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Flip: autor de ‘Trainspotting’ quer ‘virar’ série

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PARIS, FRANCE – APRIL 30: Scottish writer Irvine Welsh poses during portrait session held on April 30, 2014 in Paris, France. (Photo by Ulf Andersen/Getty Images)

PARIS, FRANCE – APRIL 30: Scottish writer Irvine Welsh poses during portrait session held on April 30, 2014 in Paris, France. (Photo by Ulf Andersen/Getty Images)

 

Autor lança romance no festival literário e negocia adaptação de outros livros para TV e sala escura

Rafael Aloi, na Veja

Irvine Welsh é um dos principais nomes da Flip 2016, que tem início nesta quarta-feira e segue até domingo, em Paraty, com homenagem à poeta brasileira Ana Cristina César. O escritor escocês participa de uma mesa nesta quinta sobre a dependência química na literatura nos Estados Unidos e no Reino Unido, tema que debate com o americano Bill Clegg, de Retrato de Viciado quando Jovem (Companhia das Letras).

Antes de sua chegada ao Brasil, Welsh conversou com o site de VEJA para falar um pouco sobre o livro que lança no país durante o festival literário, A Vida Sexual das Gêmeas Siamesas (tradução de Paulo Reis, Rocco, 416 páginas, 48 reais), que se passa em Miami, um local distante do seu cenário preferido, a terra natal, Escócia. “Eu estava escrevendo um livro sobre uma obsessão compulsiva pelo próprio corpo, e os Estados Unidos têm uma cultura muito viciada nisso.”

O escocês também falou sobre o seu livro mais famoso, Trainspotting, lançado em 1996, que foi adaptado para os cinemas e rendeu dois livros derivados. “É como se fosse a sua primeira namorada, e você nunca vai esquecê-la entende? Foram os primeiros personagens que eu criei, e eles são muitos especiais para mim”, confessou o ator.

Welsh também mostrou que conhece um pouco da literatura tupiniquim. Apesar de não se lembrar do nome do livro que leu – pela descrição da trama, pode ser Dias Perfeitos, de Raphael Montes –, ele disse ter gostado e sugeriu que mais histórias fossem vertidas para o inglês. “O problema é que muitas coisas produzidas aí não são traduzidas. É uma pena. Muito dos romances em inglês são traduzidos para o português, ou para o espanhol, mas o inverso muitas vezes não acontece. Isso não é um problema só com o português, mesmo idiomas como o italiano ou o russo sofrem com isso”, analisou.

Confira a entrevista completa com Irvine Welsh:

Você escreveu Trainspotting em 1996. Lançou a sequência Pornô em 2002, e a prequel Skagboys em 2012. No ano passado, resgatou um dos personagens no livro The Blade Artist (O Artista Afiado, em tradução direta). O que o encantou tanto naquela história criada na década de 1990 que o fez revisitá-la tantas vezes? Eu amo esses personagens. É como se fosse a sua primeira namorada, e você nunca vai esquecê-la entende? Foram os primeiros personagens que eu criei, eles são muitos especiais para mim.

E o que fez os leitores gostarem tanto da história? Acredito que é porque mostra uma sociedade em transição. Uma transição para um mundo que nós não queríamos. A tecnologia mudou tudo o que fazíamos, e o capitalismo destruiu o que sobrou.

A-vida-sexual-das-gemeas-siamesas-431x620No Brasil, você está lançando A Vida Sexual das Gêmeas Siamesas. O romance se passa em Miami, um local bem diferente da Escócia e do Reino Unido, onde suas outras histórias eram ambientadas. Por que você decidiu fazer essa mudança? Eu estava escrevendo um livro sobre uma obsessão compulsiva pela imagem do próprio corpo, e Miami e os Estados Unidos têm uma cultura muito viciada nisso, o que a Escócia não tem. Então, eu tive que escolher Miami, porque era o melhor lugar para essa história.

Você agora está morando nos Estados Unidos, como vê a diferença entre a cultura americana e britânica? Estou aqui na Escócia há um mês, e o que percebi é que aqui as pessoas bebem mais (risos), festejam mais. Eu adoro quando vou aos Estados Unidos e depois retorno ao meu país, porque aqui as pessoas berram uma com as outras, se abraçam, brigam, sempre com uma bebida na mão. São mais calorosas.

E você prefere falar sobre a cultura do seu país natal ou da América, onde mora agora? O mundo é muito grande, então eu busco não me limitar a um único tipo de cultura. Mas sou apegado ao local de onde venho, e é um lugar em que sempre posso me aprofundar sobre quando escrevo. Gosto daqui, pois há coisas únicas. Mas há sempre muita coisa acontecendo no mundo sobre as quais posso escrever.

Como já falamos, o seu novo livro se passa em Miami, um lugar que tem muita cultura latina. Você estudou essa cultura, ou já conhecia alguma sobre ela? Vocês aí na América Latina são gente fina, escutam músicas muito boas, usam roupas legais, gostam muito de festejar, beber, têm comidas ótimas, não tem o que não gostar daí. Talvez um dia eu escreva um livro que se passe nessa região, mas vocês já têm muitos escritores bons por aí. E com certeza eles fariam um trabalho melhor do que o que eu.

Você conhece algum autor brasileiro? Há um tempo, conheci um rapaz que me deu um livro, um livro bem estranho, sobre um cara que sequestra a namorada e a prende em uma mala, e a obriga a fazer uma viagem com ele. Eu não lembro agora nem o nome do livro nem do autor, mas era bem interessante. O problema é que muitas coisas produzidas aí não são traduzidas, o que se torna um obstáculo. É uma pena. Muito dos romances em inglês são traduzidos para o português, ou para o espanhol, mas o inverso muitas vezes não acontece. Isso não é um problema só com o português, mesmo idiomas como o italiano ou o russo sofrem com isso.

E quais autores inspiraram você? Eu não tenho um nome específico. Na verdade, eu gosto dos que são ruins, aqueles que eu realmente não gosto do que li, porque eles me encorajam a pensar ‘Eeu preciso fazer algo melhor do que isso’. Enquanto os autores muito bons, às vezes desencorajam a gente, pois não sei se conseguiria fazer algo tão bom quanto eles (risos).

Você fica incomodado quando as pessoas o chamam de “o autor de Trainspotting? (Risos) Não. Eu vejo isso de uma forma positiva. Eu me sinto lisonjeado que meu livro ainda seja tão lembrado.

Você está envolvido de alguma maneira com a sequência produzida por Danny Boyle? Ah, claro. Eu sou o produtor executivo do filme. Outro dia mesmo estive nos sets de filmagem conversando com os atores.

O roteiro do filme é realmente baseado em Pornô? Um pouco. Mas é mais evoluído, pois Pornô já está um pouco velho, tem quase 15 anos. Tivemos que atualizá-lo e torná-lo mais contemporâneo. O filme trará os principais elementos do livro, mas também tem muita coisa nova e mudanças grandes. O que eu acho que ficou mais interessante, pois eu não quero ver exatamente a mesma história que criei, prefiro ver algo novo.

Que outros livros seus você gostaria de ver no cinema? Eu gosto de Filth, que já ganhou um filme em 2013, e acho que fizeram um bom trabalho nele. Eu já fui procurado sobre uma adaptação de A Vida Sexual das Gêmeas Siamesas, mas ainda estou avaliando. Há ideias para transformar Skagboys e Crime em séries de TV, também.

“Quero que meus leitores virem a noite lendo”

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Raphael Montes com seu primeiro romance, 'Suicidas'. / Reprodução do Facebook

Raphael Montes com seu primeiro romance, ‘Suicidas’. / Reprodução do Facebook

O autor de ‘Dias perfeitos’ responde por um certo ‘boom’ da literatura policial no Brasil

Camila Moraes, no El País

 

Quem lê os romances policiais de Raphael Montes, de 24 anos, pode sofrer um efeito colateral: passar a noite acordado até chegar à última página. Essa reação, no entanto, não é um acidente. Ele decidiu que assim seria desde que começou a ler o autor das aventuras de Sherlock Holmes, Arthur Conan Doyle, aos 12 anos.

Hoje, do alto de seus 24 anos e com dois livros publicados – Suicidas (Benvirá) e Dias perfeitos (Companhia das Letras) –, ele conta que planejou chegar exatamente aí, munido de muita paciência. E conseguiu, trazendo com sua conquista pessoal um certo boom recente da literatura policial no Brasil.

Raphael é recém-formado em Direito e, até pouco tempo, estudava para concursos públicos. Até que Dias perfeitos estourou. Os direitos do livro já foram vendidos a dez países, incluindo a Espanha, e será lançado em espanhol na América Latina no ano que vem. Ainda por cima, 100% de sua obra já está contratada para ir ao cinema.

Em entrevista ao EL PAÍS, ele diz que assunto de escritor é escrever. Mas ele mesmo vai muito além dessa tarefa, com um autocontrole e uma ambição que só se veem nas ações de um típico protagonista de uma história policial.

Pergunta. Quando você começou a escrever?

Foi aos 12 anos, quando, coincidentemente, comecei a gostar de ler. As duas coisas aconteceram ao mesmo tempo. Assim que li o primeiro livro por vontade própria, decidi ser escritor. O que eu lia na época era literatura policial. Conan Doyle. Hoje em dia eu sou um escritor policial e pretendo continuar a ser.

Resposta. Por que você se identificou com as histórias de crimes?

Os livros do colégio me pareciam todos chatíssimos. Aliás, acho que a escola no Brasil é uma grande responsável pela formação de não-leitores, porque você coloca uma criança para ler José de Alencar aos 14 anos de idade, e ela não atinge aquilo. Machado de Assis, que amo hoje em dia, me pareceu insuportável a primeira vez que li. Eu tinha até certo medo dos livros, que a escola coloca como algo chato, inatingível, superior, um bando de autor morto que fala difícil… O fato é que eu não gostava de livros. Aí, numa viagem, li dois livros do Sherlock Holmes – Estudo em vermelho e O cão dos Baskerville. Foi uma identificação imediata. Virei a noite lendo e pensei: “É isso que eu quero fazer com os meus leitores, quero que eles virem a noite lendo”.

P. Mas o que a literatura policial tem de especial?

R. Acho que as histórias de crimes propõem um enigma ao leitor. Isso é desafiador. De início, meu interesse foi esse, mas hoje ele é maior. Acredito que a literatura policial é a melhor maneira de você conhecer a alma do ser humano. O que qualquer literatura faz é colocar o leitor em situações que ele nunca viveu. A Patricia Highsmith, que é uma das minhas autoras preferidas, diz o seguinte: “Qualquer um é capaz de cometer um crime”, basta você estar na situação determinada. Acho que, na medida em que a literatura policial trabalha com isso, ela nos faz enxergar a nós mesmos em situações limites.

P. Na sua opinião, temos alguma tradição do gênero no Brasil?

R. Acho que não. Li Conan Doyle, Agatha Christie, Patricia Highsmith, Georges Simenon. Aí tem francês, norte-americano, inglês… Mas cadê o brasileiro? A nossa tradição? Nos Estados Unidos, o que mais tem é autor policial. Na França, também tem muitos: a Fred Vargas, o Jean-Pierre Gattégno e, antes dessa geração, o Thierry Jonquet e vários outros. No Brasil, temos casos isolados. O Luiz Lopes Coelho, o Paulo Medeiros Albuquerque… Aí passa um tempinho e você tem a Pagu, que chegou a fazer um único livro policial, o Luiz Alfredo Garcia-Roza, que é a expressão mais forte, com uma carreira mais longa e 10 livros publicados. Atualmente tem o Tony Bellotto e o Jô Soares… Mas o próprio Garcia-Roza é traduzido só nos Estados Unidos e em mais dois ou três países. Não tem uma expressão universal.

P. Você reconhece hoje um boom na literatura policial no Brasil?

R. Esse ano está sendo bom: publiquei o Dias perfeitos, o Tony Bellotto publicou Bellini e o labirinto, e o Garcia-Roza está publicando agora a 11a aventura do detetive Espinosa, que é Um lugar perigoso. Patricia Mello, que não se diz policial, este ano publica também um romance que ela assume que é policial. O Bellotto está organizando uma antologia que brinda ao romance policial chamada Rio no ar, com autores convidados pra escrever contos, cada um passado num bairro carioca. Tem Veríssimo, Garcia-Roza, Tony Bellotto, Flávio Carneiro e outros. Sai este ano no Brasil e, nos Estados Unidos, no ano que vem.

P. Você acha que seus livros contribuíram para que o gênero fosse revivido?

R. Fico feliz de ter reacendido a discussão. A gente tinha o Tony Bellotto e o Garcia-Roza produzindo os policiais, no começo com bastante repercussão, depois timidamente. Depois, veio o meu segundo livro e houve um boom também, principalmente por causa da frase do Scott Turow na capa e porque vai sair em mais dez países. O que acho que eu trouxe, e foi uma discussão que banquei, é isso de a literatura policial ser considerada subliteratura. Não é adotada nas universidades, nas escolas, não se faz resenha no jornal… É livro pra ler no banheiro. Mas aí o Garcia-Roza ganhou o Jabuti com o Silêncio da chuva. Os suicidas foi finalista dos prêmios Machado de Assis e São Paulo de Literatura. Quando aconteceu, as resenhas que saíram falaram que não era um livro policial. Ou seja, tentam me desconstruir como autor do gênero, o que é muito engraçado. Rubem Fonseca vem há anos escrevendo a literatura dele, e todo mundo tacha ele como policial, e ele recusa. Porque é uma maneira de reduzir o cara. Mas ser policial não é ofensivo pra mim. Eu gosto.

P. Você é muito ativo nas redes sociais, está presente em eventos… Essa postura é hoje uma obrigação do escritor, a seu ver, do contrário seu livro pode não dar certo?

R. Não acho que seja uma obrigação. Eu faço porque gosto. A única obrigação do escritor é escrever bons livros, afinal estamos falando de literatura. Eu vejo pelas mesas de debate das que participo que formo leitores. Já cansei de ouvir e fico muito honrado com isso: “Eu não gostava de ler até ler o seu livro. Agora eu quero outro. O que eu leio?”. Aí eu mando minha listinha pronta de recomendações. Redes sociais eu sempre usei. Penso muito nas reações dos leitores enquanto escrevo e gosto de ter contato com o leitor, de receber e-mail criticando ou elogiando etc. Passei com isso a adicionar leitores. Hoje em dia, quando meu próximo livro sair, ele automaticamente vai chegar a 10.000 pessoas, que são os seguidores que tenho. Já tem um boca a boca garantido.

P. Aos escritores iniciantes como você até pouco tempo, o que recomenda?

R. Sempre fui ambicioso e confiei muito no meu trabalho, porque o levo muito a sério. Escrevi Os suicidas dos 16 aos 19 anos, com dedicação total, trabalhando toda noite. Quando terminei, falei: “Bem, não sou contra a autopublicação, mas só vou tentar esse caminho depois de mandar o livro para todas as editoras grandes e levar um não de todas e para todos os prêmios. E o tempo para que isso aconteça são dois anos”. Esperei um ano, e o Suicidas foi finalista do prêmio Benvirá em 2011. Não ganhou, mas foi publicado.

P. Agora que você já tem experiência literária, me fale um mito e uma verdade sobre ser escritor.

R. O mito é muito simples: que escritor só escreve quando está inspirado. Brinco que só escrevo quando estou inspirado, mas trato de estar inspirado todos os dias às sete da manhã, que é quando começo a escrever. É óbvio que às vezes flui mais, mas escrevo todos os dias. O que tem de verdade é que é um mercado muito difícil de você conseguir ganhar um nome. Sei que sou a exceção. É complicado. Ao fazer literatura policial, tenho mais sorte também. Brinco que não estou disputando com ninguém.

P. Quais são seus próximos projetos?

R. Estou trabalhando em roteiros de audiovisual. Meus dois livros vão ser adaptados para o cinema, mas eu não quis roteirizar. Sou muito racional no meu método criativo. Quando eu termino de escrever, já foi, o que eu tinha que dar para aquela história, já dei. Então, em audiovisual, meu objetivo é criar histórias originais. Mas para o próximo romance, que eu já estou escrevendo e que se chama por hora Jantar, armei ao mesmo tempo um projeto de série pra vender às produtoras.

Com 5 mil livros em casa, jovem vira revelação da literatura aos 24 anos

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Raphael Montes participou da Tarrafa Literária e falou da carreira (Foto: Mariane Rossi/G1)

Raphael Montes participou da Tarrafa Literária e falou da carreira (Foto: Mariane Rossi/G1)

Publicado no CBNFOZ
Uma das revelações da literatura policial brasileira esteve em Santos, no litoral de São Paulo. Aos 24 anos, Raphael Montes já teve dois livros publicados e tem quase uma biblioteca em casa, com mais de cinco mil livros. Durante entrevista ao G1, ele falou sobre essa paixão pelos livros e por literatura policial, da dificuldade de ser um jovem escritor e do desejo de fazer sucesso até fora do país.

O carioca Raphael Montes começou a coleção de livros em casa aos 12 anos. “Meu pai coleciona cachaça, minha mãe coleciona sapatos e eu coleciono livros”, explicou durante o bate-papo na Tarrafa Literária. Ele diz que recebe muitos livros e também comprou uma coleção de 900 exemplares de um colecionador que morreu. As obras são separadas por gênero ou nacionalidade. “Eles entram na minha casa e não saem. Eu sou meio enciumado. Agora eu estou me desfazendo de alguns exemplares porque não da pra ler tudo e nem tenho espaço”, diz ele.

'Suicídas' foi o primeiro livro de Raphael Montes (Foto: Divulgação)

‘Suicídas’ foi o primeiro livro de Raphael Montes (Foto: Divulgação)

De assíduo leitor, ele passou a escritor. Raphael começou a rascunhar a primeira obra aos 16 anos, uma trama policial com uma roupagem moderna. Nesse trabalho, ele sentiu muita dificuldade de conseguir apoio, porque era jovem demais. “Muitos me diziam que eu tinha escrito um livro de 500 páginas, adulto, escrito por alguém de 16 anos e que não tinha como isso dar certo. O livro deu certo”, fala. ‘Suícidas’ foi finalista do Prêmio Benvirá de Literatura, em 2010, do Prêmio Machado de Assis, em 2012, e do Prêmio São Paulo de Literatura, em 2013.

Depois, veio o segundo livro policial. ‘Dias Perfeitos’, publicado em março deste ano e que teve uma repercussão ainda maior que o primeiro. “A minha literatura policial eu vejo como contemporânea, na medida em que não faz parte dos princípios da literatura policial clássica”, avalia. Ele também escreveu contos que foram lançados em antologias com outros autores e recebeu elogios do autor americano Scott Turow.

Como autor, ele acredita que a literatura pode influenciar a vida real e vice-versa. Ele explica, porém, que essa não é a vontade dele quando se trata de situações policiais. “As conclusões e reflexões que um leitor tem ao ler um livro são pertinentes não só com o que está escrito no texto, mas também a própria vivencia do leitor. Tudo leva a reflexões, mas sem eu que tenha a pretensão de fazê-las com que o leitor as tenha. Eu só quero contar uma boa história, a princípio”, diz.

'Dias Perfeitos' será traduzido para vários países (Foto: Divulgação)

‘Dias Perfeitos’ será traduzido para vários países (Foto: Divulgação)

Aos 24 anos, o jovem escritor já tem planos para o futuro. Ele já está escrevendo, ao mesmo tempo, o terceiro e quarto livro da carreira, que terá um personagem fixo. “Percebo que existe uma demanda no mercado internacional que o autor de literatura policial tenha um personagem fixo. Eu já tinha essa vontade há algum tempo e passou a ser uma obrigação pessoal. Eu acho que é interessante até para sedimentar uma carreira tanto no Brasil como a nível internacional”, fala.

Os dois livros publicados de Raphael foram vendidos para o cinema e vão virar filme. ‘Dias Perfeitos’ vai ser traduzido para nove países. O jovem acredita que é um exemplo para outros escritores em início de carreira de que é possível alçar voos maiores. “O que eu costumo dizer a jovens autores é que nunca se impeça, que eu não tenho nada de especial e que é um caminho a ser trilhado. Existe eu e existem outros. As novas tecnologias, por sinal, facilitam o surgimento de novos autores, de novas maneiras e que conseguem furar o caminho das editoras. Mesmo sendo jovem, acabei seguindo o caminho tradicional”, afirma.

Com segundo livro, Raphael Montes quer ser referência de escritor policial

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Autor Raphael Montes

31.jan.2014 – O escritor brasileiro de romance policial Raphael Montes em sua casa, no Rio

Rodrigo Casarin, no UOL

Raphael Montes vive um momento raro para um jovem escritor brasileiro. Aos 23 anos, ele teve seu segundo livro, “Dias Perfeitos”, publicado com uma tiragem inicial de 10.000 exemplares e, em três meses, viu uma nova impressão ser feita com mais 3.000 volumes. E os direitos de publicação do livro foram vendidos para nove países, entre Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, França e Portugal.

Tanto “Dias Perfeitos” quanto “Suicidas”, seu primeiro romance –finalista do Prêmio Machado de Assis de 2012 e do Prêmio São Paulo de Literatura de 2013– tiveram seus direitos vendidos ao cinema. Scott Turow, renomado autor de romances policiais, diz que Raphael “certamente vai redefinir a literatura policial brasileira e surgir como uma figura da cena literária mundial”, declaração estampada na capa do recente trabalho do jovem.

“É engraçado como o reconhecimento de um estrangeiro por um jovem brasileiro cria reconhecimento aqui. Isso se aplica para muitas coisas, alguém de fora precisa falar que é legal. É o complexo de vira-lata em pessoa”, diz o carioca Raphael ao UOL.

Do fracassado roteiro ao sucesso do livro

O enredo de “Suicidas” nasceu quando um amigo pediu a ele um roteiro de filme para ser feito com baixo orçamento e em locações internas, com um elenco de jovens artistas que aceitassem trabalhar de graça e nada de efeitos especiais. Para Raphael, seria clichê demais colocar os personagens dentro de uma casa com um assassino, então criou uma história na qual as pessoas se matam e o mistério está no por que dos suicídios. Ele não gostou do resultado como roteiro, mas viu que o texto poderia virar uma obra literária.

“É um livro destemido, inocente mesmo, com todas as vantagens e desvantagens que isso traz. Quando terminei de escrevê-lo, sabia que tinha um bom livro de literatura policial”. Essa confiança fez com que o escritor, sem contatos no meio editorial, tentasse a sorte junto às grandes editoras. Não obteve resposta de nenhuma delas e mudou de estratégia: resolveu se arriscar nos prêmios literários. Chamou atenção já no primeiro que se inscreveu, da editora Benvirá, em 2010, que lhe rendeu um contrato para publicação.

Livro Dias Perfeitos, de Raphael Montes

Reprodução

Aos 20 anos, Raphael alcançava o que desejava desde a época da escola, quando percebeu que não tinha talento para o teatro e mudou seu foco para a literatura. Escreveu um conto, passou para um colega de sala e percebeu que a história começou a circular. “Vi que tinha feito algo que destoava, que era mais legal do que os outros faziam. Então passei a ser escritor. Tem até a ver com o ego. Eu, que nunca fiz sucesso com futebol, comecei a aparecer assim”.

Raphael fazia fan-fictions de Sherlock Holmes e lia muito Agatha Christie, o que foi delineando o gênero que seguiria no futuro. Da inglesa, aprendeu muito de processo criativo, como marcações de viradas, planejamento de surpresas, fichas de personagens e o “esquema racional da criação”. Porém, rejeita a comparação com a rainha do crime (“Ela é muito menos violenta do que eu”) e diz que tem mais a ver com Stephen King.

Sinceridade de um escritor policial

A comparação com Stephen King fica evidente em “Dias Perfeitos”, que apresenta claras semelhanças com “Misery”, obra de King que deu origem ao filme “Louca Obsessão” (1990), de Rob Reiner. O livro de Raphael conta a história de Téo, um estudante de medicina que, em uma festa, conhece e se apaixona por Clarice. O amor repentino se torna doentio e o garoto utiliza os conhecimentos que aprendeu na faculdade para ter a menina ao seu dispôr, ainda que contra a vontade dela. Passando por cenários do Rio de Janeiro, Teresópolis e Ilha Grande, a relação entre Téo e Clarice se constrói em experiências extremas e violentas.

“A literatura policial tem três elementos: crime, criminoso e investigação. A investigação parece estar morrendo e no Brasil, com descrédito absoluto na polícia e na justiça, é quase vital que ela não seja importante. Então, a questão do livro vira outra. O elemento crime me interessa muito: o que leva alguém a cometê-lo? Quais as consequências que isso traz? O que leva um sujeito ordinário a se envolver em uma situação de crime? Quais as consequências emocionais e dramáticas de um episódio de violência?”, questiona-se.

Nas aparições públicas que se intensificaram após o lançamento de “Dias Perfeitos”, Raphael é apresentado como um “escritor policial”. “Digo que sou policial porque sou sincero, acredito que é o que faço, tenho um carinho pelo gênero. Queria ser o escritor policial brasileiro, que associassem meu nome ao suspense, ao mistério”.

De seus colegas de gênero, considera que Tony Belloto “ocupa um espaço que, por enquanto, é só dele, com um romance de linguagem absolutamente simples, com uma pegada de entretenimento, reviravoltas, num viés que vai pelo noir americano”. Já Luiz Alfredo Garcia-Roza, Raphael acha que “é mais clássico, com o romance-enigma tradicional”. E Patrícia Mello, para ele, “é o futuro da literatura policial, com livros onde o que interessa é a psicologia por trás de tudo, como o crime afeta as pessoas”.

Atrás de novidades

Raphael sabe que a única maneira de se manter em destaque é apresentando novos trabalhos, que, de preferência, sejam sempre melhores que seus antecessores. “Sei que agora fui a novidade, mas no próximo não sou mais, sou só a continuação da novidade. Mas isso não me preocupa”. O sucesso de “Dias Perfeitos” lhe rendeu dinheiro suficiente para dar um tempo nos estudos –ele é formado em direito e estudava para prestar concursos públicos– e se dedicar à literatura. “Se o padrão se mantiver, consigo viver de escrever, o que sempre foi minha vontade”.

Raphael Montes

Bel Pedrosa/Companhia das Letras

O escritor participará de uma antologia de contos organizada por Tonny Belloto que se chamará “Rio Noir”, na qual cada convidado escreveu um conto policial ambientado em um bairro carioca. Raphael ficou com Copacabana e sofreu muito para dar conta da encomenda. “Só aceitei que estava bom quando umas dez pessoas leram e elogiaram”. É que o gênero não é a sua praia. Considera que “suas ideias são mais complexas do que o que cabe num conto. Penso mais em causas e consequências do que em situações”.

Ele também trabalha em dois novos romances, um que marcará a estreia de seu primeiro personagem fixo, um padre católico que será uma espécie de detetive ou delegado e que Raphael deseja emplacar também em uma série televisiva. O outro trabalho, que pretende publicar no final de 2015, traz a história de quatro amigos que saem do interior do Nordeste e vão para o Rio de Janeiro fazer faculdade. Em meio a dificuldades rotineiras, como levantar o dinheiro para o aluguel, iniciam sem querer um negócio ilegal que os deixam muito ricos. “A história do livro está na ascensão e queda, uma espécie de ‘Breaking Bad’ no Brasil com personagens jovens”.

Além disso, engatinha com as adaptações de suas obras para o cinema, que ainda não têm previsão para serem lançadas. Nas telonas, espera que seus trabalhos se tornem bons filmes, não boas adaptações de livros. E abre mão de indicar qualquer ator para interpretar seus personagens. “Me coloco no meu lugar, sou só o cara que criou a história, a escolha do elenco cabe ao diretor”.

Referência para jovens escritores, Raphael transmite suas experiências em vídeos na internet, mas planeja, para o final do ano, ministrar oficinas literárias no Rio de Janeiro e em São Paulo, nas quais focará a produção de romances, mas inevitavelmente falará também de mercado literário. “Acho legal ter virado referência para novos autores. Isso aconteceu sem eu conhecer ninguém de lugar nenhum, é um caminho possível de se trilhar naturalmente”.

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