites livres para sonecas, cartas, leituras, família e jogos da Red Sox na TV.

Franz Kafka

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Em 1908, Kafka conseguiu uma posição no Instituto de Segurança de Acidentes do Trabalho em Praga.

Ele vivia com a família em um apartamento apertado, onde ele conseguia a concentração para escrever apenas de noite, enquanto todos dormiam. Como Kafak escreveu a Felice Bauer em 1912, “o tempo é curto, minha força é limitada, o ofício é um horror, o apartamento é barulhento, e se uma prazerosa vida não é possível então se deve tentar se contorcer em sutis manobras”. Na mesma carta ele descreve sua linha do tempo: “as 10h30 (mas nem sempre antes das 11h30) eu me sento para escrever, e dependendo da minha força, inclinação e sorte, até uma, duas ou três horas, ou mesmo até seis da manhã”.

Leon Tolstói

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“Devo escrever a cada dia sem falhas, não tanto pelo sucesso do meu trabalho, mas para não sair de minha rotina”. Este é Tolstói em um dos pouquíssimos diários que fez na década de 1860, quando estava mergulhado na escrita de Guerra e Paz.

De acordo com Serguei, seu filho, Tolstói trabalhava isolado – ninguém tinha permissão para entrar em sua sala, e as portas eram trancadas para se certificar de que ele não seria perturbado.

Charles Dickens

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Primeiro, ele precisava de absoluta quietude; em uma de suas casas, uma porta extra foi instalada para bloquear barulhos.

E seu estudo devia ser precisamente organizado, com sua mesa em frente a uma janela e seus materiais de escrita – canetas de penas de ganso e tinteiro azul – próximos a város ornamentos : um pequeno vaso com flores frescas, uma grande faca para cortar papel, uma folha dourada com um coelho empoleirado sobre ela, e duas estatuetas de bronze (uma represetando um par de sapos gordos duelando, a outra um cavalheiro cercado por filhotes).

George Orwell

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O posto na Booklover’s Corner [um sebo onde ele era assistente em meio período] se provou um local perfeito para o bacharelado de 31 anos. Acordando as 7h, Orwell ia a loja as 8h45 e ficava lá por uma hora. Então ele tinha tempo livre até as 14h, e depois podia retornar ao sebo e trabalhar até 18h30. Isso o deixava com quase quatro horas e meia de tempo para escrever na manhã e no início da tarde, o tempo em que ele estava mentalmente alerta.

Haruki Murakami

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Quando está escrevendo um romance, Kurakami acorda as quatro da manhã e trabalha de cinco a seis horas direto. No final da tarde ele corre ou nada (ou ambos), caminha sem rumo, lê e ouve música; 21h é hora de dormir. “Mantenho esse rotina todo dia sem varição”, ele contou a Paris Review em 2004. “A repetição em si se torna importante; é uma forma de hipnotismo. Eu me hipnotizo para alcançar um estado mais profundo da mente”.

O contra deste autoimposto cronograma, como Murakami afirmou em um ensaio de 2008, é que não há muito espaço para vida social.

Simone de Beauvoir

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Apesar do trabalho de Beauvoir ser prioridade, seu cronograma diário também girava em torno de seu relacionamento com Jean-Paul Sartre, que durou de 1929 até sua morte em 1980. (A parceria intelectual deles era um assustador componente sexual; de acordo com um pacto proposto por Sartre no início do relacionamento, ambos poderiam ter amantes, mas eram obrigados a contar tudo um ao outro).

Geralmente, Beauvoir trabalhava por conta própria de manhã, e se juntava a Sartre para almoçar. No entardecer eles trabalhavam em silêncio no apartamento dele. No início da noite, eles iam a qualquer evento político ou social da agenda de Sartre, ou assistiam a um filme ou bebiam Scotch e ouviam rádio no apartamento de Beauvoir.

Traduzido e adaptado de ShortList.

A Primeira Guerra Mundial, os escritores que lutaram e como a experiência no front definiu suas obras

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Experiência da guerra definiu obras de escritores

Maria Fernandes Rodrigues, no Estadão

O americano Ernest Hemingway era um garoto recém-saído do colégio quando, em 1918, foi dirigir ambulâncias para a Cruz Vermelha no front italiano. Aos 19 anos, o alemão Ernst Jünger estava no campo de batalha, matando e lutando para não morrer. J. R. R. Tolkien, estudante de Oxford, juntou-se ao exército inglês. Guillaume Apollinaire, poeta francês nascido na Itália, já era um artista reconhecido no momento em que se feriu gravemente em combate.

Hemingway se recuperando de ferimento de guerra

Hemingway se recuperando de ferimento de guerra

Ao lado de C. S. Lewis, Bertolt Brecht, e. e. cummings, Erich Maria Remarque, Rudyard Kipling, John dos Passos, William Faulkner, Gertrude Stein, Agatha Christie e outros, estes autores fizeram parte de uma geração marcada pela guerra. E a experiência no conflito, em diferentes níveis e dos dois lados, acabaria influenciando suas obras – seja como tema de livros ou como experiência definidora dos artistas que eles se tornariam. Para eles, a escrita foi, de certa forma, uma maneira de elaborar o trauma. “Escrever é uma forma privilegiada de simbolizar, representar uma experiência que por sua intensidade e violência transborda os limites do ser. É uma tentativa de domá-la, integrá-la, retirar-lhe o poder desagregador e desestruturante que carrega em si”, diz o psicanalista Sérgio Telles.

O caso de Tolkien é significativo. O autor de O Hobbit e de O Senhor dos Anéis nunca escreveu uma linha sobre o conflito. Mas, para John Garth, um de seus biógrafos, foi talvez o mais radical de todos os escritores marcados pela guerra. “A experiência no front foi decisiva em sua escolha pela escrita. Ela virou seu mundo de cabeça para baixo, chacoalhou sua estrutura e despertou sua imaginação e seu interesse pelos contos de fada – que tratam, geralmente, do indivíduo que entra em contato com perigos estranhos e mortais. Escrever seu próprio conto de fadas pode ter ajudado Tolkien a sobreviver quase ileso ao trauma da guerra”, conta ao Estado o autor de Tolkien and the Great War: The Threshold of Middle-earth, inédito no País.

O escritor, porém, não entrou na guerra por ideologia. Tinha 22 anos quando a Inglaterra se mobilizou e, ao contrário de muitos colegas, ele preferiu continuar os estudos e não se apresentou como voluntário naquele outono de 1914. Mas a cidade estava ficando vazia e o câmpus, abandonado. Desconfortável com a situação, e sem noção do que representaria e de quanto tempo duraria aquele conflito, ele acabou se juntando ao Corpo de Treinamentos Para Oficiais para se preparar para um possível alistamento. O então estudante de língua e literatura inglesa aprendeu a atirar, e se surpreendeu ao descobrir que gostou daquilo, conta Michael White, seu outro biógrafo, em J. R. R. Tolkien – O Senhor da Fantasia. Ele aprendeu também a ler mapas, conheceu os métodos de guerra e suas armas. Mas foi só em 1916 que o tenente Tolkien foi mandado ao front – e logo para a sangrenta batalha de Somme, que já estava em andamento e que apenas no primeiro dia mataria 19 mil soldados britânicos, entre os quais o amigo Rob Gilson.

O tenente Tolkien em 1916

O tenente Tolkien em 1916

White relata que Tolkien foi diversas vezes às trincheiras, matou, e voltou ileso de todas elas. A morte de amigos, os corpos espalhados e o cheiro de sangue o aproximavam da ideia de sua própria mortalidade, mas o que quase o levou foi a febre da trincheira. Por causa dela, ele foi se tratar longe dos campos de batalha. Tentou voltar à guerra, mas sempre tinha uma recaída.

Autor de As Crônicas de Nárnia, C.S. Lewis também não tratou diretamente do conflito em sua obra, mas seu mundo ficcional, onde se luta contra a escuridão e o abismo, certamente reflete a vivência nas trincheiras. Em seu livro sobre Tolkien, White comenta que Lewis dedica três capítulos à desagradável experiência na escola pública e apenas uma pequena parte de um capítulo à sua participação na guerra, e o cita: “É muito distante do resto da minha experiência (…) e frequentemente parece ter acontecido com outra pessoa”. Mas ele esteve lá, se feriu, e na volta cumpriu a promessa feita a um amigo: o combinado era que, caso um morresse, o outro cuidaria da família do morto.

Motorista. A experiência de Hemingway não foi tão radical, embora ele tenha se ferido durante seu trabalho como motorista. Mas a guerra rendeu a ele algumas histórias. Em 1926, lançou O Sol Também se Levanta, em que o protagonista é um veterano de guerra. Em 1929, publicou Adeus às Armas, este sim um romance situado durante o conflito e que narra a história de amor entre um motorista de ambulância e uma enfermeira.

Hemingway e a enfermeira Agnes von Kurowsky

Hemingway e a enfermeira Agnes von Kurowsky

Relato impressionante da experiência no front está em Tempestade de Aço, diário de Ernst Jünger, que lutaria ainda na 2.ª Guerra – ele viveu até os 102 anos. Nada Novo no Front, de Erich Maria Remarque, também retrata de forma vívida a experiência de combate e aborda a inadequação do soldado ao voltar para casa e para o convívio com civis. Já em As Aventuras do Bom Soldado Švejk, o ex-combatente Jaroslav Hasek narra as peripécias de um checo que se mete em muita confusão, optando pelo humor na hora de fazer contundente denúncia do absurdo da guerra – o livro acaba de ser lançado no Brasil.

O alemão Ernst Jünger

O alemão Ernst Jünger

Diário de Jünger deu origem ao livro ‘Tempestade de Aço’

Diário de Jünger deu origem ao livro ‘Tempestade de Aço’

O poeta e. e. cummings teve uma passagem traumática pelo conflito. Voluntário, acabou preso por engano, em campo de concentração, sob alegação de espionagem – e trata disso no romance autobiográfico A Cela Enorme, de 1922, e em alguns poemas. Louis-Ferdinand Céline se feriu no conflito e publicou, em 1932, Viagem ao Fim da Noite, cujo protagonista também passa pela 1.ª Guerra. Rudyard Kipling, diretor de propaganda para as colônias britânicas, voltou do conflito com um caderno de poemas.

John dos Passos foi motorista do exército e, em 1921, lançou o romance Três Soldados, sobre um vendedor, um jovem camponês e um músico que respondem à pressão da guerra com rancor e fúria assassina. Há quem diga que o americano William Faulkner não chegou a ver de perto uma batalha, embora tenha se juntado à Força Aérea Canadense. No entanto, a guerra foi tão marcante que, em 1926, ele lançaria Paga de Soldado, sobre um veterano que, ao voltar para casa, é repudiado por todos; a questão do desterrado pela guerra apareceria em outras obras, como em Sartoris, na qual trata dos irmãos gêmeos John e Bayard – os dois vão à guerra como aviadores: um deles morre e o outro testemunha tudo e volta para casa atormentado.

Gertrude Stein comprou uma caminhonete e, com a companheira Alice Toklas, distribuiu medicamentos para hospitais militares na França. Bertolt Brecht estudava Medicina e passou um mês trabalhando em hospital militar antes do fim da guerra. Agatha Christie trabalhou como enfermeira da Cruz Vermelha e começou a escrever suas histórias policiais nesse período. Scott Fitzgerald se alistou no exército americano, mas o armistício chegou antes que ele completasse o treinamento.

Gertrude Stein e Alice Toklas

Gertrude Stein e Alice Toklas

“A arte tem papel essencial e não sobreviveríamos sem ela. O que elabora a vida e o traumático não é o pensamento raciocinado ou conceitual, e sim o sonhar e, como dizia o psicanalista Otto Rank, a arte é o sonho da humanidade. Os romances e os diários são produto desse processo de sonhar e, ao mesmo tempo, serão matéria-prima para quem os lê – de produzir um sonho próprio de cada um que ajude a passagem nos trajetos da vida”, explica o psicanalista Leopold Nosek.

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