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Vendedor de livros virou poeta depois da aposentadoria

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Ruy guarda 1.500 páginas de poesias em sua casa nos Campos Elíseos

Jacqueline Pioli, no Jornal A Cidade

O aposentado Ruy Francisco de Figueiredo usa máquina de escrever para fazer poemas. (Foto: Silva Junior / ME)

O aposentado Ruy Francisco de Figueiredo usa máquina de escrever para fazer poemas. (Foto: Silva Junior / ME)

Dentro de uma pequena casa nos Campos Elíseos, uma máquina de datilografia, um dicionário com as páginas amareladas, livros e 1.500 páginas de poesias guardadas em caixas de papelão. Versos de um contador que abandonou os números depois de se tornar um vendedor de livros.

Até se descobrir poeta, Ruy Francisco de Figueiredo, 76 anos, trabalhou em escritórios de São Paulo, Rio de Janeiro e Santos e, mais tarde, como vendedor de livros, conheceu mais de 800 cidades do Brasil.

“Sou de Franca. Fui para São Paulo aos 19 anos. Aos 21, pedi as contas porque queria conhecer o Rio de Janeiro. Após três anos, voltei para São Paulo e depois fui para Santos. Eu era meio aventureiro”.

Foi em Santos que Ruy encontrou primos que trabalhavam para uma empresa de Ribeirão Preto. “Eles vendiam livros. Viajavam por todo o Brasil com o carro da firma. Tinham plena liberdade. Aquilo me deixou tentado. Vim para o interior e ali começou uma nova vida para mim”.

Ruy conta que foi um ótimo vendedor. Vendia até 10 enciclopédias por semana, enquanto outros vendiam duas.

“O segredo é que eu gostava do que fazia. Adoro livros, sempre gostei de ler. Eu falava com qualquer pessoa de cabeça erguida, porque eu estava vendendo a mais preciosa mercadoria”.

Depois de 30 anos vendendo livros, Ruy se aposentou. “Foi aí que surgiu a ideia de escrever. Peguei uns papéis e comecei a escrever. Fiz oito poesias. Não mostrei para ninguém, porque não sabia se tinha algum valor literário”.

Até que em maio de 1991, Ruy viu um aviso de um concurso de poesia do Sesc. Cada autor poderia inscrever três poesias. Ruy resolveu tentar.

“Foram mais de dois mil trabalhos apresentados. No dia da premiação, um sábado à tarde, o salão do Sesc estava lotado. Peguei uma cadeira e sentei lá no fundo. Anunciaram o terceiro lugar. Foi para uma senhora que já tinha publicado dois livros. Depois eu ouvi: ‘Segundo lugar, poesia ‘Madrigal à Mulher Amada’. Fiquei muito feliz. Aquilo para mim foi um aviso que eu deveria continuar escrevendo”.

A melhor surpresa ainda estava por vir. “Peguei minha medalha de prata e voltei para a minha cadeira. Então, anunciaram o grande vencedor: ‘Primeiro lugar, poesia ‘Sonhos de um Poeta’. Aí eu tremi nas bases”.

Com as medalhas de prata e ouro no peito, Ruy se tornou poeta. As poesias foram rascunhadas à mão e depois datilografadas. Agora, estão guardadas em caixas esperando pela publicação.

Leia abaixo o poema “Sonhos de um poeta”:

SONHOS DE UM POETA

“Bem-aventurados os pacificadores,
porque serão chamados filhos de Deus”. Mateus 5:9

Eu sempre fui um sonhador
Enlevado pela poesia,
Tenho voado como um condor,
Com as asas da fantasia.

Como São Francisco, eu almejo
Transformar o ódio em amor,
Pois assim teremos o ensejo
Para um viver encantador.

Ao invés do tormento da guerra,
Prefiro as delícias da paz;
Pra que todos colham na Terra,
Frutos que a amizade nos traz.

Gosto de observar a beleza
Do sorriso de uma criança,
Que, no seu encanto e pureza,
Transmite conforto e esperança.

E carrego em meu coração
Uma doce esperança: um dia,
Todo irmão honrará irmão,
E o amor não será utopia.

Quando afinal acontecer
De todos se darem as mãos,
Então diremos com prazer:
“Ah! Nós somos, de fato, irmãos!”

Francisco Figueiredo

Pantim, bizu, galego: dicionário traz origem de termos comuns em PE

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Novo livro explica surgimento de palavras como ‘oxente’ e ‘bigu’.
Com 2.300 verbetes, obra de Paulo Camelo será lançada nesta quinta (7).

Dicionário explica algumas das expressões usadas em Pernambuco (Foto: Katherine Coutinho / G1)

Dicionário explica algumas das expressões usadas em Pernambuco (Foto: Katherine Coutinho / G1)

Katherine Coutinho, no G1

Ao conversar com um pernambucano, não se surpreenda se ele discordar de alguma atitude sua dizendo para você ‘deixar de pantim’. Para entender essa e outras expressões, facilitar a vida de quem chega ao Recife ou apenas conhecer mais sobre a cultura local, o médico e escritor Paulo Camelo resolveu fazer o ‘Dicionário do Falar Pernambucano’, que será lançado nesta quinta (7), às 17h, na Livraria e Café 17, em Casa Forte, no Recife.

A expressão ‘deixar de pantim’ significa deixar de besteira, que tal atitude é absurda e não tem fundamento. “É algo que importamos do francês. Enquanto no original significa uma pessoa toal, influenciável, em Pernambuco se tornou em um atitude idiota, uma frescura, como se diz”, explica Camelo, que se diverte com as expressões da terra.

Médico e escritor Paulo Camelo não gosta quando dizem que os pernambucannos falam errado (Foto: Katherine Coutinho / G1)

Médico e escritor Paulo Camelo não gosta quando dizem
que os pernambucannos falam errado
(Foto: Katherine Coutinho / G1)

A ideia do livro surgiu da percepção das diferenças regionais, especialmente das acusações de estar falando algo errado. “Sou escritor, poeta, sempre primei por falar e escrever bem a nossa língua. Quando vem alguém de fora, diz que falamos coisas que elas não entendem. Comecei então a pesquisar e percebi que tinham palavras ditas erradas ou caricatas, que diziam ser o pernambuquês. Mas nós não falamos erradamente”, defende o escritor, que tem 66 anos.

Entre as acusações de ‘erros’ estava o famoso oxente, tão popular no Nordeste. “Costuma-se dizer que é uma corruptela de ‘oh gente’, mas na verdade não falamos errado, falamos como antigamente. Importamos do galego [dialeto da região espanhola da Galícia], que se fala como ‘o xente’. Importamos no começo da colonização e ficou sem alteração”, contextualiza Camelo.

Buscando mostrar como os pernambucanos falam, na capital ou no interior, e que as expressões são não somente corretas como poderiam ser aceitas em qualquer dicionário, Camelo se dedicou a revirar seus livros de literatura pernambucana e a comprar dicionários de autores diversos para ajudar na composição da obra.

A lista final reúne aproximadamente 2.300 palavras e expressões utilizadas com frequência em Pernambuco, mas não necessariamente apenas no estado. “Eu procurei fazer realmente um dicionário, como mandam as regras, com explicações, e etimologia, quando possível”, aponta o escritor.

Livro traz 2.300 verbetes muito usados em Pernambuco (Foto: Katherine Coutinho / G1)

Livro traz 2.300 verbetes muito usados em Pernambuco
(Foto: Katherine Coutinho / G1)

Muitas das palavras que fazem parte da rotina pernambucana vieram de línguas estrangeiras. Além de “pantim”, que foi modificada, há ainda “alcatifa”, palavra árabe para carpete utilizada amplamente, até hoje. Outras expressões que foram dicionarizadas têm como origem onomatopéias. É o caso de “bizu”, muito utilizado por professores de cursinho pré-vestibular, que significa dica. “O bizu vem do barulho de uma pessoa cochichando para outra”, afirma Camelo.

Outro termo cuja origem é explicada no dicionário é “bigu”. Segundo a investigação do autor, é uma derivação de “be good” (‘seja bom’, em tradução livre), expressão utilizada pelos soldados norte-americanos que estavam no Recife durante a II Guerra Mundial, quando a cidade serviu como base para os EUA. Para pedir carona aos nativos, eles diziam “be good”, em uma tentativa de que os recifenses fossem simpáticos e atendessem ao pedido.

Ainda há aquelas palavras que ganham um novo significado na boca do povo, como “desmentir”. “Já ouvi muito as pessoas dizerem que ‘desmentiram o joelho’. Não tem nada a ver com revelar uma mentira, mas sim uma torção articular”, explica o médico, que buscou outra expressão na infância: “broti”. “Essa vem da colonização holandesa, broti é um tipo de pão. Minha avó me mandava buscar um broti na padaria. Era um pão redondo”, relembra.

O dicionário traz ainda a expressão “galego”, cujo sentido se transformou. No original, é a pessoa natural da Galícia, no Norte da Espanha, mas em Pernambuco são aqueles que têm pele clara e, usualmente, cabelo loiro ou aloirado. “Nosso português regional é rico em palavras importadas. Espero que esse dicionário seja útil para os nossos turistas visitantes”, aponta o escritor.

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